Mostrar mensagens com a etiqueta hotel. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta hotel. Mostrar todas as mensagens

sábado, 18 de março de 2017

A decadência do Hotel Astoria

Quando as expectativas são muitas corremos o risco de (muito) facilmente nos decepcionarmos. Os meus amigos dizem que é isso que vai acontecer quando eu for ao Rio de Janeiro. Essa cidade que eu quero conhecer desde que me entendi como gente e sem razão aparente insisto em adiar. Quando me perguntam o que me falta na vida digo que já podia morrer mas, por favor, não antes de conhecer o Rio de Janeiro. Temos (até) jogo de apostas. Eu sei que vou adorar. Só falta (mesmo) ir.

Pois bem, sou uma pessoa de hábitos, de frequentar o que gosto, onde me tratam bem, faz-me sentir em casa. É, talvez, um conforto. Quem sabe, talvez, sentir-me em casa para quem já tantas vezes mudou e que se sentiu (algumas) vezes a sensação de não saber o lugar ao qual pertence. Ultimamente, desafiando os meus hábitos e gostos, tenho dado comigo a experimentar o novo. Novos restaurantes, hotéis, lojas, cidades. Não repetir. E sentir isso. Nos últimos tempos tenho ido com muita frequência a Coimbra. E de todas as vezes que tenho ido fico num hotel diferente. Desta vez decidi-me pelo mítico Hotel Astoria. Um hotel imponente, lindíssimo que faz parte da imagem, que sobrevive ao tempo da baixa de Coimbra, em frente ao Mondego. Dos mesmos donos do Curia e do Bussaco. Uma desilusão. Um hotel que deve ter vivido momento áureos mas que neste momento vive (apenas) do passado que não existe (mais). O aspecto exterior do edifício e a vista que dele se tem é o máximo do melhor que se vai encontrar. Tudo o resto, nem sei como classificar. Começa na recepção. O atendimento é sem graça, mediano, apenas cumpridor. Apenas o necessário, poucas palavras, desanimado. Entregam-me a chave do quarto e é mesmo uma chave. Naquele instante achei peculiar, único. Já não se encontram lugares assim, pensei eu no meu excelso optimismo. Elevador antigo, com o que sobra do luxo de outros tempos, com um sofá de veludo cor de vinho, umas fotografias desbotadas e maltratadas pelo tempo dos outros irmãos (Bussaco e Curia). Se a ideia era apelar à visita, por favor, retirem estas fotos. A vontade sincera é de, apesar da curiosidade, a julgar por este, será outra (grande) desilusão. Vamos ao quarto. Eu nem tirei fotografias para não me acusarem, algum dia, de estar ao serviço (pago) da concorrência. Parou no tempo. E parar no tempo poderia ser bom mas não é. Alcatifa a precisar de substituição urgente. O cortinado pesado deve ser uma acumulação de pó e tudo o que de pior há. A mobília é constituída por duas mesinhas de cabeceira e uma cama de casal a precisar de manutenção urgente. O resto é um armário e uma cómoda. Não existe nem uma cadeira nem uma secretaria. A casa de banho é talvez o mal menor. Antiga mas limpa. As roupas eram igualmente limpas. Mas somente. Não havia tomadas livres. Os candeeiros estavam arranjados com fita. Tudo parou no tempo e o que se faz não é uma boa manutenção mas pequenos arranjos sem qualquer classe ao nível do que já foi este hotel. A televisão é daquelas que havia nas cozinhas há 20 anos atrás e não tem (sequer) mais de quatro canais. Internet, apesar de dizerem que existe, não tem sinal. Aproveitei para ler e dar um avanço às minhas leituras. A vista é a única coisa a aplaudir. Estou no quarto andar e os telhados e a vista da alta de Coimbra lá fora. Gosto sempre da parte dos pequenos almoços embora não o varie. É sempre o mesmo: pão com manteiga e café com leite, aqui ou em Shangai. Às vezes vá, talvez um croissant. O pequeno almoço, pelo menos para mim, é o melhor para tudo o que é mau. Variado, vários pães, croissants, bolos, iogurtes, ovos, frutas, compotas... E felizmente, o leite e o café são à moda antiga. Já que o hotel congelou no tempo, o leite e o café estão em recipientes que os mantém quentes. As mesas estão postas com chávenas e talheres. Mas as toalhas, meu Deus, as toalhas! Feias como a morte. De um tecido sintético florido em tons de rosa velho. Não seria melhor umas tolhas simples, brancas de algodão? Chego facilmente à resposta. Não, porque implicaria serem mudadas porque a sujidade seria visível. Assim disfarça-se como se pode. A sala que deveria ser uma coisa fantástica nos grandes tempos tem ar de abandono e falta de classe. As cadeiras que deveriam ser de uma beleza única foram reparadas com os piores materiais. Cobriram-nas com um pano de veludo fraco preto às riscas brancas. E como eu sou perita em encontros imediatos de terceiro grau tinha que encontrar alguém. Então quem são as únicas pessoas na sala: eu e uma mesa em que está um casal é uma bebé que deve ter um ano. Ela fala alto , diz que gosta muito de pequenos almoços de hotel, está de calças de fato de treino justas e uns óculos gigantes de sol. O homem que a acompanha parece mais novo e saído de uma qualquer programa desses trogloditas da tv. A voz é-me familiar. Tento puxar pela minha memória auditiva, tento confrontá-la com a imagem real que vejo. Após alguns minutos chego lá: Joana Amaral Dias. Sim, aquela do Bloco de Esquerda que depois foi mandatária da campanha de Mário Soares à PR, e que parece ter caído no esquecimento depois do mediatismo de ter aparecido grávida e nua numa revista de uma apresentadora de tv com um tom de voz muito agudo. Conclusão, o preço final da estadia foi de 57 euros. Há outros hotéis mais simpáticos, prestáveis, adequados, melhores e mais baratos. Conselho: não deixem morrer estas preciosidades da história.  Nada (sobre)vive do que já foi um dia.
copyright: Booking




