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quarta-feira, 31 de julho de 2019

Rodes


Rodes, que não conheci muito bem porque estive 5 dias fechada numa conferência, é a ilha grega mais oriental. A primeira impressão é de uma ilha que parou no tempo. Parece o Algarve nos anos 80. Os táxis não têm taxímetro. Todos os locais falam várias línguas. As infraestruturas não são muitas. O turismo é a principal fonte de rendimento. A parte da ilha onde fiquei era extremamente ventosa. A praia não tem areia mas pedras grandes, redondas e lisas. A temperatura do mar Egeu ronda os 20 graus no fim de Maio. E o sol é potentíssimo. Os turistas variam entre holandeses, franceses e uma mescla de nacionalidades de leste que não se chega a perceber exactamente o país. A cor do mar é a do Mediterrâneo e das águas quentes. Uma mistura entre um verde esmeralda e um azul transparente.

Fui à Acrópole de Rodes. Eu que nunca vi ruínas gregas, pessoalmente, o único desejo que tinha era esse: visitar as ruínas gregas. E talvez, como em Roma, nunca em lugar nenhum do mundo senti o peso da civilização. Deixaram-nos no que parecia ser um descampado abandonado. Era fim de Maio mas a cor da vegetação parecia do pico do verão. Parecia um deserto. Um descampado deixado à sua sorte. As ruínas gregas eram as únicas coisas que queria ver em Rodes. Não a cidade velha. Nem a cidade Medieval. Nem o lugar onde supostamente um dia existira o Colosso de Rodes, a gigantesca estátua de Apolo, nas portas da cidade, junto ao mar. Mas o que restou da Grécia Antiga. Chega-se perto das ruínas, ao que parece ser semelhante ao que se vê na internet: duas enormes colunas. No entanto, aquilo que avisto são duas colunas tapadas por andaimes. Isto é o que resta do suposto Templo de Apolo. O resto é pó, pedras, abandono, plantas forasteiras e tempo, muito tempo. Descobre-se o caminho seguindo os turistas acompanhados por um guia. Descemos caminhos selvagens apenas marcados pela passagem de poucos turistas. Algumas coisas estão bem conservadas. Sento-me no cimo e olho o mar. A imagem que se tem do mar numa ilha é sempre diferente. O mar Egeu, visto daqui, azul cobalto. Como os olhos, este mar muda de cor. Entre o verde esmeralda, o azul céu e o mais escuro do azuis a parecer o Atlântico. Debaixo de um sol da tarde que parece queimar tudo. Nenhuma sombra. Tudo agreste. Selvagem. Nú. Subo e desço escadas. Sinto as pedras. Sento-me no meio delas, no que resta das ruínas. No desleixo que permite que eu, turista, esteja ali sem pagar pelo tempo que me apetecer. 

Depois, chega-se a um muito bem cuidado teatro ao ar livre. Odeon. Um teatro de mármore para uns 800 espectadores. Os turistas contam-se pelos dedos mas de cima lembro-me da passagem de Sophia pela Grécia, que no seu diário escreveu sobre a visita ao Teatro de Epidauro e quis ouvir o eco da própria voz. E onde ela recitou os primeiros versos da Ilíada de Homero: “Forma perfeita e funcional: a acústica é inacreditável. Dos degraus de cima oiço nitidamente as vozes de baixo. É uma acústica que não só “transporta” as palavras mas que as recorta, as distingue, sílaba por sílaba, som por som. Despois desço (...) Fico por um instante quasi sozinha no centro da orquestra e digo: “Menin aeide, Thea, Peleiadeo Aquileos”. Então oiço duas vezes a minha voz, uma voz ao pé de mim e outra no ar subindo todos os degraus de ar, nítida, livre, clara, recortada.” Eu abraçada ao livro de Sophia “O nu na antiguidade clássica/ Antologia de poemas sobre a Grécia e Roma”.  Quando o meu pensamento é interrompido por uma voz que pede em inglês a alguém que está no centro do teatro que diga qualquer coisa. E eu ali na Grécia, em Rodes, numa tarde do último dia de Maio, ouço em unísseno a voz de quem está no centro do teatro e a voz de quem está no cimo a dizerem uma passagem do coro de Henrique V de Shakespeare:

“O for a Muse of fire, that would ascend
The brightest heaven of invention,
A kingdom for a stage, princes to act
And monarchs to behold the swelling scene!”

E depois ainda se vê o estádio, onde os locais correm ao fim da tarde. E eu caminho por entre as bancadas, e sento-me de novo, apenas a olhar. Estas pedras onde estou sentada, estas pedras da antiguidade, misturadas com os turistas e com os locais que correm. Aquelas ruínas ficam impregnadas com aquilo que aconteceu, acontece e acontecerá ali. E, contrariamente ao que devia, ainda trouxe umas pedrinhas. Ou não tão “inhas" assim. Desta vez, o excesso de peso não foram os livros mas pedras. Passaram despercebidas na segurança em Rodes. Mas, por falta de cuidado meu, em vez de colocar as pedras na mala de porão, coloquei-as na mala de mão, tal o valor simbólico delas. Afinal foram apanhadas nas ruínas em Rodes. Em Roma, ao passar novamente na segurança, a minha mala foi inspeccionada. Abrem o saco com as pedras e perguntam-me para que servem. E eu respondo que não servem para nada que são apenas uma recordação de Rodes. Não houve argumento possível. As pedras do tamanho da palma de uma mão, talvez com milhares de anos antes de Cristo, que a tudo sobreviveram, acabaram entre risos de troça e um barulho ensurdecedor, num caixote do lixo (de plástico) no aeroporto Leonardo Da Vinci em Roma. A ironia. As pedras da Grécia Antiga, acabaram na Roma Antiga. Mas talvez com pena da minha cara que era só desânimo deixaram-me trazer o resto das pedrinhas inofensivas para se juntarem a tantas outras numa das mesas lá de casa.

Templo de Apolo (copyright:Wikipedia)

Teatro Odeon (copyright:Wikipedia)

Estádio (copyright:Wikipedia)

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Dia 2 - Museu Vaticano, Capela Sistina, Catedral S. Pedro, Trastevere

Como só tinha dois dias para visitar a cidade comprei um voucher na empresa citysightseeing para andar 48h sem limitaçoes no autocarro turístico (das 9 da manhã às 11 da noite), comprei o bilhete para o Museu Vaticano e Capela Sistina que incluia não esperar na fila (“skip the line”) e também para visitar o Coliseu e o Palatino (explicarei mais à frente que esta historia de evitar as filas é a verdadeira história “para bói dormir”). Acho que paguei 86 euros.  Uma das paragens do autocarro ficava perto do meu hotel, uns cinco minutos a pé, perto da igreja de Santa Maria Maggiore. Estava previsto ser um dos fins de semana mais quentes do verão. Em todas as paragens que do autocarro era um sem número de vendedores munidos de tudo, incluíndo garrafas de água fresca. Passei de autocarro pelo Coliseu e Palatino e a minha primeira paragem foi perto do Vaticano, do outro lado do rio Tevere. Atravessei a ponte. E aí começa a minha saga da trafulhice romana. A caminho da Praça de S. Pedro vêem-se alguns vendedores e parei no olhar de um rapaz queimado pelo sol. Ar envergonhado, acanhado, com umas pinturas expostas. Não fala nem percebe uma palavra de inglês. Não foi a beleza dos quadros que me fez parar foi o olhar triste dele. Mostra-me mais pinturas, umas maiores e outras mais pequenas. Os pormenores das mais pequenas fazem-me desconfiar. Olho os pincéis, as tintas, as aguarelas. Começo a negociar. Acho que me pedia 40 euros por uma pintura A4 mais duas pequenas. Ofereci 30. Não aceitou. Quando não aceitou, deitou os olhos ao chão, e com um ar de desânimo disse que aceitava. Fui levantar dinheiro a um banco perto. Continuei desconfiada. Quando regressei para pagar, a minha desconfiança até se dessipou com o cuidado que ele teve a acondicionar as pinturas para não se estragarem. Reparo mais uma vez que os pincéis e as tintas estão lá mas estão secas. Quando saio do pé dele faço a prova dos nove: molho o dedo e passo na pintura… Uma impressão a cores num papel de espessura especial… Repararei em todos os cantos, esquinas e ruas de Roma em pinturas iguais às minhas, sobretudo vendidas por migrantes que falam muito pouco italiano e quase nada de inglês. Aprendi a lição.  







