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sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O triunfo das mulheres

Sou suspeita para falar de Madonna. Acho que é o verdadeiro icon pop. Transgressora. Revolucionária. Autora de uma grande música chamada Music que tem apenas um acorde (o máximo da simplicidade na linguagem musical). Autora de várias músicas que são verdadeiros hinos. E autora de músicas, que de alguma forma, toda a gente conhece. E é, nas suas próprias palavras “uma má feminista”. Madonna está a dois anos de fazer 60 e acaba de ganhar, esta semana, o prémio de “Mulher do ano”. Destaco o seu discurso de aceitação e agradecimento. Um discurso emocionante, verdadeiro, íntimo, revelador, sincero, cru e doloroso.

Com o seu conhecido humor começou o seu discurso centrado, principalmente, no facto de ser mulher. Começou por referir que hoje, com as novas tecnologias, as pessoas não precisam de ter coragem de insultá-la “cara-a-cara”. Falou da sua experiência de se mudar para NY, ainda adolescente, em 1979, ano em que eu nasci. Ao contrário de hoje, NY era uma cidade assustadora. No primeiro ano, apontaram-lhe uma arma, foi violada num terraço com uma faca na garganta e o apartamento foi tantas vezes assaltado que deixou de fechar a porta. Nos anos que se seguiram, perdeu quase todos os amigos com SIDA, drogas, ou tiros. Estes acontecimentos avassaladores, não só a tornaram na mulher que é hoje, mas também lhe relembra o quanto é vulnerável. Afirmou, claramente, que não é dona dos seus talentos, que não é dona de nada. Tudo o que tem é um presente de Deus. Para os crentes, esta é a maior das humildades. Depois falou especificamente na questão de género, no facto de ser mulher. Quando começou a escrever não pensava nisso. Mas depois começou a sentir como isso era importante. Se se é mulher é permitido ser-se bonita, gira, sexy. Mas não se pode ser muito inteligente. Não é permitido que se tenha uma opinião diferente do status quo. Não é permitido envelhecer. Envelhecer é um pecado. Falou de quando o álbum Erotica e o livro Sex foram lançados. E o que escreveram sobre ela. Uma das manchetes comparou-a ao Diabo. E nessa mesma época, o Prince andava de saltos altos, baton e mostrava o rabo... mas era homem. Falou de como se conseguiu recompor de todas as críticas e de todos os insultos, encontrando força na poesia de Maya Angelou, na escrita de James Baldwin e na música de Nina Simone. Deu como exemplo a Camille Paglia uma escritora feminista, que em vez de a apoiar a criticou. E terminou a dizer o mais importante: que as mulheres devem apoiar-se mutuamente.

E nesta semana, este discurso é especialmente importante, porque coincide com a atribuição de um pretigiadíssimo prémio a duas colegas do meu laboratório em Portugal. O que é de destacar é que não foi apenas um prémio mas dois prémios atribuídos a duas mulheres do mesmo grupo de investigação, e consequentemente, da mesma universidade. Estes prémios foram especificamente duas bolsas ERC Consolidator Grants de quase 2 milhões de euros para cada uma e é  um dos maiores reconhecimentos científicos a nível monetário e de mérito. Duas mulheres. Esta é a parte importante. Não sou amiga nem íntima de nenhuma delas. Somos mais de 100 pessoas no mesmo edifício. Uma delas conheço-a desde o dia que entrei no lab, há mais de 13 anos. Como mulheres que são, com toda a certeza, já as acusaram de tudo. E o facto de não ter nenhuma ligação a não ser profissional, faz este comentário ser (ainda) mais legítimo e verdadeiro. Tiveram e têm um director que é sábio, visionário, que acreditou nelas e que apostou nelas. Sem isso não seria possível. E não só nelas mas noutras tantas que compõem o seu grupo. É um director que aposta em mulheres e que acredita, sobretudo, nelas. Os números do seu grupo não enganam. Quem sabe esse seja talvez a razão do sucesso deste laboratório? Tal como no discurso da Madonna, nós mulheres, deveríamos sempre ficar contentes com o sucesso de outras mulheres e saber reconhecer-lhes isso. Não porque são mulheres mas pelo difícil que é conquistar o sucesso em igualdade de competição com os homens.