sábado, 25 de fevereiro de 2017

O imiscível

No labiríntico hotel, tentando pela primeira vez não me perder, vou à recepção avisar que deixei a minha mala no quarto. Agora que escrevo é que me dou conta que escusava de ter feito isso in persona. Perderia menos tempo e seria mais eficiente, se telefonasse. Recado dado, nada feito. Tenho que voltar ao quarto para buscar a mochila porque tenho que fazer check out e entregar a chave. Volto para os corredores labirínticos. Mal saio, tenho que parar porque estão duas pessoas a impedir-me a passagem. Um é o senhor que carrega as malas e a outra é ela. Felizmente, estão de costas e como o chão é alcatifado, não dão por mim e eu espero, pacientemente, para retomar o meu passo. Reconhecia-a imediatamente, mesmo de costas. Talvez pelo cabelo muito curto. Aqui, hoje, não é (mais) uma diva. É uma pessoa normal. E como as pessoas normais, está vestida como as pessoas normais a esta hora do dia. Um blazer preto, uma camisa aos quadrados de flanela, jeans apertados e sapatos oxford camel. A única coisa que é (mais) diferente nela é a brancura. Como ela é extremamente branca. Mais branca do que pareceu ser em todas as outras vezes. Talvez pela proximidade. De um branco que reluz. Na mão tem um pequeno saco de compras da Gulbenkian com o que parecem ser um ou dois livros. Ela caminha pelo corredor enorme, vira à esquerda e eu sigo, perdida mas à espera de acertar, em frente, para o meu quarto. Pontualíssima para o evento que começa daí a 15 minutos.Como um dia escreveu Anabela Mota Ribeiro:  "não é uma brasileira do samba, de pele morena, de jeito dengoso. É uma mulher que conjuga o verbo flanar com frequência. Que regressa a casa com as malas cheias de livros. E que gosta de dançar no Lux e de ouvir fado em Alfama. Imensamente requintada, sofisticada. Delicada". Subscrevo na totalidade.

