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terça-feira, 18 de setembro de 2018

Resultados Investigador FCT

Ontem recebi um telefonema sobre os resultados do concurso FCT IF. Aqui já era noite e tinha deixado o meu carregador na minha mesa do instituto. Não pude saber do meu resultado até hoje de manhã. Quando soube os resultados do laboratório onde fiz o meu último Pós-Doc fiquei surpreendida com o elevado número de contratos atribuídos. Afinal, desta vez, aquele grande instituto com apenas 20 anos não precisa de ter um nome inglês para se destacar. Finalmente o reconhecimento começa a surgir em Portugal quando há muito já o era fora de portas.E já não se poderão queixar do esquecimento de uma terriola do norte recôndito, provinciano, escondido, com muito pasto, onde está a sua sede e que meia dúzia de kms entre duas das cidades mais próximas demoram mais de meia hora. Provavelmente, estes excelentes resultados do concurso IF FCT foram uma alegre excepção à regra da maioria dos institutos, unidades e grupos portugueses.

Muitos (500 investigadores) estarão mais felizes do que nunca. E dei comigo a pensar que, pelo menos estas dezenas de pessoas, não terão o coração nas mãos nos próximos anos. Muitos deles já com família constituída e vida estabelecida em determinado local. E fiquei, momentaneamente, feliz por eles. Mas depois pensei que em 4000 candidaturas somente 500 tiveram contratos. No meio da alegria de muitos há (sempre) os vencidos. Os não contemplados. Os tristes. Os esquecidos. Os injustiçados. Não vou analisar resultados, nem estatísticas, nem fazer críticas, nem dizer que este governo é melhor ou pior do que o anterior. Vou falar de mim. Porque foi de mim que me lembrei há quase dois anos atrás quando queria muito ter tido um contrato em Portugal e não consegui. Eu não queria mais do que isso. Queria o que via começar a acontecer à minha volta. Investigadores da minha geração que começavam a ver, e muito bem, as suas bolsas trocadas por um contrato pela primeira vez na vida. Era tudo o que eu queria. Um contrato a termo, com 14 meses/ano, descontos para a segurança social e (se possível) ADSE. Mas isto, que eu considerava muito, e muitos acham pouco, nunca tive no meu país. Aos 39 anos, depois de um doutoramento em que passei parte a fazê-lo em Houston, no Texas,  depois de 8 anos de Pós-Doc que incluíram vários períodos em Columbia University em NY, 10 papers como primeira autora, 1 projecto em colaboração, não foram suficientes para conseguir uma posição, digamos, mais estável. A verdade é que o que parece muito currículo era menos do que alguns dos meus colegas no grupo a que pertencia. Não vou dizer nunca que foi fácil não ter tido um contrato naquela altura. Nem mesmo o tempo fez com que me esquecesse. Com a distância de quase 2 anos consigo compreender que novos caminhos podem surgir. Mas não me apetece relembrar o quão difícil foi. Os critérios de escolha, mesmo conhecidos, não são nunca compreendidos pelos que não são contemplados. Somos humanos e não conseguimos na maioria das vezes separar a razão do coração. E eu, provavelmente, tão bem como muitos ou melhor do que muitos sei, porque senti na pele o que é não ser uma das escolhidas quando não existem muitas opções. E é isto que acontece à maioria dos meus colegas investigadores/ cientistas.  Hoje, mais do que nunca estou solidária com os 3500 que não conseguiram um contrato. E damos connosco, erradamente, a culpar alguém.  A culpar os estrangeiros que conseguem mais facilmente quando nem o trabalho, nem CV, nem qualidade são melhores do que os nossos; as pessoas que são apadrinhadas pelas padrinhos certos e que conseguem ter mais papers em colaboração;  os preferidos, não necessariamente os melhores, que conseguem (mais) alunos de doutoramento...