Não podemos esquecer-nos que em quase 30 anos de Prémio Pessoa somente 5 mulheres, num universo de 29 premiados foram mulheres: Maria João Pires, Menez, Irene Flunser Pimentel, Maria do Carmo Fonseca e Maria Manuel Mota.

No entanto, os  números  são animadores e mostram-nos que as mulheres são as que entram em maior número nas universidades, as que têm melhores notas e as que concluem os cursos com sucesso. Mostram-nos um presente brilhante e um futuro muito promissor.

Na política, uma vergonha. Um parlamento que tem que ter cotas para que haja um número mínimo de mulheres. O antigo governo com 14 ministros, apenas 4 eram mulheres: Maria Luís Albuquerque, Anabela Rodrigues, Paula Teixeira da Cruz e Assunção Cristas No actual governo o cenário piora, num universo de 17 ministros, 4 são mulheres: Maria Manuel Leitão Marques, Constança Urbano de Sousa, Francisca Van Dunem e Ana Paula Vitorino. No entanto, a Fundação Champalimaud tem como presidente uma mulher, Leonor Beleza e a Fundação Calouste Gulbenkian terá como próxima presidente Isabel Mota. Nem tudo é mau, portanto. Temos, também, na ciência e na academia grandes mulheres que lideram instituições como Maria do Carmo Fonseca e Maria Manuel Mota. Como diria Madonna, o importante é não desistir continuar a persistir. Um dia, as coisas mudarão.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A despedida profissional de uma grande pessoa

Fomos colegas de curso. Não privamos muito. Via-a mais na noite do que nas aulas porque eu vivia de noite e ela de dia e de noite. Tínhamos amigos comuns. Ela foi sempre boa aluna, eu não. Ela era beta e eu também. 

No dia que entrou no lab, lembro-me muito bem, os poucos homens que havia no grupo pararam como se de um filme em slow motion se tratasse. Não me lembro como nos aproximamos. Mas lembro-me do jantar de doutoramento do T. em que ficamos juntas. E do jantar de doutoramento da X. E do jantar de doutoramento da M. Jantares que bebíamos muito e que não nos lembramos de metade. Era o tempo em que não passávamos dos 20. Nesse tempo, não tínhamos hora certa de chegar ao lab nem hora de sair. Vivíamos uma vida errante de almoços e jantares na cantina da universidade e voltávamos para o lab sem hora de sair. Um tempo em que se fumava em todo o lado. Perdemos a conta e a noção das vezes que choramos de desespero antes de conferências. Mas havia sempre alguma alma caridosa que nos desse a mão. Tempos em que não havia diferenças hierárquicas entre estagiários, alunos de doutoramento e Postdocs. Tempos em que éramos todos iguais. Tempos em que me lembro que havia momentos muito maus mas os bons compensavam tudo. Tempos em que íamos buscar amostras de medula e cordão ao hospital. Com ela comecei a aprender a ser organizada e a ter uma inveja boa de quem tinha uma letra legível e que toda a gente entendia. A nossa amizade foi sempre improvável. E com ela aprendi que a característica essencial de todos os meus amigos é terem um coração grande. Nunca tive uma amiga tão diferente de mim.

Quem a vê parece uma pessoa fútil mas nunca foi. Ela é o exemplo que beleza e inteligência são compatíveis. Ela ensinou-me sobre tendências e sempre me ajudou a escolher o outfit para ir a casamentos. Eu sempre lhe mostrei o que ela poderia gostar de ler, apesar de ser cegueta, como eu carinhosamente lhe digo até hoje. Partilhamos o gosto por Madonna.

Passamos tanta coisa juntas. Fomos para Shanghai, talvez a viagem mais revolucionária da minha vida. Partilhamos sempre o quarto, em todas as viagens juntas. Tal como eu, nunca teve muito amor ao dinheiro. Gostamos de bons jantares demorados. Foi ela que me ensinou a gostar de vinho branco. E quem mais me ensinou sobre vinhos. Fomos para Pittsburgh juntas, outra das minhas grandes viagens. Para ela, menos boa. Foi com ela ela que fui pela primeira e única vez ao Pinheiro. E foi nessa noite que soubemos pela primeira vez, e para sempre, o verdadeiro significado de sorte. As horas incontáveis que passamos na noite. Bebedeiras, jantares, descobertas de restaurantes, Lisboa, Bairro Alto. Sempre próximas, sempre íntimas.

