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quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

A vida como ela é

Levanto-me com bastante antecedência, apesar de ter feito as malas ontem. Depois de alguns sustos resolvo não arriscar e cumpro, religiosamente, as duas horas de antecedência necessárias nos voos. Uma constipação forte deixou-me em baixo de forma nos últimos dias. Como o frio é muito e a preguiça muita, em vez de andar 500 m até ao ponto de táxis mais próximo, resolvo chamar um táxi usando uma app. A aplicação diz-me que demorará 3 minutos. Resolvo descer,  com a maior velocidade que consigo 4 andares, carregada com duas malas. Mal chego à rua recebo uma mensagem a informar-me que o táxi está atrasado. Está um dia lindo, cheio de sol, mas gelado de congelar passarinhos nas árvores. Espero, espero e nada. O táxi continua atrasado. Passado algum tempo, mais do que justo para um atraso aceitável, desisto e resolvo ir a pé até ao ponto de táxis. Antes disso, ainda tenho tempo de dar todas as moedas que tenho no bolso a um velhote que me cativou desde o primeiro dia que cheguei a Génova. As duas razões foram: ter um cão ceguinho que passou a reconhecer-me e a ladrar sempre que me chegava perto deles é o dono, sempre que me via, dizer "Ciao Bella". Hoje, lá estava ele, sentado no mesmo lugar de sempre mas sem o cão. Há muito tempo que não o via porque agora vou de boleia para o trabalho e não de metro. Como após 8 meses de Itália, pouco ou nada aprendi de italiano, não consegui perguntar-lhe pelo cão. 

No táxi, a caminho do aeroporto, abro o meu email  para confirmar a hora de chegada a Roma e percebo que o vôo é às 10 e não às 11:25, como havia pensado. São 09:35. Podia ter desmaiado, ou ficar com taquicardia, ou com uma crise de asma, ou ter vontade de vomitar, ou... Não, como adulta quase nos 40, inspiro e penso que entrar em pânico não resolverá nada. Que atitude tão sensata! Não me reconheço! Está uma fila imensa de trânsito. Ao lado vejo o que resta da ponte Morandi e ao fundo os Alpes marítimos cobertos de neve. Convenço-me que há sempre coisas piores.

Chegada ao aeroporto, faço o habitual, vou em direcção aos balcões da Alitalia para despachar uma mala. Neste caso, para dizer que perdi o vôo das 10 porque achei que era às 11:25. Ninguém se interessará com a explicação, que neste caso nem faz sentido algum, que uma adulta quase nos 40 ainda confunde a esquerda com a direita, que nunca diz as horas em número maior que 12 porque se confunde com os significados, confunde os dias da semana em italiano e francês... E poderia dar muitos outros exemplos que me encheriam de vergonha, esse sentimento que não me abandonará nunca. A verdade é que toda a gente fará um sorriso forçado de pena e não se empenhará de forma alguma em ajudar.

As funcionárias da Alitalia fazem aquele sorriso piedoso de quem não tem nada a ver com isso e que a resolução não faz parte das funções delas e mandam-me para o balcão da emissão de bilhetes. Aí, como se fosse um favor que me estavam a fazer, dizem-me que não existe nenhuma reserva, que tenho de telefonar para as reservas da TAP e resolver o meu problema. Aqui começa a saga italiana. Mais de hora e meia num telefonema com operadores da TAP que parecem autómatos em vez de humanos. Este telefonema não resolverá nada que não seja a troco de muito dinheiro. Durante estas quase duas horas andei entre o balcão da Alitalia, balcão de emissão de bilhetes, sentada numa cadeira ou de pé às voltas não sei de quê. Hoje, como pratico todos os dias da minha vida, confirmo que apesar de não sermos pagos para ser boas pessoas, seremos sempre melhores se para além de sermos bons naquilo que fazemos, ou pelo menos tentarmos o melhor que sabemos, ajudarmos os outros como pudermos. 

