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quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

A vida como ela é

Levanto-me com bastante antecedência, apesar de ter feito as malas ontem. Depois de alguns sustos resolvo não arriscar e cumpro, religiosamente, as duas horas de antecedência necessárias nos voos. Uma constipação forte deixou-me em baixo de forma nos últimos dias. Como o frio é muito e a preguiça muita, em vez de andar 500 m até ao ponto de táxis mais próximo, resolvo chamar um táxi usando uma app. A aplicação diz-me que demorará 3 minutos. Resolvo descer,  com a maior velocidade que consigo 4 andares, carregada com duas malas. Mal chego à rua recebo uma mensagem a informar-me que o táxi está atrasado. Está um dia lindo, cheio de sol, mas gelado de congelar passarinhos nas árvores. Espero, espero e nada. O táxi continua atrasado. Passado algum tempo, mais do que justo para um atraso aceitável, desisto e resolvo ir a pé até ao ponto de táxis. Antes disso, ainda tenho tempo de dar todas as moedas que tenho no bolso a um velhote que me cativou desde o primeiro dia que cheguei a Génova. As duas razões foram: ter um cão ceguinho que passou a reconhecer-me e a ladrar sempre que me chegava perto deles é o dono, sempre que me via, dizer "Ciao Bella". Hoje, lá estava ele, sentado no mesmo lugar de sempre mas sem o cão. Há muito tempo que não o via porque agora vou de boleia para o trabalho e não de metro. Como após 8 meses de Itália, pouco ou nada aprendi de italiano, não consegui perguntar-lhe pelo cão. 

No táxi, a caminho do aeroporto, abro o meu email  para confirmar a hora de chegada a Roma e percebo que o vôo é às 10 e não às 11:25, como havia pensado. São 09:35. Podia ter desmaiado, ou ficar com taquicardia, ou com uma crise de asma, ou ter vontade de vomitar, ou... Não, como adulta quase nos 40, inspiro e penso que entrar em pânico não resolverá nada. Que atitude tão sensata! Não me reconheço! Está uma fila imensa de trânsito. Ao lado vejo o que resta da ponte Morandi e ao fundo os Alpes marítimos cobertos de neve. Convenço-me que há sempre coisas piores.

Chegada ao aeroporto, faço o habitual, vou em direcção aos balcões da Alitalia para despachar uma mala. Neste caso, para dizer que perdi o vôo das 10 porque achei que era às 11:25. Ninguém se interessará com a explicação, que neste caso nem faz sentido algum, que uma adulta quase nos 40 ainda confunde a esquerda com a direita, que nunca diz as horas em número maior que 12 porque se confunde com os significados, confunde os dias da semana em italiano e francês... E poderia dar muitos outros exemplos que me encheriam de vergonha, esse sentimento que não me abandonará nunca. A verdade é que toda a gente fará um sorriso forçado de pena e não se empenhará de forma alguma em ajudar.

As funcionárias da Alitalia fazem aquele sorriso piedoso de quem não tem nada a ver com isso e que a resolução não faz parte das funções delas e mandam-me para o balcão da emissão de bilhetes. Aí, como se fosse um favor que me estavam a fazer, dizem-me que não existe nenhuma reserva, que tenho de telefonar para as reservas da TAP e resolver o meu problema. Aqui começa a saga italiana. Mais de hora e meia num telefonema com operadores da TAP que parecem autómatos em vez de humanos. Este telefonema não resolverá nada que não seja a troco de muito dinheiro. Durante estas quase duas horas andei entre o balcão da Alitalia, balcão de emissão de bilhetes, sentada numa cadeira ou de pé às voltas não sei de quê. Hoje, como pratico todos os dias da minha vida, confirmo que apesar de não sermos pagos para ser boas pessoas, seremos sempre melhores se para além de sermos bons naquilo que fazemos, ou pelo menos tentarmos o melhor que sabemos, ajudarmos os outros como pudermos. 

