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segunda-feira, 30 de julho de 2018

Caetano em Roma

Na verdade eu fui a Roma para ver Caetano. Disseram-me que não tenho independência para julgar livremente a qualidade dos concertos de Caetano porque para mim ele é um Deus. Não desminto. Provavelmente ele até poderia só gritar, como vi um dia Yoko Ono fazer em NY e que alguns acharam aquilo arte, e eu acharia magnífico. Mas quando leio de algumas pessoas que considero que Caetano é um milagre e que sempre se surpreendem a cada concerto, não me parece que seja apenas “endeusamento”. E devo a Caetano muito do que aprendi sobre os mais variados assuntos. Todos os concertos que vi de Caetano foram no Coliseu de Lisboa. Todos eles foram especiais. Com banda, sem banda, sozinho ou em dueto. A relação com o público foi sempre cúmplice. Mas em Roma foi mesmo especial.

Antes do concerto leio que morreu Hélio Eichbauer, o cenógrafo responsável por muitos dos cenários de Caetano, incluíndo este. Para além deste facto, Moreno foi enteado de Hélio, com quem Dedé Gadelha (mãe de Moreno) fora casada durante 30 anos. Moreno, depois de Caetano falar da perda de Hélio, com a voz embargada acrescentou: "Dedicamos este show a ele". Ninguém á minha volta era brasileiro ou português mas conheciam profundamente o trabalho de Caetano. Durante o concerto muitos deles balançaram o pé, bateram muitas palmas, acompanharam o ritmo, tentavam acompanhar as canções. Percebi que Caetano não é um desconhecido em Roma. E gentilíssimo dirigiu-se sempre ao público em italiano. Não quis ouvir “Ofertório” para tudo ser surpresa.  Passavam 9 minutos da hora marcada e Caetano, juntamente com os (seus) meninos, entrou no palco. “Todo o homem” foi para mim a grande surpresa e a música da noite. Zeca Veloso, que Caetano disse que nunca quisera fazer musica, escreveu esta canção tão comovente com voz em falsete, cujo verso "todo o homem precisa de uma mãe” ficou no ouvido. A palavra que resume este concerto é intimidade. Os quatro não parecem estar em frente a uma plateia de milhares de pessoas mas em casa a cantar para uns amigos. Outra das surpresas é uma espécie de rap/funk, no qual todos participam com o piano, com a voz fazendo a batida, a contagem crescente até 12 de Caetano e a dança de pés descalços de Tom. A música que dá o nome ao concerto foi escrita para Dona Canô como se fosse ela a narradora. Na introduçao a esta música, Caetano explica que não é religioso mas que todos os seus filhos são. Os dois mais novos sao cristãos e Moreno é um curioso pelas religioes orientais e afro-brasileiras. Moreno acrescenta:“sou macumbeiro”. A outra que me ficou na memória foi a filosófica da autoria de Moreno “How beautiful could a being be" onde mostrou como sambar bem com ginga e rebolado e levou também Caetano para a frente do palco para uma dança ensaiada. Vozes e instrumentos numa sintonia perfeita. Não faltaram as mais conhecidas "Força estranha”, “Reconvexo” e“Leãozinho”. No primeiro encore, já com o público da plateia todo em pé e encostado ao palco, cantaram a minha preferida “Deusa do amor”. Voltariam mais duas vezes, mesmo depois das luzes acesas e terminaram com “A luz de Tieta”.

Caetano, nesta noite tropical, no anfiteatro ao ar livre de Renzo Piano que não chegou a encher, rodeado das pedras aquecidas pelo sol de Roma entrou em fusão com o público. A noite em que Caetano foi “a chuva que lançou a areia do Saara sobre os automóveis de Roma”.

Aprendi que ninguém no seu perfeito juízo deve esperar o verão para ir a Roma. Mas depois de aqui estar como dizer que não a uma cidade  que chama por nós?

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Todas as fotos sao de divulgaçao


sexta-feira, 28 de julho de 2017

Dessa vez

Tarde amena, sol, céu mais ou menos azul turquesa, leve brisa. Coimbra lá fora e calçadas pisadas por estudantes que carregam as suas pastas e livros, muitos livros nos braços. Nesta cidade dos estudantes e doutores já ninguém está de capa. Agora, o tempo é de estudar porque aqui a fama é de passar (apenas) quem souber.

Só existem os registos da memória de uma tarde de comida baiana que incluiu acarajé, abará e  vatapá regado com Quinta do Carmo branco. Os sabores e ingredientes fortíssimos da Bahia provaram não causar mal nenhum. O som não era baiano. Estes baianos de São Salvador não mostraram saber sambar, nem balançar. Não têm pulseira de ouro. Mas têm fita do Senhor do Bonfim, brinco de ouro, um jeitinho que Deus deu e graça como ninguém.

O cenário será os jardins onde (também) aconteceu uma das mais belas histórias de amor em Portugal (Pedro e Inês). Camões eternizou-a num dos seus cantos d’ Os Lusíadas. E está inscrito junto à Fonte dos Amores, de onde brotam as lágrimas e o sangue de Inês, até que o tempo e a água o apaguem.