Primeiro falei com uma pessoa do sexo masculino da TAP, que foi bastante simpático, não decorei nem apontei o nome mas ao qual expliquei, muito breve e sucintamente, o meu problema.  Ele garantiu-me que me iria transferir a chamada pra outro operador e que não não iria, garantíramo-nos, perder o vôo de ligação  das 11:25 de Genova para Roma. Este senhor passou-me a ligação para outra senhora, de nome Bárbara Ferreira, que obviamente não por culpa dela, demorou mais de 30 minutos a atender-me. Em vez de fazer um testamento sobre o que me tinha acontecido fui objectivamente ao assunto é expliquei-lhe o que dela precisava. Perdi a noção do tempo que esta senhora precisou para dizer-me o que vem a seguir, mas sem esquecer de referir-lhe que caso demorasse muito eu perderia a hipótese de embarcar no vôo das 11:25. Pois bem, após um tempo que está registado no meu telemóvel e a ouvir a música cantada pela Carminho e Paulo Gonzo (será?) esta senhora diz-me que para eu conseguir os vôos de Génova-Roma e Roma-Lisboa teria que pagar qualquer coisa muito perto de 600 euros e não seria em executiva. O mundo parou. Na terra de Colombo, no país do homem que descobriu que a Terra é redonda e que a terra anda à volta do Sol, o meu mundo parou. Como?! O meu bilhete é em executiva, no último ano fiz uma média de mais de 30 vôos na TAP e o que têm a propor-me é isto? Já que tenho tempo porque o vôo das 11:25 está perdido, e perder mais do que o que já perdi não é possível, decido fazer o melhor monólogo que tenho memória, sem auxílio de qualquer nota. Esta senhora ouviu-me com a atenção dos fiéis na homilia. Relembrei-lhe o quanto a TAP é criticada por tratar mal os clientes, de toda a gente que conheço, viajante assíduo de aviões, ter preferido outras companhias, da minha defesa patriótica da TAP porque às vezes acontece, de ignorar os atrasos, de ignorar os funcionários que só actuam "by the rules" e nunca encontram a melhor solução para o cliente, das 8 H de trabalho dos funcionários que como ela estão no quentinho de uma sala confortável e que têm um trabalho garantido, quer tenham um bom ou um mau desempenho e a descrição minuciosa da história inesquecível com a Lufthansa (*). A Sra D. Bárbara Ferreira aguentou estoicamente e respondia sempre com um pedido de desculpas ou que não podia fazer mais nada.

(*) Há uns meses eu tinha um vôo Lufthansa para Lisboa para ir à Embaixada de Itália. Quando chego ao aeroporto de Génova o vôo para Frankfurt estava atrasado uma hora, o que iria comprometer a minha ligação para Lisboa. Expliquei a situação a uma funcionária, e sei que foi um exemplo excepcional e sem repetição. Esta senhora, sem me conhecer de lado algum, tentou todas as hipóteses para me fazer chegar a Lisboa sem que eu perdesse o meu compromisso. Eu tinha um bilhete em econômica, nada mais. Esta senhora, que não sei o nome mas de quem me lembrarei toda a vida, disse-me para apanhar um táxi para Bolonha onde tinha um reserva para ir para Lisboa. Foram 550 euros de táxi que a Lufthansa me pagou em 3 semanas, tendo como prova um recibo de táxi manuscrito. Querem dizer-me que as empresas de aviação não têm comportamentos diferentes? Ou que os funcionários estão habilitados a resolver os problemas dos clientes de forma a que haja algum entendimento?

A Sra D. Bárbara Ferreira, durante o meu longo monólogo, deve ter colocado uma melhor banda sonora e na sua voz de enfado, daquelas que não ficam melhores uma oitava abaixo, diz-me: "se quiser assegurar os vôos é X". É aí começo a perceber que um problema maior toma conta de mim: perdi o meu telemóvel italiano! Faço um rápido raciocínio e desloco-me aos sítios onde estive. Em nenhum dos lados o encontraram. Mas não posso ligar para esse meu tlm italiano porque estou ao tlm com a Sra D. Bárbara Ferreira. Aqui comecei a relativizar os meus problemas. Como a minha cadela quando faz asneiras, coloca aquela cara de cadela com os olhos mais tristes do mundo e arrastar-se na minha direcção, em bom português, ponho o rabinho entre as pernas e mudo de drama. Ficar sem vôo e discutir  com uma senhora que haveria sempre de me dar a mesma resposta fosse qual fosse o nível dos meus argumentos ou encontrar o telemóvel? Eis a questão. Mudo de rotação. A minha prioridade passa a ser em busca do tlm perdido.

