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quarta-feira, 8 de abril de 2015

Ser anónimo em NYC

Acabo de ler o último texto da Milly Lacombe aqui. Hoje não vou falar no quanto admiro a escrita dela e a forma como escreve. Também não vou discutir o quanto discordo de muitas coisas que escreve. Nem das outras que eu subscrevo na íntegra. Hoje não vou falar do quanto o nosso amor pela cidade em que vivemos é tão diferente como o tamanho imenso do oceano que nos separa. 

No tempo que vivi em NY quase nunca fiz as refeições em casa. Nos primeiros 6 meses por intolerância à casa, ou antes, por intolerância total à pessoa com quem partilhei casa. Nesses 6 meses conheci NY como nunca mais. Fazia de tudo para nunca chegar a casa antes da meia-noite. Tudo para não me cruzar com aquela pessoa. Reconheço que provavelmente o defeito é meu. Mas o facto é que o meu santo não se cruza com o da maioria das pessoas. Como o defeito é meu, eu é que tinha que evitar os encontros. Por causa disso, conheci todos os restaurantes/ bares/ cafés da Broadway desde a 116 à 95. E quase todos na Amsterdam da 116 à 110. Mas dois deles fui mesmo habitual. O Metro Diner ia porque me parecia familiar. A comida não era grande coisa, como quase todos os diners, mas o que eu escolhia para comer seria exactamente igual em qualquer lado. Ficava sempre ao balcão. De toda a gente que trabalhava lá, de todas as caras conhecidas, que eu consigo reconhecer até hoje, apenas um me reconhecia. Nunca lhe perguntei o nome, mas aquela falsa familiaridade, dava-me conforto. O facto de ele saber, antes de eu pedir, o que queria e o sorriso dele, faziam-me sempre querer voltar. 

Panquecas no Metro Diner

O outro chamava-se SIP, entre a Broadway e Amsterdam (109&110) acabo de saber que fechou. Aí a comida já era bem melhor e o preço proporcional. Aí já havia vinho a copo. Tinha uma compota de apricot (que fiquei a saber na altura que era alperce) que nunca comi igual. E um pão que era muito semelhante ao europeu. Esse pão que é a primeira coisa que muitos de nós tem saudades. Mas apesar das minhas visitas sem fim, acho que ninguém me reconhecia. Se há cidade anónima é esta. A frieza do anonimato e do desprezo. 

Lembro-me também do Coogan's em Washington Heights, mesmo ao lado de Columbia Medical Center, poiso habitual com o L. Acho que a ele o reconheciam mas por motivos diferentes. Sempre me queixei disso. Porque ele era homem. Já na cafetaria do hospital, à qual eu ia pelo menos 3 vezes ao dia, as meninas que eram quase sempre as mesmas, insistiram em não me passar cartão até às últimas semanas do meu regresso. Mas com o L. desfaziam-se em simpatias. Podem chamar-me preconceituosa. 

Brunch no Coogan's ao Domingo antes de ir trabalhar para o lab
As quatro únicas excepções vão para emigrantes, como nós. O primeiro da lista: Tamaya que já não existe. Um restaurante japonês bom, bonito e barato, Incendiou -se na semana que os meus pais foram a NY. No Tamaya, a Sandy reconhecia-nos. Era uma chinesinha que falava mal inglês e que até se atrevia às mirabolantes hipóteses de eu e a C. sermos, respectivamente, amante e mulher do L. Quem diria, ah?
Bento Box no Tamaya
O segundo da lista era o Marcos do Meal Plan (cantina dos MD/PhD) que eu frequentava à socapa. Bastou-me dizer no registo que era estudante. As mentiras piedosas, com os americanos, funcionam sempre. E o pior é que acreditam sempre nelas. Esta, foi por um bom motivo. O Marcos, cuja história pode ser conhecida em pormenor aqui, era um brasileiro que nos tratava por "doutora dos olhos" e "pê agá dê inteligentchii" (com sotaque carioca). Naquele minutos rápidos tinha sempre uma palavra de simpatia que nos confortava.

O terceiro era quase a minha segunda casa: Zigolinis em Hells Kitchen. Tinha as melhores pizzas de massa fina que conhecia. Tinha vinho português Vinha do Monte a preços que não eram proibitivos para restaurantes. O dono e quase todo o staff eram portugueses. Passado uns tempos o "pizzeiro" mudou e com ele a qualidade inicial foi-se. Passados uns tempos fechou.