A noite cai em Coimbra, tardia como todas perto do solstício. No anfiteatro da Colina de Camões na Quinta das Lágrimas, a lua aparece. Ao fundo, muito ao fundo, vislumbra-se a Universidade iluminada. Hoje não é uma lição. Hoje é apenas um concerto, Dessa vez. A cantora hoje será apenas uma cantora e uma performer. No máximo ousará tocar o seu novo instrumento, cortar o seu mais recente livro com as suas letras reunidas e fará uma leitura de um poema da Adília Lopes. Para minha tristeza, não interpretará Poética do eremita. Mas mostrando a sua generosidade, e que os artistas não estão (apenas) enclausurados no seu mundo, e estão abertos a ele, acederá a um pedido de cantar Seu pensamento (pedidos funcionam “só se eu souber e puder atender”).

“não é o conhaque 
nem a lua
mas o vinho
mas as promessas 
que me movem como o diabo”
Sarah Cohen

Aparece numa pontualidade britânica, sem o jeitinho brasileiro e português do famoso atraso. Dizem que chega sempre antes da hora. O traje é o mesmo vestido longo de veludo azul marinho Gilda Midani do espectáculo Das Rosas. Neste caso, acrescentou-lhe um cachecol da mesma cor.  Começa e nós ainda não nos sentámos. Na primeira fila está o Ministro da Cultura, o Presidente da Câmara e o Professor João Caraça. Temos um lago, que torna o cenário ainda mais bonito, a separar-nos do palco. A primeira música é Esquadros uma daquelas que toda a gente conhece e que um dia um produtor musical surpreendido pelo título, atreveu-se a perguntar: “Você acha mesmo que uma canção chamada ES-QUA-DROS vai tocar no rádio?”.

No concerto incluiu: Vim pra ver, Fado Tropical, um poema musicado de Martim Codax, cantou D. Dinis e Negro amor. A pedido do Miguel Júdice cantou Nature Boy que termina com os magníficos versos:  "the greatest thing you'll ever learn, is just to love and be loved in return".

Cantou as (quase inéditas): Era pra ser "Era pra ser canção de amor / Era o amor em versos / ... / Era pra poder ficar eternamente no presente / O amor soprou de outro lugar / Pra derrubar o que houvesse pela frente / Tenho que te falar / Essa canção não fala mais da gente" cantada por Maria Bethânia e Não demora.

Para mim, Paramgolé Pamplona, tocado assim fez lembrar-me o primeiro concerto que vi da Adriana há 16 anos.  Desta vez, teve grande ideia de colocar a peça do próprio Hélio Oiticica em palco, o parangolé "que você mesmo faz". Um adolescente vestiu um dos parangolés de cor branca, mas mostrou-se pouco feliz porque foi parco a  mexer-se, quanto mais dançar. Feito este reparo, tudo foi fenomenal. A letra, a música simples, a ideia. “O parangolé pamplona você mesmo faz... Com um retângulo de pano de uma cor só/ E é só dançar/ E é só deixar a cor tomar conta do ar... Para o delírio porta aberta / Pleno ar/ Puro hélio...”.  Actualmente, encontra-se em exibição do Hélio Oitica no Whitney em NY: To organize the delirium (até 1 Outubro). Quem puder não perca.

Não esqueceu os sucessos Metade, Esquadros, Mais feliz, Sem saída e Devolva-me. Ao contrário de nas aulas, neste concerto, o último em Coimbra, não cantou a mais bonita do grande poeta, filósofo (e seiu amigo), António Cicero, Inverno.

Terminou com Vambora. E no encore não se esqueceu de  Fico Assim sem você, com a batida electrónica a lembrar o original de Domenico Lancellotti, e até mostrou que sabe (também) dançar.

E a cantora, desta vez a Professora e Embaixadora da Universidade de Coimbra, despede-se da cidade para a qual foi escolhida e aceitou viver por uns tempos. Sem lágrimas, levando as lições como companhia e o significado de saudade, desta que é a capital do amor em Portugal: “ Não permita Deus que eu morra sem que eu volte para cá”. Como “Foi Coimbra que me escolheu e se Coimbra me quiser...”. Esperemos que volte, sempre.



quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Uma noite linda daquelas com Moreno Veloso

Dia de manif de taxistas em Lisboa. Eles chamaram de greve, eu chamo de bloqueio. Aeroporto caótico. Filas e filas. Pessoas e mais pessoas. Um mar de gente. Metro congestionado. A verdadeira democracia. Gente de todas as idades e estratos sociais como sardinha em lata. Mas tudo acaba dando bem. Em Lisboa não se vê um único táxi.