Para quem me conhece, sabe o meu nível de conhecimentos informáticos. Mas há uns meses instalaram-me uma aplicação, caso perdesse o iPhone, para o encontrar. Foi o que fiz. Em poucos minutos sabia que o tlm estava no aeroporto de Génova. Fui a todos os sítios onde tinha estado, que não foram muitos, e não o encontraram. Tinha quase a certeza que tinha caído do bolso das minhas calças. Um clássico! Fui aos “perdidos e achados” e também não tinham entregue tlm algum na última hora. A seguir, fiz o habitual, liguei e esperei. Nas primeiras vezes o tlm tocava mas houve uma vez que foi para o voice mail. Comecei a ficar preocupada. Perdi a conta do número de vezes que subi e desci a escadas do aeroporto de Génova, que separam o segundo do primeiro andar, com duas malas. Como última tentativa tentei a abordagem da segurança. Falei com o responsável da segurança antes do embarque e expliquei-lhe o que me tinha acontecido. Em poucos minutos contactam-no e disseram-lhe que entregaram um iPhone todo partido nos “perdidos e achados”. Era esse mesmo. 

Já em Roma, caminho em direcção à Lounge da Star Alliance. Passa das 4 da tarde e ainda não almocei. Todas as comidas aparentam óptimo aspecto mas a minha constipação e o meu estado febril não me deixam aproveitar. Como apenas alguma coisa. Ainda durante o tempo que me separa do vôo que me levará a Lisboa, não resisto a um aperol Spritz. Dessas horas resultou este texto. O que começa mal pode acabar bem. E foi este o caso. Como me perguntou um amigo: “como te ris?”.  Não tenho nenhum motivo para não o fazer.




terça-feira, 17 de julho de 2018

Bagni Santa Chiara

Domingo, 15 de Junho 2018
Ontem à noite dizia a um amigo que estes 4 meses em Itália tem sido muito bons. Ao contrário do que muitos temiam, voltar (só) a trabalhar no laboratório revelou-se ser o meu mundo. Apesar das muitas horas de trabalho, dos muitos stresses, de muitas noites de pouco sono e mal dormidas, dos fins de semana a trabalhar, das horas tardias já noite cerrada que saio do lab, das poucas horas em casa, das inexistentes palmadas nas costas, das crescentes contas de táxi, da pouca frequência das praias de Génova, tenho-me sentido muito bem. Gosto de quase tudo. Hoje, pela primeira vez, vim à praia. Quer dizer, se isto se pode chamar de praia. Tem mar mas não tem areia nem sequer pequenas pedras. Apenas não mais do que 100 m de cimento dividido por duas zonas onde se pode estender uma toalha por 5 euros, numa descida. Ou uma zona com esteiras (sem chapéu de sol) onde se paga 15 euros. Nem o taxista conhecia a praia. Deixou-me no cabo de Santa Chiara. Depois foi confiar nas indicações do Google Maps. Primeiro passei pela praia do cabo de Santa Chiara. Cheia mas agradável e com muitas esplanadas. Comecei uma subida íngreme. O Google maps começa a dar-me a indicação de virar às direita mas achei o caminho estreito demais e resolvi virar mais à frente com a ténue esperança  que as várias praias fossem ligadas. Comecei a descer e à medida que me ia aproximando da praia mais o barulho aumentava. Vou dar a uma pseudo praia que era a visão do inferno. Muita gente. Muita confusão. Espaço nenhum. Tudo mau. Volto para trás. Subir as escadas íngremes. Volto ao mesmo sítio. Digo mal da minha vida. Penso em desistir e voltar para casa. É nestas alturas que acho que parar de fumar não melhorou em nada a minha resistência física. Tenho quase 40 anos, mas  quem me vê neste estado de hiperventilação, não dá nada pelos meus pulmões. Páro para recuperar algum fôlego. Já no topo do caminho cruzo-me com uma simpática senhora de nome Paola. Fala-me em todas as línguas menos inglês. Mesmo assim conseguimos comunicar. É uma daquelas italianas que não se consegue adivinhar a idade, disfarçada por algumas cirurgias plásticas. Como todas as italianas deste género é magra e tem uma cor à la Valentino, de quem apanha sol desde Abril. Acompanha-me até ao bar por cima do mar e diz-me que é a única praia a que ainda se pode vir. Este é um dos segredos mais bem guardados de Genova. É uma praia que não chega a ser.  A “praia” não são mais do que 50 m. Existe uma descida de cimento que alugam por 5 euros onde se pode estender toalhas e uma zona plana de cimento com camas sem chapéu de sol por 15 euros. As pessoas estão ali a fritar o dia todo. No bar vejo o que os italianos têm de pior. São exactamente iguais aos portugueses nisto. A mesma “esperteza saloia”. Uma família de 3 gerações ocupa todas as camas que há como se o bar fosse todo deles. Mais ninguém as pode usar. Dizem que hoje é o dia mais quente do ano. Provável. Senti-o de noite. Pela primeira vez dormi de janela aberta. 

