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sexta-feira, 28 de outubro de 2016

João Lobo Antunes

João Lobo Antunes, como diria Pessoa, “tinha o mundo dentro dele”. Foi o primeiro Lobo Antunes que conheci e li. Li “Um modo de ser” no ano em que foi galardoado com o Prémio Pessoa, em 1996. Depois desse, quase todos os livros. Conheci a realidade de NY através dele, e Washington Heights, muito antes de achar que algum dia frequentaria aquelas ruas. Foi com ele que descobri o meu amor por NY. Foi assim que escolhi a universidade de sonho em NY e que achei que seria apenas isso: um sonho. E foi através dele que quis ir viver para lá. Através dele aprendi antes de ser uma new yorker “emprestada” a differença entre a opera e o museu. The Metropolitam Opera e The Metropolitan Museum of Art. A sigla Met. Quando finalmente fui para NY, para Columbia, mostraram-me  a cadeira com o nome dele no Neurological Institute of NY. Através dele apaixonei-me por Edward Hopper, principalmente aquele homem numa noite sob a sombra da luz (Night shadows). E depois disso fui a todos os museus de NY que têm obras do Hopper: Met, Whitney, MoMa e Brooklyn Museum. O americano que mais pintou o quotidiano. Com ele descobri a humanidade que deve existir em todas as profissões tão bem descrita na “Morte de Ivan Ilitch” de Tolstoi. O livro que talvez ele mais citava. O livro que todos os médicos deveriam ler. E o livro que eu mais li e ao qual volto sempre. Com o Professor aprendi que as mãos são a marca do ser humano. Aquilo que talvez mais nos distingue das outras espécies. As mãos, essa parte anatómica que denuncia a nossa idade. Aquela que ninguém consegue fazer regredir os anos. A mão que é o instrumento de trabalho mas que também afaga e consola. O peso da mão. E a beleza e delicadeza que as mãos cirúrgicas têm. Já apreciaram a beleza e a dança das mãos numa neurocirurgia. Os gestos delicados, o detalhe, a leveza? Já apreciaram as mãos de um neurocirurgião? Já pararam para apreciar o quanto umas mãos bonitas são talvez das mais belas partes do corpo humano?

João Lobo Antunes foi sempre um aluno brilhante. Dizem que fazia tudo bem. Tinha qualidades invulgares para um homem só. Escrevia exemplarmente bem, era um acérrimo leitor, apreciador de todas as artes e tinha uma cultura invulgar. Para além de tudo isso, foi o mais brilhante neurocirurgião da sua geração. Como ele disse um dia, aqui é famoso mas foi para NY onde era um “small fish in a little pond”. Há maior banho de humildade do que este? Exaltava como maiores virtudes do ser humano a compaixão, decência e carácter. Conheci, não pessoalmente a sua fama como neurocirurgião. Mas sobre o que posso opinirar é sobre a escrita. Que bem que ele escrevia. Ensaios e memórias, sobretudo. Espero ansiosa pelo registo  das suas memórias a que se dedicou nos últimos tempos.
Morreu em casa como Ivan Ilitch, mas não como ele. Com toda a certeza que rodeado da família, com compaixão, respeito e amor.

Nenhum dos livros que tenho dele estão por ele assinados. Não por falta de oportunidade mas por falta de coragem. Ele para mim estava num pedestal. Transparecia ser tímido, de poucas palavras, reservado, cerimonioso, educadíssimo. Aquilo que se dominaria de um “homem à antiga”. Daqueles que ainda beijam a mão. Um príncipe.

Era sabido que estava doente. Não sabia o quanto nem que fosse tão rápido. Se é verdade que na morte, todos são bons, a gigantesca quantidade de mensagens de pesar e a unanimidade no elogio, emoção  e na  admiração pelo médico e pelo homem é de ressaltar.

A Medicina, a Ciência e a Cultura portuguesa ficam mais pobres. Foi-se um dos grandes intelectuais do país.

Copyright: Correio da manhã
Copyright: The Metropolitan Museum of NY

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Egas Moniz

À luz dos olhos de hoje, Egas Moniz, o primeiro Nobel português, é controverso  Existem várias correntes que apoiam a retirada do Prémio Nobel. Quando lhe perguntaram se foi o que pretendia ser na vida, respondeu: «Certamente». Quanto às qualidades que mais apreciava nos médicos: »Honestidade acima de tudo. Saber. Delicadeza com os doente. Grande dose de bom humor».