O concerto está marcado para as 9. Vou de metro até ao Chiado e vou comer qualquer coisa ao Mini Bar do José Avillez. Quero ficar ao balcão, como sempre quando estou sozinha. O balcão é do bar, para se aguardar enquanto não se tem mesa, mas fazem-me a vontade sem eu pedir muito. O que mais gostei foi da luz. Aquela iluminação de meia-luz como tão bem descreve Blanche DuBois em "Um eléctrico chamado desejo".: "Apaga essa luz demasiado forte! Apaga isso! Não quero ser vista debaixo desse clarão impiedoso! (...) Detesto lâmpadas sem quebra-luz (...) As pessoas frágeis têm de brilhar. Têm de usar cores suaves, cores de asas de borboletas, abafar a luz com uma lanterna de papel". O bar é ao estilo daqueles bares trendy de NYC onde se vai depois do trabalho, ou beber um copo antes ou depois do teatro e, por último, a mais comum das hipóteses, afogar as mágoas em grande estilo a beber uma pipa de massa (para depois garantir uma ressaca daquelas). 
Aqui a iluminação está focada nas garrafas e o que vi preparar leva-me a dizer que voltarei em breve (a minha intenção era voltar no fim do concerto para uma Margarita ou um mojito, mas nem tudo corre sempre como queremos e/ou esperamos. Devagar, dizem. O caminho faz-se caminhando. Paciência é a melhor virtude que podemos ter). Escolhi o mini hambúrguer porque só queria qualquer coisa para segurar o copo de vinho branco José Avillez. Entrei quase às 8:30 e perguntei se conseguia comer qualquer coisa até antes das 9. Disseram-me que sim. Irrepreensível. Às 8:55 já estava a pagar. Simpatia mais do que muita. Humor em doses idênticas e disponibilidade do melhor.



O Teatro São Luiz estava composto. A sala, para quem não conhece, é muito bonita no estilo do Teatro Nacional São João. As cortinas estão fechadas. Não esperamos muito para o início. Algumas caras conhecidas na plateia: Anabela Mota Ribeiro, Matilde Campilho, um dos músicos da banda Cê, achei que vi o Domenico Lacellotti (mas como sou pitosga, não aposto).
As cortinas abrem e lá está Moreno Veloso e a banda (Pedro Sá, Rafael Rocha e Bruno Di Lullo). Estão debaixo de uma iluminação de várias cores com uma espécie de vários candeeiros de luzes pequeninas. Eu não conhecia o Moreno no palco. Nem nunca nos cruzamos na vida. Mas este menino de 44 anos tem uma doçura misturada com um riso lindo e uma alegria que deve vir da Bahia. Não imaginava que fosse tão extrovertido. Sentia-se em casa, era notório. E rodeado de amigos. Um menino grande. Um despojado. É daqueles concertos que não se vai para cantar nem para reconhecer mas apenas para ouvir. Foi o que fiz. Não me lembrei do telemóvel. Perdi a noção do tempo. Não reconheci todas as músicas, nem esse era o objectivo. Mas cantou Mambeado aquela que diz: “Que lindo es estar en la tierra/ después de haber vivido el infierno”. Fechei os olhos e ouvi, somente.Que bem que o Moreno a canta.  Depois, chamou ao palco Luana Carvalho que tudo o que cantou eu gostei. E eu que quase não oiço música e que não gosto de quase nada. Cantaram juntos, a tão esperada por mim, Deusa do Amor, um verdadeiro hino ao Carnaval de Salvador mas com batida suave, uma melodia de amor, que eu tenho ouvido em loop: uma verdadeira “cantada”: “Tudo fica mais bonito quando você está por perto/ você me levou ao delírio por isso eu confesso/ os seus beijos são ardentes/ quando você se aproxima o meu corpo sente/.../ Balanço o alicerce mais forte que tem nesse mundo/ O cupido me flechou”. Não é lindo? Não são necessárias grandes metáforas e eufemismos para descrever o maior dos sentimentos. Luana Carvalho que eu não conhecia nem nunca ouvi falar, imagino que a maioria também não. Vi-a pela primeira vez no Folio, em Óbidos num showcase de música e poesia (para ler mais aqui e aqui). Não se esqueçam, esta menina ainda vai dar muitas cartas! É só talento. Muitos, numa só. Depois, sozinho, cantou Coisa boa a canção de ninar para os seus “filhinhos”, Mar português de Pessoa, Noite de Santo António. Dançou muito com Luana Carvalho. Mostrou que sabe dançar. Tem swing. Dança muito! Uma alegria. Voltou duas vezes ao palco, incluiu Arriverdeci e Leãozinho.
No final do concerto saimos felizes e de bem com a vida. A felicidade num instante. É isto, apenas.






Todas as fotos, com excepção da primeira, foram gentilmente cedidas pela Catarina Henriques


E no dia seguinte seria talvez o dia mais feliz da minha vida. Mas esse merece um texto à parte. Aguardem. Eu gostava de dizer que sou inspirada e que escrever é inspiração. Mas para mim é trabalho, tempo, inspiração e disponibilidade. Conjugar estas coisas é uma tarefa hercúlica, para mim. Desculpem, para quem pede muito e mais e mais.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Folio – Festival Literário Internacional de Óbidos 2016

Ponham os olhinhos no FOLIO, senhores! Ainda dizem que a cultura de alta qualidade não vende.Um evento de 10 dias à volta dos livros. Uma vila, no interior de Portugal, num país que se diz ler pouco e todas as sessões estão cheias e os eventos, mesmo os pagos, estão esgotados. O povo é aquilo que se lhes dá. Eu e a maioria das pessoas presentes no Folio foram propositadamente. Qual a receita do sucesso?

