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quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

A vida como ela é

Levanto-me com bastante antecedência, apesar de ter feito as malas ontem. Depois de alguns sustos resolvo não arriscar e cumpro, religiosamente, as duas horas de antecedência necessárias nos voos. Uma constipação forte deixou-me em baixo de forma nos últimos dias. Como o frio é muito e a preguiça muita, em vez de andar 500 m até ao ponto de táxis mais próximo, resolvo chamar um táxi usando uma app. A aplicação diz-me que demorará 3 minutos. Resolvo descer,  com a maior velocidade que consigo 4 andares, carregada com duas malas. Mal chego à rua recebo uma mensagem a informar-me que o táxi está atrasado. Está um dia lindo, cheio de sol, mas gelado de congelar passarinhos nas árvores. Espero, espero e nada. O táxi continua atrasado. Passado algum tempo, mais do que justo para um atraso aceitável, desisto e resolvo ir a pé até ao ponto de táxis. Antes disso, ainda tenho tempo de dar todas as moedas que tenho no bolso a um velhote que me cativou desde o primeiro dia que cheguei a Génova. As duas razões foram: ter um cão ceguinho que passou a reconhecer-me e a ladrar sempre que me chegava perto deles é o dono, sempre que me via, dizer "Ciao Bella". Hoje, lá estava ele, sentado no mesmo lugar de sempre mas sem o cão. Há muito tempo que não o via porque agora vou de boleia para o trabalho e não de metro. Como após 8 meses de Itália, pouco ou nada aprendi de italiano, não consegui perguntar-lhe pelo cão. 

No táxi, a caminho do aeroporto, abro o meu email  para confirmar a hora de chegada a Roma e percebo que o vôo é às 10 e não às 11:25, como havia pensado. São 09:35. Podia ter desmaiado, ou ficar com taquicardia, ou com uma crise de asma, ou ter vontade de vomitar, ou... Não, como adulta quase nos 40, inspiro e penso que entrar em pânico não resolverá nada. Que atitude tão sensata! Não me reconheço! Está uma fila imensa de trânsito. Ao lado vejo o que resta da ponte Morandi e ao fundo os Alpes marítimos cobertos de neve. Convenço-me que há sempre coisas piores.

Chegada ao aeroporto, faço o habitual, vou em direcção aos balcões da Alitalia para despachar uma mala. Neste caso, para dizer que perdi o vôo das 10 porque achei que era às 11:25. Ninguém se interessará com a explicação, que neste caso nem faz sentido algum, que uma adulta quase nos 40 ainda confunde a esquerda com a direita, que nunca diz as horas em número maior que 12 porque se confunde com os significados, confunde os dias da semana em italiano e francês... E poderia dar muitos outros exemplos que me encheriam de vergonha, esse sentimento que não me abandonará nunca. A verdade é que toda a gente fará um sorriso forçado de pena e não se empenhará de forma alguma em ajudar.

As funcionárias da Alitalia fazem aquele sorriso piedoso de quem não tem nada a ver com isso e que a resolução não faz parte das funções delas e mandam-me para o balcão da emissão de bilhetes. Aí, como se fosse um favor que me estavam a fazer, dizem-me que não existe nenhuma reserva, que tenho de telefonar para as reservas da TAP e resolver o meu problema. Aqui começa a saga italiana. Mais de hora e meia num telefonema com operadores da TAP que parecem autómatos em vez de humanos. Este telefonema não resolverá nada que não seja a troco de muito dinheiro. Durante estas quase duas horas andei entre o balcão da Alitalia, balcão de emissão de bilhetes, sentada numa cadeira ou de pé às voltas não sei de quê. Hoje, como pratico todos os dias da minha vida, confirmo que apesar de não sermos pagos para ser boas pessoas, seremos sempre melhores se para além de sermos bons naquilo que fazemos, ou pelo menos tentarmos o melhor que sabemos, ajudarmos os outros como pudermos. 

