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quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Dia 2 "The Cleaner" - Marina Abramovic no Palácio Strozzi em Florença

Dezembro de 2018

Marina Abramovic é conhecida pelas suas performances perigosas, arriscadas, na maioria das vezes, chocantes. Na maioria delas os seus limites físicos e psicológicos são testados. Ver o trabalho de Marina Abramovic é sobretudo uma experiência sensorial. Sentir e experimentar. Quando me perguntaram quantas horas se demora a visitar a exposição respondi que é o tempo que quisermos. Ou nos deixamos mergulhar naquele universo ou sairemos muito rapidamente.

Cheguei ao Palácio Strozzi por volta das 11 da manhã e esperei  uns 20 minutos para comprar o bilhete para a exposição, que custava 12€ , mas com o desconto da Booking custou 9.5 €. Subi umas escadas e a primeira coisa com que  nos deparamos é uma sala separada por uma parede de vidro, pela qual saberei depois, se pode entrar. Do outro lado da parede de vidro estão duas pessoas nuas em pé debaixo do que simula uma porta. Um rapaz e uma rapariga com alturas muito diferentes. Ele muito alto e ela baixa. Ambos são caucasianos. Ambos são muito jovens. Olham-se nos olhos. Nus. Entre eles há um pequeno espaço físico que só permite a passagem de uma pessoa de lado e que obrigatoriamente terá que tocar em um deles ou nos dois. Do lado de cá do vidro olho sem pressa e aprecio as pessoas que têm coragem de passar entre eles. Depois observo pequenos pormenores como nenhum dos dois estar completamente depilados. E como apesar de serem os dois magros seriam muito mais bonitos vestidos. Os dois tinham caras muito jovens e bonitas. Ele tinha bigode e barba de vários dias. Tinha também vários piercings e brincos na orelha. Um deles era no mamilo. Ela não tinha qualquer piercing nem tatuagem. Uma pele jovem e muito branca debaixo da luz. Ele tem uma pila grande e ela tem a pubis coberta de pêlos. As pessoas vão passando entre eles e a concentração deles mantem-se inalterada. Comparo com as performances, que vi da própria Marina Abramovic com o Ulay há muitos anos atrás, no  youtube. E também com as fotos que vi no seu livro autobiográfico. Esta performance chama-se Imponderabilia. Por aqui comecei e nela acabei quando terminei de visitar o primeiro andar da exposição. Passadas mais de uma hora, o casal era outro. A diferença de alturas era grande também. Ele não era bonito e não era tão jovem. Ela era muito bonita e seria tão bonita vestida como nua. Ela também não era tão nova mas o tempo não lhe deixou marcas nefastas no corpo. Ele não era bonito nem tinha um corpo bonito, tinha muitos pêlos e uma pila que parecia a cópia do David do Michelangelo.

Muitas das performaces estão a ser mostradas a preto e branco em televisões. Muitas delas conhecia-as de exposições anteriores, do youtube e da autobiografia. "Relation I" em que Abramovic e Ulay estão a dar estalos um ao outro, à vez, com maior ou menor intensidade. "AAA-AAA" é uma performance de 1978 que dura 15 minutos na qual grita até perder a voz. "Breating in/breathing out", tal como a descrição em inglês indica é uma performance em que Abramovic e Ulay colam as bocas, semelhante a um beijo, e respiram de lábios colados. Em "Rest energy" Abramovic puxa o arco da flecha com a mão e deixa-se inclinar pelo peso do corpo à medida que puxa o arco e ao mesmo tempo Ulay, do outro lado, puxa a flecha. Outro dos vídeos mostra Abramovic e Ulay nus a correrem em direcções opostas contra colunas e o público a assistir. A separação de Abramovic de Ulay é também mostrada, quando os dois decidem atravessar a muralha da China, cada um começando a caminhada do lado oposto do outro e encontrando-se no caminho. Esta é uma das descrições mais sensíveis que me lembro da autobiografia. Pode ver-se também a performance de quando desenhou uma estrela na barriga e depois se cortou com uma lâmina de barbear. Não falta, talvez a mais conhecida de todas, aquela que a tornou uma das mais famosas artistas contemporâneas, e que a consagrou: “The artist is present” no MoMa em 2010. Nesta performance Marina Abramovic sentou-se durante 8 horas numa cadeira, diariamente, vestida com um longo vestido vermelho ou preto, com apenas uma mesa a separá-la da outra pessoa. No Palácio Strozzi são mostradas em simultâneo as caras das milhares de pessoas que por lá passaram acompanhadas pela expressão de Marina Abramovic.