Fico a saber que o Presidente da Câmara Municipal de Óbidos é do PSD. O partido que muitas vezes nos seus governos aboliu o Ministério da Cultura. Incluindo o último, de Passos Coelho, que foi só tiros nos pés. Até o acervo do Miró queriam leiloar. Ou seja, as decisões culturais dos políticos não são ideológicas. Há por aí muito boa gente que diz que não precisa de estudar nem ler nada para além do seu trabalho porque já aprenderam tudo o que deviam quando foram alunos na Faculdade. Que visão mais redutora do mundo. Que pequeno o mundo que lhes vai na cabeça. Que falta de pensamento. Mas, isso, são outros quinhentos.

 O que me fez ir, não vou mentir, foi o programa. Primeiro o Salman Rushdie com a Clara Ferreira Alves. E depois, o Camané a cantar Jobim. Apesar de, para este último, já não ter conseguido bilhetes. Tirei o meu último dia de férias para ir e conseguir chegar a Óbidos às 9. A conversa de Rushdie com Clara Ferreira Alves teve que ser mudado de lugar. Da tenda de autores para a tenda de concertos. Acho que a conversa não poderia ser conduzida por ninguém mais habilitada. Quem melhor do que Clara Ferreira Alves para conversar com Salman Rushdie? Ela que é uma enciclopédia ambulante. Que domina e conhece o islão, o Médio Oriente, a fatwa, terrorismo, EUA, NY, Londres. Sobre isto e muito mais se falou nesta noite. E que escreveu um livro magnífico sobre estes assuntos. Eu diria que o humor e a ironia são as características deste escritor. Ao contrário de muitas outras vedetas do seu calibre, este não é tímido, é solícito e ri-se de si próprio. É talvez a única pessoa de origem indiana que conheci simpática, não querendo generalizar. Apelidou a religião de non sense. Referiu-se a Madre Teresa de Calcutá sobre ser o oposto de uma santa. E apelida o ex-Papa de “Eggs Benedict” Falou-se da sigla ISIS que há uns tempos ninguém conhecia: “era apenas o nome de uma deusa egípcia, ou de uma mercearia na rua onde vivo, em Nova Iorque. Falou de quanto é feliz por viver em NY. Clara perguntou-lhe onde se sentia em casa ou aonde é que ele pertencia. Ao que respondeu que sempre se sentiu pertencer muito mais a cidades do que a países. Gosta de livros que o façam pensar. Falou que grandes livros não mudam necessariamente o mundo. Deu como exemplo o “Moby Dick”, um colosso que segundo ele nem a pesca mudou.
No dia seguinte acordei relativamente cedo, para ser sábado. Fui comprar o “Expresso” em frente ao hotel e cruzo-me com o grande Luís Miguel Cintra. Nunca o tinha visto fora do palco. Passei a manhã a ver todas as livrarias de Óbidos: Mercado, Adega...O saco de pano que muitas pessoas usavam era ridiculamente caro. Nem um saco destes na Strand custa o mesmo.Almocei num dos restaurantes na rua principal. Comi muito bem, bebi melhor.


Copyright: Folio
Copyright: Folio
Copyright: Folio

Ao fim da tarde tive uma das grandes surpresas, talvez pela ausência de expectativa: a “Casa Cais”. Luana Carvalho (que eu não conhecia, como é possível), Alice Sant’Anna (que eu conhecia do livro “Rabo de Baleia” que trouxe de São Paulo), Pedro Sá (o grande músico da banda Cê e um dos grandes responsáveis pela modernidade dos últimos discos de Caetano) e Rafael Rocha. Pedro Luís, na plateia fez uma participação especial. Anabela Mota ribeiro apresentou-os, lendo “excertos” do grande livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas do não menos grande Machado de Assis. A delicadeza de Alice Sant’Anna a ler excertos do seu livro “Rabo de baleia” cujas palavras mais repetidas foram: baleia e Japão. E os variadíssimos nomes para a mesma cor usados no Japão. Mostrou ainda talento para cantar. Luana Carvalho, filha da mãe Beth, mostrou que o talento é genético. Até o cenário era inspirador. Uma laranjeira em que se viam as folhas a cair. O passar do tempo, como a vida. Que acontecimento este. Foi tão bom mas tão bom. Ficou a memória e a vontade de ver de novo. “Que lindeza tamanha”, como nas palavras de Régio.

Copyright: Anabela Mota Ribeiro


À noite, o grande concerto de Camané a cantar Tom Jobim. Uma verdadeira utopia neste registo. Indescritível de tão lindo e emocionante.

Copyright: Anabela Mota Ribeiro
No último dia houve ainda uma leitura encenada dos solilóquios de Hamlet — “como queiram de William Shakespeare” —, coordenada por Beatriz Batarda e e por alunos e ex-alunos dela. Este para mim, foi o outro grande momento do festival. De uma delicadeza, força, verdade e excelentes interpretações. De encher a alma e o coração. Beatriz Batarda, uma excelente professora e uma das maiores encenadores e actrizes da sua geração. Que para além de tudo, é muito gira. Palamas para ela, muitas e para os alunos que ajuda a formar. Enquanto houver actores desta qualidade existirá sempre público.