Antes de ir para o Museu Vaticano, deparo-me com uma fila de mais de meia hora para trocar o voucher que havia comprado na internet da citysightseein. Nestes mais de trinta minutos ouço um disfarçado engate atrás de mim. Só lhes ouço as vozes masculinas. Muito graves. Arrastadas. Roucas. Olho discretamente para trás e  as vozes coincidem (quase) com a beleza física. A beleza física de um é visivelmente maior. Um é argentino, não terá mais do que 30 anos, tem barba e um porte atlético. O outro já passará dos 50, é grisalho, polaco mas vive na Austrália há 30 anos. Um está sozinho em Roma e o outro (ainda) não consigo perceber. O argentino já viveu em LA. O outro diz que adorou Buenos Aires. Falam de locais que não conheço. Reconheço um nome Santo Inácio de Loyola, o fundador da Companhia de Jesus (Jesuítas). O mais velho disse que ficou impressionadíssimo com as missões. O outro diz nunca as ter visitado. Os dois dizem ter visto o filme “The mission”. Um fala muito mais do que o outro. Fico a saber muito da sua vida. É engenheiro, de origem polaca, com dupla nacionalidade, vive em Sidney. Diz que a  Austrália é um país muito diferente do que era há 30 anos. Era um país de sonho em que era suficiente apenas um trabalhar. Ter uma casa de sonho. Carro. Família. Agora tudo mudou. Tudo se tornou caro. Não é possível apenas um membro do casal trabalhar. Nenhum dos dois revela o que os trouxe aqui. Percebo em poucos minutos que chega a mulher do mais velho. Infelizmente para a mulher, trocaram e-mails há pouco. À minha frente está um casal de americanos com um bebé no carrinho. O bebé, que tem dois dentes mas mal se senta, já come dos dois gelados dos pais. Pouco passa das 11 da manhã. 


Roma é um negócio ao ar livre. Tem quase tantos vendedores como turistas.O Vaticano é onde tudo começa, para mim. Para se chegar ao Museu Vaticano é preciso circular a parte externa da Praça de S. Pedro. Debaixo de um sol abrasador e de uma temperatura de 40 graus e muita humidade, tudo parece penoso. Começo por perceber que vendem bilhetes para o Museu Vaticano e para a Capela Sistina como se fossem coisas diferentes. Ora bem, não se pode ir ao Museu Vaticano e não passar pela Capela Sistina… E vendem o “não esperar na fila” como se não as houvesse. Se eu tiver que aconselhar alguma coisa com a minha experiência é: evitem Roma no verão. O calor é insuportável e os turistas são mais do que muitos. A memória que guardo do Museu Vaticano é um mar de gente, calor insuportável, corredores sem fim, andar empurrada pela multidão. Houve uma altura que eu só me concentrava para não entrar em pânico, principalmente nas escadas apertadas. E tentar abstrair-me.  Lutar contra o movimento era impossível. A entrada de tão grande número de pessoas deveria ser controlada. Visitar nestas condições alguma coisa é apenas um negócio e torna-se uma tortura. Não aproveitei nada. Tentei apenas sobreviver. Na Capela Sistina, que ate estava bastante fresca, tinha centenas de pessoas sentadas nos bancos laterais. Como é um local sagrado, pedia-se silencio mas as pessoas ignoravam. Depois do martírio do quase esmagamento, chega-se a um lugar iluminado e fresco. Não estive lá mais de 5 minutos. Nao foi nada daquilo que sonhei quando olhei para o tecto pintado por Michelangelo, Botichelli entre outros. Nao desmaiei perante tanta beleza. Tudo o que me lembro é de ter respirado de alívio por ter sobrevivido até ali. Toda a minha memória visual da Capela Sistina mantém-se com o conhecimento que adquiri nos livros. Não vale o sufoco de quase morrer esmagada, desculpem-me. So queria encontrar a saída e ar livre. Desci a pé as famosas escadas em forma de caracol do Museu Vaticano e nem me ocorreu fotografá-las, tal era a pressa de sair. Fez lembrar-me o Museu Gugghneim em NY.



Finalmente no exterior caminho de regresso à praça S. Pedro. Quero sentar-me em alguma esplanada. Qualquer uma que nao pareça turistica. Quanto mais escolho menos acerto. Depois de almoçar e descansar os pés vou visitar a Catedral de S. Pedro. Há uma fila grande mas bastante rápida porque há vários postos de verificação de segurança. Até na praça de S. Pedro há vendedores. Aqui o negócio são os lenços para cobrir os ombros e as pernas já que é um local sagrado. A Praça de S. Pedro parece-me bem mais pequena do que na televisão. Entro e vou, não a correr (porque há que caminhar com elegância e trata-se de um dos lugares mais sagrados do mundo para mim que tenho fé), directamente à Pietà. Por incrivel que pareça, não estava rodeada de gente. Pude chegar perto. E aí sim, desfiz-me. Não sei se foi o cansaço, se aquela beleza tão perfeita em mármore trabalhada numa só peça, se a imagem de Jesus depois de cruxificado no colo de Maria, se apenas um filho morto no colo da sua mãe dilacerada pelo sofrimento. As lágrimas começaram a cair e eu não as evitei. Coloquei-me em frente, num lugar priviligiado, com o queixo pousado nas mãos  somente a olhar. Não sei quanto tempo fiquei assim mas dei-me esse privilégio. A minha volta, percebi depois, as pessoas so estavam interessadas em tirar selfies. Nunca percebi esta moda de as pessoas visitarem só para tirar uma foto. Não têm curiosidade alguma de olhar, de se emocionarem, de se sentirem tocadas. Chegam e tiram fotos e é tudo. Deixei-me ir. Havia outras três coisas que queria ver: os túmulos dos Papas João Paulo II e João XXI (único papa português, de nome verdadeiro Pedro Hispano) e a estátua de S. Pedro. A estátua de S. Pedro já não se pode tocar mas era visível que o seu pé está rompido de tanto as pessoas passarem a mão.Os túmulos dos Papas foi o mais difícil de encontrar. Acabei por desistir do Papa João XXI depois de várias informações erradas que os diferentes guardas me davam. Finalmente encontrei. Sóbrio, simples um altar com o nome de Sanctus Joannes Paulus II. Já na Praça de S. Pedro, o calor continuava a não dar tréguas. Hora de comprar água. Dois euros a garrafa. Queria ter subido ao topo do castelo de Sant’Angelo mas faltaram-me as forças. Fiquei-me pelo parque e caminhei pelas margens do Tevere.






