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terça-feira, 7 de novembro de 2017

Insone

Acordo. Ainda é noite. Sinal que adormeci. Não consigo adivinhar as horas. Abro os olhos. Não acendo a luz. Sempre às escuras. Tudo me parece um sonho. Olho para o relógio e vejo que é agora. Percebo que esta é a realidade. E tudo volta. Uma elipse. A noite que que não acaba. O dia que tarda. A contagem decrescente. A espera. A dúvida. A incerteza. A angústia que parece não ter fim. Morro todos os dias um bocadinho mais. Na ironia do dia claro, o horóscopo na mesa do café: "Excelente momento para ter conversas esclarecedoras e chegar a pontos consensuais com pessoas que lhe interessem. Fase interessante para ajustar questões de relacionamentos, ter conversas importantes com pessoas que lhe são caras. O momento é de associação, favorecendo também contratos e uniões, ainda que temporárias, em prol de um objectivo em comum".
Será tarde?

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

“Ando tão à flor da pele que qualquer beijo de novela me faz chorar”

Morrem crianças de fome em África. Refugiados de todo o Médio Oriente fogem para onde não tem saída. Vivem miseravelmente em campos ( dizem que temporários). Portugueses que ficaram sem nada nos incêndios. O mundo anda ao contrário.  A chuva teima em não cair. A luz é de outono mas o calor é de verão. Nada combina. A noite chega mais cedo. Os dias são mais tristes e menores. As castanhas são o pronúncio outonal em “magoados fins de dia”.

É imune a (quase) tudo. Empedernece, cada dia, um pouco mais. Será a distância da imagem? Tudo longe via televisão.

O que a devia incomodar, desvaloriza. O que devia desvalorizar, derrota-a. Coisas insignificantes (ainda) a surpreendem.  As noites são mais demoradas. Tem mais horas que o comum dos mortais. Mas, infelizmente, “quem não dorme não sonha”.  

À frente, no aeroporto,  vai um menino de óculos, chupeta e fralda, guiado pela mão da mãe. Estão felizes, nota-se. Mas ela,  desfaz-se.  Vai embora. Chegou o inverno.

Pensou que estava curada, depois de ter vivido o inferno. Mas o esgar da realidade (re)lembra-lhe como o castelo de cartas pode desabar num segundo. Esta é a fronteira ténue do que parece estar bem. A tão escondida fragilidade. Apesar de parecer impassível. O que é que fez com o pouco que passou a nada? Dizem que tudo passa. Um princípio e um fim.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

O momento que (se) foi

Partiram, juntos, rumo a coisas diferentes. Eram amigos há muitos anos. Ele ia atrás de um (possível) amor. Ela ia fazer-lhe companhia. Dias antes da partida envolvera-se com uma pessoa. Não tinha sido nada (relevante). (Talvez) uma promessa de (algum) futuro. Na penúltima noite, antes do regresso, saíram. Na hora de irem embora do bar, alguém (re)conheceu-lhes o idioma. Ele era alto, loiro, o fenótipo nórdico. O típico homem bibelot. Mas entendia e falava (mal) português. Estivera um ano no Brasil. O tal do português com açucar. Um encontro casual. Apenas isso. Um desconhecido. Falaram muito e trocaram números de telefone e a promessa de um encontro no que seria o último dia.

Abriu-se com um desconhecido. Contou-lhe tudo. Sem medo de ser julgada e de se expor. Dos medos às paixões. Das fobias aos deslumbramentos. Da vida à ficção. Do que era e do que gostaria que fosse.

Passaram a noite juntos. Na maior intimidade. Mas não houve sexo. Como se aproveita o tempo que resta? Como se eterniza o momento?

Há pessoas que escolhem culparem-se por não ter acontecido, por não terem tido coragem de deixar acontecer, outras escolhem deitar fora o mau, outras fazem por esquecer, outras reprimem-se, outras não se permitem que aconteça, outras em dias menos maus preferem acreditar que guardaram o bom. Nunca perder o momento é tudo. O que é o fado e o destino? Como se os finta?