E depois, concluo que aos 39 anos consegui uma posição competitiva não só pelo meu CV, entrevista, plano de trabalhos, apresentação, mas também porque o meu orientador na época apoiou a minha candidatura. Porque esse apoio, mais do que tudo, mesmo que o nosso desempenho seja perfeito e irrepreensível, será a chave da decisão final. E expiro de alívio por não ter, hoje mais uma vez, o coração nas mãos. Mas para isso mudei de cidade, de país, de colegas, de trabalho. Deixei a minha casa, a minha família, a minha cadela, os meus amigos, o meu carro e comecei de novo. Do princípio, do inicio, do começo e com tudo o que ser desconhecida e começar de novo implica. E percebi, sim, à minha custa, que a crítica sem acções não nos levará nunca a lado nenhum. Porque aquela velha máxima que aprendemos desde crianças que tudo na vida resulta de acções justas, não passa disso mesmo, de apenas uma frase como outra qualquer. A verdade é que uns mais do que outros, dependendo de muitas variáveis ao longo do caminho, teremos mais ou menos sorte mais ou menos sucesso e que isso dependerá (sempre) mais dos outros do que nós próprios. E depois, o pensamento foge-me, mais uma vez, para o futuro. Que no fim deste contrato estarei mais uma vez de coração nas mãos e tudo começará de novo e de novo e de novo. Até não haver mais início.

sábado, 25 de julho de 2015

A minha primeira arguência num júri de Doutoramento

Domingo, fim da tarde. Aeroporto. Subo para o avião. O Eduardo Souto de Moura senta-se ao meu lado. Não é todos os dias que se tem um dos prémios Pritzker ao nosso lado. Quero falar-lhe mas, como sempre, não tenho coragem. Quero pedir-lhe que me assine alguma coisa já que o seu talento está na mão. Até podia assinar uma das folhas do livro que estava a ler já que só tinha isso e a tese de doutoramento que ia arguir. Nem isso consigo pedir-lhe. [Na semana seguinte saiu uma entrevista brilhante dele feita pela Anabela Mota Ribeiro.  Percebe-se que é uma pessoa extraordinária, engraçada e culta. Que de tantas outras coisas disse para que serve lamber pedras e desenhar a sensação e “eu penso desenhando”. Percebi nos 50 mins de voo que os gordos são realmente bem dispostos e que sabem aproveitar todos os prazeres da vida. Ignorando a sua condição de estae bem acima do peso ainda pediu uns amendoins. 