domingo, 24 de junho de 2018

Génova - Milão - Verona - Trento

Viagem de 5 horas pela frente. Duas mudanças de comboio. Dia escaldante. Verão (quase) tropical. Tudo brilha de tão húmido. Passa pouco das 8 da manhã e já tudo parece derreter. No comboio para Milão, quase cheio, são sobretudo turistas. A temperatura é quase glacial e obriga-me a vestir uma camisola. Ao meu lado está um senhor, que parece meu avô, impecavelmente vestido. Lê o jornal "La Repubblica" e tem uma pasta. Em frente e ao lado dele estão duas mulheres que falam espanhol. Não lhes presto muita atenção mas uma delas tem uma voz linda. Grave, quase rouca. Quando a vejo levantar, para dar lugar a outra pessoa, reparo como é alta. Num olhar mais atento reparo no excesso de silicone na cara e no nariz cirurgicamente desenhado.   Tem umas mãos lindas, grandes e magras e uns dedos compridos, proporcionais ao seu tamanho. Milão, mudança de comboio para Verona. O cenário muda completamente. O comboio é regional. A temperatura é infernal que só piora com o cheiro a gente. Não existe lugar para todos. Há mais bilhetes vendidos do que lugares. É "tudo ao molho e fé em Deus". Mais de uma hora de viagem pela frente nestas condições. Eu, pelo menos, estou sentada. Ouço  um murmúrio de duas jovens americanas que se questionam como é possível venderem mais bilhetes se não existem condições. Um olhar rápido em volta percebo a presença das pessoas non grata do actual governo italiano. Mulheres grávidas a pedir. Uma jovem com um bebé ao colo e outra pela mão que não devem ver água do banho há muito tempo. A criança pela mão parece uma pena, caminha à velocidade da mãe e mal pousa os pés no chão. Parece voar. Os meus olhos prendem-se nos dela. Apetece-me dar-lhe tudo o que tenho mas sinto-me tão incapaz e impotente. O que ajudá-la hoje mudará na vida dela? E depois lembro-me do actual governo italiano composto por gente da extrema direita, racista e nacionalista. A última do Ministro do Interior, depois de proibir um barco cheio de refugiados de atracar num porto italiano, foi querer expulsar albaneses, romenos e tunisinos. Este já é o Trump europeu. Mas o mais escandaloso é que é aplaudido pelos italianos a qualquer lado que vá. Lembro-me que do outro lado do oceano Atlântico está um presidente eleito democraticamente que separa pais e crianças que tentam a sua sorte ao atravessar ilegalmente a fronteira dos  Estados Unidos. Eu que não tinha televisão até há uma semana atrás e não via notícias que não fosse em jornais ou o que ouvia falar. Comecei a ver as imagens e a ouvir os lamentos das crianças em gaiolas. E não consegui. Não consigo ver aquilo. Isto passa-se no séc XXI. No país que foi um dia a terra das oportunidades, que acolheu refugiados e alguns dos quais se tornaram grandes nomes americanos. O que representava ser americano está a morrer. Não percebo como é possível acontecer esta monstruosidade em pleno ano de 2018. A maldade do ser humano não tem limites.

Verona é a próxima mudança de comboio. Como uma focaccia alta e bebo uma Don Pellegrino. O comboio, apesar de regional, não vai cheio, a temperatura é baixa e a limpeza faz-me pensar que entrei noutro país. A paisagem muda. Os vales e planícies dão lugar às montanhas. As casas fazem lembrar-me a Áustria e a Suiça. Lembro-me que estou a caminho do Tirol. Os Alpes do Marco. Próxima e última paragem: Trento. O calor é abrasador. Tarde nublada. Humidade quase insuportável. A pele brilha. No parque junto à estação, pelo qual passo a caminho de uma das faculdades, tem a estátua de Dante. O tamanho do parque mostra o quão pequena é a cidade. Não parece que estou em Itália. Os carros param nas passadeiras. As tuas estão limpas. As pessoas falam baixo. Até fenotipicamente são diferentes. Começo a ver sandálias com meias. O outfit diz (quase) tudo. Paro numa gelataria. Depois de uma bola de gelado de limão e outra de pistachio faz-me achar que foi uma das melhores gelatarias onde estive. A cidade está rodeada de montanhas e sinto-me como num caldeirão. A sensação é que não há para onde fugir. Antes da hora combinada chego ao destino. Espero, como sempre. Não me importo porque tenho um livro. Uma hora depois estamos a caminho do que deve ser uma das praças mas famosas da cidade, em frente ao Duomo. Na uma hora e meia seguinte beberemos 2 copos de vinho branco e 2 aperol spritz. Quero provar a famosa bebida Hugo mas não servem. O que me trouxe aqui vale bem esta hora e meia e as dez horas de viagem. E tudo o que eu queria, consegui. Há melhor sensação? A caminho do hotel ainda me sento noutra esplanada a beber outro aperol spritz. Decido apanhar um táxi. Fico num bom hotel da cidade porque depois de cinco horas de viagem acho que mereço. São 8 da noite e o quarto está frio. Tudo o que queria. Bebo água e deito-me. Adormeço, não antes de pedir que me acordem às 7. Acordarei por volta da meia-noite e voltarei a adormecer. Tomarei o pequeno-almoço, o mesmo de sempre. E reclamarei, como sempre, desta nova moda de leite em pó. Que saudades das antigas cafeteiras de leite e café. Às 8 um táxi espera-me. Cinco minutos depois estarei na estação. Vinte e sete minutos depois apanharei o comboio que me levará a Verona. Aí mudarei para outro para Milão, onde farei uma mudança para Génova. Viagem sem percalços. Estarei em Génova antes das duas da tarde. O taxista, simpático, coisa rara em Génova, dir-me-á que devo ser muito inteligente quando lhe digo o meu destino: Instituto Italiano de Tecnologia. Ainda chegarei a tempo de almoçar na cantina. E 30 minutos depois estarei a tirar fotos no "meu" microscópio. Apesar de muitas imagens de merda, não perco o entusiasmo. Será este mar e esta temperatura que me fazem ser optimista?