Primeiro falei com uma pessoa do sexo masculino da TAP, que foi bastante simpático, não decorei nem apontei o nome mas ao qual expliquei, muito breve e sucintamente, o meu problema.  Ele garantiu-me que me iria transferir a chamada pra outro operador e que não não iria, garantíramo-nos, perder o vôo de ligação  das 11:25 de Genova para Roma. Este senhor passou-me a ligação para outra senhora, de nome Bárbara Ferreira, que obviamente não por culpa dela, demorou mais de 30 minutos a atender-me. Em vez de fazer um testamento sobre o que me tinha acontecido fui objectivamente ao assunto é expliquei-lhe o que dela precisava. Perdi a noção do tempo que esta senhora precisou para dizer-me o que vem a seguir, mas sem esquecer de referir-lhe que caso demorasse muito eu perderia a hipótese de embarcar no vôo das 11:25. Pois bem, após um tempo que está registado no meu telemóvel e a ouvir a música cantada pela Carminho e Paulo Gonzo (será?) esta senhora diz-me que para eu conseguir os vôos de Génova-Roma e Roma-Lisboa teria que pagar qualquer coisa muito perto de 600 euros e não seria em executiva. O mundo parou. Na terra de Colombo, no país do homem que descobriu que a Terra é redonda e que a terra anda à volta do Sol, o meu mundo parou. Como?! O meu bilhete é em executiva, no último ano fiz uma média de mais de 30 vôos na TAP e o que têm a propor-me é isto? Já que tenho tempo porque o vôo das 11:25 está perdido, e perder mais do que o que já perdi não é possível, decido fazer o melhor monólogo que tenho memória, sem auxílio de qualquer nota. Esta senhora ouviu-me com a atenção dos fiéis na homilia. Relembrei-lhe o quanto a TAP é criticada por tratar mal os clientes, de toda a gente que conheço, viajante assíduo de aviões, ter preferido outras companhias, da minha defesa patriótica da TAP porque às vezes acontece, de ignorar os atrasos, de ignorar os funcionários que só actuam "by the rules" e nunca encontram a melhor solução para o cliente, das 8 H de trabalho dos funcionários que como ela estão no quentinho de uma sala confortável e que têm um trabalho garantido, quer tenham um bom ou um mau desempenho e a descrição minuciosa da história inesquecível com a Lufthansa (*). A Sra D. Bárbara Ferreira aguentou estoicamente e respondia sempre com um pedido de desculpas ou que não podia fazer mais nada.

(*) Há uns meses eu tinha um vôo Lufthansa para Lisboa para ir à Embaixada de Itália. Quando chego ao aeroporto de Génova o vôo para Frankfurt estava atrasado uma hora, o que iria comprometer a minha ligação para Lisboa. Expliquei a situação a uma funcionária, e sei que foi um exemplo excepcional e sem repetição. Esta senhora, sem me conhecer de lado algum, tentou todas as hipóteses para me fazer chegar a Lisboa sem que eu perdesse o meu compromisso. Eu tinha um bilhete em econômica, nada mais. Esta senhora, que não sei o nome mas de quem me lembrarei toda a vida, disse-me para apanhar um táxi para Bolonha onde tinha um reserva para ir para Lisboa. Foram 550 euros de táxi que a Lufthansa me pagou em 3 semanas, tendo como prova um recibo de táxi manuscrito. Querem dizer-me que as empresas de aviação não têm comportamentos diferentes? Ou que os funcionários estão habilitados a resolver os problemas dos clientes de forma a que haja algum entendimento?

A Sra D. Bárbara Ferreira, durante o meu longo monólogo, deve ter colocado uma melhor banda sonora e na sua voz de enfado, daquelas que não ficam melhores uma oitava abaixo, diz-me: "se quiser assegurar os vôos é X". É aí começo a perceber que um problema maior toma conta de mim: perdi o meu telemóvel italiano! Faço um rápido raciocínio e desloco-me aos sítios onde estive. Em nenhum dos lados o encontraram. Mas não posso ligar para esse meu tlm italiano porque estou ao tlm com a Sra D. Bárbara Ferreira. Aqui comecei a relativizar os meus problemas. Como a minha cadela quando faz asneiras, coloca aquela cara de cadela com os olhos mais tristes do mundo e arrastar-se na minha direcção, em bom português, ponho o rabinho entre as pernas e mudo de drama. Ficar sem vôo e discutir  com uma senhora que haveria sempre de me dar a mesma resposta fosse qual fosse o nível dos meus argumentos ou encontrar o telemóvel? Eis a questão. Mudo de rotação. A minha prioridade passa a ser em busca do tlm perdido.

Para quem me conhece, sabe o meu nível de conhecimentos informáticos. Mas há uns meses instalaram-me uma aplicação, caso perdesse o iPhone, para o encontrar. Foi o que fiz. Em poucos minutos sabia que o tlm estava no aeroporto de Génova. Fui a todos os sítios onde tinha estado, que não foram muitos, e não o encontraram. Tinha quase a certeza que tinha caído do bolso das minhas calças. Um clássico! Fui aos “perdidos e achados” e também não tinham entregue tlm algum na última hora. A seguir, fiz o habitual, liguei e esperei. Nas primeiras vezes o tlm tocava mas houve uma vez que foi para o voice mail. Comecei a ficar preocupada. Perdi a conta do número de vezes que subi e desci a escadas do aeroporto de Génova, que separam o segundo do primeiro andar, com duas malas. Como última tentativa tentei a abordagem da segurança. Falei com o responsável da segurança antes do embarque e expliquei-lhe o que me tinha acontecido. Em poucos minutos contactam-no e disseram-lhe que entregaram um iPhone todo partido nos “perdidos e achados”. Era esse mesmo. 