Zigolinis
O Chavalinho no Zigolinis
@Zigolinis
@Zigolinis
O último era (já não é assim) o 11th Street Cafe em West Village. Um cubículo, com meia dúzia de lugares sentados.Tinha uma omelete de espinafres espectacular. Passava lá horas. Foi lá que vi a irreconhecível Nicole Kidman de Birkenstock e meias brancas. E era passagem habitual da Julianne Moore e do Hugh Jackman. Tudo mudou, pelo menos as pessoas que estavam por trás do balcão. Quando passado um ano regressei, estava irreconhecível. A simpatia e a proximidade tinham desaparecido.

NY, essa cidade tão impessoal e anónima, que quem sobreviver, sobrevive a tudo e está preparado para tudo, caracteriza-se pela inexistência de relações pessoais. A minha experiência e estatísticas dizem-me que estas existem entre iguais. Deslocados, compatriotas e emigrantes são as únicas amizades que se conseguem fazer. O resto são falsas simpatias, aparências, brevidade, conveniências, efémero, a prazo. Realmente NY não é para sentimentais nem para pessoas que não sejam autosuficientes. Este é o principal lado negro de NY. E obviamente NY não é a representação da América. No mais, NY é uma cidade para aprender, aproveitar, descobrir e viver temporariamente. NY marca-nos para sempre.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Directa no lab

São quase 6 da manhã e eu estou a fazer a primeira directa de trabalho!!! Hoje revelou-se um mundo novo para mim: primers, genes, exões, pares de bases, pcr.... que nó!!! Primers para mais de 20 genes!!! Só vejo letras...AAGGCTAGCTATCG....???!!! Tenho os passarinhos a cantar na janela do lab... está a amanhecer! Good Morning NY!

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Encontros imediatos

Já ia atrasada para me encontrar com o F. no lab dele quando encontro no corredor a lab manager do meu lab. Não sei porque razão especial, não falamos muito no lab, mas quando me encontra fora dele começa sempre a fazer-me imensas perguntas. Eu que costumo usar um atalho entre edifícios, costumo subir as escadas até ao 14º piso (porque não existe o 13º) e depois percorro um labirinto de corredores que me leva ao Black Building onde vou de elevador até ao lab do F. Era isto que estava a pensar fazer, quando a conversa estava a meio e encontramos os elevadores do P&S. Eu não tive coragem de dizer que ia por outro sítio... porque quem não conhece podia achar que era uma desculpa. Toda a gente que vai descer usa estes elevadores como é que eu ia explicar à lab manager que ia por umas escadas manhosas até ao 14º para depois descer para o 4º?! Tive sempre destes problemas por pensar que as pessoas podem achar que é uma desculpa ou algo do género. Lá descemos de elevador, que demorou alguns minutos, porque aquela hora o elevador pára em todas as capelinhas.... Chego ao 1º andar e percebo que o corredor que dá acesso ao outro edifício está fechado para obras, percebo também que já passa das 5:30 e por isso a porta principal do P&S está fechada... Resta-me percorrer os corredores do Presbyterian Hospital e fazer novamente o caminho que deveria ter feito...