Chegada a Faro tinha a J. e a M. à minha espera. Noite quente e abafada. Das boas, como só os verões no Algarve, sabem ser. Chego ao hotel já passa das 11 da noite. Não tem cama de casal. Não tem muitas tomadas. A internet não funciona. Mas pelo menos tem tv e muitos canais. Adormeço com a tv ligada e rendo-me aos encantos do A/C que só admito para dormir. [As pessoas que me conhecem sabem os problemas que tenho com o A/C. No trabalho visto-me como se não fosse verão devido a esse atentado à condição humana. Adoro calor e as estações quentes. Nasci no país errado. Ao contrário da maioria das pessoas, adoro o verão quentíssimo de NY e Houston com uma humidade a beirar o insuportável. O único problema do calor é mesmo na hora de dormir porque no resto foi a melhor invenção do universo].
Acordo relativamente tarde para o habitual. Mas ainda a tempo do pequeno-almoço que tenho direito. Dou uma olhadela às perguntas que vou fazer na defesa da tese. Ao meio-dia faço check-out e chamam-me um táxi. Tenho almoço marcado com o júri ao meio dia e meia. Telefonam-me e estou ligeiramente atrasada, presa no trânsito. Como se em Faro houvesse trânsito. Almoçamos no restaurante vip da Universidade do Algarve, que de vip apenas tem o nome. Apenas duas escolhas para o almoço: robalo no forno e bife de cebolada. Quando chega o peixe à minha frente era o verdadeiro atentado. A simplicidade do robalo assassinada...mergulhado num molho de pimentos e cebola que estragou tudo. Durante o almoço falamos da revolução francesa e das invasões francesas em Portugal. 
Pouco antes das duas, saímos em direcção ao anfiteatro onde seria a defesa. Vestimos as becas, cada qual da sua universidade. Eu, como não tenho, requisitei uma emprestada. A defesa começou atrasada porque não abriram o anfiteatro a horas. Depois houve o problema com a apresentação que é sempre o que acontece a quem tem um Mac...demora sempre mais tempo. Mesmo assim, a candidata apresentou muito bem, como se este atores inicial não a afectasse. E eu sentada, desta vez do outro lado, lembro-me do dia da minha defesa. Foi dos piores dias da minha vida. Para além de tudo o que representou para mim, o primeiro arguente não passou da página 7. Até que a muitos dos meus amigos ainda brincam com uma das perguntas que me fizeram: "O que mudaria na sua tese?" E a resposta é: "A página 7!".
O primeiro arguente da tese da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra era um gentleman, extremamente delicado, educado e cuidadoso. Organizadíssimo. Tinha a intervenção toda escrita, os cumprimentos, os comentários, e aproximadamente 20 perguntas. Tudo no seu Mac imaculadamente organizado. Entrei imediatamente em pânico. Eu era o oposto. Levei meia dúzia de folhas (americanas) amarelas. Tudo rasurado e corrigido. riscos e mais riscos. Correcções e adições a esferográfica e lápis. Tudo desastrosamente desorganizado. O pior de se ser a segunda arguente é muitos dos comentários e perguntas terem sido já feitos pelo anterior. Mas eu, que até sou muito mais crítica comigo do que com os outros, acho q a minha intervenção correu bem. A verdade, como sempre acontece nestas coisas, é que perdi a noção do tempo. Depois ainda se seguiram as intervenções da professora da Faculdade de Medicina da Universidade Nova de Lisboa, do Professor da Universidade do Algarve, da orientadora e da Presidente do Júri. Foi a primeira aluna de Doutoramento da G. Um marco, portanto. Dizem que a primeira de cada coisa na vida não se esquece. E terminou com Muito bom por unanimidade com distinção é louvor.
Depois, ainda houve tempo para ir á esplanada mesmo em cima da praia da ilha de Faro para beber uma imperial. Tudo aqui é perfeito. O sol, a vista, a praia, o calor, a cor. O pior é o atendimento. Os algarvios parece terem um talento nato para não serem simpáticos. Tudo parece ser feito por favor é obrigação. Esta miúda loira, que até é gira, e que me calha sempre na rifa sempre que vou a este bar, fica sem beleza nenhuma devido à atitude. Para a próxima vou dizer-lhe que quero ser atendida por outra pessoa. Já passa das 7 quando saímos da praia rumo ao aeroporto para me deixarem. Tenho voo às 8:15. Chego ao aeroporto às 7:15. Ando a passo apressado em direcção à segurança. Respiro de alívio quando vejo que a fila não é muita. Mas como na minha vida há sempre um episódio para contar, eis que me aparece um cromo à frente que leva uma mala de mão e dois sacos transparentes cheios de líquidos. O homem na sua inocência achou que estava a cumprir com tudo porque mostrou os dois sacos transparentes cheios de líquidos, a achar que não estava a cometer nenhuma irregularidade. Mas estava. De há uns tempos para cá só é permitido um saco transparente de líquidos que não ultrapasse cada frasco os 100 ml. Eu aprendi isto quando há uns tempos me ficaram com um frasco de perfume quase cheio cujo valor era superior a 70 dólares. Aprendi a lição e nunca mais mostrei o saco transparente. E a partir daí nunca mais ninguém me descobriu os líquidos que transportam na mala. O que só revela como funcionam bem os aeroportos portugueses. Obviamente, nos aeroportos americanos nunca me atrevi a testar esta situação. Mas a verdade é que em 2006 levei comigo na mochila um frasco de biovidro para os EUA que macroscopicamente é igual a muita coisa ilegal. Adiante, o senhor que estava à minha frente refilava bem alto que podia levar os dois sacos repletos de líquidos porque o tinham deixado passar em todos os aeroportos... E blá blá.... O problema é que eu tinha um avião para apanhar e as portas fechavam às 7:45. E a discussão já durava há 10 minutos. E eu q não queria perder o voo virei-me para a segurança e disse-lhe "não podem resolver este problema mais rápido. Estou aqui há 15 minutos". E ela com a atitude de quem acha que tem autoridade nestas situações diz-me que não estou ali há 15 minutos, talvez uns 10 a exagerar.  E começamos ali numa discussão. Ao que ela me pergunta: "quer ensinar-me a fazer o meu trabalho?". Frase que ela me disse! Se soubesse fazer o trabalho dela não demorava 10 minutos a resolver o problema dos sacos. Ou deixava o homem passar ou os tirava. É isso não demorava 10 minutos. E eu que levava líquidos na mochila, mas nunca assumo que os levo, coloco o iPad fora da mochila e fazem-me a derradeira pergunta: "tem líquidos?". E eu respondo convictamente que não. Mas a imaginar que vai ser destaque me vão apanhar e que vou passar a vergonha da minha vida. Espero a mochila do outro lado e não descobrem nada. Tiro o saco da mochila com líquidos e digo para a que me disse se queria que eu a ensinasse a fazer o trabalho dela: "trabalho bem feito, não?". E continuo. Já estão a chamar pelo meu nome quando vejo o Eduardo Souto de Moura. Aí respiro fundo e sigo-o. Já não vou perder avião nenhum porque ele vai no mesmo que eu!