Copyright: Folio
Copyright: Folio
Copyright: Folio
Copyright: Folio

Dos dois curadores só conhecia a Anabela Mota Ribeiro e José Eduardo Agualusa. O último não vi. A Anabela estava omnipresente. Todos os eventos que fui, lá estava ela. Sorriso aberto e abraços e beijinhos para todos os conhecidos. A felicidade era visível. Foi através dela que conheci o festival e não poderia haver melhor divulgadora. O seu entusiasmo e alegria foram contagiantes. Que qualidade de programa e que orgulho. Palmas e elogio, por isso, para ela.


Há coisas a melhorar, claro. Como as acessibilidades. O Comboio Literário foi uma excelente iniciativa. Falta melhorar os transfers da estação de comboios para a vila e criar um Comboio Literário desde o Porto (o norte também existe, e passar o dia entre aviões e comboios só com muita vontade mesmo). Mas não me arrependi. Tudo valeu muito a pena. Superou todas as minhas expectativas. O tempo ajudou. A organização magnífica, o cenário condizente. Tudo beirou a perfeição. Memórias muitas e já penso na vontade de voltar para o ano. Para mim, foi um verdadeiro acontecimento. 

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Caetano apresenta Cristina

6 de Setembro. São quase 9 da noite. A temperatura na rua ultrapassa os 30 graus. Dizem ser o dia mais quente do ano. O Coliseu está praticamente vazio. O calor é mais que muito. E eu adoro calor. Só se fosse para ter o efeito da música: “Calor que provoca arrepio/ Toma esta canção/ Como um beijo”. O Coliseu demora a encher. Perto da hora do concerto começar, a lotação não estava a metade. A conhecida pontualidade dos portugueses. A temperatura subia exponencialmente, quase infernal. Pensei ser para o ar condicionado não afectar as vozes. Antes de começar o concerto eu já tinha bebido duas garrafas de água com gelo, compradas no bar. Cheguei, também, a pensar que esse seria o objectivo. O lucro extra com a venda de bebidas. O concerto começou 30 minutos depois da hora marcada. Este que foi o concerto extra. Sendo a primeiro dos dois. Quase esgotado.

As cortinas abriram e Caetano surge sozinho: "Este espectáculo se resume a uma cantora, um violonista é um compositor. Mas diz tudo sobre a extensão e a profundidade do samba. E por isso eu quero chamar ao palco Carlinhos 7 cordas e Teresa Cristina". Teresa Cristina é uma cantora praticamente desconhecida aqui e eu só a conheço por cantar uma música da Adriana Calcanhotto Beijo sem Aquele samba que fala de uma saída à noite para afogar as mágoas da "dor de corno": "vou á Lapa, decotada, viro todas, beijo bem...". Desta vez, Teresa Cristina vem cantar Cartola. Não posso dizer que adorei. Mas a simpatia, sinceridade, emoção e generosidade dela foram marcantes. Falou do sonho que tinha desde a infância de cantar em Portugal e que por isso era "um sonho com laço rosa". Disse também que o Coliseu foi o sítio mais lindo onde cantou. E os elogios não ficaram por aqui. "Tudo aqui é lindo, a rua, a padaria, a farmácia". E a emoção que é cantar falar numa língua que os outros entendem. Um discurso emocionante e emocionado que incluiu lágrimas. E ela própria sofreu com o calor quando aceitou a oferta e de um leque de uma senhora da primeira fila. 

Copyright: Catarina Henriques
Copyright: Catarina Henriques
Caetano entra e o figurino resume-se a um banco e um violão. Ele, que vem formal, de "paletó" castanho alaranjado, camisa, umas calças chinos e sapatos pretos de atacadores. O concerto dele começou com Um índio, uma canção arrebatadora para lá de linda:

"Um índio preservado em pleno corpo físico
Em todo sólido, todo gás, todo líquido
Em átomos, palavras, alma, cor
Em gesto, em cheiro, em sombra, em luz, em som magnífico
(...)
É aquilo que nesse momento se revelará aos povos
Surpreenderá a todos não por ser exótico 
Mas pelo facto de ter estado sempre oculto
Quando terá sido o óbvio

Seguiram-se Os passistas, Menino do Rio, Minha voz minha vida, Meu Bem, Meu Mal, Esse Cara, por desordem alfabética e de alinhamento, ao sabor minha memória. Caetano, um baiano do Recôncavo, mostra que continua a ser um menino do Rio e que no alto dos seus 74 anos, como o vinho do Porto, melhora com o passar dos anos, como a canção: “Eu vi muitos cabelos brancos na fronte do artista/ O tempo não para e no entanto ele nunca envelhece”. Como o Coliseu está mais do que quente, "mais quente do que no Rio", Caetano não resistirá  a tirar o paletó "bonito” (not!). Nesta noite não haverá gritos de "Fora Temer" mas muitas vaias. Introduzirá um samba com: "Recentemente o presidente que era interino até poucos dias atrás no Brasil fez um discurso utilizando mesóclise e a imprensa sacaneou muito porque achou que era uma coisa, sei lá, formal. A mesóclise é uma forma considerada estranha para o coloquial brasileiro mas é bonita. E nesse samba eu faço duas mesóclises: Se desbotássemos, outros revelar-nos-íamos no Carnaval// (...) Amor,/ onde quer que estejamos juntos/ multiplicar-se-ão assuntos de mãos e pés/ e desvãos do ser.”