quinta-feira, 21 de junho de 2018

Cinque Terre

Domingo de Páscoa. Sol. Temperatura primaveril. Visitas. Nada planeado. Destino: Cinque Terre. Directo a La Spezia. Escolhemos apenas o meio de transporte: comboio. Dormi o caminho todo. Antes ainda de adormecer tive que ver um homem  a cortar as unhas e outro a coser um botão do casaco. Chegados a La Spezia percebemos o que nos esperaria: gente, muita gente. Um mar de turistas. Em La Spezia apanhamos o comboio regional que pára em cada uma das aldeias de Cinque Terre. Saímos na primeira no sentido sul para norte: Riomaggiore. Tinha lido que era a maior e onde havia o "cammino dell'amore" que ligava à próxima aldeia. Foi aqui que passamos mais tempo. Saídos dos comboio avista-se o mar e as escarpas. Começamos a descer por caminhos de terra e escadas estreitas. Nas falésias veem-se pessoas nas podes mais improváveis.  Muita gente parece arriscar a vida a troco da melhor foto. Esplanadas com vista privilegiada. Uma turista com uma mala a descer escadas sem fim com tacões. Carrinhos de bebés. Crianças com menos de quatro anos. Começam a perceber-se as primeiras queimaduras solares. Gente muito branca que não se protegeu devidamente. Chegados ao centro da aldeia há uma estrutura preparada para a avalanche de turistas. Cafés, lojas, restaurantes, casas de banho que cobram um euro, esplanadas, comidas take away, mercearias, supermercados, gelatarias...chegados ao pé do mar olhamos para trás e percebemos q este é o cenário que conhecemos há muito das Cinque Terre. Casas construídas nas falésias de cores diferentes. Impressionante, sim. Maravilhoso, com menos gente. Almoçamos sentados num as escadas fritura misti. Vários peixes que escolhemos num cartucho de papel com um palito grande. Fish sem chips. Depois de almoçarmos ficamos a saber que o caminho dela ore está fechado. Decidimos n sair na próxima aldeia mas em Vernazza. Talvez a mais pequena e menos preparada aldeia. As pessoas eram tantas que a única forma de locomoção era andar ao ritmo e no sentido da multidão. Quando finalmente chegamos ao pé do mar há um pequeno areal e alguns barcos. As esplanadas não tem um lugar vago. Não existe chão visível. Caminhamos na direcção inversa em direcção à estação de comboios. Esperamos impacientemente na fila para chegar estação. Caótico, sem organização, turistas rudes, gente que dispensávamos encontrar pelo caminho. Depois do infernal teste à paciência, tomo a decisão difícil, de não sair em mais nenhuma aldeia a não ser na última: al mare. Estava tão cansada que a primeira esplanada que avistei nem pensei, sentei-me. A vista não podia ser melhor. O Mediterrâneo imenso com a cor do mar que começa a aquecer. Numa das mesas ao meu lado vejo uma desarrumação de papéis, cadernos e livros espalhados sobre a mesa. Ao contrário de mim, escreve num computador que é uma maçã trincada. Tem como vista um mar azul imenso. Tem olhos claros, cabelo claro, pele nórdica e muitas sardas. Vive de escrever. Escreve coisas das quais gosta menos para patrocinar o grande projecto de vida, um romance. Invejo a coragem e a sinceridade.









sábado, 25 de julho de 2015

A minha primeira arguência num júri de Doutoramento

Domingo, fim da tarde. Aeroporto. Subo para o avião. O Eduardo Souto de Moura senta-se ao meu lado. Não é todos os dias que se tem um dos prémios Pritzker ao nosso lado. Quero falar-lhe mas, como sempre, não tenho coragem. Quero pedir-lhe que me assine alguma coisa já que o seu talento está na mão. Até podia assinar uma das folhas do livro que estava a ler já que só tinha isso e a tese de doutoramento que ia arguir. Nem isso consigo pedir-lhe. [Na semana seguinte saiu uma entrevista brilhante dele feita pela Anabela Mota Ribeiro.  Percebe-se que é uma pessoa extraordinária, engraçada e culta. Que de tantas outras coisas disse para que serve lamber pedras e desenhar a sensação e “eu penso desenhando”. Percebi nos 50 mins de voo que os gordos são realmente bem dispostos e que sabem aproveitar todos os prazeres da vida. Ignorando a sua condição de estae bem acima do peso ainda pediu uns amendoins. 

Chegada a Faro tinha a J. e a M. à minha espera. Noite quente e abafada. Das boas, como só os verões no Algarve, sabem ser. Chego ao hotel já passa das 11 da noite. Não tem cama de casal. Não tem muitas tomadas. A internet não funciona. Mas pelo menos tem tv e muitos canais. Adormeço com a tv ligada e rendo-me aos encantos do A/C que só admito para dormir. [As pessoas que me conhecem sabem os problemas que tenho com o A/C. No trabalho visto-me como se não fosse verão devido a esse atentado à condição humana. Adoro calor e as estações quentes. Nasci no país errado. Ao contrário da maioria das pessoas, adoro o verão quentíssimo de NY e Houston com uma humidade a beirar o insuportável. O único problema do calor é mesmo na hora de dormir porque no resto foi a melhor invenção do universo].
Acordo relativamente tarde para o habitual. Mas ainda a tempo do pequeno-almoço que tenho direito. Dou uma olhadela às perguntas que vou fazer na defesa da tese. Ao meio-dia faço check-out e chamam-me um táxi. Tenho almoço marcado com o júri ao meio dia e meia. Telefonam-me e estou ligeiramente atrasada, presa no trânsito. Como se em Faro houvesse trânsito. Almoçamos no restaurante vip da Universidade do Algarve, que de vip apenas tem o nome. Apenas duas escolhas para o almoço: robalo no forno e bife de cebolada. Quando chega o peixe à minha frente era o verdadeiro atentado. A simplicidade do robalo assassinada...mergulhado num molho de pimentos e cebola que estragou tudo. Durante o almoço falamos da revolução francesa e das invasões francesas em Portugal. 
Pouco antes das duas, saímos em direcção ao anfiteatro onde seria a defesa. Vestimos as becas, cada qual da sua universidade. Eu, como não tenho, requisitei uma emprestada. A defesa começou atrasada porque não abriram o anfiteatro a horas. Depois houve o problema com a apresentação que é sempre o que acontece a quem tem um Mac...demora sempre mais tempo. Mesmo assim, a candidata apresentou muito bem, como se este atores inicial não a afectasse. E eu sentada, desta vez do outro lado, lembro-me do dia da minha defesa. Foi dos piores dias da minha vida. Para além de tudo o que representou para mim, o primeiro arguente não passou da página 7. Até que a muitos dos meus amigos ainda brincam com uma das perguntas que me fizeram: "O que mudaria na sua tese?" E a resposta é: "A página 7!".
O primeiro arguente da tese da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra era um gentleman, extremamente delicado, educado e cuidadoso. Organizadíssimo. Tinha a intervenção toda escrita, os cumprimentos, os comentários, e aproximadamente 20 perguntas. Tudo no seu Mac imaculadamente organizado. Entrei imediatamente em pânico. Eu era o oposto. Levei meia dúzia de folhas (americanas) amarelas. Tudo rasurado e corrigido. riscos e mais riscos. Correcções e adições a esferográfica e lápis. Tudo desastrosamente desorganizado. O pior de se ser a segunda arguente é muitos dos comentários e perguntas terem sido já feitos pelo anterior. Mas eu, que até sou muito mais crítica comigo do que com os outros, acho q a minha intervenção correu bem. A verdade, como sempre acontece nestas coisas, é que perdi a noção do tempo. Depois ainda se seguiram as intervenções da professora da Faculdade de Medicina da Universidade Nova de Lisboa, do Professor da Universidade do Algarve, da orientadora e da Presidente do Júri. Foi a primeira aluna de Doutoramento da G. Um marco, portanto. Dizem que a primeira de cada coisa na vida não se esquece. E terminou com Muito bom por unanimidade com distinção é louvor.
Depois, ainda houve tempo para ir á esplanada mesmo em cima da praia da ilha de Faro para beber uma imperial. Tudo aqui é perfeito. O sol, a vista, a praia, o calor, a cor. O pior é o atendimento. Os algarvios parece terem um talento nato para não serem simpáticos. Tudo parece ser feito por favor é obrigação. Esta miúda loira, que até é gira, e que me calha sempre na rifa sempre que vou a este bar, fica sem beleza nenhuma devido à atitude. Para a próxima vou dizer-lhe que quero ser atendida por outra pessoa. Já passa das 7 quando saímos da praia rumo ao aeroporto para me deixarem. Tenho voo às 8:15. Chego ao aeroporto às 7:15. Ando a passo apressado em direcção à segurança. Respiro de alívio quando vejo que a fila não é muita. Mas como na minha vida há sempre um episódio para contar, eis que me aparece um cromo à frente que leva uma mala de mão e dois sacos transparentes cheios de líquidos. O homem na sua inocência achou que estava a cumprir com tudo porque mostrou os dois sacos transparentes cheios de líquidos, a achar que não estava a cometer nenhuma irregularidade. Mas estava. De há uns tempos para cá só é permitido um saco transparente de líquidos que não ultrapasse cada frasco os 100 ml. Eu aprendi isto quando há uns tempos me ficaram com um frasco de perfume quase cheio cujo valor era superior a 70 dólares. Aprendi a lição e nunca mais mostrei o saco transparente. E a partir daí nunca mais ninguém me descobriu os líquidos que transportam na mala. O que só revela como funcionam bem os aeroportos portugueses. Obviamente, nos aeroportos americanos nunca me atrevi a testar esta situação. Mas a verdade é que em 2006 levei comigo na mochila um frasco de biovidro para os EUA que macroscopicamente é igual a muita coisa ilegal. Adiante, o senhor que estava à minha frente refilava bem alto que podia levar os dois sacos repletos de líquidos porque o tinham deixado passar em todos os aeroportos... E blá blá.... O problema é que eu tinha um avião para apanhar e as portas fechavam às 7:45. E a discussão já durava há 10 minutos. E eu q não queria perder o voo virei-me para a segurança e disse-lhe "não podem resolver este problema mais rápido. Estou aqui há 15 minutos". E ela com a atitude de quem acha que tem autoridade nestas situações diz-me que não estou ali há 15 minutos, talvez uns 10 a exagerar.  E começamos ali numa discussão. Ao que ela me pergunta: "quer ensinar-me a fazer o meu trabalho?". Frase que ela me disse! Se soubesse fazer o trabalho dela não demorava 10 minutos a resolver o problema dos sacos. Ou deixava o homem passar ou os tirava. É isso não demorava 10 minutos. E eu que levava líquidos na mochila, mas nunca assumo que os levo, coloco o iPad fora da mochila e fazem-me a derradeira pergunta: "tem líquidos?". E eu respondo convictamente que não. Mas a imaginar que vai ser destaque me vão apanhar e que vou passar a vergonha da minha vida. Espero a mochila do outro lado e não descobrem nada. Tiro o saco da mochila com líquidos e digo para a que me disse se queria que eu a ensinasse a fazer o trabalho dela: "trabalho bem feito, não?". E continuo. Já estão a chamar pelo meu nome quando vejo o Eduardo Souto de Moura. Aí respiro fundo e sigo-o. Já não vou perder avião nenhum porque ele vai no mesmo que eu!