As minhas questões, que não me abandonavam: Quem se lembrou de juntar estas duas pessoas? E a segunda, por consequência era: Como é que ela aceitou o convite? Nunca fui politicamente correcta, para o bem e para o mal.

Se a moderação, os convidados da mesma mesa, e/ou o público não forem adequados, acaba por ser decepcionante. E eu que tinha (quase) a certeza que seria, tive que fazer a prova dos nove. Pagar para ver. Então, juntar uma cantora consagrada, que a maioria conhece (apenas) de cantar mas desconhece as suas outras artes como escrever, compor, desenhar, compilar e o excelso domínio da língua portuguesa.  Um moderador que é praticamente desconhecido, que eu desconfio que ninguém naquela sala conhecia, à excepção do anfitrião (e algumas pessoas que se podiam contar pelos dedos de uma mão). E finalmente,  “o gajo que escreve cenas”, como o próprio se descreve e parece gostar. Quem se define assim já não pode ser alguém cuja qualidade literária é algo muito aprofundado. Ela tira um livro, um ipad, iphone, talvez um caderno e um lápis. Os outros nada. Eu sei que deve haver algum lugar para o improviso. Mas nada? Ela lê talvez dois poemas de amor do Fernando Pessoa.

“O gajo das cenas” é só piadas. Cita uma carta de amor, eleita a melhor de todos os tempos, pelos americanos. O americano comum não é nenhum sinónimo de qualidade. Com um humor tão fácil e tão popular. Tem a mania que é engraçado. Um cita Machado de Assis e outro cita Johnny Cash. Se, pelo menos, citasse Leonard Cohen ou Dylan. A necessidade de fazer rir toda a gente (mesmo que não tenha piada nenhuma, para mim), um palhaço (no mau sentido da palavra). E toda a gente se ri. Serei apenas eu que não tenho vontade de me rir? Será que não tenho sentido de humor? Sou eu apenas que já não me consigo rir do que não é sofisticado? Vende, dizem-me, um número inacreditável de livros por semana. Um best seller, portanto. Mas seja lá o que isso for. Neste país não é preciso grande coisa para se ser best seller. Não me interessa escritores nem livros cujas citações que fazem são de Johnny Cash e das músicas dos Clã e das escritas de Carlos Tê. Percebi hoje, finalmente, o sucesso deste pseudo escritor. Pelo menos tem a noção que é ridículo. "Gosto de ti como de arroz". Usa exemplos de de futebol. Que vergonha, para mim, juntar estas pessoas à mesma mesa. Com tanto de tão bom em Portugal. Mas sala está cheia para o ver. Essa é a verdade. A plateia está cheia de gente muito produzida para esta hora da manhã e para este dia da semana. Dirão que 97% são mulheres e 3% são homens. 

Ela tenta em vão elevar o nível de discussão. Cita um verso de uma música sua, cuja letra foi escrita pelo António Cicero:"Faço longas cartas para ninguém". Nos tempos mortos, em que ouviu mais do que falou, rabiscou e citou Oswald de Andrade: "Amor/ Humor". Termina a dizer que a sua representação do amor é a palavra "revolução". Os exemplos de cartas de amor que citou: as cartas que enviava para a avó quando chegou ao RJ, as cartas que alguém na Central do Brasil quando não se sabe escrever.

Uma das coisas mais bonitas que ouvi, e a melhor intervenção, foi a história de uma senhora que contou a história da avó que era analfabeta e que aprendeu a escrever, já depois dos 40, para escrever cartas de amor para o avô.