Copyright: Pedro Gomes
Copyright: Catarina Henriques

Mostrou também que é um poliglota genial e que domina (exemplarmente) no mínimo 3 línguas: Cucurucucu Paloma (do aclamado filme de Almodovar Hable com ella),  London London (uma irmã de Englishman in New York, a mostrar o quão difícil é ser estrangeiro numa grande metrópole: “I know no one here to say hello/ I know they keep the way clear/ Iam lonely in London without fear/ I’m wandering round and round here nowhere to go), Love for sale  (cantada  a capella) e por fim Libertação. Esta última, um fado cantado por Amália sobre um poema de David Mourão-Ferreira e que Caetano disse nunca se sentir preparado para cantá-la em palco. Não foi o que pareceu. O sotaque português beirou a perfeição.

Copyright: Catarina Henriques

Depois não podiam faltar as aclamadas Reconvexo, Leãozinho, Força estranha, Sozinho, talvez as mais aplaudidas e acompanhadas da noite e terminou Luz de Tieta.
Voltou para um primeiro encore, acompanhado: a fabulosa Tigresa (inspirada na Zezé Motta que frequentava a lendária boite Dancing Days que era uma amálgama social: “Me falou que o mal é bom e o bem cruel... Ela me conta, sem certeza, tudo o que viveu/ Que gostava de política em 1966/ E hoje dança no Frenetic Dancing Days /.../ Com alguns homens foi feliz, com outros foi mulher/ Que tem muito ódio no coração, que tem dado muito amor/ E espalhado muito prazer e muita dor...) Miragem de Carnaval, Como 2 e 2 (que é tão linda e que diz: "Meu amor, Tudo em volta está deserto tudo certo, Tudo certo como dois e dois são cinco"), Desde que o samba é samba. E voltou para terminar, de vez, com Odara. já com toda a gente fora dos seus lugares, junto ao palco e de telemóveis em punho. Momentos inesquecíveis, memoráveis, fantásticos. Bom demais!
Copyright: Nuno Ferreira Santos
Copyright: Nuno Ferreira Santos
Copyright: Catarina Henriques
Copyright: Catarina Henriques


terça-feira, 17 de março de 2015

Mísia no Theatro Circo

Braga, 6 de Março de 2015

Eu, ignorante em música, confesso-me. Tenho 35 anos, vivo entre Braga ("O penico do mundo"), NY ("A grande maçã") e Lisboa ( "A grande alface") e menos por outros lugares do mundo aos quais se chegam pelos ares. Considero-me instruída. Dizem que leio muito. Tenho um doutoramento. Viajo muito. Já estive em todos os continente excepto na América do Sul. Durmo muito pouco. Por isso, penso muito. Quase não oiço música. Leio todos os dias os jornais portugueses e New York Times. Leio todas as semanas o Expresso. A única rádio que oiço, quando oiço, é a TSF. Quase não vejo TV. Tudo isto para dizer que apesar de tudo o que mencionei, nunca tinha ido um concerto da Mísia. Ontem foi a primeira vez!  Não encontro uma explicação razoável, nem desculpas coerentes. Digo apenas que é uma vergonha este facto. Mas, como o ditado, mais vale tarde do que nunca. E nunca uma frase combinou tanto com uma situação. 

Ontem percebi o que perdi nestes anos todos. Não tinha qualquer expectativa. Fui ao concerto porque era indesculpável que uma pessoa como eu que já fez loucuras para ver uma ópera, um ballet ou uma peça de teatro, que já pagou fortunas para estar num determinado dia em determinada cidade, que conheceu quase todas as pessoas portuguesas e estrangeiras que queria conhecer, não tivesse visto um (que fosse) concerto da Mísia. Esta cantora mais conhecida fora do que dentro do país. Esta pessoa que eu nada sabia ou conhecia para além de estar sempre impecavelmente vestida e penteada, uns cortes de cabelo contemporâneos, que cantava uns fados. Como a maioria das pessoas, e sem nenhuma razão plausível, achei que morava fora de Portugal. Talvez em Paris, no meu imaginário. Ouvi, repetidas vezes, tempos a fio, até à exaustão um fado na voz dela, que até hoje não sei se é das suas músicas mais conhecidas: "O Corvo" ("Tenho um corvo à flor da pele/ vive de uma ferida aberta/ acorda quando me deito/ levanta voo do meu peito/ sempre sempre à hora certa/...entra pela minha vida/ como a lua num jardim / pendura tudo o que valha/ no gume de uma navalha/ traz-me pedaços de mim/ tenho um corvo à flor da pele/ um irmão da minha idade/ acorda quando me deito/ levanta voo do meu peito/ diz que se chama saudade").