Quem foi afinal Egas Moniz?
Nasceu em Avanca, Estarreja em 1874. Com pouco mais de 5 anos foi para Pardilhó para casa de um tio padre. Aos 10 anos, depois do exame da escola primária vai para o Colégio de S. Fiel, dos Jesuítas, em Castelo Branco. Passou depois para Viseu, onde esteve numa casa particular. Aos 16 anos fica sem pai. Os exames do liceu foram, mais uma vez, excelentes. Matriculou-se nos estudos preparatórios em Coimbra, que serviam ao mesmo tempo, para a carreira militar e Medicina.  Em 1894 ingressou no curso de Medicina. Nos primeiros anos do curso fica órfão de mãe. Em 1900 foi aprovado com Muito Bom, 16 valores. É aí convidado para seguir a carreira académica. Casou-se em 1901 com Elvira de Macedo Dias. O casal nunca teve filhos, o que terá sido um grande desgosto para ambos. Também neste mesmo ano, para a obtenção do grau de Doutor («a última e a maior honra a que nas Universidades pretendiam chegar os que nela estudam») escolheu como tema «A Vida Sexual I – Fisiologia.  Há apenas um século pode ver-se como  a ciência médica ainda estava atrasada: «o óvulo humano é uma célula completa, e pode sozinha gerar um feto». A Isilda Pegado, presidente da Federação Portuguesa da Defesa da Vida, que parece estar atrasada em relação ao seu tempo devia ficar impressionada com esta frase! Para ser admitido a professor escolheu como tese «A vida sexual II – Patologia» que incluem algumas questionáveis ideias de Egas Moniz: «O homem é essencialmente sexual, a mulher é essencialmente mãe. Tudo o que se afasta disto é anormal»; «Sou contra o casamento virgem da parte do homem, acho-o mesmo inexequível»; «A inversão sexual é uma doença tão digna de ser tratada como qualquer outra». O seu interesse a partir daqui foi essencialmente a neurologia, uma vez que estudara em Bordéus com um neurologista e com um psiquiatra. Refere mais tarde que: «O que sou em ciência devo-o à França e aos seus mestres».

A relação com a Universidade de Coimbra nunca foi pacífica. Egas nunca tomou posse dos cargos de lente substituto e catedrático em Coimbra. Egas arranja então consultório em Lisboa na Rua Nova do Carmo e vem a ocupar a cadeira de Clínica Neurológica da Faculdade de Medicina de Lisboa. Da sua vida política não vou aqui falar, pois o que me interessa destacar, é a sua carreira de cientista e médico. Egas considerava Coimbra demasiado pequena para a sua ambição. Além do consultório da Rua Nova do Carmo passa a dar consultas de «doenças nervosas» na Praça Luís de Camões. Alguns anos depois muda-se para a Rua do Alecrim.

Entre os seus doentes conta-se Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. Pessoa desistira do Curso Superior de Letras e começara a ser autodidacta na psicopatologia. Como a avó tinha enlouquecido, Pessoa temia que lhe acontecesse o mesmo. Egas passa-o para «fins ginásticos», ao que Pessoa, quando seguiu as suas recomendações afirmou: «para cadáver só me faltava morrer». Egas pronunciou-se a respeito dos autores do Orpheu: «meninos sem talento que querem chamar para si as atenções vomitando asneiras...levem-nos para os manicómios, e metam-nos em pavilhões para dementes...». Mais tarde, Pessoa tece violentas afirmações contra Egas: «O que me indigna não é que esse parvo da ciência tenha essas opiniões...mas tenham prestígio suficiente para que a essas opiniões se dê importância». Egas fazia-se pagar muito bem. Em 1921 é eleito director do Hospital Escolar de Santa Marta.