Passo aqui o dia. Olho o Mediterrâneo. Não tem a cor que imaginava, apesar da água transparente. Leio. Escrevo. Como dizia Sophia “viajar é olhar”. Comer, beber, conversar, viajar. As quatro coisas mais importantes do mundo. 










domingo, 24 de junho de 2018

Génova - Milão - Verona - Trento

Viagem de 5 horas pela frente. Duas mudanças de comboio. Dia escaldante. Verão (quase) tropical. Tudo brilha de tão húmido. Passa pouco das 8 da manhã e já tudo parece derreter. No comboio para Milão, quase cheio, são sobretudo turistas. A temperatura é quase glacial e obriga-me a vestir uma camisola. Ao meu lado está um senhor, que parece meu avô, impecavelmente vestido. Lê o jornal "La Repubblica" e tem uma pasta. Em frente e ao lado dele estão duas mulheres que falam espanhol. Não lhes presto muita atenção mas uma delas tem uma voz linda. Grave, quase rouca. Quando a vejo levantar, para dar lugar a outra pessoa, reparo como é alta. Num olhar mais atento reparo no excesso de silicone na cara e no nariz cirurgicamente desenhado.   Tem umas mãos lindas, grandes e magras e uns dedos compridos, proporcionais ao seu tamanho. Milão, mudança de comboio para Verona. O cenário muda completamente. O comboio é regional. A temperatura é infernal que só piora com o cheiro a gente. Não existe lugar para todos. Há mais bilhetes vendidos do que lugares. É "tudo ao molho e fé em Deus". Mais de uma hora de viagem pela frente nestas condições. Eu, pelo menos, estou sentada. Ouço  um murmúrio de duas jovens americanas que se questionam como é possível venderem mais bilhetes se não existem condições. Um olhar rápido em volta percebo a presença das pessoas non grata do actual governo italiano. Mulheres grávidas a pedir. Uma jovem com um bebé ao colo e outra pela mão que não devem ver água do banho há muito tempo. A criança pela mão parece uma pena, caminha à velocidade da mãe e mal pousa os pés no chão. Parece voar. Os meus olhos prendem-se nos dela. Apetece-me dar-lhe tudo o que tenho mas sinto-me tão incapaz e impotente. O que ajudá-la hoje mudará na vida dela? E depois lembro-me do actual governo italiano composto por gente da extrema direita, racista e nacionalista. A última do Ministro do Interior, depois de proibir um barco cheio de refugiados de atracar num porto italiano, foi querer expulsar albaneses, romenos e tunisinos. Este já é o Trump europeu. Mas o mais escandaloso é que é aplaudido pelos italianos a qualquer lado que vá. Lembro-me que do outro lado do oceano Atlântico está um presidente eleito democraticamente que separa pais e crianças que tentam a sua sorte ao atravessar ilegalmente a fronteira dos  Estados Unidos. Eu que não tinha televisão até há uma semana atrás e não via notícias que não fosse em jornais ou o que ouvia falar. Comecei a ver as imagens e a ouvir os lamentos das crianças em gaiolas. E não consegui. Não consigo ver aquilo. Isto passa-se no séc XXI. No país que foi um dia a terra das oportunidades, que acolheu refugiados e alguns dos quais se tornaram grandes nomes americanos. O que representava ser americano está a morrer. Não percebo como é possível acontecer esta monstruosidade em pleno ano de 2018. A maldade do ser humano não tem limites.