Já em Roma, caminho em direcção à Lounge da Star Alliance. Passa das 4 da tarde e ainda não almocei. Todas as comidas aparentam óptimo aspecto mas a minha constipação e o meu estado febril não me deixam aproveitar. Como apenas alguma coisa. Ainda durante o tempo que me separa do vôo que me levará a Lisboa, não resisto a um aperol Spritz. Dessas horas resultou este texto. O que começa mal pode acabar bem. E foi este o caso. Como me perguntou um amigo: “como te ris?”.  Não tenho nenhum motivo para não o fazer.




quinta-feira, 22 de março de 2018

Mudança

Munida de uma mala grande, uma mala de mão e uma mochila tenho a sensação de que faltará sempre alguma coisa. Desta vez, como sempre, não será excepção. Combinara com o meu irmão duas horas e quarenta minutos antes, como pessoa prevenida que sou. Uma amiga iria ter comigo ao aeroporto. Na última confirmação do voo percebo que confundi 16 com 5 da tarde. As horas em 24 números em vez de doze (diferenciadas apenas pela terminologia de manhã ou de tarde) sempre foram uma dor de cabeça, como distinguir a esquerda e a direita. Percebo que estou atrasada e nenhum dos elevadores funcionava de manhã. Entro em pânico. Ligo ao meu irmão se há alguma possibilidade de me ir buscar imediatamente. Ligo à minha amiga para desistir de ir ter comigo ao aeroporto. Como detesto despedidas até o universo ajudou. A viagem até ao aeroporto parece um voo. Sem tempo nem para olhar para trás, o meu foco é entregar a bagagem. Descubro que a mala tem 12 kgs a mais. Finjo não reparar e a pessoa da companhia aérea decide ajudar e finge comigo. Não tenho tempo de pensar em nada. Tudo em mim é calor. Voo para Munique, sem sobressaltos, respirando fundo. Descubro, mais rápido do que esperava, que me esqueci do caderno onde tomo notas. Nada de muito dramático. Mas como gosto sempre de encontrar qualquer coisa, agarro-me ao que há. A espera em Munique é rápida. Sigo para Génova num avião assustadoramente pequeno. Finjo ignorar. Passados uns minutos, sentada no lugar que me foi atribuído (junto à janela e sem ninguém ao lado), começo a transpirar (coisa nada comum). Estou gelada, tremo, os dentes batem, as gotas de água escorrem-me pela testa e pescoço, a minha palidez denuncia-me porque tenho olhares a seguir-me. Tenho falta de ar. Estou em pânico mas tento não perder a pose. Demorada e disfarçadamente tiro as bombas de asma e finjo que tudo está controlado. Minutos depois estou bem, só o cabelo molhado mostra o que se passara. Tenho o R. à minha espera no aeroporto de sorriso aberto. Sinto-me em casa com ele. Saímos do aeroporto e o que mais me choca são as ruas cheias de prostitutas. Contrariamente ao que seria de esperar, são caucasianas, não têm aspecto de cadente, são jovens e são muitas. O R. deixou-me no hotel que eu escolhi pela proximidade do meu apartamento. Nunca mais voltarei a este hotel e desaconselho-o a toda a gente. Supostamente era um hotel quatro estrelas. Mas disso nem a decadência lhe restava. O recepcionista era antipático, ainda existia chave, as alcatifas estavam sem cor e em mau estado, o quarto era pequeno e desconfortável, a tv era do tamanho de um ecrã 15’’ e a limpeza deixava a desejar. Lembro-me de ter comentado com uma amiga o quão mau era o hotel e respondeu-me que era um bom sinal porque sentir-me-ia muito mais confortável no novo apartamento. Não vou alongar-me nos comentários sobre o pequeno-almoço porque nem nos motéis dos Estados Unidos é tão fraco. A segunda pessoa antipática que me apareceu foi o taxista que mostrou o seu desagrado quando lhe disse que o meu apartamento era a menos de 1 Km. Cheguei à hora marcada para assinar contrato e o apartamento pareceu-me bem melhor do que nas fotos. Na opinião dos locais, a localização não é das melhores mas eu acho conveniente. Fica a 2 minutos da entrada do metro, em frente ao porto de Génova, tem mercearia e quiosque e outras lojas de conveniência. As ofertas de cafés e restaurantes são poucas. E o bairro é multicultural e multi-étnico. Tal como no primeiro apartamento que vivi em NY, o prédio não tem elevador e vivo num quarto andar.

Passada a fase de tudo parecer fácil, como receber o ordenado numa conta portuguesa e o pagamento do depósito e renda através de transferência bancária de uma conta portuguesa para uma conta italiana, começou a aventura: ter internet e telemóvel. Fui a um centro comercial para encontrar várias  empresas possíveis. Logo na primeira, praticamente desisti. Não poderiam ter sido mais simpáticos comigo e falavam inglês.  Depois mais de uma hora, de várias explicações, tentativas de pagamento com cartão de crédito português chegaram a um veredicto: só poderia fazer contrato de internet com um cartão de crédito italiano ou um cartão especial que se adquire nos correios chamado POSTPAID EVOLUTION. Os simpáticos disseram-me para ir aos correios italianos (Poste Italiane). Depois de andar 15 minutos a pé, disseram-me que para ter este cartão só com o código fiscal original (eu só tinha uma cópia) e o “attestato di soggiorno”. Regresso à loja e informo os simpáticos que não é possível. Como estou num centro comercial, aproveito e compro um microondas e improvisei o transporte com um carrinho de ir às compras. Chegada a casa subo quatro andares com o microondas. Volto ao hotel, onde deixei a mala com 35 kgs e regresso a casa de táxi. Demorou exactamente 25 minutos entre paragens entre degraus, vãos de escada e vontade de deixar (simplesmente) cair a mala no sentido da gravidade... O resultado foi bolhas nas mãos idênticas a quem levanta ferro nos ginásios, obras e afins.





