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segunda-feira, 30 de julho de 2018

Caetano em Roma

Na verdade eu fui a Roma para ver Caetano. Disseram-me que não tenho independência para julgar livremente a qualidade dos concertos de Caetano porque para mim ele é um Deus. Não desminto. Provavelmente ele até poderia só gritar, como vi um dia Yoko Ono fazer em NY e que alguns acharam aquilo arte, e eu acharia magnífico. Mas quando leio de algumas pessoas que considero que Caetano é um milagre e que sempre se surpreendem a cada concerto, não me parece que seja apenas “endeusamento”. E devo a Caetano muito do que aprendi sobre os mais variados assuntos. Todos os concertos que vi de Caetano foram no Coliseu de Lisboa. Todos eles foram especiais. Com banda, sem banda, sozinho ou em dueto. A relação com o público foi sempre cúmplice. Mas em Roma foi mesmo especial.

Antes do concerto leio que morreu Hélio Eichbauer, o cenógrafo responsável por muitos dos cenários de Caetano, incluíndo este. Para além deste facto, Moreno foi enteado de Hélio, com quem Dedé Gadelha (mãe de Moreno) fora casada durante 30 anos. Moreno, depois de Caetano falar da perda de Hélio, com a voz embargada acrescentou: "Dedicamos este show a ele". Ninguém á minha volta era brasileiro ou português mas conheciam profundamente o trabalho de Caetano. Durante o concerto muitos deles balançaram o pé, bateram muitas palmas, acompanharam o ritmo, tentavam acompanhar as canções. Percebi que Caetano não é um desconhecido em Roma. E gentilíssimo dirigiu-se sempre ao público em italiano. Não quis ouvir “Ofertório” para tudo ser surpresa.  Passavam 9 minutos da hora marcada e Caetano, juntamente com os (seus) meninos, entrou no palco. “Todo o homem” foi para mim a grande surpresa e a música da noite. Zeca Veloso, que Caetano disse que nunca quisera fazer musica, escreveu esta canção tão comovente com voz em falsete, cujo verso "todo o homem precisa de uma mãe” ficou no ouvido. A palavra que resume este concerto é intimidade. Os quatro não parecem estar em frente a uma plateia de milhares de pessoas mas em casa a cantar para uns amigos. Outra das surpresas é uma espécie de rap/funk, no qual todos participam com o piano, com a voz fazendo a batida, a contagem crescente até 12 de Caetano e a dança de pés descalços de Tom. A música que dá o nome ao concerto foi escrita para Dona Canô como se fosse ela a narradora. Na introduçao a esta música, Caetano explica que não é religioso mas que todos os seus filhos são. Os dois mais novos sao cristãos e Moreno é um curioso pelas religioes orientais e afro-brasileiras. Moreno acrescenta:“sou macumbeiro”. A outra que me ficou na memória foi a filosófica da autoria de Moreno “How beautiful could a being be" onde mostrou como sambar bem com ginga e rebolado e levou também Caetano para a frente do palco para uma dança ensaiada. Vozes e instrumentos numa sintonia perfeita. Não faltaram as mais conhecidas "Força estranha”, “Reconvexo” e“Leãozinho”. No primeiro encore, já com o público da plateia todo em pé e encostado ao palco, cantaram a minha preferida “Deusa do amor”. Voltariam mais duas vezes, mesmo depois das luzes acesas e terminaram com “A luz de Tieta”.

Caetano, nesta noite tropical, no anfiteatro ao ar livre de Renzo Piano que não chegou a encher, rodeado das pedras aquecidas pelo sol de Roma entrou em fusão com o público. A noite em que Caetano foi “a chuva que lançou a areia do Saara sobre os automóveis de Roma”.

Aprendi que ninguém no seu perfeito juízo deve esperar o verão para ir a Roma. Mas depois de aqui estar como dizer que não a uma cidade  que chama por nós?

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terça-feira, 27 de setembro de 2016

Caetano Veloso e António Cicero à conversa com Inês Pedrosa no FIC

Cascais, nove de Setembro de dois mil e dezasseis

À horinha, ao contrário de muitos acontecimentos em Portugal, os convidados estão todos na sala que está cheia. As três primeiras filas estão reservadas a convidados: políticos, escritores, editores, produtores, amigos, intelectuais: Ministro da Cultura, Presidente da Câmara de Cascais, Paula Lavigne, Lucinha Araújo (mãe de Cazuza), Teresa Cristina, Inês Mota, Jorge Reis Sá, Marcelo Pies, Pedro Corrêa do Lago, Pilar Homem de Mel, David Ferreira (filho de David Mourão-Ferreira), Leonor Xavier, Maria João Lopo de Carvalho (e até Lili Caneças que não se senta nos lugares da frente). Estes e o resto do público são tudo gente que lê livros. Há quem fique em pé.