Foi com ela que vivi a história mais surreal de sempre, que hoje é um menino e tem quase 10 anos. Entretanto, descobriu a diabetes. Durante o meu doutoramento estivemos sempre próximas, mesmo com um oceano a separar-nos. Não estive no dia em que se doutorou mas lembro-me do que lhe escrevi sentada num café em Cambridge, de frente para Harvard. Já nos afastamos muito tempo por motivos nunca esclarecidos. Mas, como todas as verdadeiras amizades, voltamos ao sítio onde fomos felizes. E recomeçamos, não do zero, mas do ponto onde terminamos.


Já nos carregamos para a cama. Já fomos o anjo da guarda uma da outra. É talvez uma das pessoas que melhor me conhece. É das pessoas com quem menos uso filtros. Das pessoas que melhor me conhece só de olhar. É um vulcão em erupção. Mas o que mais vou sentir falta e de vê-la todos os dias, da intempestividade dela que tanto nos faz rir e de ser a maior alegria naquela sala. Boa sorte, gaja boa! Sempre em frente, sem olhar para trás!

domingo, 6 de julho de 2014

Os meus dias no lab

Nunca estive tão motivada cientificamente como estou agora. Estou a aprender tudo de novo, como se fosse uma criança a aprender a ler. Vim um mês para NYC para aprender especificamente a diferenciar cardiomiócitos, um tipo específico de células do coração. Estas células são responsáveis pelo batimento cardíaco e pela contracção. Quando vistas ao microscópio, contraem. É das coisas mais fascinantes de se ver. O verdadeiro milagre da vida. O mistério persiste de como é possível células ex vivo, isto é, fora de um corpo serem capazes de se sincronizar e contraírem como uma orquestra. Tudo é sincronizado entre elas. Quem me está a ensinar tudo o que devo saber sobre estas células e como as diferenciar a partir um tipo de células específicas, induced pluripotent stem cells, capazes de se diferenciar em qualquer célula do corpo , é um italiano de Nápoles. Giro de fazer bem aos olhos. Domina diferenciação cardíaca e biologia celular e molecular. Um quase quarentão. Com os olhos muito azuis. Recentemente pai de uma menina. Músico nos tempos livres. Usa meias pelo meio da perna, às vezes uma de cada cor. Ténis All star. Ouvimos opera, Beatles e Zucchero no lab. É totalmente despistado. Vamos todos os dias para o lab, incluíndo aos fins de semana. Mas não trabalhamos muitas horas. A nossa função é preparar meios de cultura. Observar o comportamento de células ao microscópio. Mudar meios. Proliferar células. E diferenciá-las em cardiomiócitos. Temos uma câmara de fluxo para cada um. E duas incubadoras por nossa conta. Cada garrafa de 500 mL de meio de cultura custa 400 dólares. Para não falar nos suplementos. Ontem marcamos no lab às 6:30 da tarde. Como o metro que ele apanha é o C que está em obras, teve que ir a pé da 145 ao 168, o que o fez chegar quase às 7. Eu, que ia distraída a ler, e que tinha apanhado o A desde Penn Station, mal vi um 6 no número da paragem e achei que era 168. Não, era 163... Saí na Amsterdam. Chegamos os 2 atrasados. Saímos  do lab para ir buscar gelo e ele esqueceu-se do cartão para abrir a porta do lab. Fomos aos seguranças. Descobriu que tinha uma chave que dava para abrir a porta. Fui avisar os seguranças que tínhamos aberto a porta. Fiquei eu do lado de fora, apesar de quase a partir de tanto bater... Quando se apercebeu já eu tinha os nós negros de tanto bater à porta... São estes momentos fascinantes de trabalhar com ele. 