Verona é a próxima mudança de comboio. Como uma focaccia alta e bebo uma Don Pellegrino. O comboio, apesar de regional, não vai cheio, a temperatura é baixa e a limpeza faz-me pensar que entrei noutro país. A paisagem muda. Os vales e planícies dão lugar às montanhas. As casas fazem lembrar-me a Áustria e a Suiça. Lembro-me que estou a caminho do Tirol. Os Alpes do Marco. Próxima e última paragem: Trento. O calor é abrasador. Tarde nublada. Humidade quase insuportável. A pele brilha. No parque junto à estação, pelo qual passo a caminho de uma das faculdades, tem a estátua de Dante. O tamanho do parque mostra o quão pequena é a cidade. Não parece que estou em Itália. Os carros param nas passadeiras. As tuas estão limpas. As pessoas falam baixo. Até fenotipicamente são diferentes. Começo a ver sandálias com meias. O outfit diz (quase) tudo. Paro numa gelataria. Depois de uma bola de gelado de limão e outra de pistachio faz-me achar que foi uma das melhores gelatarias onde estive. A cidade está rodeada de montanhas e sinto-me como num caldeirão. A sensação é que não há para onde fugir. Antes da hora combinada chego ao destino. Espero, como sempre. Não me importo porque tenho um livro. Uma hora depois estamos a caminho do que deve ser uma das praças mas famosas da cidade, em frente ao Duomo. Na uma hora e meia seguinte beberemos 2 copos de vinho branco e 2 aperol spritz. Quero provar a famosa bebida Hugo mas não servem. O que me trouxe aqui vale bem esta hora e meia e as dez horas de viagem. E tudo o que eu queria, consegui. Há melhor sensação? A caminho do hotel ainda me sento noutra esplanada a beber outro aperol spritz. Decido apanhar um táxi. Fico num bom hotel da cidade porque depois de cinco horas de viagem acho que mereço. São 8 da noite e o quarto está frio. Tudo o que queria. Bebo água e deito-me. Adormeço, não antes de pedir que me acordem às 7. Acordarei por volta da meia-noite e voltarei a adormecer. Tomarei o pequeno-almoço, o mesmo de sempre. E reclamarei, como sempre, desta nova moda de leite em pó. Que saudades das antigas cafeteiras de leite e café. Às 8 um táxi espera-me. Cinco minutos depois estarei na estação. Vinte e sete minutos depois apanharei o comboio que me levará a Verona. Aí mudarei para outro para Milão, onde farei uma mudança para Génova. Viagem sem percalços. Estarei em Génova antes das duas da tarde. O taxista, simpático, coisa rara em Génova, dir-me-á que devo ser muito inteligente quando lhe digo o meu destino: Instituto Italiano de Tecnologia. Ainda chegarei a tempo de almoçar na cantina. E 30 minutos depois estarei a tirar fotos no "meu" microscópio. Apesar de muitas imagens de merda, não perco o entusiasmo. Será este mar e esta temperatura que me fazem ser optimista?







segunda-feira, 4 de junho de 2018

O chefe

Pastelaria mais antiga da cidade. Agora, um misto de bar, restaurante. Fim da tarde. A disputa de mesas é grande. Vejo várias pessoas que desistem de esperar por uma mesa e pessoas que depois de terem uma mesa desist porque a espera é muita. Os funcionários são muitos e têm o medo estampado na cara. Parecem não poder estar parados. Falta-lhes cor. Mas a maioria dos clientes tem uma cor que eu não consigo nem depois de um mês na praia. As bebidas mais pedidas são negroni e aperol spritz. Percebo o temor dos funcionários com uma pessoa que foi muito simpática comigo e me sentou. O homem só é simpático com os clientes porque para os funcionários só grita e gesticula. Mas para os clientes transforma-se. É o chefe. Sempre ele. Austero. Cara fechada. Fato impecável. Alto. Hirto. Os funcionários temem-no. Passei uma hora aqui a apreciar. Até me distraí de ler. Apesar de toda a gente ter sido mais do que amável comigo, dificilmente voltarei.  Trabalhar não é isto. O medo não deve fazer parte da nossa vida em tempos de paz. Nada o justifica. E os chefes não podem ser ser isto.

quarta-feira, 28 de março de 2018

Uma volta de 180 graus


Tenho 38 anos. Um emprego pela primeira vez na vida. Um contrato por 2 anos, com tudo a que um trabalhador tem direito. Mas, para isso, tive que mudar a minha vida toda. Deixei a minha casa com tudo o que de confortável e conhecido tem. Os hábitos. Uma cadela que encontrei quando ela tinha 4 meses e da qual achei que nunca me iria separar. A família, Os amigos.