Egas Moniz foi um cientista improvável e tardio, corroborando a afirmação: «You are never too old to be a scientist». Já tinha 51 anos quando começou a interessar-se por visualizar os vasos cerebrais. Havia a necessidade de uma técnica que permitisse a localização correcta dos tumores cerebrais. A primeira ideia foi administrar por via oral brometo de lítio (40 g deste composto que tinha 92% de bromo!!!) a doentes epilépticos e depois radiografava-se o crânio. Depois começou a testar a opacidade de diferentes sais de bromo(lítio, estrôncio, sódio e potássio) dissolvidos em água e presos numa placa de cartão que encostava ao crânio. Nesta altura começa a colaboração com  Pedro de Almeida Lima, tio dos irmãos Lobo Antunes, foi o fundador da neurocirurgia em Portugal. Esta dupla professor/aluno, com quase 30 anos a separá-los, começa a estudar a toxicidade de várias substâncias opacas aos raios X no coelho e cão, quando injectados por via subcutânea e endovenosa. Chegaram à conclusão que o brometo de estrôncio até 30% era o menos tóxico. Em 1927, com este meio de contraste, conseguiram vizualizar a circulação intracraniana de um rapaz com um tumor da glândula hipofisária. Ao que Egas reage assim: «Ontem ao alcançar o fim desejado, chorei como uma criança. Este trabalho era a minha vida». Em 1933, Egas publica na Lancet um artigo que demonstra a utilidade da angiografia com tototraste, obtida em mais de 300 doentes, os quais, podiam regressar a casa após o exame sem qualquer problema. Egas preferia os colaboradores cultos e dedicados ao estudo. A invenção da angiografia teria sido mais do que suficiente para garantir a Egas Moniz um lugar eterno na história da medicina.
Há um caso clínico, descrito com muito pormenor no livro Erro de Decartes n de António Damásio: Phineas Gage trabalhava nos caminhos-de-ferro em Vermont be sofreu um acidente com uma explosão acidental no qual uma barra de ferro de 109 cm de comprimento e 3 cm de diâmetro atravessou a sua face e saiu pelo osso frontal. Depois de ter desmaiado, Gage recuperou e foi levado para o hospital. Gage, apesar de ter sobrevivido, sofreu severas mudanças comportamentais e emocionais, embora a memória permanecesse perfeita. Gage pareceu recuperado, com a mesma inteligência, capacidade de aprendizagem mas tornou-se numa pessoa socialmente inconveniente após o acidente. Com a leucotomia pré-frontal (corte da substância branca do cérebro) com um leucótomo (cânula metálica de 11 cm de comprimento e 2 mm de diâmetro) os doentes pareciam melhorar. Ao contrário da angiografia cerebral, psicocirurgia rapidamente se expandiu, devido à ausência de terapêuticas eficazes nas doenças mentais. Calcula-se que entre 1942 e 1954 foram operados no Reino Unido cerca de 11 mil doentes e nos EUA 18600.

Em 1949, depois de 4 candidaturas, Egas Moniz é galardoado com o Prémio Nobel de Fisiologia e Medicina pela descoberta e valor terapêutico da leucotomia pré-frontal. Morreu em 1955.

A psicocirurgia continuou a ser praticada pelos nomes mais ilustres da neurocirurgia mundial até à introdução dos psicofármacos como a clorpromazina, em 1954. Claro está, que a psicocirurgia foi mal aplicada, dizia-se para controlar o comportamento de presos e delinquentes ou para mudar orientações sexuais. As críticas continuam até hoje como a história trágica de Rosemary Kennedy ou da irmã de Tennessee Williams à peça  “Voando sobre um ninho de cucos” filmado por Milos Forman. Depois de votada à clandestinidade durante anos, a psicocirurgia está praticamente confinada à doença obsessiva-compulsiva e a estados de ansiedade refractários a qualquer outra terapêutica.

Fonte: Egas Moniz - Uma biografia de João Lobo Antunes


quarta-feira, 18 de julho de 2012

As 3 fases da vida de um cientista segundo João Lobo Antunes

"Na primeira fase trabalha, na segunda fala do que fez, na terceira diz apenas: «Deixe que lhe mostre o meu laboratório»".


quinta-feira, 26 de abril de 2012

Vida precária I


Acabo de ler no Público que o governo quer cobrar IRS aos bolseiros da FCT.  Para ser mais correcta, não é o governo, é o ministério das finanças, porque o ministro da educação e ciência é contra... Isto depois de termos assinado um contrato (no meu caso, renovável anualmente até 36 meses) com a FCT em que numa das alíneas diz exactamente que os bolseiros estão isentos desse pagamento. Eu não seria absolutamente contra se tivéssemos os mesmos direitos de todos os trabalhadores. Somos apenas pagos 12 meses/ano, não descontamos para a segurança social sobre o valor que ganhamos, não temos direito a 13º mês nem subsídio de férias e/ou subsídio de desemprego. Para piorar o cenário, somos talvez a única classe em Portugal que não vê os salários actualizados há 10 anos. De facto, nós não existimos. Duvido muito que hoje algum bolseiro consiga contrair um empréstimo. E vivemos nesta corda-bamba. 

Quem está a começar a carreira científica acha tudo maravilhoso e nem pensa. O futuro é algo muito longe, a euforia dos 20 acompanha-nos e isso de planos a longo prazo não existe. Quando comecei o meu doutoramento nem imaginava no buraco sem fundo que me metia... Aquele entusiasmo inicial de que vamos revolucionar o mundo e que alguém é o arauto das boas novas... Nunca, nessa altura houve pensamentos pessimistas.  Alguém, que pela primeira vez nos dava valor profissional e nos animava a sermos mais, maiores.  Citando o João Lobo Antunes: “tal como os apóstolos, quando ouviram o chamamento, deixamos  tudo e segui-lo”.  E eu comecei o meu doutoramento neste entusiasmo cego, fascinada por resultados, uma vida punk de se passar noites no lab, num tempo em que se podia fumar cigarros em todo o lado, jantar a horas que se deveria estar a dormir, viver de noite e, ainda por cima, de dia. Mas tudo muito divertido, muito companheiro, muita ajuda, tudo a remar para o mesmo lado.. Horas infindáveis, dias e noites que se confundiam, choros de desespero de não se conseguir solucionar um problema antes de uma conferência... Algumas músicas que me acompanharam nesses dias, e hoje quando as oiço, ainda me fazem arrepiar ao lembrar-me desse desespero. 