O que poderia ter sido? A resposta que nunca será respondida. A (in)certeza do nada que (não) existe. O nada não existe na natureza.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Um poço de defeitos

Dorme pouco. Se pudesse, trabalhava de noite e dormia de dia. Ri muito. Fala pouco. Ouve mais. Só faz o que lhe apetece. Ignora todos os conselhos. A teimosia é o seu elo mais forte. Pragmática nas breves e directas constatações. Nunca desiste. Dizem que não aceita limites. Dizem que não sabe ouvir um não. Quer sempre tudo. Nunca faz escolhas. Tem sofreguidão de viver. Abusa da retórica. Tem uma deficiência social. Não sabe avaliar pessoas. Trata toda a gente de forma transversal. Erra muito. Pede (muitas) desculpas. Diz muitos sins. Volta (muitas vezes) com a palavra atrás. Nunca diz nunca. Tem poucos amigos. Gosta pouco de pessoas. Dizem que foge. Chata. Insistente. Tem memória de peixe. Gosta de analisar. Nunca é directa. Enrola muito. Tem um humor judeu. Detesta a palavra “enfim”. Quase não gosta de música. Não percebe nada de cinema. É uma ignorante cultural.Tem medo. Vive a vida com excesso. Vive como se o amanhã não existisse. Protege-se do sentimento. Escuda-se muito. Não usa referentes nem contextualiza. Não entende nada de contextos sociais. É exigente. Dizem que é literal demais. Nunca pára. É passiva-agressiva. É racional. Dizem que não é racional. Tem mau feitio. Agarra-se a detalhes. Melga as pessoas com explicações. Discute (muito) o sexo dos anjos. Precisa que lhe eduquem a sensibilidade e o gosto. Dizem que tem falta de empatia. Manifesta incapacidade de perceber como os outros estão a reagir. Usa a frase “faço gosto”. Deslumbra-se muito com NY. Abomina a palavra “TOP”. Tira fotos a comida e faz tags de restaurantes. Atira-se para fora de pé. Despreza pessoas de quem não gosta.  É provinciana. É vaga e evasiva. É altiva e arrogante. Não é concreta. Foge de todas as respostas. É cobarde. Tem um coeficiente de verbalização emocional negativo. Não se foca. Tem falta de tacto. Não pensa antes de abrir a boca. Dá respostas de merda. Relativiza tudo. Desconversa. É absolutamente redutora e facciosa em relação aos ideais políticos de esquerda. É info-excluída. Só fala duas línguas. Ponto.


sexta-feira, 21 de julho de 2017

Suicídio

Ligou-lhe à noite quando estava a regressar do trabalho. Era primavera, passava das 9 da noite e ainda era dia. Ainda não tinha jantado. Nesse dia, a última refeição que fizera tinha sido o almoço. Só queria chegar a casa e deitar-se de tão exausta que estava. Guiava em piloto automático. Recebeu um telefonema. Não estranhou porque lhe ligava frequentemente a essa hora. Estranhou, apenas, ter sido para o telemóvel. Era sempre para casa. Nunca o ouvira chorar ao telefone. Só o vira chorar nos surtos psicóticos. A conversa não foi longa nem com rodeios. Foi directo ao assunto:

- Estou a ligar para me despedir. Já liguei a toda a gente. Sou um problema para toda a gente.

Sem experiência em nenhuma situação parecida, a primeira reacção foi o desespero. Mas numa fracção de segundo, disfarçou. Tentou raciocinar. Dissera-lhe que esperasse porque estava a caminho. Ocorreu-lhe ganhar tempo e mantê-lo em linha para que não o fizesse. Tentou saber mais. Percebeu, tarde demais, que a asneira estava feita e que o caminho era irreversível.

Não chegou a tempo, por mais que tudo fizesse. E só a esperança de encontrá-lo vivo a fez voar. Estava vivo, de facto. Mas a fronteira entre a vida e a morte é muito ténue. Estava vivo, sim. O coração ainda batia. Mas já não a ouvia. E nunca mais voltou à consciência para a ouvir.

Percebemos, depois, que planeara tudo ao pormenor. Organizara as contas. Telefonara aos amigos, aos familiares, aos que magoara, aos que esperaram por ele e a quem nunca apareceu. Mas ninguém percebeu. Nunca fez um ultimato. Nem um pedido de ajuda. Nem uma ameaça. Nem um acerto de contas. Pagou todos os jantares, como antes, e combinara os próximos. Dissera: “Pagas o próximo”. Tudo fez para que não o percebessem. E o último telefonema foi para ela. Como se vive depois disto? Como se vive sem conseguir evitar este desfecho?