“The house with the ocean view”, interpretada in loco, uma pessoa vive numa espécie de mezzanine com escadas de facas com a lâminas como degraus e existem  três divisões de uma casa incluíndo um quarto e uma casa de banho.

Outra das performances sobre a qual tinha lido, uma das mais recentes e que implica a intervenção do público e da qual ela tão detalhadamente fala na sua autobiografia é: “Counting the rice”.  Montes de grãos de arroz branco e preto estão em cima de uma mesa na qual várias pessoas se podem sentar. Coloca-se os auscultadores. Segue-se as intruções. Conta-se grãos. Separam-se grãos. O conceito de “faz tu mesmo”. O silêncio como companhia e o tempo a passar. Este é o objectivo de Marina Abramovic no instituto que criou em em Hudson perto de NY.






quinta-feira, 26 de setembro de 2013

O olhar vazio

[Este texto foi escrito no dia 15 de Setembro]


Estou sentada numa das mesas do café do Centro de Arte Moderna (CAM) na Gulbenkian. São 4 da tarde. Tenho à minha frente uma salada com quatro escolhas, uma mousse de chocolate, e para piorar, uma coca-cola. O café do CAM está a abarrotar. Almoços tardios em família, casais de turistas, nenhuma mesa individual, excluíndo a minha.Ao meu lado tenho uma mesa grande, com uma família, com o que parecem ser os pais, duas filhas com os respectivos maridos e os netos. Um dos homens (que só poderá ser genro ou filho) está numa das pontas da mesa e é o único que não participa na conversa. Não sei do que falam, nem acho isso importante. Mantém-se à parte do mundo. O olhar dele é para o vazio. Não está ali. Está distraído no seu mundo. Ele continua à margem. Impecavelmente vestido, cabelo cortado, grisalho, barba de 3 dias, parece-me estar depressivo. Não fala, não partilha, não ri, não demonstra emoção. Só o olhar o distingue dos outros. Imperturbável. O que sente? O que o incomoda? Os mais pequenos foram pegar-lhe na chávena de café e ele não se manifesta. Tem umas mãos lindas, uns dedos compridos, unhas impecavelmente cuidadas. Mexe nas mãos, olha para elas. Provavelmente para se manter à parte, suponho que escolheu estrategicamente, o lugar na mesa. Reparo que não usa aliança. Mas isso não significa nada. Será ele também um dos filhos? Será solteiro? Ou casado com alguém da mesa? Ou divorciado? Levanta-se, caminha cabisbaixo e os pés parecem arrastar-se. Despede-se de algumas das outras pessoas sem entusiasmo. Sai sem eu conseguir perceber a história dele. Sai e eu fico com estas dúvidas que nunca vou desfazer.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Hélio Oiticica – “Museu é o mundo” @ Museu Colecção Berardo




A exposição do Hélio Oiticica tinha uma projecção do Magic Square nº 5 permanente do Museu do Açude no Rio de Janeiro. 




A exposição valeu por ter visto de perto os “Parangolé Pamplona” a capa que “a gente mesmo faz”.



Parangolé Pamplona

O parangolé pamplona você mesmo faz 
O parangolé pamplona a gente mesmo faz 
Com um retângulo de pano de uma cor só
E é só dançar 
E é só deixar a cor tomar conta do ar
Verde Rosa 
Branco no branco 
no peito nu 
Branco no branco no peito nu
O parangolé pamplona 
Faça você mesmo
E quando o couro come 
É só pegar carona 
Laranja Vermelho
Para o espaço estandarte
"Para o êxtase asa-delta"
Para o delírio porta aberta 
Pleno ar 
Puro Hélio
Mas, o parangolé pamplona você mesmo faz

Adriana Calcanhotto


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