segunda-feira, 27 de abril de 2015

O dia mais esperado chegou

Antes de conhecer o L. pessoalmente já ouvia falar dele. Quando o conheci pessoalmente em NY estava um dia de inverno fortíssimo, nevava e a neve acumulava-se  na ruas. Emocionalmente eu estava um caco, tal como esse dia de inverno. Nessa noite fomos jantar a um restaurante chique em Upper East Side, Le Perigord. O restaurante foi uma péssima escolha, bem ao jeito de quem o escolheu. Quem lá trabalhava falava em francês. Eu acabara de chegar a NY, estava numa casa que detestava, com uma roommate cujo santo não se cruzava com o meu, sem amigos, sozinha para dizer o mínimo. A C. eu já tinha conhecido há dias, a N. acho que também, o F. ainda não. Nesse jantar eram só portugueses com a excepção da minha roommate. Todos na sua melhor roupa já que o restaurante assim o exigia. Eu e o L. mal nos falamos nessa noite. Ele achou-me, mais do que calada, antipática. Mas essa noite foi o princípio de tudo. Depois dessa noite nunca mais jantei sozinha, a não ser por opção. Com o L. jantei em quase todos os restaurantes perto do main campus de Columbia University, bem como todos os asseados de Washington Heights. O L. tem um problema com limpezas. Então, no critério dele não entram os "carros de comida" em frente ao Presbyterian (com os deliciosos chicken over rice e os gyros), nem o Las Palmas ( que mais parecia um supermercado e atrás tinha uma espécie de tasco mexicano), nem o El Presidente. Estes tipos de comida, na sua opinião, faziam-lhe mal. Com ele era mais os peça-lhe Strokos, Jou Jou, Tamaya, Coogan's em Washinton Heights e o nosso preferido do patinho (Ollie's) e o Symposium. Foi com ele que depois de termos assistido a uma conferência da NYSCF no edifício emblemático do the New York Times, onde conheci o cientista mais sexy do mundo (Kevin Eggan), fomos ao Ipanema em Midtown.

O L., quando o conheci, parecia um adulto. Não parecia um jovem aluno de doutoramento. Parecia ter muitas mais certezas do que dúvidas. Foi com ele que aprendi quase tudo o que precisava sobre Columbia University. Conheci os Nobel Eric Kandel e Richard Axel. Conheci o eterno candidato a Nobel, Thomas Jessel, que parece o Hannibal Lecter. Foi ele que me deu a conhecer outro sex symbol de Columbia, meio pop star, meio cientista, meio médico, Sid Mukherjee (autor do livro vencedor do Pulitzer Prize "The Emperor of all Maladies"). E depois dele conheci a mulher dele, Sarah Sze. Com o L. só se falava de ciência. E ele conhecia tudo, todos e todas. Sabia ao detalhe todos os papers da área publicados nas melhores revistas. Como eu não o podia acompanhar e considerava-me uma ignorante, já que a minha temática preferida fora do lab nunca fora o trabalho, resolvemos falar de outros assuntos. Assim, eu tornei-me uma especialista em Benfica, clube que somos adeptos. A outra temática era a política. Ele um fervoroso apoiante do PS e do governo Sócrates e eu (quase) sempre do contra. Para além de tudo isto, o L. sempre teve uma característica que me arrebatou desde que o conhecei: um coração grande. Nunca me faltou. Sempre esteve presente nos bons e nos maus momentos. Sempre telefonou. Nem que fosse para se queixar ou para fazer os seus longos monólogos. Mas ausente foi uma coisa que nunca esteve. No funeral da minha avó, numa tarde quente de férias, em Agosto, ele estava lá. Foi ele que passou a noite comigo no Presbyterian Hospital quando a C. esteve doente. Entrou connosco às 4 da tarde e esteve lá o resto do dia e noite com idas e vindas ao lab. Às 4 da manha estávamos no Jou Jou a fazer tempo para um diagnóstico mais definitivo. Às 7 mandaram-nos para casa. E sei que eu ainda dormia e ele já estava no Hospital com a C. Antes da C. ter alta ainda bebemos uns sumos de maçã do hospital, experimentamos a cama que registava  o peso e ainda experimentamos a casa de banho fio quarto todo xpto do mesmo hospital em que a Hillary Clinton esteve internada. Para além de tudo isto, o L. ainda foi a minha companhia das terças-feiras no Cubby Hole. Das míticas margaridas a $2. E da mítica irmã Lúcia.
Isto foi o bom.