Nunca mais deixou de ter tempo para não ouvir. Nunca mais adiou para amanhã, para depois. Nunca mais disse que não. Com isto aprendeu que, de facto, a vida tem um fim. E que o fado e o destino não existem.

terça-feira, 13 de junho de 2017

De amor ou por amor (não) se morre

Tem os olhos da Bette Davis e a beleza da Audrey Hepburn. Escondeu-se do mundo, no seu refúgio, como a Greta Garbo. Embora este refúgio não seja  NY nem as montanhas suiças. A vida não lhe tem sido fácil. Foi deixada. Como se reage a ser-se trocada, quando a dependência era tanta, mas não se tinha consciência? Nada é sentido até ser provado.

O tempo passa. Ninguém morre de amor ou por amor, dizem-lhe. Começou a levantar-se, aos poucos, da cama. Começou a sair à rua. Passou a dormir de noite e não de dia. Começa a ir trabalhar. Começa a ultrapassar. Começa a gargalhar. Riso sincero. Está feliz, de verdade. Por um instante. Aqueles instantes que parecem durar uma eternidade. Tudo, por agora. Muito. Luta todos os dias contra a depressão. Ri muito, publicamente. Chora, sozinha, na solidão do quarto. Não exibe a sua tristeza. Disfarça-a parecendo bem. Sempre em guerra permanente consigo própria. Não esmorece. Parece o ponto de apoio de Arquimedes. O Cabo da Roca. Não se queixa. Não é desagradável. Não é cruel. Não magoa ninguém. Não se tornou amarga, apesar de tudo. Todos os dias pensa em matar-se. Pensa nos pormenores. Uma morte catártica. Atirar-se de uma ponte. Atirar-se de uma janela. Atirar-se de um telhado. Ou um suicídio anónimo, daqueles que nunca se saberá se foi um erro ou uma chamada de atenção a tempo de ser salva. Deixar-se adormecer, eternamente, com uma série de comprimidos certos e com concentrações correctas, sem margem para erros. Afogar-se numa banheira. Cortar longitudinalmente as artérias radiais até esvair-se em sangue. Sentar-se numa cadeira e dar um tiro, que pode falhar. Enforcar-se. Ou combinações destas, para (tentar) não falhar. Mas depois pensa no tempo que isso demora. Pensa na beleza das pequenas coisas. E no sofrimento dos últimos momentos. E se alguém a encontra antes do ponto final. No medo do desconhecido. Nas coisas que ficarão por dizer e por explicar. Na culpa dos outros e no que isso lhes provocará. E no que estará por vir. E o que virá depois desta realidade. E desiste.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Não me deixes só, Jesus

Foi esta a sua primeira prece. Dois dias antes do Natal. Já havia passado a maior das provações há 13 anos. Pensou que morreria. Mas sobreviveu. E agradeceu sempre, por isso. Treze anos depois, a tragédia volta a bater à porta. Este número santo. Só que desta vez, pior. Como as espadas do coração de Nossa Senhora das Dores. Sem nenhum analgésico químico que o pudesse acalmar. Vivia a maior das alegrias. O maior dos descobrimentos. Voltara a acreditar no (verdadeiro) amor. Encontrou o amor. Soube o seu verdadeiro significado. O que era realmente. Soube que existia. Sentiu-se abençoado.

Tinha uns olhos cheios de vida. Reflectiam a alegria e sede de viver no alto dos seus tão jovens e tão poucos anos. A juventude no seu esplendor. Curta, muito curta, como a vida. Subtil. Delicado. O maior encontro de bons adjectivos reunidos numa pessoa só. Tão raro. Quase impossível. Mas o improvável aconteceu.

Há um mês dançara, como se não houvesse amanhã entre o seu amor e amigos, na festa "Dança com ela". A dançar junto. Muito. Solto. Lindo. Muito contente. Com toda a gente. Alegria. Muita alegria. Para dar e vender. Alegria agora e amanhã e depois e depois de amanhã. Como uma espécie de celebração. É disso que muitos se lembram e lembrarão. Aquele rapazinho de 20 anos com uma vida cheia de sonhos pela frente. Como se espera  de uma vida com uma idade que não se espera ter um fim.