O que me chocou foi o politicamente correcto do Luís Osório, que supostamente pertence à elite, e que o elogiou dizendo que gostou muito de o ouvir. Pois eu não. Lamento. E não tem nada que ver com muita gente ler os livros dele e da maioria dos livros dele serem lidos maioritariamente por mulheres. Tem que ver com cuidado, com profundidade, com a forma com que se aborda a temática. Aquilo que se chama estilo. Uma forma de escrever. Eu quando leio estou à espera de aprender, de melhorar, de me surpreender, de admirar. Não quero ler e achar que eu poderia ou saberia fazer melhor. Não me interessa uma literatura acessível, mediana, sem aprofundamento de nada, com um monte de futilidades e banalidades.  Estou farta desta conversa de cosmética e circunstância, do desejo e necessidade que se tem, permanentemente, de se evitar confrontos. 

Nada tenho contra o pseudo escritor, que eu acharia melhor definir como pessoa que escreve, não sei se livros. Simpatizei com a pessoa. Não o achei pretensioso ou à espera de ser mais do que aquilo que é. Achei-o genuíno e sincero. Sem pretensões.

Agora juntar estas duas pessoas foi um erro, desculpem.

Não parece mais tão tímida como diz ser ou como dizem que é. Tira constantemente os óculos para as fotografias. Ninguém lhe pede nada para assinar. Somente fotos. Ela é toda sorrisos e palavras delicadas. Mesmo cheia de pressa, não diz que não a ninguém. Promete encontro (por aí) de tarde. 

Copyright: Isabel Worm

Copyright: Isabel Worm

Copyright: Isabel Worm

Copyright: Isabel Worm

Copyright: Pierre Aderne




quinta-feira, 25 de junho de 2015

A primeira impressão de São Paulo

Sempre quis conhecer o Brasil. Há muitos anos, pelos livros de Jorge Amado, uma cidade de Salvador da Bahia que já não deve existir. Mas os cheiros descritos nos livros dele, as paisagens, o calor, a humanidade dos personagens, a realidade, tudo me fazia querer conhecer essa cidade. O Lobo Antunes dizia que o Jorge Amado era muito melhor pessoa do que escritor. Como eu não conheci a pessoa só o posso avaliar como escritor. Pode não ser isso que a maioria e os cânones acham mas eu adoro-o. Acho que é o Hemingway da América Latina. Há anos que adio a viagem à cidade que eu mais quero conhecer: Rio de Janeiro.

Ontem, depois de dez horas de viagem e pela primeira vez ter dormido num avião, cheguei fresca como uma alface a São Paulo. Chegamos depois das 9 da noite. Sem filas e com a mala a chegar rapidamente. A primeira impressão do aeroporto foi a melhor. Um aeroporto de um país de primeiro mundo. Ao passar a alfândega entramos numa gigantesca loja que faz- nos lembrar o piso térreo da Macy's. Luzes, muitas luzes, perfumes, marcas, maquilhagem e muitas pessoas a dizerem-nós que podemos guardar as malas para ir às compras. Pois, sim! Mal saímos temos uma senhora com um cartaz "COLATEL". Depois aparece outra. Verifico em poucos minutos que muitas mulheres não caucasianas têm cabelos loiros oxigenados. Parecem a Nicky Minaj. Saímos do aeroporto e esperamos pela van que nos levaria ao hotel. Surpreendentemente, o caminho do aeroporto para o hotel é-nos familiar. Nada feio, favelas, estradas em más condições nem trânsito infernal. A surpresa é no número de vias na autoestrada. Em alguns trajectos tem duas em cada faixa, o máximo que vamos ver são cinco. Depois a surpresa de ver o número de camiões. Imensos. E depois o rio Pinheiros que nos acompanha do lado esquerdo. Sujo, feio, escuro. Não parece um rio, parece um canal. Um esgoto a céu aberto. E o mau cheiro acompanha o rio. Quando chegamos a Berrini/ Itaim/ Morumbi os prédios são bonitos, altos, muito altos, modernos, luminosos e com uma arquitectura bonita. Mas as paragens de autocarro e de comboio que se cruzam são assustadoras. Percebo que não há ninguém a andar a pé depois das 10 da noite. Os prédios são rodeados de altos gradeamentos e têm arame farpado. Chegamos ao hotel e o número de seguranças à entrada e de concierge é ridículo. Somos menos do que eles! Tudo é em número surpreendente. No balcão da recepção são uns dez. O hotel tem umas escadas rolantes que parece um shopping. Como sou a única que tenho duas malas (quase vazias para regressarem cheias de livros) um dos concierge acompanha-me. Espera pacientemente por mim enquanto faço o check in, entregar-me o livro que a Marina Lima teve a amabilidade de enviar, e faço todas as perguntas. Quando finalmente termino acompanha-me ao quarto e pergunta-nos como correu a viagem. Eu só penso na gorjeta que terei que lhe dar mas não tenho reais e tenho a esperança de ter cinco euros na carteira. Chegados ao quarto coloca a mala num banco que vai buscar propositadamente para aquilo. Mostra-me o quarto que tem vários compartimentos. E eu penso que é maior que a minha casa. Abro a carteira e percebo que a nota mais baixa é de 10 euros. Entre a vergonha de dizer-lhe que não tenho reais e não lhe dar nada, estendo-lhe os 10 euros. O senhor ficou radiante e até me disse: " pode me pedir tudo, menos dinheiro". E eu aproveito: "Então, isto é tão perigoso como dizem?". E ele: "Se forem os quatro durante o dia ali ao Shopping Morumbi não há problema. Mas só de dia. E se fizerem compras regressam de táxi". Pronto, percebi! Todos no hotel são de uma amabilidade que não vi em muitos lugares do mundo. Muito agradavelmente surpreendida. To be continued.