Um piano e uma voz. É assim este concerto. Um maestro (Fabrízio Romano) que tocava tão bem que parecia cantar com as mãos. Belíssima performance. Mísia introduziu cada música com detalhados monólogos. Delikatessen Café Concerto é um jantar em tempos de crise que Mísia imaginou um dia que estava em casa. As músicas são sobretudo das décadas de 50 e 60. Começou com a primeira canção do disco Fado do ciúme. As histórias que foram descrições de acontecimentos reais como a coincidência de ter encontrado num alfarrabista telegramas de artistas dessa época. Contou também a história  do poema de Tiago Torres da Silva sobre o altar que tem em casa com santos de todas as partes do mundo. Confessou-se agnóstica mas que acha que aqueles santos, rodeados por fotos da família e amigos, põem-se todos de acordo e protegem-na. Falou também de um poeta espanhol que morreu na prisão e nunca chegou a conhecer a filha e que para ela fez uma canção de embalar: Nanas de la cebolla. Destacou os amigos Eduardo Prado Coelho e Vasco Graça Moura que diz fazerem-lhe muita falta. A segunda parte do concerto, na qual mudou de roupa, virou-se para o fado: Que fazes aí Lisboa?, Sem saber. O poema Veste de noite este quarto foi escrito por António Lobo Antunes para o cantor Vitorino Salomé. Mísia perguntou se sabíamos quanto tinha ficado o jogo Braga-Porto. Disse não se interessar por futebol nem saber deste jogo mas que quando chegou perguntou “Onde está o público?”. Mas apesar de a sala não estar cheia, para ela, é como se estivesse. E, por isso, foi longamente aplaudida. Duas das músicas com que terminou, entre elas Espelho quebrado, fazem parte do disco que será uma homenagem a Amália. Será lançado no outono e chamar-se-á Para Amália. Fez um demorado elogio a Amália, não só como cantora e intérprete, mas como grande talento para a escrita de poemas e a sua contemporaneidade (mais do que Edith Piaff e Billie Holiday)

Descobri uma cantora totalmente desconhecida para mim. Diz-se tímida. Mas tem um humor judeu que adorei. Ama os poetas e os poemas. O poeta que mais cantou foi Vasco Graça Moura (que eu tanto gosto e que fez a tradução brilhante e que eu conheço do livro Divina Comédia de Dante). Cantou o meu querido António Lobo Antunes. No intervalo das músicas conversa. Conta histórias. Não sei se foi improviso. Eu prefiro acreditar que sim.

Eu prefiro fingir acreditar na desculpa para o concerto estar meio vazio foi de coincidir com o dia e hora de um jogo Braga-Porto. As "mentiras piedosas", como Blanche Dubois chama-as no Eléctrico chamado desejo de Tennessee Williams. Porque será que eu sempre tive capacidade para decorar falas de diálogos de livros e nunca tive capacidade para decorar matéria quando era estudante? Alguma explicação científica deve haver para este fenómeno. 

Terminou com um agradecimento ao público que para ela encheu a sala, a transbordar.O encore foi somente com Lágrima de  Amália, que para mim é tristíssima. Dedicou-a ao seu fiel amor, o público. Aplaudida de pé, mais uma vez, como bem mereceu. A sala não estava cheia nem perto disso. Mas o entusiasmo era o equivalente.


Estava na primeira fila. Esperei um pouco para as pessoas que estavam atrás de mim, agora à frente, saíssem. Quando vejo a Adriana Calcanhotto. Se não fosse verdade diria que estava a alucinar. Encontrá-la por mero acaso, em duas cidades diferentes, no espaço de duas semanas, em locais que não era os concertos dela,  qual seria a infinitésima possibilidade? Tento passar despercebida por ela. Prefiro que não me reconheça. Eu e o meu medo de os outros acharem que o meu desconforto é directamente proporcional ao deles, nestas situações. A evitar, por isso. Eu, que tenho capacidade social de uma criança tímida de quatro anos. Sim, quase um bicho do mato. Ultrapasso, o melhor que posso, esta "pedra no caminho". Vou comprar o último CD  da Mísia Delikatessen Café Concerto que não tinha encontrado em lado nenhum em Braga, Guimarães e Lisboa. Mas que a Mísia tinha-me dito que estaria disponível para venda no Theatro Circo. E já que ali estava, eu e o CD, num concerto que adorei e que não sabia quando se iria repetir. Dei um pontapé, a custo, à minha timidez e vou aos camarins. Esta sim, a verdadeira situação constrangedora. Se há situação constrangedora é esta. Estar ali à espera de falar com uma pessoa que não nos conhece, a quem vamos dizer umas palavras amáveis e gentis, iguais às dezenas de outras pessoas. Que vamos ser apresentadas, mas que se for como eu, no dia seguinte não se lembra do que comeu na refeição anterior. Quando cheguei ao camarim, a Adriana estava a despedir-se da Mísia. Eu não lhe queria dizer nada para além dos parabéns pelo magnífico concerto. A Mísia assinou- me o CD que eu vou ouvir até enjoar no carro. E eu desci no elevador e pelos labirínticos corredores do Theatro Circo. 




quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

A noite catártica de Adriana Calcanhotto na Gulbenkian

Este era para ser o concerto que encerraria "Olhos de onda". A tournée começou há aproximadamente dois anos em Lisboa. Um concerto concebido propositadamente para a comemoração dos 20 anos da Culturgest, primeiro palco que Adriana havia pisado em Lisboa. Este concerto na Gulbenkian seria o último. Em Lisboa começou e em Lisboa acabaria. Infelizmente, a mulher de Adriana, Susana de Moraes, faleceu há quase um mês e por esse motivo Adriana teve que adiar os concertos de São Paulo que antecediam o concerto de Lisboa. Não sei qual o motivo, mas a verdade, é que já que o concerto de Lisboa não seria o último, "Olhos de onda" não tem planos de terminar, pelo menos, para já.