Não é a primeira vez que mudo na vida. Já vivi em 3 cidades diferentes. Esta é a quarta. Braga, Houston, NY, Genova. Durante anos, com tantas mudanças de casa e 3 cidades, não me sentia em casa em parte nenhuma. Mas depois de alguns anos seguidos em Braga comecei a sentir que pelo menos aquele apartamento fora sido preenchido à minha imagem. Começar de novo com uma mala de 32 kgs, uma mala de mão e uma mochila. Tudo o resto ficou para trás. Desenhei um cenário catastrófico. Pensei que não ia gostar de nada e criticar tudo. Está a ser mais fácil do que pensava. Diria que são duas coisas muito importantes: o tempo e as pessoas. As pessoas são o melhor. Acolhedoras. Simpáticas. Mesmo sem partilharmos a mesma língua conseguimos perceber-nos. Falam muito com as mãos. Falam alto. Riem muito. São parecidas, nas qualidades com os portugueses. Felizmente, como diria o Eça não têm o aspecto desconsolado dos doentes dos intestinos. Vivo pela primeira vez na vida em frente ao mar. Mas não há a angústia do mar. Apesar de haver dias com ou sem chuva, cinzentos, o mar nao adquire aquela cor depressiva cinza chumbo. Não tenho elevador. Vivo num quarto andar. O local de trabalho é bom. Deram-me um computador, 3 batas brancas e duas azuis. Tenho 2 cacifos e uma secretária. A cantina e o bar são óptimos. Bom, bonito e barato. Comida boa a preço de cantina. Estou viciada em cappuccinos. E na simpatia das senhoras do bar. Sinto-me acolhida. Aqui não tenho carro. Felizmente, dizem os meus amigos. Com as ultrapassagens  que fazem pela direita e esquerda, não demoraria muito a causar uma tragédia com as milhares de scooters. Um destes dias deixaram-me em frente a casa, e apesar do aviso  para ter cuidado com a porta e com as scooters, causei estragos. Ando a pé, de metro e de autocarro. Acho os transportes eficientes, embora o metro feche às 9 da noite, ridiculamente. Os táxis são caros mas muitas vezes, por preguiça, não lhes resisto. Ainda tenho uma casa praticamente vazia, só com o indispensável. Mas dizem-me que agradável, parece uma casa de praia. Ainda não tenho internet ilimitada nem telemóvel italiano. Foi este o grande problema encontrado e que mais demorei a resolver. Todos os outros foram rapidamente solucionáveis. Não tenho televisão nem vou ter, eu que não adormecia sem ela. Não tenho fotografias. Trouxe 10 livros. Ainda me custa olhar para os cães e para crianças e não ter saudades. Falo todos os dias com as mesmas pessoas que falava em Portugal, até mais. Saudade é a palavra que mais me ocorre desde que me mudei. Quem, quando está sozinho, não se intimida com o silencio? Planos, ao contrário do que esperava, não faço a longo prazo. Só (ainda) não consigo conjugar os verbos no futuro. No presente, sempre no presente. Sobre o texto da mudança, uma das minhas amigas achou-o triste. Falhei o objectivo porque nada nele é triste.
Tenho dinheiro, mais do que algum dia. Mas quero coisas que ele não compra.