segunda-feira, 29 de outubro de 2012

O furacão Ike


Hoje que “a Sandy” está a provocar estragos na costa leste dos EUA revivo uma das mais assustadoras experiências da minha vida. Ao contrário do que os meus amigos em NYC fizeram hoje, e bem, ao cumprir as instruções dadas pelas autoridades, naquela altura, eu menosprezei  a grandeza “da coisa”. 

Em Setembro de 2008, depois de ter estado em Portugal a tratar-me de um problema de estômago, voltei para Houston para terminar as minhas experiências. Passados alguns dias o Ike surgiria. Lembro-me que na altura as autoridades foram bastante convincentes a antecipar os estragos que o Ike faria. Eu nunca acreditei, achei sempre que era o exagero americano.  Em Rice University seria um dos locais de Houston que não faltaria água nem luz. Foram preparados nos diferentes edifícios autênticos abrigos para milhares de estudantes. Quem quisesse poderia levar o seu colchão e/ou saco-cama e mantimentos seriam fornecidos. Lembro-me perfeitamente de ver supermercados com prateleiras vazias e filas intermináveis de pessoas a comprar mantimentos. O meu orientador na altura mandou os filhos e a mulher para um local seguro fora do Texas. E eu continuei a achar que o exagero cinematográfico americano continuava. Os meus amigos e colegas convidaram-me para ir para suas casas. E eu recusei sempre, amavelmente. 