Ontem, depois de ter adormecido às 7 da noite e acordado às 2 da manhã, andei a tocar viola até ser dia.... Mas como tinha pequeno-almoço incluído até às 10:30, não tinha como não aproveitar! Acordei, tomei banho em 5 minutos e em 10 estava pronta... O que significa que eram 10:20 quando desci no elevador. A porta do elevador no restaurante abre-se e tenho uma adolescente a fazer um demonstração de karate com direito a som e tudo! Quando a porta se abre ia morrendo com o susto e ela não se conteve com o riso! Ainda não refeita do susto, que me ia provocando um ataque cardíaco ( há duas coisas que eu não aguento: sustos e surpresas!), dirijo-me aos expositores com vários pães... A primeira coisa que vi. Tentei suspirar de alívio! Vou a pegar num prato e exactamente ao meu lado vejo uma pessoa com uns óculos escuros gigantescos! Aí ia morrendo verdadeiramente. Tento disfarçar para não deixar cair o prato. Devo ter dado um ar de malcriada e virei-lhe as costas para fingir que não a reconheci. E para ela não ficar tão incomodada como eu. Peguei no primeiro pão que vi, num pacote de manteiga e numa maçã. Ela continuou na vida dela e eu fui em direcção a uma mesa que me tinham atribuído junto à janela. Não mais me levantei e tiveram a amabilidade de me trazer o café à mesa. Eu felizmente tinha levado um livro que me ocupou o tempo. E a atenção.

Depois de ter comprado uma camisola verdadeira do Benfica para o afilhado  e uma das poucas coisas que o sobrinho mais velho não tem do Cars 2, quase que chegava atrasada ao concerto, que começou exactamente à hora marcada. 

Adriana entrou no palco vestida de cinzento, o traje habitual do espectáculo, a única diferença é que tem uma echarpe. Os cabelos estão presos. No palco somente o banco, a viola, o microfone, uns livros onde coloca o pé direito e uma mesa com uma garrafa de água. O concerto começa como no original com "O nome da cidade". "Maresia" passou de canção final para segunda. Seguiu-se "Inverno". Aqui percebeu-se o quanto estaria a ser difícil este concerto para ela. O dilema, aquilo que ela gosta tanto de fazer, numa cidade que ama, mas num momento tão delicado da vida dela. Enganou-se na letra. Esta letra que António Cicero dedicou a Susana de Moraes. Nem quero imaginar o nó que tinha na garganta. Isso foi tão perceptível nas explicações seguintes de "Para lá", "Sem saída" e "Motivos reais banais", em que uma Adriana entalada, com a voz quase embargada e com a tosse e a voz  (quase) a atraiçoa-la. Até eu me senti nervosa por ela nesses momentos. Uma das canções inéditas foi um poema de Sá-Carneiro que ela musicou para um sarau com a Professora Cleonilde Beraldinelli, especialista em Fernando Pessoa e Doutora Honoris Causa por Coimbra:

Senhora dos olhos lindos,
Por que é que sois tão cruel?
As pombas não têm fel,
E vós sois pomba, senhora...
Tormentos vários, infindos,
Sem dó, me fazeis sofrer...
Morto, vós me qu'reis ver,
Não é verdade, traidora?
Respondei! Ficais calada!
Neste caso, adivinhei...
Pois muito bem! morrerei...
Morrerei, sem ter pesar!...
Minha vida amargurada
Eu vos vou dar, deusa qu'rida...
Antes porém da partida
Dai-me a esmola de um olhar.

Um dos momentos altos da noite foi quando introduziu a canção "Susana" que  ela explicou que escreveu entre 20 ou 21 de Março do ano passado e que tinha falado disso num programa "Alta definição" para um menino, Daniel Oliveira, que é perigo em todos os sentidos. A letra falava de mar, de desertos...

Em tantos concertos que assisti da Adriana Calcanhotto nunca a vi interagir tanto com o público. Parecia um género de exorcizar a dor. Explicou quase todos os poemas. Contou piadas. Com o seu humor tão característico. Sentiu-se que ela estava ali inteira e o público recebeu-a com um silêncio inquietante mas com palmas ensurdecedoras no final de cada música. Adriana de certeza que se sentiu abraçada, especialmente hoje. Aplaudida sempre de pé das vezes que regressou ao palco. Quando lhe pediram no último encore "Fico assim sem você" confessou que ali não podia negar nada e revelou-se surpresa pelos concertos do seu alter-ego, Partimpim, estarem ambos esgotados. Uma noite grande, comovente, inesquecível, apoteótica, catártica, como só algumas têm o privilégio de ser. Uma noite daquelas, nas suas palavras.



Créditos: Catarina Henriques



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