Primeiro falei com uma pessoa do sexo masculino da TAP, que foi bastante simpático, não decorei nem apontei o nome mas ao qual expliquei, muito breve e sucintamente, o meu problema.  Ele garantiu-me que me iria transferir a chamada pra outro operador e que não não iria, garantíramo-nos, perder o vôo de ligação  das 11:25 de Genova para Roma. Este senhor passou-me a ligação para outra senhora, de nome Bárbara Ferreira, que obviamente não por culpa dela, demorou mais de 30 minutos a atender-me. Em vez de fazer um testamento sobre o que me tinha acontecido fui objectivamente ao assunto é expliquei-lhe o que dela precisava. Perdi a noção do tempo que esta senhora precisou para dizer-me o que vem a seguir, mas sem esquecer de referir-lhe que caso demorasse muito eu perderia a hipótese de embarcar no vôo das 11:25. Pois bem, após um tempo que está registado no meu telemóvel e a ouvir a música cantada pela Carminho e Paulo Gonzo (será?) esta senhora diz-me que para eu conseguir os vôos de Génova-Roma e Roma-Lisboa teria que pagar qualquer coisa muito perto de 600 euros e não seria em executiva. O mundo parou. Na terra de Colombo, no país do homem que descobriu que a Terra é redonda e que a terra anda à volta do Sol, o meu mundo parou. Como?! O meu bilhete é em executiva, no último ano fiz uma média de mais de 30 vôos na TAP e o que têm a propor-me é isto? Já que tenho tempo porque o vôo das 11:25 está perdido, e perder mais do que o que já perdi não é possível, decido fazer o melhor monólogo que tenho memória, sem auxílio de qualquer nota. Esta senhora ouviu-me com a atenção dos fiéis na homilia. Relembrei-lhe o quanto a TAP é criticada por tratar mal os clientes, de toda a gente que conheço, viajante assíduo de aviões, ter preferido outras companhias, da minha defesa patriótica da TAP porque às vezes acontece, de ignorar os atrasos, de ignorar os funcionários que só actuam "by the rules" e nunca encontram a melhor solução para o cliente, das 8 H de trabalho dos funcionários que como ela estão no quentinho de uma sala confortável e que têm um trabalho garantido, quer tenham um bom ou um mau desempenho e a descrição minuciosa da história inesquecível com a Lufthansa (*). A Sra D. Bárbara Ferreira aguentou estoicamente e respondia sempre com um pedido de desculpas ou que não podia fazer mais nada.

(*) Há uns meses eu tinha um vôo Lufthansa para Lisboa para ir à Embaixada de Itália. Quando chego ao aeroporto de Génova o vôo para Frankfurt estava atrasado uma hora, o que iria comprometer a minha ligação para Lisboa. Expliquei a situação a uma funcionária, e sei que foi um exemplo excepcional e sem repetição. Esta senhora, sem me conhecer de lado algum, tentou todas as hipóteses para me fazer chegar a Lisboa sem que eu perdesse o meu compromisso. Eu tinha um bilhete em econômica, nada mais. Esta senhora, que não sei o nome mas de quem me lembrarei toda a vida, disse-me para apanhar um táxi para Bolonha onde tinha um reserva para ir para Lisboa. Foram 550 euros de táxi que a Lufthansa me pagou em 3 semanas, tendo como prova um recibo de táxi manuscrito. Querem dizer-me que as empresas de aviação não têm comportamentos diferentes? Ou que os funcionários estão habilitados a resolver os problemas dos clientes de forma a que haja algum entendimento?

A Sra D. Bárbara Ferreira, durante o meu longo monólogo, deve ter colocado uma melhor banda sonora e na sua voz de enfado, daquelas que não ficam melhores uma oitava abaixo, diz-me: "se quiser assegurar os vôos é X". É aí começo a perceber que um problema maior toma conta de mim: perdi o meu telemóvel italiano! Faço um rápido raciocínio e desloco-me aos sítios onde estive. Em nenhum dos lados o encontraram. Mas não posso ligar para esse meu tlm italiano porque estou ao tlm com a Sra D. Bárbara Ferreira. Aqui comecei a relativizar os meus problemas. Como a minha cadela quando faz asneiras, coloca aquela cara de cadela com os olhos mais tristes do mundo e arrastar-se na minha direcção, em bom português, ponho o rabinho entre as pernas e mudo de drama. Ficar sem vôo e discutir  com uma senhora que haveria sempre de me dar a mesma resposta fosse qual fosse o nível dos meus argumentos ou encontrar o telemóvel? Eis a questão. Mudo de rotação. A minha prioridade passa a ser em busca do tlm perdido.