No dia da chegada do Ike com o aproximar da hora, avistavam-se cada vez menos pessoas. O dia amanheceu lindo, como quase sempre em Houston. Calor abafado, como quase sempre. Mas com o passar das horas começou a ficar nublado e a escurecer. As autoridades avisavam que as pessoas deviam recolher-se em lugares seguros à tarde. Essa foi a única instrução que cumpri. Fui de manhã para a universidade e no final de almoço regressei a casa munida, podem não acredita, de um autêntico laboratório ambulante. Tinha um procedimento de desidratação histológico que não podia abandonar... Montei o meu arsenal na casa de banho, coloquei  uma mesa com o tampo a fazer de parede na minha secretária (seria debaixo dela que passaria a noite)... De repente, não mais do que de repente, do dia fez-se noite. Quando a noite chegou parecia que não passaria de vento e alguma chuva e eu continuava no meu quarto de tv ligada e internet. Tinha falado com os meus pais, com os meus amigos que tudo não passava de um exagero mas estava muito optimista e comportar-me demasiado como uma pessoa inconsequente para o gosto deles. Às 10 da noite o terror começou. Quando o vento começou a piorar a luz foi-se imediatamente, e o barulho começou a tornar-se medonho. A chuva era tanta que eu já não conseguia distinguir a chuva do vento. A coragem foi-se imediatamente à vida. Coloquei o meu capacete de andar de bicicleta e fui imediatamente para debaixo da secretária. Achei que aquilo demorasse tipo uma hora, no máximo duas.... Mas o terror não passava. E eu só pensava: “Que tristeza morrer em posição fetal debaixo de uma secretária, ridícula com um capacete, e sozinha”. Ainda tive coragem de me levantar e espreitar à janela e ver, que apesar de não haver luz, e o céu estar escuro como breu, o vento tinha cor. Nunca consegui explicar isto e nunca vi nada assim na vida. Bem á mariquinhas, regressei a correr ao meu bunker.



Lembro-me que estive acordada madrugada dentro mas que depois das 4 adormeci de exaustão. Quando acordei de manhã, o barulho tinha cessado e percebi que não tinha morrido e que nada no meu apartamento estava destruído. A luz continuava sem existir e a água também.  Um calor infernal (afinal não havia AC...). Abro a porta e tudo à minha frente é destruição. A piscina parecia uma sopa de ramos e de tudo o que era lixo. Dou um passo e “puf” fiquei com água acima do joelho. Dou uma volta ao meu condomínio e percebo que não há ninguém. E só pensava: “Como vou sair daqui, com as ruas inundadas, fios de electricidade rebentados, árvores caídas, casas sem telhado...?”. Vi um dos meus vizinhos que conhecia de vista (era um americano que era casado com uma espanhola e tinha um filho bebé; ele tinha ficado em Houston e a mulher e o filho tinham ido  para Espanha). Nestas alturas, a vergonha desaparece, e eu com a maior das latas, ou talvez instinto de sobrevivência, perguntei-lhe se tinha carro e se me podia levar ao Hilton doMedical Center (era o hotel que costumava ficar no dia anterior das viagens para Portugal. Ele com a maior das boas vontades e devia ter tido pena de mim, lá me levou ao hotel. Quando cheguei ao hotel havia muita gente no hall de entrada e junto à recepção, onde tinham colocado uma tv que ia dando a conhecer a real situação. Pedi um quarto e disseram-me que teria que ficar em lista de espera porque não havia luz e não podiam aceitar reservas. No entanto, disseram-me que poderia aguardar e estaria em lista de espera. Como as horas que ali passamos foram muitas, havia as horas das refeições, que foram todas servidas e eu fui sempre aconselhada a ir. Lembro-me de ter ligado aos meus pais e alguns amigos e da preocupação deles com as notícias que viam na tv. Entretanto, a noite chegou, e a luz não. E no piso da entrada a luz era assegurada apenas pelo gerador. Como eu não tinha para onde ir, e como todos os hotéis estavam lotados, a gerente disse-me que a única possibilidade seria ficar num quarto no hotel mas que não teria água nem luz. Um dos motoristas levou-me de carro ao andar do quarto (pois tinha acesso exterior) e disse-me para me trancar no quarto e não abrir a porta a ninguém. Ele acompanhou-me com uma lanterna até ao quarto e deu-ma. Entrei, fechei a porta e tranquei-a com as duas fechaduras. Não era um quarto, era uma suite presidencial. Era enorme. Mas de nada me valia aquele luxo se não havia água nem luz e o calor era mais do que infernal. Mas pelo menos tinha uma cama. Durante a noite ouvi uns barulhos mas achei que estava a sonhar. Ouvi bater na porta e a tentarem entrar mas não liguei porque achava que era sonho... Quando acordei de manhã e fui confirmar a porta... apenas estava fechada com uma das fechaduras... alguém durante a noite tentara entrar...Não penso muito nisso, mas acho que tive muita sorte. Quando desci, disseram-me que continuavam sem luz e que não havia previsões para que fosse restaurada e que teriam que fechar o hotel. No entanto, disseram-me que poderia tomar o pequeno almoço e me levariam onde quisesse. Não me lembro de caras nem de nomes de todos (as) aqueles (as) que me ajudaram e fizeram tudo por mim nestas horas, sem me conhecerem de lado algum, mas são a quem devo a vida. No final do pequeno-almoço dirigi-me à recepção para acertar contas do quarto e de todas as refeições que tinha feito e a gerente do hotel disse que não era nada e que era tudo por conta do hotel e que só pedia desculpa por não ser o melhor serviço. A sério que nesse momento só me apetecia agarrar-me a ela a chorar e dizer-lhe que achava que não existiam  pessoas assim no mundo. Deu-me o cartão dela e que estava disponível para o que precisasse e que um motorista do hotel ia levar-me onde quisesse. Apesar de Rice University ser a 10 minutos a pé, decidi aceitar. Nem pensei em mais nada, só que tinha que continuar a experiência com os bioreactores...

