terça-feira, 21 de julho de 2015

São Paulo, por mim

Tinha muita curiosidade. Queria ver como era. E queria ver como era de perto. Dizem que São Paulo não tem horizonte só fila de trânsito. A eterna selva de pedra. E o muito do que vi em São Paulo foi pela janela do táxi.


Há qualquer coisa que senti em São Paulo que parece semelhante ao apartheid ou ao fantasma mal resolvido da colonização. A subserviência do funcionário em relação ao cliente que nunca vi em lugar nenhum do mundo, a arrogância da elite, a forma displicente com que se dirigem aos funcionários  a quem chamam de “moço”. Os clientes nos restaurantes não agradecem nem pedem desculpa. A diferença de tratamento entre classes é gritante.  Mais do que racismo, xenofobia, homofobia, o que eu vi em São Paulo foi classismo. Nem sei se essa palavra existe. Nos shoppings que entrei (Morumbi e Market Place) só vi brancos com excepção dos funcionários, o mesmo no restaurante onde jantamos. Roupa branca, pelo que percebi, é sinónimo de subalterno, farda para babá, diarista, faxineira...Não vi ninguém da dita classe alta com óculos. E na minha inocência achei que todos em São Paulo veriam bem. Contudo, explicaram-me que não. Nem todos vêem bem, como é óbvio. A elite e a alta burguesia ou usa lentes ou são operados! E os que nem condições têm para comprar óculos tem a triste sina de ver mal. Em que outra cidade do mundo existe elevador social  e elevador de serviço nos prédios? Em que outra cidade do mundo é mais barato ter uma faxineira e/ou uma diarista em vez de ter máquina de lavar roupa e máquina de lavar louça? Outra coisa que estranhei: ninguém usa cabelo encaracolado. Numa cidade de um país em que a mistura de raças é a característica e a regra, não ver ninguém de cabelo encaracolado, surpreendeu-me. Toda a gente tem o cabelo impecavelmente liso. Cadê o black power? Este subdesenvolvimento social que observei em São Paulo disseram-me que, felizmente, não é generalizado a outras cidades do Brasil.

Para o dinheiro dos portugueses andar de táxi é barato. Uma ida do nosso hotel no Morumbi até à Avenida Paulista não ultrapassa os 35 reais. Mas fomos veemente aconselhados a não andar de onibus nem de metrô. Apesar destes transportes serem rejeitados pela burguesia paulista, mas ser o transporte democrático e de todos em NY, em que neste transporte não existem ricos nem pobres, brancos, pretos, hispânicos, asiáticos, bonitos e feios, em São Paulo é um diferenciador social. Como em São Paulo não se anda a pé, ciclovias quase não existem, a elite, alta burguesia e a classe média têm helicópteros e carros, quem anda de transporte público? A esta pergunta até os meus sobrinhos de 6 anos respondem. Triste realidade esta.

E se houve coisas que gostei realmente em São Paulo, como a arquitectura, as muitas livrarias, os preços dos livros e dos CD’s, a boa comida, as frutas, os sucos, o clima primaveril do inverno paulista, o Parque Ibirapuera... Não me consigo acostumar com os prédios cercados de grades, às vezes duplas, e com arame farpado electrificado...  Um mundo onde ricos e pobres não se misturam, um mundo em que a identidade é a miscigenação e as pessoas têm falta desse orgulho, há com certeza muito a fazer. E a primeira delas é os brasileiros aprenderem a ter orgulho na sua identidade.

Tenho o maior respeito pelo Brasil e sempre tive admiração e algumas das suas cidades foram algumas das que sempre quis conhecer em todo o mundo. Cresci e vivi  com os livros de Machado de Assis, Clarice Lispector, Jorge Amado, Vinícius, João Cabral, Manuel Bandeira, Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Ferreira Gullar, Caio Fernando de Abreu, Eucanaã Ferraz. Só oiço música dos brasileiros João Gilberto, Tom, Vinícius, Caetano, Maria Bethânia, Gal Costa, Marisa Monte, Adriana Calcanhotto. Os grandes arquitectos que deixaram marcas na cidade como Lina Bo Bardi (SESC Pompeia, MASP), Paulo Mendes da Rocha (Museu Brasileiro de Escultura, reforma da Pinacoteca do Estado de São Paulo, reforma da Estação da Luz e Museu da Língua Portuguesa),  e Oscar Niemeyer (Parque Ibirapuera, Edifício Copan, Memorial da América Latina). A pintora Tarsila do Amaral, Cândido Portinari...  e chegar a São Paulo e ver esta realidade foi como uma bofetada na cara. Como se o Brasil que me foi dado a conhecer nos livros não existisse (mais) e fosse (apenas) ficção.