Mas o percurso do L. foi penoso. Escolheu o lab errado quando foi para Columbia. Trocou de lab e de orientadores contra tudo e contra todos. E sofreu pesadamente por isso. O L. Sempre foi ambicioso. Sempre trabalhou muito. Mais. Para que nada falhasse. Tinha objectivos. Metas. Planos. Tudo muito bem planeado. Não vou contar pormenores. Só vou dizer que passou por tudo com muita perseverança e coragem. Nunca desistiu. Nunca desanimou. Nunca baixou os braços.
Acho, hoje, que o que poderia provocar na maioria dos humanos revolta e amargura, no L.  ajudou-o a amadurecer e a encontrar o norte. A dar o devido valor às coisas e definir prioridades. O L. tornou-se (ainda) uma melhor pessoa. Aprendeu a ouvir. E aprendeu que a opinião dos outros nem sempre é a mais importante.

Hoje, passados 4 anos do que deveria ter sido a defesa do seu doutoramento, finalmente esse grande dia chegou. E foi um dia feliz. Esperado e emocionante. Estou a escrever este texto e as lágrimas correm-me pela cara. Nunca conheci ninguém que esperasse com tanta expectativa este dia. E foi brilhante, como só poderia ter sido. E pela primeira vez na vida, em todos os doutoramentos que assisti, vi na cara do mais recente Doutor lágrimas nos olhos.

O orientador dele fez das intervenções mais sensíveis e inteligentes que vi na vida. Falou sobretudo de tempo. Começou por lhe perguntar se sabia, sem olhar para o relógio, que horas eram. E falou numa coisa importantíssima que é: não importa o tempo que as coisas demoram a acontecer mas que provavelmente existe um tempo certo para que elas aconteçam. Muitos parabéns, meu grande amigo! Let's party!

terça-feira, 14 de abril de 2015

O terror das apresentações

Estou com uma dor de costas que não me dá descanso há vários dias. Dor de costas para mim é sinónimo de stress e de preocupação. Para além disso, estou com uma afta, como há muito não me lembrava. Mal como. Essa é a melhor parte. O poder de emagrecer sem querer e sem fazer nada para que tal aconteça. Vou dar uma aula. Uma coisa que detesto. É tipo Joana D’Arc à espera da morte na fogueira. Contagem decrescente. Tudo em função daquele momento. E como os grandes profissionais, que se preparam, eu prefiro viver por antecipação. Em vez de me preparar, antecipo cenários de terror. Nunca digo não e nunca. Muito menos a esta grande amiga.  Este ano, acrescenta-se uma variável pior: uma audiência de 80 alunos de Medicina. Todos inteligentes. Ou pelo menos, com notas altas. Ou com autoconfiança. Numa emblemática Universidade de Lisboa: a NOVA. No célebre edifício do Mártires da Pátria. O berço da Escola-Médico Cirúrgica de Lisboa. Primeira Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. As escadas, os quadros, os bustos, os anfiteatros, a altura do edifício, tudo é grande. E eu, que já sou pequena, pareço uma formiga. Pior do que isto, só se fosse em Coimbra.  Vá, pelo menos tenho a benção do Dr. Sousa Martins, beatificado pelos lisboetas, e praticante da caridade que me olha lá do alto da sua estátua envergando a toga de Doutor. Vejam a coincidência, ele terminou a tese de licenciatura com o trabalho “O Pneumogástrico Preside à Tonicidade da Fibra Muscular do Coração”. E é sobre isso que vou falar: do coração e da regeneração cardíaca.