Um episódio agudo de asma. Tudo parou. Abruptamente. A vida por um fio. Na corda bamba. Primeiro o sufoco, como um peixe fora de água. A agonia. O desespero. Os braços a debaterem-se. A tentar agarrar qualquer coisa (palpável). Ar. A dor. A perda. O silêncio. A falta de movimento. E por fim, o grito aterrorizador de quem assistia sem nada poder fazer. A inércia. A  impossibilidade. As lágrimas. Quem habilitado estava, tudo fez. Rápido. Certeiro. Sem erros. Mas a natureza é assim. A vida é assim. (Im)perfeita. E as dúvidas são sempre maiores que as certezas.E a maioria das perguntas  (nunca) tem resposta. Mesmo quando tudo é feito, pode não ser o suficiente. E foi o que aconteceu. Paragem respiratória. Seguida de paragem cardiorespiratória. Reanimação. Demasiado tempo de manobras. O corpo (demasiado) jovem foi velado horas a fio como se as preces, o tempo, a energia positiva pudessem modificar o tempo e a natureza. O desfecho definitivo. O ponto final. Uma morte trágica à (boa) maneira grega. Num palco cercado de expectadores e luzes, perante a inércia da medicina, da ciência e da humanidade. Nada foi suficiente. Afinal, não somos nós que decidimos (nada). Nada mandamos. Assistimos inertes a um acontecimento inesperado com uma solução irreversível. O que falhou? O que se poderia (mais) ter feito? Para onde vão as palavras que não são ditas? O maior dos mistérios.

Acabara de descobriu o amor. Soube que essa verdade que apregoam, existe. Levou-lhe o coração. Não deixou (quase) nada. A não ser memórias. Tantas. Tão boas. Duvidaram deste amor sem idade. Uma diferença de mais de 20 anos. Adeus. Esta palavra tão definitiva.Tem o coração despedaçado. Sem conforto. Tem a dor como companhia. Encontra-se prostrado. Sente-se sem forças. Ouvem-no chorar. Mas sente-se abençoado, apesar de tudo. Tocado por um anjo. A juventude é (quase) incompatível com a morte. Todas as mortes são injustas quando amamos. Mas, tem o consolo ténue que a vida do seu amor fará "renascer" muitas outras. Por isso, a sua morte nunca será em vão.

Mas, o que aprenderá com esta dor dilacerante? O que se aprende com a tragédia?

Tentará (re)inventar-se. Com o tempo. Só o tempo.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Todas as declarações de amor são ridículas

Íris, cor de mel, mostravam muito bem o que ela sabia fazer, fotografar. A verdadeira definição de amador, aquele que ama o que faz. A câmara parece gigante quando comparada com o seu corpo franzino e de baixa estatura. O desequilíbrio de tamanhos. Mas a postura de um gigante. Olhar os outros através da lente. Captar o que os olhos comuns não vêem. Gosta de conhecer gente interessante. E foi por causa de uma pessoa, mais do que interessante, que se conheceram. Foi paixão à primeira vista. Começou por ser um amor vivido em silêncio. A forma como amava não era explicável por palavras. Talvez para além delas. A razão de muitas insónias. “Eu sou o sol da sua noite em claro”. E a razão de contar estrelas enquanto o dia nascia. Mas tinha todo o tempo do mundo. Esperaria o tempo que fosse preciso. Sem pressas. Muitos sinais. Muito óbvios. Esperava que parasse de fingir que não reparava.  Como a canção: “Meu bem, qualquer instante que eu fico sem te ver aumenta a saudade que eu sinto de você”.

Passaram algum tempo a trocar mensagens. Estava numa fase complicada. Frases curtas e sucintas, como a vida. Respostas por dar, perguntas sem resposta, quase nenhuns pormenores dela. Como um saca-rolhas a quem é difícil resgatar qualquer informação que não queria dar. Tudo muito devagar. Tudo com muita calma. O martírio da sedução. A barreira intransponível dos muros. A carapaça dos bivalves e tartarugas com que se protege. Difícil. Resolvia tudo com “não quero falar sobre isso”. Tudo eram longas histórias. Incontáveis. Difíceis de contar. Com algumas insinuações e sinais contava (tudo) o que viveu. Mas conversar não era o seu forte. Tinha um dedo podre para amizades. Fazia-lhe falta alguém que a abraçasse sem pedir nada em troca. Estava farta de parasitismo e que lhe sugassem as energias. Acabava sempre enganada, como (quase) todas as mulheres, em alguma altura. Não tinha objectivos, alvos ou metas. Respondia ao momento segundo o que lhe davam. Viver ao sabor do vento, esse era o seu mote. Contou-me que tem muita mágoa no coração e que tem dado muito amor. Que teve muito prazer mas também muita dor. E que os momentos de felicidade se transformaram em sofrimento.