Confesso que fiquei até admirada que numa cidade em que as diferenças de classe são tão gritantes e tão fenotipicamente visíveis, a violência não seja (ainda) maior. Como explicar que alguém que vem do Nordeste está fadado à sua sina de excluído da sociedade, pobre, nordestino e que nunca  ascenderá socialmente? São Paulo parece ainda feudal e socialmente parece não ter saído do tempo do colonialismo.

Que cidade é esta?


terça-feira, 7 de julho de 2015

Terceiro e último dia em São Paulo

Depois das caipirinhas e dos chopes resolvemos ir para o hotel sem ir para a verdadeira balada. Combinamos ir de manhã ao centro de São Paulo que incluiria a catedral e comer uma sandes de mortadela. Acordo, como sempre às 6:30, sem despertador. Acordo de ressaca. A cabeça doi-me e vejo que bebi todas as águas minerais que tinha no quarto. Volto para a cama mas percebo que não consigo voltar a dormir. Daí a pouco tenho o L. a bater-me à porta. Doi-lhe a cabeça mas pelo menos não está enjoado. Depois do banho descemos para o pequeno-almoço. Esqueço-me dos óculos de sol para ofuscar a claridade. E devo ter escrito na testa “ressaca” porque toda a gente me olha. Desta vez não consigo comer mais nada a não ser frutas e mesmo estas são comidas a custo. O suco é de ananás e o café é sem leite. Como só temos tranfer para o aeroporto às 12:30 resolvemos ir ao Parque Ibirapuera, o grande parque urbano de São Paulo idealizado por Oscar Niemeyer e Burle Marx. Subimos para o quarto e tenho cinco minutos para fazer a mala. Atiro tudo. Sem ordem e sem arrumação. As dezenas de livros que comprei, felizmente, cabem todos na mala (quase) vazia que levei.




Chamamos um táxi à entrada do hotel. O taxista tem uns óculos Ray Ban na cabeça e é o mais falador que encontramos nestes dias. No caminho vai servindo de guia turístico. Passamos por uma ponte, que pelos vistos é um viaduto, que deveria ter sido concluído para a Copa mas agora a sua conclusão será (na melhor das hipóteses) em 2018. Por conta disto, conta-nos a história do engenheiro desta obra que foi morto (juntamente com a mulher) pela filha à paulada para ficar com a herança. E a filha não tinha mais do que 18 anos.  Depois disto refere um outro crime, o de uma mulher que matou o marido de origem japonesa e que o desmembrou. Ela que era uma ex-prostituta e que após descobrir que o marido, mesmo depois de casado, continuava com o mesmo vício matou-o. E destas histórias falou-nos das presões brasileiras e de como se as pessoas que assumissem relações dentro das cadeias tinham outras regalias. E aí introduziu-nos na gíria brasileira de viados e sapatões. Fala-nos que ali havia uma favela que foi destruída mas ainda sobram alguns vestígios. Aquilo que se vê na tv e que é o estereótipo: mulheres com filhos no colo nos caminhos ou à entrada das portas e rapazes de chinelo no pé, calção e boné de basket e manga cavada. Fala-nos muito mal do Lula e de como ele mesmo com cancer não morre “Quando toda a gente quer que ele morra”. Eu que achava que o PT era o partido dos trabalhadores e dos desfavorecidos parece-me que tenho à frente um militante do PSDB mesmo sem nunca o ter referido abertamente. Passámos por uma das avenidas que atravessa São paulo, junto do aeroporto de Congonhas. O monumento das vítimas do avião que se despenhou vindo de Campinas e que teve mais de 200 vítimas fica do nosso lado esquerdo. Aqui, ele diz-nos que é bisneto de um português de Almeirim.  Numa manhã de sábado sem trânsito, chegamos ao Parque Ibirapuera, depois de acharmos que ele foi dar uma volta maior do que a que seria necessária. Mas pelo menos contou-nos histórias, foi simpático e conhecemos as estradas de São Paulo.
Chegados ao Parque Ibirapera percebemos o tamanho gigantesco. Tem a bienal, o Museu de Arte Moderna, imensa gente e um lago (o único que vimos). As pistas de bicicletas e de corrida estão inundadas de gente. Existem barracas que vendem cocos. Não perco a oportunidade. Nunca provei e lembro-me dos milagres e dos benefícios que a água de coco terá para a ressaca. Peço um coco e perguntam-me se quero na garrafa ou o coco. Claro que quero o coco, de preferência levá-lo comigo para Portugal. Dizem-me que não, que não posso sair dali com o coco e até me apontam para umas cadeirinhas. Tudo em nome de questões ambientais! O coco não o posso levar comigo mas as garrafas de plástico, que é o maior veneno da humanidade, estão ali à disposição de quem quiser poluir. Mas o coco não. O coco, para meu desgosto, terá que ficar. Agora lembro-me que vi escrito que um coco custava 4 reais mas para mim disseram-me que eram 5... Só me lembro disto agora. Teria dado 5 mesmo que me tivessem cobrado 4... e percebo a maravilha de se ser turista em qualquer parte do mundo. Muita gente corre, muita gente caminha. Bicicletas. Carrinhos de bebé. Skates. Muitos noivos tiram fotos. Vemos uma festa de Doentes de Pompe. Nem de propósito. Uma menina tem um cartaz escrito “free hugs”. Quando falamos com ela responde-nos em inglês apesar de falarmos com ela em português. Continuamos até ao lago gigante. De um lado avista-se os prédios enormes de São Paulo ao fundo e do outro a fauna e a flora brasileira. Os trópicos no seu melhor. O tempo não dá para mais e voltamos para encontrar um táxi.







Pela janela do táxi despedimo-nos de São Paulo. As últimas ruas. Cruzamos com ruas com o nome Portugal, California... O dia está lindo. O taxista parece um saxofonista ou um pastor americano. Está de fato e gravata e chapéu. Tem um perfume tão forte que misturado com a minha ressaca faz-me querer (ainda mais) vomitar. No regresso para Guarulhos percebemos que existem pessoas a morar por baixo dos viadutos. Vemos algumas favelas e vejo novamente o Rio Pinheiros que parece um esgoto a céu aberto. Tem cor de petróleo e não tem corrente. Parece um rio morto. Uma cidade que não cuida da sua natureza e do ambiente, não pode querer ser uma cidade evoluída.

sábado, 27 de junho de 2015

Primeiro dia em São Paulo

Depois de uma noite bem dormida, de ter ido dormir já passava da uma da manhã, acordei sem despertador às seis e meia. Deve ser a influência dos trópicos! Queria que fosse sempre assim! Eu e o L. tínhamos estado a preparar a apresentação durante o voo e quando chegamos ao hotel. Às 7:30 já estávamos a tomar o pequeno-almoço. Começa aqui a saga: "Por favor, onde vai ser servido o pequeno-almoço?". Resposta surpresa com uma pergunta:  "oi?". "Senhores, não entendo". Já a pensar em brasileiro, "cai-me a ficha" e respondo: "Café da manhã, desculpe". O nosso português é mesmo uma língua estrangeira. Ninguém entende nada. Mas começamos a usar o nosso treinado sotaque carioca e a partir daqui é tudo uma maravilha. Os funcionários do hotel são extremamente educados, prestáveis e simpáticos mas a cortesia e o tratamento formal excessivo fazem lembrar-me uma época que felizmente não vivi. Acho que as diferenças sociais extremas aqui podem ser comparáveis ao Portugal esquecido e ostracizado (parafraseando a rábula do Herman) antes da revolução. Os funcionários dirigem-se aos hóspedes pela hierarquia. Alguns não devem estar autorizados a falar porque reagem com muita surpresa quando os cumprimentamos. Tudo aqui tem uma hierarquia. Ou seja, as pessoas não são de facto tratadas de forma igual. Começo a perceber o ridículo das cenas comuns em NY das mulheres brasileiras da alta sociedade serem acompanhadas por uma babysitter fardada de branco atrás a empurrar o carrinho e a "peruas" à frente com a mala Berkin.