sábado, 25 de julho de 2015

A minha primeira arguência num júri de Doutoramento

Domingo, fim da tarde. Aeroporto. Subo para o avião. O Eduardo Souto de Moura senta-se ao meu lado. Não é todos os dias que se tem um dos prémios Pritzker ao nosso lado. Quero falar-lhe mas, como sempre, não tenho coragem. Quero pedir-lhe que me assine alguma coisa já que o seu talento está na mão. Até podia assinar uma das folhas do livro que estava a ler já que só tinha isso e a tese de doutoramento que ia arguir. Nem isso consigo pedir-lhe. [Na semana seguinte saiu uma entrevista brilhante dele feita pela Anabela Mota Ribeiro.  Percebe-se que é uma pessoa extraordinária, engraçada e culta. Que de tantas outras coisas disse para que serve lamber pedras e desenhar a sensação e “eu penso desenhando”. Percebi nos 50 mins de voo que os gordos são realmente bem dispostos e que sabem aproveitar todos os prazeres da vida. Ignorando a sua condição de estae bem acima do peso ainda pediu uns amendoins. 

Chegada a Faro tinha a J. e a M. à minha espera. Noite quente e abafada. Das boas, como só os verões no Algarve, sabem ser. Chego ao hotel já passa das 11 da noite. Não tem cama de casal. Não tem muitas tomadas. A internet não funciona. Mas pelo menos tem tv e muitos canais. Adormeço com a tv ligada e rendo-me aos encantos do A/C que só admito para dormir. [As pessoas que me conhecem sabem os problemas que tenho com o A/C. No trabalho visto-me como se não fosse verão devido a esse atentado à condição humana. Adoro calor e as estações quentes. Nasci no país errado. Ao contrário da maioria das pessoas, adoro o verão quentíssimo de NY e Houston com uma humidade a beirar o insuportável. O único problema do calor é mesmo na hora de dormir porque no resto foi a melhor invenção do universo].
Acordo relativamente tarde para o habitual. Mas ainda a tempo do pequeno-almoço que tenho direito. Dou uma olhadela às perguntas que vou fazer na defesa da tese. Ao meio-dia faço check-out e chamam-me um táxi. Tenho almoço marcado com o júri ao meio dia e meia. Telefonam-me e estou ligeiramente atrasada, presa no trânsito. Como se em Faro houvesse trânsito. Almoçamos no restaurante vip da Universidade do Algarve, que de vip apenas tem o nome. Apenas duas escolhas para o almoço: robalo no forno e bife de cebolada. Quando chega o peixe à minha frente era o verdadeiro atentado. A simplicidade do robalo assassinada...mergulhado num molho de pimentos e cebola que estragou tudo. Durante o almoço falamos da revolução francesa e das invasões francesas em Portugal. 
Pouco antes das duas, saímos em direcção ao anfiteatro onde seria a defesa. Vestimos as becas, cada qual da sua universidade. Eu, como não tenho, requisitei uma emprestada. A defesa começou atrasada porque não abriram o anfiteatro a horas. Depois houve o problema com a apresentação que é sempre o que acontece a quem tem um Mac...demora sempre mais tempo. Mesmo assim, a candidata apresentou muito bem, como se este atores inicial não a afectasse. E eu sentada, desta vez do outro lado, lembro-me do dia da minha defesa. Foi dos piores dias da minha vida. Para além de tudo o que representou para mim, o primeiro arguente não passou da página 7. Até que a muitos dos meus amigos ainda brincam com uma das perguntas que me fizeram: "O que mudaria na sua tese?" E a resposta é: "A página 7!".
O primeiro arguente da tese da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra era um gentleman, extremamente delicado, educado e cuidadoso. Organizadíssimo. Tinha a intervenção toda escrita, os cumprimentos, os comentários, e aproximadamente 20 perguntas. Tudo no seu Mac imaculadamente organizado. Entrei imediatamente em pânico. Eu era o oposto. Levei meia dúzia de folhas (americanas) amarelas. Tudo rasurado e corrigido. riscos e mais riscos. Correcções e adições a esferográfica e lápis. Tudo desastrosamente desorganizado. O pior de se ser a segunda arguente é muitos dos comentários e perguntas terem sido já feitos pelo anterior. Mas eu, que até sou muito mais crítica comigo do que com os outros, acho q a minha intervenção correu bem. A verdade, como sempre acontece nestas coisas, é que perdi a noção do tempo. Depois ainda se seguiram as intervenções da professora da Faculdade de Medicina da Universidade Nova de Lisboa, do Professor da Universidade do Algarve, da orientadora e da Presidente do Júri. Foi a primeira aluna de Doutoramento da G. Um marco, portanto. Dizem que a primeira de cada coisa na vida não se esquece. E terminou com Muito bom por unanimidade com distinção é louvor.
Depois, ainda houve tempo para ir á esplanada mesmo em cima da praia da ilha de Faro para beber uma imperial. Tudo aqui é perfeito. O sol, a vista, a praia, o calor, a cor. O pior é o atendimento. Os algarvios parece terem um talento nato para não serem simpáticos. Tudo parece ser feito por favor é obrigação. Esta miúda loira, que até é gira, e que me calha sempre na rifa sempre que vou a este bar, fica sem beleza nenhuma devido à atitude. Para a próxima vou dizer-lhe que quero ser atendida por outra pessoa. Já passa das 7 quando saímos da praia rumo ao aeroporto para me deixarem. Tenho voo às 8:15. Chego ao aeroporto às 7:15. Ando a passo apressado em direcção à segurança. Respiro de alívio quando vejo que a fila não é muita. Mas como na minha vida há sempre um episódio para contar, eis que me aparece um cromo à frente que leva uma mala de mão e dois sacos transparentes cheios de líquidos. O homem na sua inocência achou que estava a cumprir com tudo porque mostrou os dois sacos transparentes cheios de líquidos, a achar que não estava a cometer nenhuma irregularidade. Mas estava. De há uns tempos para cá só é permitido um saco transparente de líquidos que não ultrapasse cada frasco os 100 ml. Eu aprendi isto quando há uns tempos me ficaram com um frasco de perfume quase cheio cujo valor era superior a 70 dólares. Aprendi a lição e nunca mais mostrei o saco transparente. E a partir daí nunca mais ninguém me descobriu os líquidos que transportam na mala. O que só revela como funcionam bem os aeroportos portugueses. Obviamente, nos aeroportos americanos nunca me atrevi a testar esta situação. Mas a verdade é que em 2006 levei comigo na mochila um frasco de biovidro para os EUA que macroscopicamente é igual a muita coisa ilegal. Adiante, o senhor que estava à minha frente refilava bem alto que podia levar os dois sacos repletos de líquidos porque o tinham deixado passar em todos os aeroportos... E blá blá.... O problema é que eu tinha um avião para apanhar e as portas fechavam às 7:45. E a discussão já durava há 10 minutos. E eu q não queria perder o voo virei-me para a segurança e disse-lhe "não podem resolver este problema mais rápido. Estou aqui há 15 minutos". E ela com a atitude de quem acha que tem autoridade nestas situações diz-me que não estou ali há 15 minutos, talvez uns 10 a exagerar.  E começamos ali numa discussão. Ao que ela me pergunta: "quer ensinar-me a fazer o meu trabalho?". Frase que ela me disse! Se soubesse fazer o trabalho dela não demorava 10 minutos a resolver o problema dos sacos. Ou deixava o homem passar ou os tirava. É isso não demorava 10 minutos. E eu que levava líquidos na mochila, mas nunca assumo que os levo, coloco o iPad fora da mochila e fazem-me a derradeira pergunta: "tem líquidos?". E eu respondo convictamente que não. Mas a imaginar que vai ser destaque me vão apanhar e que vou passar a vergonha da minha vida. Espero a mochila do outro lado e não descobrem nada. Tiro o saco da mochila com líquidos e digo para a que me disse se queria que eu a ensinasse a fazer o trabalho dela: "trabalho bem feito, não?". E continuo. Já estão a chamar pelo meu nome quando vejo o Eduardo Souto de Moura. Aí respiro fundo e sigo-o. Já não vou perder avião nenhum porque ele vai no mesmo que eu!