Para quem me conhece, sabe o meu nível de conhecimentos informáticos. Mas há uns meses instalaram-me uma aplicação, caso perdesse o iPhone, para o encontrar. Foi o que fiz. Em poucos minutos sabia que o tlm estava no aeroporto de Génova. Fui a todos os sítios onde tinha estado, que não foram muitos, e não o encontraram. Tinha quase a certeza que tinha caído do bolso das minhas calças. Um clássico! Fui aos “perdidos e achados” e também não tinham entregue tlm algum na última hora. A seguir, fiz o habitual, liguei e esperei. Nas primeiras vezes o tlm tocava mas houve uma vez que foi para o voice mail. Comecei a ficar preocupada. Perdi a conta do número de vezes que subi e desci a escadas do aeroporto de Génova, que separam o segundo do primeiro andar, com duas malas. Como última tentativa tentei a abordagem da segurança. Falei com o responsável da segurança antes do embarque e expliquei-lhe o que me tinha acontecido. Em poucos minutos contactam-no e disseram-lhe que entregaram um iPhone todo partido nos “perdidos e achados”. Era esse mesmo. 

Já em Roma, caminho em direcção à Lounge da Star Alliance. Passa das 4 da tarde e ainda não almocei. Todas as comidas aparentam óptimo aspecto mas a minha constipação e o meu estado febril não me deixam aproveitar. Como apenas alguma coisa. Ainda durante o tempo que me separa do vôo que me levará a Lisboa, não resisto a um aperol Spritz. Dessas horas resultou este texto. O que começa mal pode acabar bem. E foi este o caso. Como me perguntou um amigo: “como te ris?”.  Não tenho nenhum motivo para não o fazer.




quinta-feira, 22 de março de 2018

Mudança

Munida de uma mala grande, uma mala de mão e uma mochila tenho a sensação de que faltará sempre alguma coisa. Desta vez, como sempre, não será excepção. Combinara com o meu irmão duas horas e quarenta minutos antes, como pessoa prevenida que sou. Uma amiga iria ter comigo ao aeroporto. Na última confirmação do voo percebo que confundi 16 com 5 da tarde. As horas em 24 números em vez de doze (diferenciadas apenas pela terminologia de manhã ou de tarde) sempre foram uma dor de cabeça, como distinguir a esquerda e a direita. Percebo que estou atrasada e nenhum dos elevadores funcionava de manhã. Entro em pânico. Ligo ao meu irmão se há alguma possibilidade de me ir buscar imediatamente. Ligo à minha amiga para desistir de ir ter comigo ao aeroporto. Como detesto despedidas até o universo ajudou. A viagem até ao aeroporto parece um voo. Sem tempo nem para olhar para trás, o meu foco é entregar a bagagem. Descubro que a mala tem 12 kgs a mais. Finjo não reparar e a pessoa da companhia aérea decide ajudar e finge comigo. Não tenho tempo de pensar em nada. Tudo em mim é calor. Voo para Munique, sem sobressaltos, respirando fundo. Descubro, mais rápido do que esperava, que me esqueci do caderno onde tomo notas. Nada de muito dramático. Mas como gosto sempre de encontrar qualquer coisa, agarro-me ao que há. A espera em Munique é rápida. Sigo para Génova num avião assustadoramente pequeno. Finjo ignorar. Passados uns minutos, sentada no lugar que me foi atribuído (junto à janela e sem ninguém ao lado), começo a transpirar (coisa nada comum). Estou gelada, tremo, os dentes batem, as gotas de água escorrem-me pela testa e pescoço, a minha palidez denuncia-me porque tenho olhares a seguir-me. Tenho falta de ar. Estou em pânico mas tento não perder a pose. Demorada e disfarçadamente tiro as bombas de asma e finjo que tudo está controlado. Minutos depois estou bem, só o cabelo molhado mostra o que se passara. Tenho o R. à minha espera no aeroporto de sorriso aberto. Sinto-me em casa com ele. Saímos do aeroporto e o que mais me choca são as ruas cheias de prostitutas. Contrariamente ao que seria de esperar, são caucasianas, não têm aspecto de cadente, são jovens e são muitas. O R. deixou-me no hotel que eu escolhi pela proximidade do meu apartamento. Nunca mais voltarei a este hotel e desaconselho-o a toda a gente. Supostamente era um hotel quatro estrelas. Mas disso nem a decadência lhe restava. O recepcionista era antipático, ainda existia chave, as alcatifas estavam sem cor e em mau estado, o quarto era pequeno e desconfortável, a tv era do tamanho de um ecrã 15’’ e a limpeza deixava a desejar. Lembro-me de ter comentado com uma amiga o quão mau era o hotel e respondeu-me que era um bom sinal porque sentir-me-ia muito mais confortável no novo apartamento. Não vou alongar-me nos comentários sobre o pequeno-almoço porque nem nos motéis dos Estados Unidos é tão fraco. A segunda pessoa antipática que me apareceu foi o taxista que mostrou o seu desagrado quando lhe disse que o meu apartamento era a menos de 1 Km. Cheguei à hora marcada para assinar contrato e o apartamento pareceu-me bem melhor do que nas fotos. Na opinião dos locais, a localização não é das melhores mas eu acho conveniente. Fica a 2 minutos da entrada do metro, em frente ao porto de Génova, tem mercearia e quiosque e outras lojas de conveniência. As ofertas de cafés e restaurantes são poucas. E o bairro é multicultural e multi-étnico. Tal como no primeiro apartamento que vivi em NY, o prédio não tem elevador e vivo num quarto andar.