Como se explica? Não foi um arranjo de família. Não foi interesse. Por isso, a resposta mais sensata: foi o amor. Com muita perseverança e muita luta, sem perder a esperança, mesmo quando esta parecia não ser nenhuma. Uma mulher de muita coragem. A coragem nunca desvaneceu. Espera que a ouçam chorar. Olhar-lhe nos olhos e sentir reciprocidade é tudo o que mais quer. Acredita que não corre perigo e que tudo vai mudar. Porque não há mal que dure sempre nem bem que nunca acabe. “Vem vambora/ Que o que você demora/ É o que o tempo leva”.

E foi assim que eu vi que a vida
Colocou ela pra mim
Ali naquela terça-feira
De setembro
Por isso eu sei de cada luz de cada cor de cor
Pode me perguntar de cada coisa 
Que eu me lembro
(...)

Ela me achou muito engraçada
Ela falou, falou e eu fingi que ri
A blusa dela tava do lado errado/ toda amassada
Ela adorou o jeito que eu me vesti

domingo, 28 de agosto de 2016

A pessoa que escolheu apenas (sobre)viver

Passaram-se 21 meses e 15 dias desde que ele se foi embora. Sem uma explicação. Sem um pronúncio. Sem uma sugestão. Sem nada que indicasse um fim.  Tudo é “eterno enquanto dura”. Ela escolheu ser infeliz. Uma eremita. Uma anti-social. Uma Greta Garbo (que não vive em NY). Fechou-se para a vida. Só se pergunta o que fez de errado, como se houvesse (alguma) ciência nos finais. Podia ter optado por sair todas as noites até de manhã e dormir de dia. Sendo livre, podia abraçar toda a gente. Tinha a liberdade de escolher com quem sair. Bebia todas. Pedia uma bebida e traziam-lhe uma bandeja. Saía como se não houvesse amanhã. Beijava bem. Não era de ninguém. Tinha sempre o copo cheio, pela madrugada dentro, até ser dia. Até que sentia-se mais sozinha com o passar do tempo. Era mais uma no meio da multidão. Agora, não perde tempo a conhecer ninguém. Como se tempo não fosse o que mais tem.

Tem vivido o inferno de Dante. Não vive no presente, só no passado. Não tem futuro. Deixou de saber conversar. Só frases curtas e soltas. Toda a gente desistiu dela. Ninguém aguentava (mais) aquela depressão. Aquelas frase feitas. O pessimismo. A crítica ao ser humano. Cansaram-se de que lhes pedisse espaço. Não deixa que tomem conta dela. Nem que se aproximem. Os amigos desapareceram. Depois os colegas. Depois os conhecidos. Depois os que acabava de conhecer. E no fim, ficaram apenas os cães, que não cobram nada.

Não consegue distinguir a pessoa que foi nem na que se tornou. A irracionalidade tolheu-lhe o juízo. Não consegue mais ver o lado mais bonito de si. De como é bonita por dentro e por fora. O que ela sente é uma tristeza sem fim. Tem estado muito doente. Os médicos dizem-lhe para fazer o que lhe apetecer. Mas nada lhe apetece. Passa os dias a olhar o céu e o mar. Olha para o infinito. Vive de memórias. Ele não lhe sai da cabeça. Acha que amar sozinha também vale. Melhor um monólogo que nada. Vive de migalhas. O coração, esse orgão tão físico e tão complexo só lhe dá (falsas) esperanças e (falsos) sinais. O coração é o mais irracional dos orgãos. A razão mostra uma coisa e o sentimento indica a direcção contrária. A esperança que não cessa. Apesar do tempo que passou, não consegue entender a palavra fim. E que essa palavra, segundo as estatísticas, não tem continuação nem (re)começo. Não conseguiu mudar a página.Talvez um dia consiga reparar, dentro dos seus olhos cor de amêndoa, no instante que passa. A vida é uma viagem curta. Sente-se a morrer por dentro. As lágrimas não param de lhe cair. E todos os dias as seca. Os diamantes duram para sempre mas as pessoas não. Mas agora, ela (apenas) conta as horas e os minutos para que a morte chegue.

Coração bordado em tela by Daniela Ktenas.

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