Inês Pedrosa conhece bem estes dois pensadores do Brasil. Para além de excelente moderadora, é uma contadora de boas histórias e percebe-se a intimidade que tem com eles. Nota-se o quão bem se preparou para esta conversa e confessa ter lido novamente “Verdade Tropical” para esta ocasião. António Cícero é um filósofo de profissão, poeta e escritor de letras de música (para os conservadores que consideram letra de música menor do que poema). Caetano Veloso procurou ser filósofo, estudou Filosofia mas abandonou a carreira cedo. Quis ser pintor e cineasta.  Fez um filme, dizem que muito interessante, chamado “Cinema falado. É cantor, compositor, escritor (“Verdade Tropical” e muitas cronicas escritas ao longo dos anos), pai e avô. Caetano e Cícero têm uma amizade longuíssima, já descrita na sua autobiografia e uma relação pessoal e intelectual muito forte.  Estiveram juntos em 2009, na Casa fernando Pessoa, para falarem na influência da “Mensagem”. Inês Pedrosa contou que Fernando Pessoa se candidatou a um lugar de bibliotecário na Câmara de Cascais, na Biblioteca Castro Guimarães e foi rejeitado. Ficou em segundo lugar porque em primeiro ficou um senhor de Cascais. Esta história arrancou gargalhadas do público presente.

Inês Pedrosa falou também no acaso ou coincidência de há precisamente 10 anos atrás, neste dia, o Prémio Camões ter sido entregue na Fundação Biblioteca Nacional pelo então Ministro da Cultura brasileiro, Gilberto Gil à escritora portuguesa Agustina Bessa Luís.

Inês Pedrosa faz uma provocação: “Para que é que Caetano fala tanto se ele o que sabe é cantar?. Fala de “Verdade Tropical” essa autobiografia de Caetano Veloso que é muito mais do que uma biografia mas uma reflexão sobre o Brasil, relação da música com as outras artes, e o estado da política brasileira na época. É também uma reflexão profunda sobre o que é o Brasil, os caminhos que o Brasil seguiu. Um livro fascinante com o qual se aprende muito. Nas últimas férias li-o pela quarta vez. É um livro a que sempre volto. É um livro obrigatório para quem quer conhecer a história da música brasileira. Para além disso, faz observações muito pertinestes e elogiosas sobre António Cícero, que Caetano considera um dos maiores filósofos brasileiros. Falou-se também sobre Mário de Andrade e Oswald de Andrade.

Quem também não foi esquecido foi Agostinho da Silva. Caetano contou que o Professor foi para a Universidade da Bahia para criar o instituto de estudos afro-orientais. E que o Reitor criou a cadeira de Filosofia do teatro para que o Professor para leccionar na Escola de Teatro. Caetano referiu, também, que o Professor tinha uma amor profundo por Portugal e pelos portugueses (“o povo que criou o globo terrestre”). E que o Brasil é uma espécie de aberração. Um país de dimensões continentais, na América, no hemisfério sul. E que Portugal é um país pequenino territorialmente e que aprendeu a tornar-se pequenino politicamente ao longo dos séculos. E Caetano afirmou que o Professor Agostinho ambicionado ambicionava resolver essa charada. Descreveu também o encontro com o Professor Agostinho em Lisboa. Caetano estava exilado em Londres e veio fazer uma apresentação a Lisboa: “Roberto Pinho que era meu amigo e tinha sido discípulo directo do Professor Agostinho falava-me muito dele”. Marcaram no hall do hotel e conversaram, não por muito tempo. “Eu fiquei um pouco intimidado. Não tinha muito o que dizer. Ouvi algumas coisas, falei muito poucas coisas e me senti meio vago. Ele se despediu, alegre, e se foi. E depois escreveu para Roberto Pinho, e digo isso sem falsa modéstia porque aconteceu assim, mais para que se saiba sobre o Professor Agostinho do que sobre mim. E escreveu simplesmente: Gostei do seu amigo. Pensa bem, fala bem. Age bem. Eu não tinha feito nada. Esta é toda a minha história sobre o Sebastianismo”.