Em vez de preparar a apresentação, o discurso e a aula, evito. Como se isso resolvesse alguma coisa. Como se ajudasse, adio. Atitude inteligente, não é? Pior do que isto seria desaparecer ou não aparecer. Timidez tenho que baste, mas vergonha de fazer um disparate desses é o balanço que me obriga a erguer a cabeça. A morrer sim, de medo, mas de pé como as árvores. E como se não bastasse, ainda mais o medo de andar de avião. Enjoo no comboio (ou em quase todos os meios de transporte). Devo ser a única pessoa no mundo que enjoa a conduzir. Como não consigo fazer nada nas três horas de viagem, decidi-me pelo avião. Nada mais sensato, pois claro. Entre o enjoo e o medo vá o diabo e escolha. Pelo menos só são 40 minutos de puro pavor. Como são só 40 minutos, nada de beber. Então toca a encarar esta de frente, sóbria, limpa, aterrorizada. Mas depois lembro-me de Lisboa. A cidade que eu mais gosto no mundo. Só isso anima-me. E isso é quase tudo.

Como se escrever exorcizasse os medos. Em vez de preparar a apresentação, escrevo este texto. Adio sempre decisões importantes. E mais uma vez não toco nos slides. Faço tudo o que não me apetece, como no tempo em que estudava (pouco). Nunca tive a casa tão arrumada. Nunca tive as gavetas tão arrumadas. Nunca tive a secretária tão arrumada. Como diz uma amiga: “secretária arrumada, cabeça desarrumada”. Vá, riam-se. Porque eu rio para não chorar. E como me disseram ainda hoje, eu vivo (quase sempre) a sorrir. Mesmo que nem sempre tenha motivos para o fazer. E acredito cada vez mais na frase “é melhor ser alegre que ser triste”.


sexta-feira, 27 de março de 2015

Finalmente, a defesa do doutoramento

O RP começou oficialmente o doutoramento em 2007 e defendeu-o no passado dia 11 de Março. Passaram-se exactamente 8 anos. Camadas de tempo. Dizem que para evoluirmos não há atalhos. Só o tempo. E o tempo ensina tudo.

No dia antes da defesa o RP treinou todo o dia sozinho no auditório do 3B’s. Sozinho, como queria. Há momentos assim solitários. Passei por lá várias vezes durante o dia, rapidamente, para ver se precisava de alguma coisa. No fim do dia foi o ensaio geral. O tempo de apresentação deveria ser 20 minutos. Ele não conseguia fazer em menos de 25. Depois de ver uma apresentação completa precisava de deixar o Rui em qualquer lado enquanto eu compraria a prenda dele que me estava destinada. Não consegui nenhuma desculpa. Como não tínhamos lanchado, fomos jantar relativamente cedo, antes das 8. Fomos à Sagres e preferi o balcão, onde quase sempre fico, e onde se está mais resguardado de olhares alheios. O Porto jogava na TV. Eu não dava muita importância. O RP estava meio distraído. Apanhava-o a falar baixinho. Falamos sobre a defesa e do que lhe poderiam perguntar. A hipótese de perguntas era infinita. Mas eu sabia que ia correr bem. Não bebemos álcool. O RP bebeu uma água e eu uma coca-cola. Comemos caldo verde, queijo e salpicão de entradas. E depois um bife grelhado cada um. Fiz-lhe algumas das perguntas que acharia que lhe pudessem fazer. Verificamos, no dia seguinte que três delas coincidiram. Falamos em inglês. Os cozinheiros e os funcionários, que me conhecem, olhavam espantados. E depois sorriam. Acho que o nervosismo era visível. O RP não conseguiu acabar o prato principal dele. Sintomas admissíveis pré-defesa. O jogo ainda não tinha acabado quando saímos. Subimos para minha casa e o RP continuou a treinar. Eu fui levar a Bu à rua. O que deveria ter demorado não mais do que 10 minutos transformou-se em mais de uma hora porque encontramos a Becky e a Zara e os donos. Assim, o RP também esteve sozinho. Esta solidão que antecede uma tese, uma cirurgia, um exame, uma corrida, um parto, um concerto, um espectáculo, um desempenho, não pode ser ajudada nem partilhada. Imprevisível e só como a vida e a morte.