quarta-feira, 24 de junho de 2015

A classe executiva

24 de Junho. Feriado em Braga e no Porto. Dia 1 de Portugal, em Guimarães. Voo Porto-Lisboa em executiva. Nada diferente das outras vezes a não ser a água servida num copo de vidro e os muitos jornais e revistas que nos são oferecidos. Em Lisboa temos apenas tempo para mudar de avião e pouco mais. Não sei se fui eu que nunca reparei ou se é sempre assim mas existia fila para a classe executiva, apenas com menos pessoas. Já no avião, sentados, reparamos que somos os únicos portugueses. A classe executiva tem 24 lugares e estão todos ocupados. A média de idades deve ser acima dos 50. Com excepção de nós (os 4 portugueses) e os dois casais de recém casados à frente e ao nosso lado. O casal da frente são os típicos patricinhos. Devem pertencer à alta sociedade paulistana. Casados de fresco. Caucasianos, ricos, cabelos claros, mala Berkin. Devem morar num bairro fino e fazer compras na Oscar Freire. Os do lado esquerdo também parecem regressados de lua-de-mel. Mas o nível é diferente. Provavelmente não vivem em São Paulo mas parecem filhos de algum prefeito de uma cidade do interior. Mal chegaram ao avião andaram o tempo todo descalços e sem meias. Ele tem um bigodinho que já passou de moda é um boné a fazer lembrar um rapper americano. Ela é a típica brasileira. A mostrar mais do que o que devia. As restantes pessoas são homens de negócios e casais mais velhos regressados de férias na Europa. A maioria das mulheres fez cirurgias plásticas.