quinta-feira, 22 de março de 2018

Mudança

Munida de uma mala grande, uma mala de mão e uma mochila tenho a sensação de que faltará sempre alguma coisa. Desta vez, como sempre, não será excepção. Combinara com o meu irmão duas horas e quarenta minutos antes, como pessoa prevenida que sou. Uma amiga iria ter comigo ao aeroporto. Na última confirmação do voo percebo que confundi 16 com 5 da tarde. As horas em 24 números em vez de doze (diferenciadas apenas pela terminologia de manhã ou de tarde) sempre foram uma dor de cabeça, como distinguir a esquerda e a direita. Percebo que estou atrasada e nenhum dos elevadores funcionava de manhã. Entro em pânico. Ligo ao meu irmão se há alguma possibilidade de me ir buscar imediatamente. Ligo à minha amiga para desistir de ir ter comigo ao aeroporto. Como detesto despedidas até o universo ajudou. A viagem até ao aeroporto parece um voo. Sem tempo nem para olhar para trás, o meu foco é entregar a bagagem. Descubro que a mala tem 12 kgs a mais. Finjo não reparar e a pessoa da companhia aérea decide ajudar e finge comigo. Não tenho tempo de pensar em nada. Tudo em mim é calor. Voo para Munique, sem sobressaltos, respirando fundo. Descubro, mais rápido do que esperava, que me esqueci do caderno onde tomo notas. Nada de muito dramático. Mas como gosto sempre de encontrar qualquer coisa, agarro-me ao que há. A espera em Munique é rápida. Sigo para Génova num avião assustadoramente pequeno. Finjo ignorar. Passados uns minutos, sentada no lugar que me foi atribuído (junto à janela e sem ninguém ao lado), começo a transpirar (coisa nada comum). Estou gelada, tremo, os dentes batem, as gotas de água escorrem-me pela testa e pescoço, a minha palidez denuncia-me porque tenho olhares a seguir-me. Tenho falta de ar. Estou em pânico mas tento não perder a pose. Demorada e disfarçadamente tiro as bombas de asma e finjo que tudo está controlado. Minutos depois estou bem, só o cabelo molhado mostra o que se passara. Tenho o R. à minha espera no aeroporto de sorriso aberto. Sinto-me em casa com ele. Saímos do aeroporto e o que mais me choca são as ruas cheias de prostitutas. Contrariamente ao que seria de esperar, são caucasianas, não têm aspecto de cadente, são jovens e são muitas. O R. deixou-me no hotel que eu escolhi pela proximidade do meu apartamento. Nunca mais voltarei a este hotel e desaconselho-o a toda a gente. Supostamente era um hotel quatro estrelas. Mas disso nem a decadência lhe restava. O recepcionista era antipático, ainda existia chave, as alcatifas estavam sem cor e em mau estado, o quarto era pequeno e desconfortável, a tv era do tamanho de um ecrã 15’’ e a limpeza deixava a desejar. Lembro-me de ter comentado com uma amiga o quão mau era o hotel e respondeu-me que era um bom sinal porque sentir-me-ia muito mais confortável no novo apartamento. Não vou alongar-me nos comentários sobre o pequeno-almoço porque nem nos motéis dos Estados Unidos é tão fraco. A segunda pessoa antipática que me apareceu foi o taxista que mostrou o seu desagrado quando lhe disse que o meu apartamento era a menos de 1 Km. Cheguei à hora marcada para assinar contrato e o apartamento pareceu-me bem melhor do que nas fotos. Na opinião dos locais, a localização não é das melhores mas eu acho conveniente. Fica a 2 minutos da entrada do metro, em frente ao porto de Génova, tem mercearia e quiosque e outras lojas de conveniência. As ofertas de cafés e restaurantes são poucas. E o bairro é multicultural e multi-étnico. Tal como no primeiro apartamento que vivi em NY, o prédio não tem elevador e vivo num quarto andar.

Passada a fase de tudo parecer fácil, como receber o ordenado numa conta portuguesa e o pagamento do depósito e renda através de transferência bancária de uma conta portuguesa para uma conta italiana, começou a aventura: ter internet e telemóvel. Fui a um centro comercial para encontrar várias  empresas possíveis. Logo na primeira, praticamente desisti. Não poderiam ter sido mais simpáticos comigo e falavam inglês.  Depois mais de uma hora, de várias explicações, tentativas de pagamento com cartão de crédito português chegaram a um veredicto: só poderia fazer contrato de internet com um cartão de crédito italiano ou um cartão especial que se adquire nos correios chamado POSTPAID EVOLUTION. Os simpáticos disseram-me para ir aos correios italianos (Poste Italiane). Depois de andar 15 minutos a pé, disseram-me que para ter este cartão só com o código fiscal original (eu só tinha uma cópia) e o “attestato di soggiorno”. Regresso à loja e informo os simpáticos que não é possível. Como estou num centro comercial, aproveito e compro um microondas e improvisei o transporte com um carrinho de ir às compras. Chegada a casa subo quatro andares com o microondas. Volto ao hotel, onde deixei a mala com 35 kgs e regresso a casa de táxi. Demorou exactamente 25 minutos entre paragens entre degraus, vãos de escada e vontade de deixar (simplesmente) cair a mala no sentido da gravidade... O resultado foi bolhas nas mãos idênticas a quem levanta ferro nos ginásios, obras e afins.





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