No dia seguinte fui de manhã comprar a prenda com o dinheiro que reunimos. O A. teve a ideia dos livros. Tinha como títulos possíveis: “Despertares” Oliver Sacks, “O imperador de todos os males” Siddhartha Mukherjee e “A vida imortal de Henrietta Lacks” Rebecca Skloot. Não encontrei nenhum destes. Comprei 4 livros: um do Calvin and Hobbes (que o RP gosta muito e cuja frase “sandes de atum” tem como email), e as biografias de Egas Moniz, Einstein e Stephen Hawking. Como agora os sacos de plástico são pagos resolvi també,m comprar-lhe um saco (daqueles que dá para ir às compras) com a frase: “Diz-me o que lês dir-te-ei quem és”.


À hora de almoço o RP e a irmã passaram em minha casa. O RP conduzia. Disse que preferia assim porque assim distraía-se. Enquanto eu e a irmã dele falávamos de trivialidades, ele ia compenetradíssimo a “rezar” (como eu chamo ao discurso baixinho dele). Só nos dizia que não se lembrava de nada e que não conseguia apresentar em 20 minutos. Mas eu sabia que ia correr bem. Só podia correr bem. O RP não é o mesmo que eu conheci no início da licenciatura. Se há exemplo de evolução que conheço é este. O RP não é o típico nerd. É um curioso. É um apaixonado pelo trabalho de laboratório. E para além disso, gosta de ler. Foi ele que me mostrou os livros controversos do Kerry Mullis e do Dulsberg. Foi com ele que falei do George Orwell. Falamos de Herberto Helder. Só (ainda) não me convenceu a gostar de banda desenhada. E para além disto tudo, fala apaixonadamente sobre o seu objecto de estudo. É um encanto ouvi-lo falar daquilo que gosta. E a defesa dele foi assim. Uma conversa fluída cheia de histórias, exemplos e até humor. E concordo com o RLR que o RP argumentou com sabedoria e citou o estado da arte actual. Defendeu a sua causa e arrasou, delicadamente e sofisticadamente, de quase todos. Deu gosto ver. Foi uma defesa com classe. A cereja no topo do bolo. Pouco ajudado nos últimos tempos mas apoiado pelo orientador que o empurrou para este dia. Se não tivesse sido assim, "de repente, não mais do que de repente", provavelmente este dia não chegasse tão cedo. E o RP não desiludiu. Orgulhosa por ter um amigo apaixonado assim por aquilo que faz e que o mostrou publicamente de uma forma tão sublime. Parabéns R, já está! O simples tão difícil!