Já tinha a TAP em muito boa conta desde que me mudei para NY. Não conheço a executiva das outras companhias. Em 36 anos é a primeira vez que viajo nesta classe. Nada a apontar, como esperava. As hospedeiras são simpáticas e profissionais. O serviço é irrepreensível. Mal nos sentamos, eu e o L., desatamos a experimentar os botões da cadeira que faz as acrobacias todas de uma cadeira de dentista. Podemos ficar sentados muito altos, quase à altura do tecto até à posição horizontal de cama. Temos uma almofada com fronha de pano e um edredão azul. Depois, distribuem-nos uma caixa de toilette. São quase 4 da tarde, uma hora depois do voo levantar, e começam  a servir o almoço. Primeiro, distribuem uma toalha molhada quente. Segue-se o menu num livrinho. As boas vindas com espumante ou água ou sumo de laranja (estilo vernissage) Não é uma refeição é um banquete. Temos direito a toalha de mesa e guardanapo de pano. Para começar espargo enrolado em pastrami, espetada de camarão com tomate cheiro e avelãs torradas. Uma sopa de cogumelos, saladas que podiam incluir pato, salmão ou fruta. Quatro pratos quentes à escolha que eram: vitela, frango, polvo ou massa. As bebidas são ao estilo bar aberto: tudo o que se quiser (menos dinheiro, como a piada). Os vinhos são Dona Maria e churchill's. Reparo que uma senhora acompanha a refeição com vinho do Porto! Conto-lhe pelo menos três! E invejo-lhe a resistência para a idade que tem. A noiva à minha frente acompanha a refeição com whisky. O marido não bebe álcool. O assistente de bordo até brinca com ela que não tarda e está a cantar o fado! E as piadas não se ficam por aqui... Ainda diz ao marido que para um cair o outro tem que segurar. As sobremesas são várias  e podemos optar por fruta laminada, pastel de nata, arroz doce ou queijo com doce de abóbora.  Para além do que comi bebi 2 copos de Dona Maria e um Porto a acompanhar a sobremesa. Pela primeira vez, desde que ando de avião dormi. Não sei se foi pelas bebidas ou pelo conforto de ter uma cama. A única coisa que tenho a apontar é a disponibilidade de filmes. Ao contrário de outros aviões da TAP, mesmo em económica que se pode escolher filmes de uma lista enorme, neste voo os filmes eram poucos e não grande coisa. Mas quando tudo é excelente, um pormenor destes não conta para nada. Como habitualmente, em todos os voos de longo curso, há a regra de fingir-se noite quando é dia. Como dormi, desta vez não custou tanto. E foram 10 horas! Ainda durante a fingida noite, o L. conversou com um assistente de bordo e perguntou-lhe: "O que é que São Paulo tem de bom para se ver?". E ela: "Nada! Nesta cidade é tudo feio! A única coisa que esta cidade tem de bom são os restaurantes".










terça-feira, 12 de maio de 2015

Porto-Faro

Jantar rápido na mãe. O sobrinho mais velho janta com o apetite das quartas-feiras. O afilhado está mal disposto porque adormeceu no carro. Colo, muito colo, sempre. Estou com uma dor de cabeça que não me larga desde ontem. O tempo, como quase sempre em Braga, está mau. Janto rapidamente. Vou apanhar o avião ao Porto. A fila está imensa e o voo atrasado. O frio é muito. Eu vestida como quem vai para o Algarve. À espera ao relento. Desta vez não implicam com a mala. Dormi o tempo todo na vã expectativa que a dor de cabeça me passasse. Chegada a Faro e parece que estamos noutro país. A temperatura está amena. Vou em direcção aos táxis. Quando chego ao local de espera dos passageiros sinto-me em Lisboa, tal a fila de táxis. Apesar de quase não haver passageiros os táxis organizam-se em 3 filas. Qual delas escolho? Qual é a ordem? Entre o olhar para afrente e para trás para ver se alguém me da uma indicação, só vejo caras mal dispostas e a abanarem os braços em direcção à sei lá o quê. Vou a entrar para um táxi. Gritam-me que não é aquele e que há uma ordem. Vou para outro. Já com a minha mala na mala do táxi. Entro e o taxista diz-me que a minha mochila não pode entrar ou se entrar só pode ir no chão. Ainda não refeita da afirmação incompreensível e a tentar entender manda-me: " a mochila não entra ou vai no chão porque os clientes seguintes podem ficar todos cagados". Eu, entre a estupefação do que acabei de ouvir saí do táxi. Como aquilo deve tratar-se de uma máfia achei que ficaria no aeroporto a noite toda porque arranjei um problema. Ninguém me queria levar. No próximo que entrei, tratei de não discutir e fazer tudo o mais inócuo possível. Coloco a mochila e a mala na mala do táxi. Aqui os taxistas não ajudam as pessoas com as malas. É a lei do "faça você mesmo". Quando chegamos ao hotel demorei ligeiramente a encontrar a carteira, na mochila... Lembram-se daquela que coloquei na mala porque não entrava no táxi... O taxista não tem mais nada, depois de eu ter demorado não mais do que um minuto: "ó dona, vai demorar muito?". E eu já sem palavras, porque nunca tenho resposta à altura quando sou apanhada de surpresa, limitei-me ao silêncio. Subo ao quarto e reparo q a tv não funciona. Desisto e vou dormir. Há dias que mais vale dormir e esperar pelo dia seguinte. Almoço com o P. e a J. em frente à universidade. Pelo menos aqui as pessoas parecem ser simpáticas. O tempo é de verão e convida a esplanar. Resto da tarde aulas intensivas. Apesar de serem alunos de mestrado em Ciências Biomédicas, todos querem Medicina, excepto uma que quer veterinária. Cruzo-me no intervalo com o Rui Vieira Nery e vejo muitos professores com a toga de doutorado. Dizem-me depois que é o Doutoramento Honoris Causa do professor Sampaio da Nóvoa e que a universidade tinha dado tolerância de ponte nessa tarde. Como a aula terminava às 6 e como só tinha avião às 8 ainda deu para ir à ilha de Faro beber uma Margarita e comer uma bifana. Já passava das 7 quando me deixaram no aeroporto e deu tempo para tudo. A maioria dos passageiros eram turistas daqueles que foram aproveitar bem a praia. A sua indumentária denunciava-os. Havaianas, calções, chapéus. E a cor alternava entre o quase bronzeado e o camarão. Chegado ao Porto, um dilúvio aguardava-nos. Muita chuva é muito frio para os padrões algarvios. O Porto nunca nos desilude!