terça-feira, 24 de abril de 2012

Directa no lab

São quase 6 da manhã e eu estou a fazer a primeira directa de trabalho!!! Hoje revelou-se um mundo novo para mim: primers, genes, exões, pares de bases, pcr.... que nó!!! Primers para mais de 20 genes!!! Só vejo letras...AAGGCTAGCTATCG....???!!! Tenho os passarinhos a cantar na janela do lab... está a amanhecer! Good Morning NY!

domingo, 22 de abril de 2012

Tribeca Film Festival

Já tinha comprado o bilhete há bastante tempo para ver a conversa entre Michael Moore e Susan Sarandon. Ninguém adivinhava o tempinho maravilhoso de hoje...e de ontem... Já não me lembrava de ver chover assim em NYC. O caos, como podem imaginar, instalou-se. Filas de trânsito intermináveis, mais pessoas a pedir para os táxis pararem do que os táxis que circulavam...Como hoje é domingo levantei-me tarde mas tinha que ir ao lab antes de ir para o festival. O tempo que demorou para entrar e sair do metro (no total uns 2 minutos) foi o suficiente para os meus pés parecerem que estavam descalços, mas na verdade, estavam numa pocinha de água (que eram os meus ténis). Já saí de casa atrasada, demorei mais tempo no lab do que o que queria, saí atrasada do lab, corri para o Starbucks para comer qualquer coisa e para molhar-me mais um bocadinho... 

Como já passava das 2 e o festival começava às 3, e como eu estava quase do lado oposto da ilha, tenho a brilhante ideia (a de sempre) de ir de táxi. E como não aprendo, por mais repetições que aconteçam, lá fui eu perguntar aos "gipsys" quanto era até Tribeca... Percebi imediatamente que não fazia ideia do que eu estava a dizer, não sei se não entendi inglês (embora esta palavra seja a mesma em quase todas as línguas) ou se não sabia onde era (o que era ainda mais grave)... Mas como eu já estava por tudo, e a chuva não perdoava, agora não eram apenas os pés que pareciam descalços... Ainda me perguntou qual era a rua.... "Chambers" respondi eu. Ele começou a pensar, e eu debaixo de chuva, e lá responde: "30 dolars". E eu sem nem esperar um segundo entrei no carro. Ele disse-me que se não houvesse trânsito chegaríamos em 20 minutos. Que optimista que era o homem! Isso nem à noite!!! Mas para abreviar, o que supostamente demoraria 20 minutos transformou-se numa hora. Pela janela do carro via o dilúvio de NYC. Mas cheguei onde queria! A conversa entre a Susan Sarandon e o Michael Moore foi o que seria de esperar, interessante. Se alguém naquele auditório fosse republicano devia ter detestado. E o melhor guarda-se sempre para o fim, as perguntas do público. 









quinta-feira, 19 de abril de 2012

Encontros imediatos

Já ia atrasada para me encontrar com o F. no lab dele quando encontro no corredor a lab manager do meu lab. Não sei porque razão especial, não falamos muito no lab, mas quando me encontra fora dele começa sempre a fazer-me imensas perguntas. Eu que costumo usar um atalho entre edifícios, costumo subir as escadas até ao 14º piso (porque não existe o 13º) e depois percorro um labirinto de corredores que me leva ao Black Building onde vou de elevador até ao lab do F. Era isto que estava a pensar fazer, quando a conversa estava a meio e encontramos os elevadores do P&S. Eu não tive coragem de dizer que ia por outro sítio... porque quem não conhece podia achar que era uma desculpa. Toda a gente que vai descer usa estes elevadores como é que eu ia explicar à lab manager que ia por umas escadas manhosas até ao 14º para depois descer para o 4º?! Tive sempre destes problemas por pensar que as pessoas podem achar que é uma desculpa ou algo do género. Lá descemos de elevador, que demorou alguns minutos, porque aquela hora o elevador pára em todas as capelinhas.... Chego ao 1º andar e percebo que o corredor que dá acesso ao outro edifício está fechado para obras, percebo também que já passa das 5:30 e por isso a porta principal do P&S está fechada... Resta-me percorrer os corredores do Presbyterian Hospital e fazer novamente o caminho que deveria ter feito...