Havia luz no laboratório e em toda a universidade. Tudo estava fechado. Tinha dinheiro no bolso mas não servia para comprar nada. A universidade durante esses dias dava água e comida a todos os alunos. Durante vários dias estava em filas para almoçar/jantar e receber garrafas de água. O espírito de solidariedade que senti nestes dias são inesquecíveis. Durante dias dormi no meu gabinete porque não havia recolher obrigatório às 8 da noite, depois passou a ser às 10. A verdade, é que o bairro onde eu morava (a 5 mns da universidade) e onde o meu orientador também morava, ficou sem luz durante 3 semanas. A minha rotina diária era dormir no chão ou na cadeira no meu gabinete,  levantar-me às 6 da manhã, ia a casa dormia uma ou duas horas na minha cama, tomava um banho de água fria e regressava à universidade. Após alguns dias, ligaram-me do Hilton onde tinha uma reserva e colocaram-me num hotel a uns 20 mins de táxi. Nesse dia fui para o hotel às 5 da tarde, tomei um banho de água quente, dormi numa cama, acordei e pedi o jantar no quarto, dormi, acordei e tomei o pequeno-almoço. A brincadeira ficou por 400 dólares... mas nunca achei que tanto dinheiro fosse tão bem empregue!!! 

Alguns dias mais a dormir no lab estavam a deixar-me saturada e aceitei ir para casa de uma colega e amiga que já tinha luz. Passei uma semana na casa dela e nunca lhe consegui agradecer o quão importante isso foi. Como é que eu posso não ter gostado de Houston, da universidade, das pessoas e dos texanos? O que não nos mata, enriquece-nos.

sábado, 29 de setembro de 2012

Pittsburgh e Andy Warhol


Pittsburgh não é daquelas cidades que nos marca. Tem um rio que divide a cidade. Lembro-me que ficamos num excelente hotel (Hilton) em frente ao rio por um preço imbatível e tínhamos um motorista que nos ia levar e buscar onde queríamos. Agora mudou de nome mas dá para ver o quão magnífico era, aqui. Isso foi até motivo de muita polémica na altura porque o nosso hotel era melhor que o do nosso orientador!! E aluno de doutoramento, segundo as instruções dele nunca ficavam num hotel com mais de 3 estrelas... Ainda por cima, nada habitual nos hotéis nos Estados Unidos, o pequeno almoço era incluído. Este era um hotel de 5 estrelas ao preço de um de 3. Lembro-me que depois da conferência passávamos horas no bar do hotel a beber vinho e a fumar. No tempo em que ainda era permitido fumar em alguns hotéis nos EUA. E a maior recordação que tenho de Pittsburgh é o museu do Andy Warhol, cidade onde ele nasceu. Antes de ter ido a Pittsburgh (em 2006) achava que Warhol era nova-iorquino.






















facebook