O pequeno-almoço é sumptuoso. Tanta escolha faz-me não saber escolher. Seguindo os conselhos que me deram provo as frutas e os sucos. Em Roma sê romano e aqui estou eu num país tropical a trocar o meu habitual pão com manteiga pelas frutas. Os sucos são mesmo naturais de fruta espremida: melancia, ananás, laranja.... As frutas variam do maracujá gigante, papaia, figos, e frutas que nunca vi na vida. Adorei a goiabada!

Após o pequeno-almoço, hora de reunir as tropas no quarto do L. Como o quarto é maior que a minha casa dividimo-nos pelos sofás e cadeiras. Ultimar a derradeira apresentação. Às 11 entramos numa sala de reuniões à americana. Blocos e lápis do hotel. Uma mesa de apoio com garrafas de água, copos, chávenas, café, leite, chá e muffins. A mesa é redonda. Somos quatro portugueses (todos médicos menos eu), o responsável da empresa em Espanha, o responsável do Brasil, um suíço e o chefão dos Estados Unidos ( que por acaso é britânico, e gosta do Manchester United, mas estudou no Canadá). A O. apresenta-nos e faz uma pequena introdução. Imediatamente elogiam-lhe o inglês. E eu lembro-me imediatamente do ditado "em terra de cegos quem tem um olho é rei". A apresentação foi espectacular. Correu muito bem. Fizeram algumas perguntas que antecipamos e causamos uma excelente impressão. Os dados estão lançados. O que nos trouxe aqui está feito. 

Após o almoço, palestras a tarde toda. O que vemos confirma as nossas piores expectativas. As palestras são em português ou espanhol. Só são em inglês no caso de oradores que não falem português e espanhol. E o mais incrível? Há tradução simultânea. O mundo está perdido. As palestras são de um amadorismo gritante. Nada é novo. Parece que estou a assistir a aulas do secundário. O nível é básico mesmo. 

Antes do jantar ainda há tempo para ir a um shopping para comprar os meus tão ambicionados livros. Escolhemos o shopping Market Place que fica a 5 minutos a pé do hotel. Mas como tememos pela nossa vida optamos pelo táxi que no trânsito demora 10 minutos. Foi uma aventura. A taxista era uma mulher. Nunca vi tão pouca simpatia numa pessoa. A mulher estava com umas trombas que metiam medo! O L. ia ao lado dela e eu, O. e M. atrás. Os táxis, assim como a maioria dos carros no trânsito, são Fiat. O táxi é um Fiat Idea. Apesar de ter tv onde só se vê mortes e detenções, a taxista não activa o taxímetro. A condução da mulher é digna de um filme. A O. que ia no meio teve que se agarrar às nossas pernas. As travagens e os arranques e os barulhos da caixa de mudanças eram de rir. Escolhemos o táxi para não morrer de uma bala perdida mas bater com o táxi era uma ideia que nos perturbava. Felizmente, o trânsito era muito mas os arranques e as travagens eram medonhos. Finalmente chegamos ao shopping e a mulher chuta: 20 reais. Não achei nada caro mas verificaríamos depois o quão roubados fomos. 

Entramos no shopping e fomos directos à livraria Cultura. Como o tempo era escasso, já que tínhamos que estar no hotel às 8, decidi dar a lista dos livros em vez de os procurar. Não havia mais de metade dos livros que queria. Os DVDs nenhuns. Fomos rapidamente à loja Americanas. Não vale mesmo a pena. Parece a loja dos chineses com preços mais caros!

Ao voltar para o hotel percebemos o quanto fomos roubados pela primeira taxista que nos cobrou 20 reais e este 8... Está tudo dito. Esta amostragem de taxistas foi esclarecedora: mudos, antipáticos, rudes e têm a tv ligada em canais que só passam desgraças.

Hora de jantar. Oito da noite. Reparo à entrada do restaurante do hotel que existem pelo menos duas pessoas que nos abrem a porta, cumprimentam-nos e dizem "cuidado com o degrau". Isto repetir-se á até ao último dia. Buffet internacional. Com a esperança de que haja comida brasileira só encontro um tipo de empadão com carne seca. O resto é o que se come pelo mundo todo. A minha perdição continua a ser a goiabada com queijo de minas. Na hora de beber vem um senhor com uma bandeja e vejo que o L. tem um copo do que parece ser sumo de maçã mas ele não está na mesa. Então peço: "sumo de maçã" e respondem-me mais uma vez "Oi?". Começo a pensar como posso pronunciar da melhor maneira "maçã" à maneira brasileira... Mas começo a achar que a forma como eu pronuncio "maçã" é igual à dos brasileiros... Então começo a repetir, quase a lotetrar "maçã"... e a resposta foi "ah, maçã!, não temos!". Acabei por perceber, mais tarde, que o que o L. estava a beber era guaraná.

Fui dormir cedo porque era realmente cedo mas o meu corpo sentia como se tivesse corrido todo o dia. Deixei a tv ligada, como barulho de fundo. Quase não se ouve falar da Grécia. De facto, esse país, lá longe, do o lado do mundo que foi o berço da civilização e da democracia continua, como sempre esteve, bem longe. E o assunto principal das tvs brasileiras é a morte de um cantor de música de qualidade duvidosa cujos versos de uma das suas canções é "Bara bara bara bere bere bere". E assim vai o mundo.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

A primeira impressão de São Paulo

Sempre quis conhecer o Brasil. Há muitos anos, pelos livros de Jorge Amado, uma cidade de Salvador da Bahia que já não deve existir. Mas os cheiros descritos nos livros dele, as paisagens, o calor, a humanidade dos personagens, a realidade, tudo me fazia querer conhecer essa cidade. O Lobo Antunes dizia que o Jorge Amado era muito melhor pessoa do que escritor. Como eu não conheci a pessoa só o posso avaliar como escritor. Pode não ser isso que a maioria e os cânones acham mas eu adoro-o. Acho que é o Hemingway da América Latina. Há anos que adio a viagem à cidade que eu mais quero conhecer: Rio de Janeiro.