sexta-feira, 23 de março de 2012

Don DeLillo

Ontem de manhã adormeci e acordei atrasada para a reunião de grupo... Não sei porque teimo, quando me atraso, apanhar um táxi de minha casa para o lab. De metro são pouco mais de 10 minutos... mas deve ser psicológico... acho sempre que chego mais rápido de táxi... E para quê? Se as reuniões nunca começam a horas?! Isto sou eu mais a minha consciência... Bem, lá saio eu de casa, atravesso a rua e tento que algum táxi pare. Sempre a mesma aventura. Lá consigo um táxi. Esta semana tem estado bastante quente e o táxi estava com todos os vidros abertos. Eu ia entretida com qualquer coisa (que devia ser um livro) e não estava atenta ao que se passava à minha volta. Sei que o táxi estava parado num dos semáforos e ouço: "É me***, é m****, ca*****!". Levanto a cabeça e olho para a estrada e está um senhor a trabalhar e deveria estar a insultar o colega, que pela cara, não falava a mesma língua. E era do norte, pela pronúncia! Ah, e não tinha dentes! Se não fosse pela idade dele diria que andava metido na heroína...mas neste caso, devia ser mais... copos! 

À noite fui à New School University assistir à entrega do prémio "Story Prize" para pequenas histórias. Os nomeados eram dois escritores que eu não conhecia: Steven Millhauser (que ganhou o prémio), Edith Pearlman, e Don DeLillo. Foi só por causa deste último que fui. E valeu muito a pena.


Winner of The Story Prize Steven Millhauser
[Photo by Beowulf Sheehan]

Finalist Don DeLillo [Photo by Beowulf Sheehan] 

Finalist Edith Pearlman [Photo by Beowulf Sheehan] 

quinta-feira, 1 de março de 2012

Depois da reunião de ontem...

"In God we trust. All others [must] have data" - In "The emperor of all maladies- A biography of cancer", Siddhartha Mukherjee.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

E assim acontece... na América


No lab ao fim da tarde começo a ver umas movimentações... Lab é o que eu chamo ao piso onde trabalho. Um lado do corredor é só gabinetes e o outro é onde fica o laboratório propriamente dito. Depois das 5 as pessoas começam a sair e às 6 vê-se... umas 6 pessoas... e às 8, bem, isso é uma loucura ver mais do que 3!!! Mas hoje por volta das 6 era a azáfama habitual das 3 da tarde e não do fim do dia... Descobri depois que estavam a preparar uma festa surpresa para a “lab manager”. Ah? Faz anos? Não... hoje faz um ano que chegou ao grupo!!! Isto é mesmo muito fora! Mas assim mesmo à grande com direito a bolo e muito champanhe. Eu sei que a miúda é fixe mas não é preciso tanto! Parecia uma homenagem que se faz a quem volta da guerra! Dica número um para os americanos: é péssimo beber a essas horas porque vocês não lancham! E a última coisa que o vosso estômago devia ter visto foi um bagel ou talvez um pacote (dos pequenos) de batatas fritas há umas seis horas atrás... Um dia destes um americano com quem jantava dizia para um dos meus amigos portugueses: “Não pareces um europeu. Não gostas de vinho, não fumas...”. A festa lá se fez. Mas o champanhe era mais do que muito. Eu, apesar de ter lanchado, não abusei porque ia jantar a seguir e ainda precisava de voltar para o lab. Pelas movimentações e pela animação percebi que aquela quantidade de álcool não ia dar muito bom resultado. E assim foi! Quando volto de jantar e entro no laboratório até gente de garrafa na mão vi (mas no laboratório mesmo)!! Se a L. estivesse aqui, ui, nem depois de todas as certificações em Harvard!!!! Este pessoal nunca mais voltava a entrar num lab que muitos de nós conhecemos! Passadas algumas horas, o ambiente acalmou, o número de pessoas que não são "habituees" da noite reduziu-se drasticamente... Mas ainda me cruzei com uma colega que já não conseguia  andar em linha recta e que me disse: “I’m so tired”. Claro que compreendo que ela está cansada mas amanhã é que vou ter mesmo pena dela. Quando acordar vai ter uma imagem distante e nublada do que hoje se passou, a cabeça vai parecer um galinheiro e o estômago vai parecer que está num mar revolto! O fim de semana para alguns deles vai começar mais cedo.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Quando as coisas começam mal acabam melhor