Passada a fase de tudo parecer fácil, como receber o ordenado numa conta portuguesa e o pagamento do depósito e renda através de transferência bancária de uma conta portuguesa para uma conta italiana, começou a aventura: ter internet e telemóvel. Fui a um centro comercial para encontrar várias  empresas possíveis. Logo na primeira, praticamente desisti. Não poderiam ter sido mais simpáticos comigo e falavam inglês.  Depois mais de uma hora, de várias explicações, tentativas de pagamento com cartão de crédito português chegaram a um veredicto: só poderia fazer contrato de internet com um cartão de crédito italiano ou um cartão especial que se adquire nos correios chamado POSTPAID EVOLUTION. Os simpáticos disseram-me para ir aos correios italianos (Poste Italiane). Depois de andar 15 minutos a pé, disseram-me que para ter este cartão só com o código fiscal original (eu só tinha uma cópia) e o “attestato di soggiorno”. Regresso à loja e informo os simpáticos que não é possível. Como estou num centro comercial, aproveito e compro um microondas e improvisei o transporte com um carrinho de ir às compras. Chegada a casa subo quatro andares com o microondas. Volto ao hotel, onde deixei a mala com 35 kgs e regresso a casa de táxi. Demorou exactamente 25 minutos entre paragens entre degraus, vãos de escada e vontade de deixar (simplesmente) cair a mala no sentido da gravidade... O resultado foi bolhas nas mãos idênticas a quem levanta ferro nos ginásios, obras e afins.





sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Em que se traduz o medo?

Cidade gelada. Os primeiros flocos de neve ameaçam cair. Tudo visto da janela. Não se experimenta a temperatura real. Tudo é espera. O tempo que não passa. Pessoas apressadas. Filas. Bebés que choram. Olhos vermelhos de quem não dormiu e atravessou vários fusos horários. Roupas amassadas de quem viaja. Sítio de pouca permanência. Tudo é volátil. A escolha, para enganar o tempo, não é difícil entre escadas rolantes, elevadores ou escadas. O tempo não importa. A noite começa a aparecer. A tristeza de um fim de tarde de domingo. Tudo é impessoal. Ninguém se conhece. Sala enorme. Suposto conforto. Cadeiras de vários formatos. Sofás que parecem camas. Mesas de trabalho. Televisões várias e imensas. Música ambiente que não se percebe o objectivo. Comida à descrição. Nada apetece. Olho para tudo e nada me entusiama. Só suspiros. Inspirações e expirações longas. Leve dor de cabeça. Saberei (mais tarde) que no meio daquelas pessoas está uma que conheço (bem). Mas a coincidência hoje não funciona. Probabilidade. Acaso. Não nos cruzamos apesar de partilharmos, a mesma hora, os mesmos metros quadrados. Olhar sem ver. Tenho um nó no estômago. Não é pânico nem desespero. Tento desculpas para sentimentos piores. Tento convencer-me que é assim que deve ser. O medo de falhar, sempre ele. Há pior sentimento? A expectativa. Experimento a pior das solidões embora rodeada de pessoas. Poucas vezes na vida me senti tão apoiada. E mesmo assim, só. Conto os minutos que passam. Só quero que a hora chegue.Podia aproveitar o privilégio. A sensação de ser um momento único e talvez irrepetível.Não consigo. Sou apenas uma criança com medo.Todos tentam convencer-me que estou preparada. Só eu não consigo acreditar. Não me deixam só. Tento comer. Nada me apetece. Apetece-me coisas que não consigo comer. Horas assim.Tenho momentos. Só penso nas palavras “depois” e “sobrevivi”. Não tenho vida depois. Só antes. O meu olhar deve denunciar-me. Imagens que passam pelos meus olhos que sei de cor. Perguntas que posso não saber responder. Conversas. Telefonemas. Vozes que sossegam. Depois de cinco horas de pensamentos e hipóteses, levanto-me. Exausta. Arrasto-me. Destino seguinte. Náusea. Atraso. Neve que cai. Experimento a temperatura real. Não me protejo. Podia ter sido a primeira a subir para o avião. Troco o privilégio por sentir a neve a cair. Deixo-me estar. Sinto-me gelar. Vejo o casaco e sinto o cabelo cobrirem-se de neve.Quando não posso adiar mais, subo lentamente. Sou a última a entrar.Não podia ser mais adequada a imagem: o avião cheio e eu sozinha na executiva. Já nem medo tenho de andar de avião.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Lisboa quase um ano depois