terça-feira, 29 de maio de 2012

Crianças vs aviões

Há anos que ando de avião e nunca tive crianças tão mal educadas perto de mim como nestes últimos dois vôos. Toda a gente sabe que enquanto se espera numa sala de embarque o nosso olhar é quase magnético a procurar pelas crianças. Não são os bebés. Esses normalmente, não fazem birras de 7 hrs. Podem, pontualmente, estar com cólicas, mal-dispostos mas nunca horas seguidas. Nunca foram os bebés que me incomodaram nas viagens de avião. O que me incomoda e o que acho intolerável são aquelas crianças de 2-3 anos que para além de choronas, têm birras intermináveis e educações que deixam muito a desejar. A culpa não é delas, é dos pais que acham que viajam sozinhos sem ninguém à volta. Normalmente estas crianças têm determinadas características comuns: não obedecem a regras, fazem o que querem, habitualmente são crianças que deveriam falar quase correctamente mas têm linguagem de bebés de colo de tanto mimo que têm, querem tudo o que as outras crianças têm (mesmo que não seja adequado à idade), não obedecem aos pais, nunca param quietos (são hiperactivos, a nova palavra que está na moda para designar crianças com falta de regras)...No penúltimo vôo mesmo ao meu lado estavam 3 crianças com gradientes crescentes de mau comportamento. O miúdo mais bem comportado não tinha mais de 3 anos e apesar de mal-disposto esteve sempre distraído com os presentes que as hospedeiras lhe trouxeram e nunca se ouviu acima do volume normal. As outras duas crianças eram impossíveis, não tinham mais do que 2 anos mas já mandavam nos pais. As hospedeiras fizeram de tudo para que não perturbassem as outras pessoas e os pais ainda achavam que a culpa era dos outros. Eu imagino o quanto seja difícil ter uma criança bem comportada durante 8 horas. Mas este tipo de crianças são aquelas que se comportam mal mesmo fora dos aviões. Não me venham com a teoria  que lhes dá uma coisinha e que ficam assim de repente. Os pais com crianças assim deviam sentir-se, no mínimo, envergonhados por este festival. Mas não! Ainda acham que os outros é que estão errados por ouvir  berros, gritos, guinchos e afins (que não envolve linguagem e que mais parece típico dos animais). Só para dizer que o menino de 3 anos, mal o avião parou, eu olhei para trás e achei que ele estava muito pálido e a transpirar. E estava a dizer à mãe que não estava bem. Mal acaba de dizer isto e vomita a mãe. O menino, tão bem comportado, não deu um grito, não levantou a voz, não fez cenas. Após vomitar, recupera a cor e diz à mãe que já não se sente mal. Eu só imagino como teria sido o comportamento das outras duas nesta situação...
No vôo de ontem a coisa piorou muito. Duas crianças mesmo ao meu lado... Qual delas a pior... Tinham uns 3 anos e a única coisa que faziam era gritar. Mas gritar de troça. Daqueles berros irritantes de provocação. E acreditam que ninguém lhes fazia nada? Os pais não tinham mãos? Nunca nas 8 hrs vi uma sapatada, um castigo, nada. Os pais ali a ouvir os berros e só diziam para pararem... E claro que eles com o respeito que lhes tinham berravam cada vez mais. Estas crianças no futuro, não só vão berrar, vão falar alto, insultar e quem sabe bater nos pais. E estes pais bem merecem de tão totós que são. Pois, está bem, hoje em dia não se pode dar uma sapatada numa criança porque vai traumatizá-las. Pois é, fica mal dar uma sapatada mas não fica mal ter este comportamento arruaceiro em tão tenra idade e incomodar dezenas de pessoas que não podem fugir para lado nenhum.
Eu falo disto e não falo sem conhecimento de causa. Eu sempre tive mau feitio e sempre fui teimosa. Fui desde muito cedo castigada pelo meu comportamento, por ser refilona, por responder mal, para terminar as refeições.... Tenho o meu sobrinho mais novo que é assim. Desde que tem 1 ano que quando não lhe fazem o que ele quer, ou o obrigam a fazer qualquer coisa que ele não quer que: ou se atira para o chão ou inclina a cabeça a dar 3 horas. Agora que começou a comer à mesa com os adultos quer, na maioria das vezes, sair da mesa sem acabar de comer ou antes de pedir autorização. E é vê-lo ali com a cabeça de lado até toda a gente terminar. Ele não entende isso agora mas quando for mais velho vai agradecer as regras que a sociedade lhe impõe. E já disse ao meu irmão que as crianças e os aviões não combinam.