Depois essa coisa do mundo adulto, viajar e conhecer cidades novas, com pessoas que eram “cool” que nos mostravam o mundo. E nessa altura o objectivo era produzir mais e melhor para sermos seleccionados para apresentações orais nas conferências. E sim, não vou dizer que foi péssimo, que detestei. Não, adorei, na maioria das vezes. O problema era mesmo as apresentações. Eu costumo dizer até hoje que perdi anos de vida. Na minha primeira apresentação oral na Suiça,  era eu ainda um “bebé de fraldas” (na gíria científica) a acabar o meu estágio. Lembro-me até hoje de estar na plateia e dizer ao meu orientador que ia à casa de banho. Quando regressei ele disse-me que estava preocupado e que já estava a prepara-se para fazer a apresentação por mim. Sobrevivi a esse dia e muitos mais haviam de vir. 

Outra das memórias que tenho foi numa cidade no fim do mundo, Memphis. Isto em 2005. Aquilo era uma cidade fantasma, às 6 não havia nada... Lembro-me apenas da Beale Street cheia de clubes de jazz e do rio Mississipi, que fiquei tão desiludida quando vi. Eu a pensar que aquilo era tipo o rio Amazonas... Mas o que queria mesmo falar é que o centro de congressos era gigante, bem à medida das cidades da América profunda. Tudo é grande. Uma das primeiras coisas que o meu orientador fazia era mostrar-nos a sala onde íamos fazer a apresentação para que não caíssemos redondas de surpresa. Bem, quando chego à sala... aquilo não era uma sala, aquilo parecia a FIL. Tinha um palco e dois ecrãs gigantes que parecia que era a Madonna que ia actuar! Eu quase morri. Devia ter ficado com tão mau aspecto que o meu orientador disse-me: “Não te preocupes que vão dividir a sala. Isto é só para a sessão de abertura”. Fingi que acreditei. Chegada a hora lá subi ao palco com o microfone de lapela (tão sofisticada que era a coisa). Percebi rapidamente que os ecrãs eram tão longe do pódio que o laser era imperceptível. O sistema naquela altura já era muito à frente (tipo ipad) tocava-se no ecrã do computador e isso era reflectido nos ecrãs gigantes. Desisti, claro de apontar porque as minhas mãos pareciam dois abanadores. Também aqui sobrevivi. 

A conferência seguinte, nesse mesmo ano foi em Shanghai. A conferência que eu mais queria ir e fui! Só fomos 6 pessoas: 4 alunas e 2 chefes. Foi a conferência e a cidade mais surreal onde estive. Desde os taxistas não entenderem o alfabeto ocidental, sim, porque lá nem ousávamos falar, era mesmo tudo escrito em mandarim! As pessoas ficavam a olhar para nós na rua porque éramos as únicas pessoas não-asiáticas. A nossa companheira inseparável era a máquina calculadora. Tudo era negociado. Marcávamos o preço na máquina e a partir daí começava o negócio. Comemos as coisas mais absurdas: andorinha, tartaruga e afins. Até há uma história da AR que se entusiasmou ao ver o que ela achava ser abacate e mete uma colher cheia à boca... e o que era? Wasabi!!! A aventura de comprarmos meias de vidro para a C porque o tempo passou de tropical a glaciar... Eu nunca fiz tanta mímica na vida! A simpatia das senhoras na loja até hoje me comove. O quão mal fiquei num jantar no hotel porque a ementa estava em chinês e não conseguíamos pedir nada de jeito e depois acabamos a noite num bar a beber vinho tinto. Claro que nem vou descrever o resultado. A aventura ainda maior de nos terem levado para o hotel errado e de nos tentarem explicar em chinês que os nossos nomes não constavam na lista. Mas nós insistíamos que sim, que era aquele hotel... só me lembro de ter acordado a meio da tarde, a recuperar do jet lag, com a M. a dizer que estava noutro hotel e que o nosso era o errado... E foi também nessa semana que eu fiz uma amizade que me ficou para a vida, com uma pessoa, como quase todas as outras, eu não gostei à primeira vista. Estas amizades são o que ficam para a vida e o que me fazem olhar para trás e não arrepender-me das escolhas que fiz. 

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