Não me lembro de ter estado tanto tempo sem vir cá. Cheguei ao aeroporto no início da tarde. No terminal 1, o Starbucks ao longe chama por mim. Lisboa de repente, em vez de ser Portugal, parece-me que acabei de aterrar nos EUA. Só eu e os funcionários somos portugueses. Perguntam-me o nome. Parece um dejá vu. Peço um regular iced coffee. E escrevem-me o nome no copo seguido de um smile. Quase ninguém me chama pelo nome. Chamam-me irmã, prima, titi, gaja, Anita, Ana Margarida, Martins, Martinez, Ana Martins, Anocas, Aninhas, Anita. Mas o meu nome que é pequeno, e que tem 3 letras apenas, ninguém me chama. E de repente, ouço o meu nome o maior número de vezes em menor tempo. Soletrado em português. E como se já não bastasse a minha alegria de voltar à cidade que mais amo, o sorriso abre sem que eu controle. Como o gelo é muito, volto para trás porque as minhas mãos estão prestes a congelar. Tento tirar um guardanapos e ouço chamar pelo meu nome, mas não ligo, porque Anas há muitas "sua palerma". Mas como continuam, decido olhar. E estendem-me um cartão que colocam nas bebidas quentes. Nunca ser chamada pelo meu nome me deixou tão feliz. O Starbucks é o que os Estados Unidos têm de melhor. É um sítio democrático. 
Dirijo-me aos táxis. A imagem do inferno. Uma fila gigantesca. Tal e qual como nos Aeroportos nos Estados Unidos. Mais pessoas do que táxis. Debaixo de um calor infernal. O dia mais quente do ano, dizem. A sensação térmica e de ter aberto a porta do forno. Desisto e vou para o metro. As filas para tirar bilhetes são muito menores e rápidas. Existe um funcionário que fala em todas as línguas. Eu sou, mais uma vez, a única portuguesa. Assisto boquiaberta a vê-lo trocar notas com uma amabilidade que desconheço nós portugueses, principalmente os do Algarve. Não lhe digo mas não aguento de tanto orgulho de ser portuguesa, perante esta cena. O metro é de 5 em 5 mns e em 20 minutos vou do aeroporto até aos Restauradores. Estou no início da avenida da Liberdade, ou no fim, dependendo da perspectiva. Os nossos Champs Elysees. São quatro da tarde e Lisboa está mais quente do que nunca. Sigo até à Rua Portas de Santo Antão e depois Elevador do Lavra. Só de olhar para a subida e para a inclinação dá-me um calafrio. Com o mesmo bilhete do metro subo o Elevador. No cimo, CEDOC. Vamos colocar a minha mala no carro. E vamos a um geladinho na Mú no Campo Mártires da Pátria. Depois, como as velhinhas, vamos para os bancos do Jardim do Torel olhar para os telhados de Lisboa que parecem um quadro da Maluda. Como temos um concerto e o lugar não é marcado, first come first serve, combinámos às 8:30 na entrada do Coliseu. Mas antes, comer qualquer coisa. Pensamos no Gambrinus mas a passar na Casa do Alentejo vemos que tem uma loja que vende queijos, presuntos, salpicão. Nada mais adequado. Uma sandes gigantesca em pão alentejano de presunto e uma imperial alemã. A sede é tanta que eu nem espero para comer. Bebo como se não houvesse amanhã. Apesar de ser de noite a temperatura não desce dos 30 graus. Parecemos derreter. Mais uma vez, o atendimento é irrepreensível e mais uma vez somos as únicas portuguesas. 