quinta-feira, 17 de abril de 2014

A cool Vereadora de Lisboa: da investigação à política

Graça Fonseca. 42 anos. Vereadora da Câmara Municipal de Lisboa para a Economia, Inovação, Modernização Administrativa e Descentralização. Licenciou-se em Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Foi assistente de investigação do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, integrada no Observatório Permanente da Justiça Portuguesa na área de direito de menores e família, tendo aí concluído o mestrado em Sociologia do Direito. Trabalhou aí com José Manuel Pureza, Boaventura Sousa Santos, João Pedroso e Maria Ioannis Baganha. Passou pelo Brasil, Washington D.C. (Georgetown University), Coimbra e Cabo Verde. Infelizmente, a orientadora Maria Ioannis Baganha, não viveu para vê-la defender a tese de doutoramento. Doutorou-se em Sociologia pelo ISCTE-IUL em 2010. Dá um semestre de aulas, que é o que consegue. Falou de acreditar no projecto de António Costa, que acompanha desde o Ministério Justiça. Low profile. Pontalidade britânica, tão pouco portuguesa. Sem gravação nem notas. Somente a cábula das perguntas estritamente programada para uma hora, que por princípio cumpriria à regra. Como não sou jornalista nem para lá caminho, a atrapalhação levou-me a começar pelo fim. Não posso ainda falar daquilo que deu início à conversa, mas ao contrário daquilo que esperava, aquela mentirinha piedosa tão portuguesa “vamos ver o que se pode fazer” ou “talvez”. Não, nada disso, a resposta foi um sincero não. E eu aprecio isso nas pessoas. Sinceridade. Um não é um não e passa-se à frente. Ninguém corta os pulsos por isso. Os meus óculos  haviam ficado no táxi, valeu-me o tamanho da letra. Está cansada. Confidencia-me que o dia começara cedo, às 8 da manhã. Passa pouco das 7 da tarde. Olhos muito verdes. Aspecto de quem já aproveitou o sol de Lisboa ou a praia na tímida Primavera. O cansaço só se nota nos bocejos. iPhone em cima da mesa mas pouco ou nada olhou para ele, ou se o fez, não notei. Também me pareceu nunca ter olhado para o relógio. Um caderno A5 da Emílio Bragaportuguês, fechado, garrido, em tons de vermelho. Lá fora o céu de Lisboa, sem vista para o Tejo. Mas a sala onde falamos já valeu a pena. Elogiei a sala. Pouco funcional, nas palavras da própria. Enorme, como o rio, diria eu. A um canto, pendurada, uma portuguesíssima mala da Ideal&Co. Conversa informal. Uma hora au point. Quando questionada sobre a razão pela qual mudou da academia para a política respondeu que “quer marcar a diferença” e fazer várias coisas ao mesmo tempo. Abraçar projectos e desafios. É isso que a move. Nunca se importou com cargos. Isso não importa. Apetece fazer a analogia com o escritor que é a imagem de Lisboa (ou será Lisboa a imagem do escritor?): “Não sou nada/ Nunca serei nada/ Não posso querer nada/ À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”. As palavras são sempre de optimismo, mesmo quando provocada. Diz que existem pessoas extraordinárias na política portuguesa. E que há muitos “Miguel Relvas” em todos os quadrantes da sociedade. Não insulta, não injuria, não há uma palavra amarga. Só boas palavras e optimismo. Hoje é melhor que antes. Salienta que há coisas muito boas mas que os portugueses gostam de exagerar o lado negativo. Fala claro e detalhadamente. Quando lhe falo de cargos de nomeação e de confiança política, insurge-se (pacificamente) e relembra-me que foi eleita. Não acredita que não haja meritocracia, na maioria dos casos. Defende Portugal fervorosamente. Percebe-se que é uma optimista, apesar das minhas provocações. É daquelas pessoas para as quais o copo está sempre meio cheio e não meio vazio. Fala-me que quando era criança havia racionamento de comida em Lisboa. Havia muito analfabetismo e a maioria tinha a 4ª classe. Temos apenas 40 anos de democracia. As mudanças demoram décadas a notarem-se. E de repente, estamos no séc XXI, somos da mesma geração e temos ambas doutoramento. Fala com conhecimento de causa de todos os projectos. Percebe-se o orgulho daquilo que ajudou e ajudará a construir. Refere que há duas ou três start up que muito em breve vão dar que falar na área das ciências. Falamos de mecenato e filantropia, coisa pouco comum em Portugal. Quando, mais uma vez provocada, diz achar legítimo que as empresas queiram algo em troca quando financiam projectos. São empresas. Nunca critica. Levanta a questão de como podem as PMEs contratar doutorados quando a média da escolaridade dos superiores é o 9º ano. Falamos do rio por onde partimos para descobrir novos mundos. Da luz, do clima, dos museus, dos preços e das condições únicas de Lisboa. Nunca há uma só resposta. As respostas são demoradas e argumentativas. Soube há pouco tempo através da FLAD que Lisboa ficava lugares abaixo do Azerbeijão1 no que respeita a estudantes americanos escolherem cidades para estudar. Tentou inverter isso. Terminamos às 8, como combinado. Um jantar oficial esperava-a. Acompanhou-me à majestosa escadaria com o “Coração Independente” da Joana Vasconcelos. Eis o retrato de uma política que já foi investigadora. Sabe do que se fala quando se pronuncia a sigla FCT e afins. É a antítese da opinião que a maioria dos portugueses têm (infelizmente) em relação aos políticos. É também uma política que não se põe fora dos políticos e tem orgulho disso. Hajam muitas Graça Fonseca que só dignificam a nobre causa política. Este é um texto sobre o que retive, o que esqueci era acessório. O simples tão difícil.

1Exemplo ilustrativo

Copyright: Graça Fonseca

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