domingo, 8 de abril de 2012

O Marcos do Meal Plan

Há umas semanas o F. disse-me que uma das pessoas que trabalhava no Meal Plan era brasileiro. Dias depois o F. disse-lhe que eu também era portuguesa. Na quinta-feira passada os meus horários não coincidiam com os do F. e C. e fui sozinha jantar. O Marcos aproximou-se e disse: "Ah, você também é portuguesa"..."Também é doutora dos olhos?". E eu fiquei a olhar espantada para ele e a pensar "doutora dos olhos"?! Lá lhe disse que não era médica e muito menos dos olhos mas que sim era PhD. E ele: "Já? Inteligente você!". Fui sentar-me a jantar e ele apareceu outra vez "Então os seus amigos doutores não vieram hoje não?" E começou com uma lista de histórias sobre as teorias da conspiração, que os terroristas andavam em NY agora mais do que nunca. Que este país vai virar um país de terceiro mundo. E depois virou para outro assunto. Que Portugal é que era, que adorava Portugal, que adorava bacalhau, que Portugal é que é o país do futuro e que vai superar... E que o sonho dele era ir para Portugal! E eu nas poucas oportunidades que tive de falar disse-lhe "O Brasil é que está bem". Ao que ele me respondeu: "Vamos ver quanto tempo vai durar...". Passados uns minutos, já o Marcos tinha voltado para o seu posto e reparo que numa mesa ao lado estavam duas brasileiras. Quando ele voltou eu disse-lhe: "Então, já conheceu aquelas brasileiras?". E ele responde com um ar muito desinteressado: "Eu vejo elas por aí mas se acham". E eu a achar que tinha  feito a boa acção do dia lá tento mudar de assunto. O Marcos é um senhor de meia-idade do Rio de Janeiro (de Santa Tereza, "sabe o bondinho?") que veio para NY há 15 anos à procura de uma vida melhor. Fiquei ontem a perceber a razão do Marcos ter perguntado se eu era doutora dos olhos. A C. explicou-lhe o que fazia e ele à sua maneira fez as suas deduções.

sábado, 10 de março de 2012

A Midsummer Night's Dream

Ontem à noite fui ver a peça "A Midsummer night's dream" de Shakeaspeare cujo elenco era constituído por alunos de Columbia. Fui pricipalmente porque o F. entrava e queria vê-lo a fazer de leão. Não ia com grandes expectativas porque pensava que ia ser do nível da maioria das peças interpretadas por actores amadores. Enganei-me completamente. Achei as interpretações de grande nível mas vim a saber depois da peça que a maioria deles já tinha feito teatro e alguns deles eram actores profissionais, para além, de serem "grad students" em Columbia. Noite bem passada, muitas gargalhadas e sorriso na cara ao regressar a casa. 




quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

1 Train (I)

No metro de NYC é onde (quase) tudo acontece. O metro aqui chama-se "train". O que uso todos os dias para ir de casa para o laboratório (e do laboratório para casa) é o "1" que me leva de "Columbia University -116th" até a "Columbia Medical Center - 168th. São apenas 10 minutos e 4 estações (125th, 137th, 145th, 157th).  Tenho muitas histórias para contar, mas há pouco, quando regressava a casa vi, mais uma vez (já perdi a conta), uma mãe com um saco de qualquer coisa tipo "Cheetos"  a partilhá-lo com os filhos. Não posso deixar de mencionar que já era uma hora tardia para os parâmetros americanos (passava das 9 da noite). A esta hora, as crianças já deveriam ter jantado e deveriam estar a dormir. Um dos miúdos não tinha mais de 2 anos e o outro ainda não andava. A mãe, essa, não devia ter mais de 18 anos... E como se não bastasse, o miúdo mais velho ainda estava agarrado a uma garrafa de coca-cola... compreendo, depois daquela gordura e daquele sal todo... 

E este episódio de hoje faz lembrar-me outros dois. No ano passado assisti a uma cena semelhante, só que dessa vez, de manhã. Uma mãe com um bebé que não deveria ter mais de 7 meses (ainda nem dentes tinha, nem um!!) dava-lhe batatas fritas de pacote!!!  Era ver o menino (sem dentes, não esquecer) a amolecer as batatas fritas para as conseguir engolir, e com um ar muito satisfeito. Até que, o pior aconteceu, o menino engasgou-se!!!! Pudera!!! E o que fez a mãe?! Virou-o de pernas para o ar e era vê-la a sacudir o menino!! A batata entalada lá saiu e o menino continuou na sua degustação. Alguns dias depois lembro-me de ter contado esta história à C. Ela não ficou muito surpreendida e disse-me: "Quando estava no Texas vi uma mãe com um bebé de colo a dar-lhe coca-cola! 

E depois de tudo isto, se os meus sobrinhos imaginassem que os meninos da idade deles podem beber coca-cola e comer batatas fritas, nunca mais me falariam! Eles sabem que o mundo da coca-cola está a anos luz...mas sabem o que estão a perder, porque apesar de nunca ninguém lhes ter permitido provar tão secreta bebida (que eles sabem que o pai e a tia são viciados) foram já apanhados no saco da reciclagem a tentar que o resto de uma gota dentro de uma garrafa lhes caísse na boca!!!

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