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Sexta-feira

Sexta-feira. Acordo à hora do costume mas deixo-me estar na cama. Tenho por companhia, em cima das minhas pernas, um gato preto que mais parece um leão. Enorme e pesado. Ronrona. A luz de Lisboa entra pela janela. Mesmo com nuvens, Lisboa é sempre clara. Acho que não há luz como esta. Pequeno almoço tardio. Desço a pé a Estados Unidos da América até Entrecampos. Pouso a mala. Almoço tardio no Entre Copos. Escolhemos ovas de peixe grelhadas. Não me lembro da última vez que as comi. Como são 3 da tarde dizem-nos que as brasas estão fracas e que é melhor escolher outra coisa. Dourada escalada. Não me lembro de comer um peixe tão bem grelhado na brasa. No ponto. Nem no Algarve. Para acompanhar dispenso as batatas cozidas. Só brócolos cozidos e tomate com sal. Nada de álcool nem sobremesas. Os excessos restringiram-se ao dia anterior. Vamos buscar o ZM à creche. Pequenina. Familiar. Desenhos nas paredes. Alegria. Simpatia. Beijos e abraços. Despedidas. Vamos até ao parque. Crianças de um colégio são fotografadas. Reparo no número de crianças com óculos. Temperatura amena em Lisboa. Sol radiante. O ZM já consegue pronunciar o meu nome com um tom anasalado no final. Hora do lanche. O meu, o de sempre. Galão claro morno e pão com manteiga. O ZM reparte-se entre o pau com manteiga e uma língua de gato. Quer dar de comer aos piu-pius. Sobe para casa. Descubro que o Frozen não é só paranóia das meninas. Toda a gente está viciada. Brincamos com uma bola e com umas peças de madeira. O tempo não pára. Seguimos de carro para o aeroporto onde a S. me deixa no Terminal 2. Continuo sempre a aprender. Afinal podemos ir directamente para o terminal 2 sem passar pelo 1. O check in parece uma feira e as salas de embarque também. Mais gente que bancos. Como ainda falta algum tempo decido-me pelo único bar que lá tem. Guiness parece-me uma boa escolha. Leio. Os estrangeiros são os principais clientes. Sandes de tudo e mais alguma coisa e litros de imperiais Sagres. Chamada para o avião. O dia acaba. Fim de dia ameno. Chegada o Porto 45 minutos de pois. Noite escura. Chuva torrencial. Dilúvio. Arca de Noé.Como é possível um mudança tão drástica de cenário com tão poucos kms que separam estas duas cidades. Toda a gente corre. Malas arrastam-se. Outras voam, tal é a velocidade. Fatos molhados. Ninguém preparado para esta chuva. Ninguém é elegante a correr debaixo deste temporal. Eu deixo-me ir, lentamente. Parece que saí do chuveiro mas isso não me faz acelerar o passo. Quando apanho a mala, tiro o casaco de malha, desaperto a camisa, fico em t-shirt, seco o cabelo com a camisa, visto uma camisa divinamente embrulhada na mala, visto outro casaco. Como é hora de jantar, espero uns 30 minutos pelo meu irmão naquele café que é uma imitação barata do Starbucks mas com preços igualmente pornográficos para um país pobre como o nosso. O meu irmão chega sozinho sem os meus sobrinhos. Aguardam-me em casa dos avós porque não quiseram enfrentar a chuva. Chegada a casa dos pais é a festa da miudagem, como se não me vissem há muitos. Colos, beijos e abraços e elogios aos penteados novos.  

sexta-feira, 22 de março de 2013

Regresso da Grande Maçã


Chego ao aeroporto e percebo logo que estou quase em Portugal. Os portugueses conhecem-se ao longe. Sou a primeira a chegar á fila do check in. Chegam outros depois de mim e colocam-se à minha frente. Paguei para ver o que faziam quando abrissem o check in. Falta total de vergonha na cara à qual respondi: "Os portugueses e espanhois conhecem-se ao longe sem abrir a boca. Têm sempre a mania que são mais espertos! Não sabem o que é uma fila?”.  E ainda tiveram a lata de se ir! Realmente, a educação deve ser para os parvos! Já no Porto, va eu sou explendorosamente bem recebida por uma senhora no balcão de informação, cuja função era dar informações, esperava eu com bons modos. A crise, infelizmente não fez as pessoas repensarem a sua atitude e agradecerem diariamente serem priviligiados por terem um emprego! Sou mandada parar na alfândega, como sempre. Mas o senhor, este sim, foi super simpático. Bons modos, educado, foi a ele que perguntei onde existiam multibancos e foi ele que com toda a simpatia me mostrou. Fiquei a saber em poucos minutos que nenhuma das caixas multibanco tinham dinheiro. Chegada à civilização!

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