Depois de me ter levantado às horas que costumo adormecer, ou seja, quase de directa, e de ter chegado ao lab e a pessoa com quem combinei não ter cumprido horas, e não ter preparado o que devia com antecedência.... Acabei por saber às 3 da tarde o que deveria ter sabido às 8 da manhã. Não vou dizer o número de células que foram isoladas de n corações que tenho até vergonha. Quando não se pode atribuir a culpa à péssima preparação das pessoas e à autonomia que deveriam ter como alunos de doutoramento. Uma vez que que não se pode bater em ninguém, a melhor atitude a tomar é fechar o computador e apanhar ar. Mas quando ia fazer isso recebo um email com o que parecia um sinal. Alguém a milhares de kms lembrou-se de me fazer rir perdidamente e esquecer o dia....



Já vi o vídeo dezenas de vezes e não paro de rir! "Não compres um ipad!!" Muito bom! E quando se tem amigos (as) tem-se quase tudo! Para quem não perceber o teor da conversa aqui vai:
-Martinez, como é que é?
-Olha, o R. teve esta ideia maluca de querer mandar isto.
-Deixa o ipad para trás, não compre nada disso!
-Compra formalina!
-Beijinhos Martinez.
-Beijinhos miúda

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Lab meeting


Semanalmente temos a reunião de grupo do lab. Vai toda a gente, desde alunos de doutoramento, estagiários, postdocs, internos e a chefe, claro. Quando estive cá na primeira vez, as reuniões eram à sexta, às 9 da manhã. A chefe trazia o pequeno-almoço para toda a gente. Era vê-la no metro carregada de sacos cheios de fruta, baguetes (daquelas mesmo boas da loja gourmet), presunto, queijos, fiambre e sumos... Eu detestava que fosse à sexta e principalmente às 9... A quinta à noite em NYC é a melhor! Quantas vezes fiquei em casa porque não aguentaria uma directa (a idade começa a pesar...eu sei). [A respeito da idade que tenho e da idade que aparento ter. Estávamos um dia destes a jantar no Bard (Meal Plan) quando uma miúda se sentou e começou a falar que era aluna do programa MD/PhD e tal, a C. lá lhe diz que também é e quando chega a minha vez lá lhe digo que sou Postdoc, ela fica admirada e a C. (com o seu bom feitio) diz-lhe: "Ela não aparenta mas já é velha!!! E a miúda, simpática, lá respondeu que não parecia...]. 

Voltando às reuniões de grupo, agora são à hora de almoço à quinta. Já não temos direito a pequeno-almoço mas a muita fruta. Eu sou a única que não toco em nada. Sou daquelas pessoas que não come feijoada, nem ovos ao pequeno-almoço mas também não come fruta a substituir o almoço. Tal como não como com colher o que é para comer com garfo, nem como só com um talher... E acho que não tem jeito nenhum comer fruta antes do almoço.

Mas o que eu queria realmente falar era do comportamento demasiado “cool” desta gente. Se fosse no meu lab em Portugal "caía o Carmo e a Trindade". Há uma meia dúzia de pessoas que vai para as reuniões e comportam-se como se estivessem na praia. Deitam-se nas cadeiras, alguns dormem, quando se servem de comida é como se não houvesse mais ninguém, não têm maneiras e raramente dizem obrigado. Não me parece que seja uma coisa cultural porque já estive noutro laboratório, noutra cidade, nos Estados Unidos. Mas aqui há demasiado à-vontade. A chefe marca uma reunião para determinada hora e nunca chegam a tempo, coisas assim. Eu sempre fui terrível com as horas mas no que respeita a trabalho, posso não dormir, mas à hora marcada estou lá. Quanto aos restantes eventos, sou como a Susan Sontag, chego sempre tarde "menos à ópera e para apanhar um avião" e como ela dizia as pessoas deviam andar sempre com um livro para ler enquanto esperavam.

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