Ontem, depois de dez horas de viagem e pela primeira vez ter dormido num avião, cheguei fresca como uma alface a São Paulo. Chegamos depois das 9 da noite. Sem filas e com a mala a chegar rapidamente. A primeira impressão do aeroporto foi a melhor. Um aeroporto de um país de primeiro mundo. Ao passar a alfândega entramos numa gigantesca loja que faz- nos lembrar o piso térreo da Macy's. Luzes, muitas luzes, perfumes, marcas, maquilhagem e muitas pessoas a dizerem-nós que podemos guardar as malas para ir às compras. Pois, sim! Mal saímos temos uma senhora com um cartaz "COLATEL". Depois aparece outra. Verifico em poucos minutos que muitas mulheres não caucasianas têm cabelos loiros oxigenados. Parecem a Nicky Minaj. Saímos do aeroporto e esperamos pela van que nos levaria ao hotel. Surpreendentemente, o caminho do aeroporto para o hotel é-nos familiar. Nada feio, favelas, estradas em más condições nem trânsito infernal. A surpresa é no número de vias na autoestrada. Em alguns trajectos tem duas em cada faixa, o máximo que vamos ver são cinco. Depois a surpresa de ver o número de camiões. Imensos. E depois o rio Pinheiros que nos acompanha do lado esquerdo. Sujo, feio, escuro. Não parece um rio, parece um canal. Um esgoto a céu aberto. E o mau cheiro acompanha o rio. Quando chegamos a Berrini/ Itaim/ Morumbi os prédios são bonitos, altos, muito altos, modernos, luminosos e com uma arquitectura bonita. Mas as paragens de autocarro e de comboio que se cruzam são assustadoras. Percebo que não há ninguém a andar a pé depois das 10 da noite. Os prédios são rodeados de altos gradeamentos e têm arame farpado. Chegamos ao hotel e o número de seguranças à entrada e de concierge é ridículo. Somos menos do que eles! Tudo é em número surpreendente. No balcão da recepção são uns dez. O hotel tem umas escadas rolantes que parece um shopping. Como sou a única que tenho duas malas (quase vazias para regressarem cheias de livros) um dos concierge acompanha-me. Espera pacientemente por mim enquanto faço o check in, entregar-me o livro que a Marina Lima teve a amabilidade de enviar, e faço todas as perguntas. Quando finalmente termino acompanha-me ao quarto e pergunta-nos como correu a viagem. Eu só penso na gorjeta que terei que lhe dar mas não tenho reais e tenho a esperança de ter cinco euros na carteira. Chegados ao quarto coloca a mala num banco que vai buscar propositadamente para aquilo. Mostra-me o quarto que tem vários compartimentos. E eu penso que é maior que a minha casa. Abro a carteira e percebo que a nota mais baixa é de 10 euros. Entre a vergonha de dizer-lhe que não tenho reais e não lhe dar nada, estendo-lhe os 10 euros. O senhor ficou radiante e até me disse: " pode me pedir tudo, menos dinheiro". E eu aproveito: "Então, isto é tão perigoso como dizem?". E ele: "Se forem os quatro durante o dia ali ao Shopping Morumbi não há problema. Mas só de dia. E se fizerem compras regressam de táxi". Pronto, percebi! Todos no hotel são de uma amabilidade que não vi em muitos lugares do mundo. Muito agradavelmente surpreendida. To be continued.



quarta-feira, 24 de junho de 2015

A classe executiva

24 de Junho. Feriado em Braga e no Porto. Dia 1 de Portugal, em Guimarães. Voo Porto-Lisboa em executiva. Nada diferente das outras vezes a não ser a água servida num copo de vidro e os muitos jornais e revistas que nos são oferecidos. Em Lisboa temos apenas tempo para mudar de avião e pouco mais. Não sei se fui eu que nunca reparei ou se é sempre assim mas existia fila para a classe executiva, apenas com menos pessoas. Já no avião, sentados, reparamos que somos os únicos portugueses. A classe executiva tem 24 lugares e estão todos ocupados. A média de idades deve ser acima dos 50. Com excepção de nós (os 4 portugueses) e os dois casais de recém casados à frente e ao nosso lado. O casal da frente são os típicos patricinhos. Devem pertencer à alta sociedade paulistana. Casados de fresco. Caucasianos, ricos, cabelos claros, mala Berkin. Devem morar num bairro fino e fazer compras na Oscar Freire. Os do lado esquerdo também parecem regressados de lua-de-mel. Mas o nível é diferente. Provavelmente não vivem em São Paulo mas parecem filhos de algum prefeito de uma cidade do interior. Mal chegaram ao avião andaram o tempo todo descalços e sem meias. Ele tem um bigodinho que já passou de moda é um boné a fazer lembrar um rapper americano. Ela é a típica brasileira. A mostrar mais do que o que devia. As restantes pessoas são homens de negócios e casais mais velhos regressados de férias na Europa. A maioria das mulheres fez cirurgias plásticas.


Já tinha a TAP em muito boa conta desde que me mudei para NY. Não conheço a executiva das outras companhias. Em 36 anos é a primeira vez que viajo nesta classe. Nada a apontar, como esperava. As hospedeiras são simpáticas e profissionais. O serviço é irrepreensível. Mal nos sentamos, eu e o L., desatamos a experimentar os botões da cadeira que faz as acrobacias todas de uma cadeira de dentista. Podemos ficar sentados muito altos, quase à altura do tecto até à posição horizontal de cama. Temos uma almofada com fronha de pano e um edredão azul. Depois, distribuem-nos uma caixa de toilette. São quase 4 da tarde, uma hora depois do voo levantar, e começam  a servir o almoço. Primeiro, distribuem uma toalha molhada quente. Segue-se o menu num livrinho. As boas vindas com espumante ou água ou sumo de laranja (estilo vernissage) Não é uma refeição é um banquete. Temos direito a toalha de mesa e guardanapo de pano. Para começar espargo enrolado em pastrami, espetada de camarão com tomate cheiro e avelãs torradas. Uma sopa de cogumelos, saladas que podiam incluir pato, salmão ou fruta. Quatro pratos quentes à escolha que eram: vitela, frango, polvo ou massa. As bebidas são ao estilo bar aberto: tudo o que se quiser (menos dinheiro, como a piada). Os vinhos são Dona Maria e churchill's. Reparo que uma senhora acompanha a refeição com vinho do Porto! Conto-lhe pelo menos três! E invejo-lhe a resistência para a idade que tem. A noiva à minha frente acompanha a refeição com whisky. O marido não bebe álcool. O assistente de bordo até brinca com ela que não tarda e está a cantar o fado! E as piadas não se ficam por aqui... Ainda diz ao marido que para um cair o outro tem que segurar. As sobremesas são várias  e podemos optar por fruta laminada, pastel de nata, arroz doce ou queijo com doce de abóbora.  Para além do que comi bebi 2 copos de Dona Maria e um Porto a acompanhar a sobremesa. Pela primeira vez, desde que ando de avião dormi. Não sei se foi pelas bebidas ou pelo conforto de ter uma cama. A única coisa que tenho a apontar é a disponibilidade de filmes. Ao contrário de outros aviões da TAP, mesmo em económica que se pode escolher filmes de uma lista enorme, neste voo os filmes eram poucos e não grande coisa. Mas quando tudo é excelente, um pormenor destes não conta para nada. Como habitualmente, em todos os voos de longo curso, há a regra de fingir-se noite quando é dia. Como dormi, desta vez não custou tanto. E foram 10 horas! Ainda durante a fingida noite, o L. conversou com um assistente de bordo e perguntou-lhe: "O que é que São Paulo tem de bom para se ver?". E ela: "Nada! Nesta cidade é tudo feio! A única coisa que esta cidade tem de bom são os restaurantes".










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