domingo, 15 de janeiro de 2012

A saudade


Numa das minhas viagens Lisboa – NY fiquei naqueles lugares que toda a gente ambiciona, que ficam imediatamente a seguir à business class. Consegui pela primeira vez, desde que ando de avião, um desses lugares. São espaçosos e pode estender-se as pernas. Disseram-me, depois, que tive sorte de não apanhar uma família com os seus filhos chorões... mas de facto, isso não aconteceu. Ao meu lado ficou uma menina (julgava eu não ser maior de idade) com aquele aspecto de quem vai fazer o último ano do secundário na escola americana e viver em casa de uma família. Saberia eu depois, que isso também não correspondia à verdade.
Eu sou daquelas pessoas que joga no campeonato dos que quase morrem de medo de andar de avião. Acho desconfortável, temível, incontrolável... acho sempre que é um desafio à natureza.... Mas tento sempre abstrair-me e ocupar-me com o maior número de coisas porque nunca durmo. Tentei uma vez dormir (por indução do sono) há alguns anos atrás. Numa viagem Frankfurt- Xangai viajava com mais 3 amigas e também colegas mas tive o azar de ficar separada delas. Como a viagem demorava 12 horas resolvi tomar 1 victan. Não fez efeito... Na viagem de regresso em vez de 1 tomei 2. Não sei o que aquilo provocou em mim....fiquei num estado tal que achavam que eu tinha morrido, inclusivé, acharam que eu tinha aberto a testa tal foi a força com que bati com a mesma naquelas mesas que abrem no avião... Tudo isto para dizer que a partir desse dia passei a não determinar as acções do meu corpo. Como quase sempre, também nunca durmo na noite anterior a viajar (que novidade... muita gente acha que não durmo, de todo, e que estou acordada em quase todos os fusos horários).  Como, quase sem excepções, não falo com a(s) pessoa(s) que viajam ao meu lado (corroborando a minha fama de anti-social). Desta vez foi diferente. A menina que viaja ao meu lado, chamada R, e que já não era tão menina assim, demonstrava um aparente entusiamo de quem sai de casa dos pais pela primeira vez.  Passados uns minutos do avião ter levantado começo a reparar que a R. está a chorar incontrolavelmente. Não aquele choro histérico, mas um choro silencioso, de quem tem vergonha de estar a sentir o que ela estava a sentir naquele momento. As lágrimas eram tantas que lhe molharam os joelhos. E ela chorava silenciosamente ao ler o que me parecia ser uma carta que ela retirara de um envelope. Disse-me mais tarde que tinha sido a mãe a escrever. Tentei ignorar porque achei que aquilo passaria com o terminar da carta. Não só não terminou, como piorou quando abriu um caderno. Não tive como não ver. O caderno estava cheio de orações e com santinhos colados. Pensei para mim “Afinal esta miúda não vai terminar o secundário numa escola americana... é mormon e vai dedicar um ano da vida dela a fazer o que os mormons fazem na idade dela”. Não podia estar mais enganada. Duas tentativas de adivinhar falhadas. Não a podia ignorar. Perguntei-lhe se precisava de ajuda, se havia alguma coisa que eu pudesse fazer. Contou-me que não era a primeira vez que viajava para os Estados Unidos, que já tinha passado uma temporada de 6 meses no final do mestrado. Regressava, agora, para um curso de 4 meses numa prestigiada universidade. Contou-me que chorava de saudade, que tinha passado 6 meses em Portugal depois dos 6 meses nos Estados Unidos. Compreendi-a tão bem. Por melhor e por maior que seja o desafio destas etapas na nossa vida profissional, por mais excitantes que sejam as cidades para onde nos mudamos, por muito que essas experiências enriqueçam o nosso CV, por mais amigos que tenhamos, não há nada igual à nossa casa. E eu, que tenho sempre o coração apertado quando saio de Portugal, arranjei forças onde não as tinha, e tentei convence-la que tudo ia correr bem e que é assim mesmo: a saudade. Essa palavra tão portuguesa e que não se consegue traduzir noutra língua. 


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