Falou-se também de Eduardo Lourenço (“Do Brasil: fascínio e miragem) e Leonor Xavier (“Portugueses do Brasil e brasileiros de Portugal). Outra das histórias contadas `foi sobre quando os escritores portugueses são convidados para palestras em universidades americanas e estão 200 alunos americanos na plateia: “Quando estamos com o ego a começar a subir perguntamos qual a razão de quererem aprender língua e literatura” e respondem-nos: “Queremos ir ao Brasil porque gostamos de música brasileira.

José Bonifácio foi o nome que Caetano quis falar desde o início. Português, estudou na Universidade Coimbra Direito e Filosofia. Viveu em Portugal e teve uma vida intelectual de alto nível na Europa do séc. XIX. Ficou conhecido como mineralogista e descobriu o elemento químico lítio. É conhecido como “Patriarca da Independência” pois foi um importante ministro com muitos poderes de D. Pedro I, Imperador do Brasil (D. Pedro IV, em Portugal). Fez um plano para o Brasil que concebeu à luz dos seus conhecimentos mineralogistas, “amálgama”. A proposta dele era a seguinte: (i) abolir a escravatura (acabar com o horror da escravidão) e (ii) passar a considerar aqueles que haviam sido brutalizados pela escravidão, os negros, como irmãos e co-cidadãos e o mesmo com os índios. Seria o maior etnocídio se o plano de José Bonifácio tivesse sido colocado em prática. Era seu objectivo criar uma nação nova: amálgama racial e cultural. E criação de uma nova raça: mestiços. Um verdadeiro visionário no séc XIX com a ideia de multiculturalismo.

Inês Pedrosa falou de uma das suas noites mais comoventes da sua vida, no Porto, onde foi assistir a um espectáculo do Caetano. Nessa noite um dos filhos de Caetano foi encontrar-se com ele e Caetano, no fim do espectáculo, quis mostrar a cidade do Porto ao filho. Contou que andaram de carro pelas ruas e pontes do Porto e que Caetano começou a explicar o liberalismo, os ingleses, o vinho e que parecia saber mais e melhor tudo do que ela. Estava a explicar como se a cidade fosse dele e que lhe pertencesse. E quando Caetano foi convidado a comentar disse simplesmente: “Era o Zeca, o meu segundo filho, primeiro filho dela (apontando para Paula Lavigne na plateia). Quis mostrar-lhe o Porto. O que eu sabia eu queria dizer a  ele. Ele é o Zeca...”.

No final, ainda deu tempo para falar da situação política do Brasil. António Cícero falou do poder judiciário do Brasil. Da impossibilidade que existia há uns anos de alguém poderoso ser preso e que as coisas estão a mudar. Que isso é um enorme progresso. Pessoas importantes que são julgadas e presas. Caetano, desta vez, não pronunciou nenhum “FORA TEMER”. Mas referiu que se lhe tivessem dito há uns anos atrás que o Fernando Henrique Cardoso ia ser o primeiro Presidente democrático do Brasil e que a seguir ia ser Lula: “Eu iria dizer que era um sonho”. E foi possível”.
Ainda houve tempo para a piada sobre o que é que a água de Santo Amaro tinha por ser onde Caetano e Bethânia nasceram. Caetano, respondeu, rindo que “Santo Amaro tem uma das água mais poluídas por chumbo do mundo”.

Inês Pedrosa queria que Caetano lesse qualquer coisa mas ele disse “Eu não sei ler”. E Cícero terminou com o seu “Guardar”.









sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Caetano apresenta Cristina

6 de Setembro. São quase 9 da noite. A temperatura na rua ultrapassa os 30 graus. Dizem ser o dia mais quente do ano. O Coliseu está praticamente vazio. O calor é mais que muito. E eu adoro calor. Só se fosse para ter o efeito da música: “Calor que provoca arrepio/ Toma esta canção/ Como um beijo”. O Coliseu demora a encher. Perto da hora do concerto começar, a lotação não estava a metade. A conhecida pontualidade dos portugueses. A temperatura subia exponencialmente, quase infernal. Pensei ser para o ar condicionado não afectar as vozes. Antes de começar o concerto eu já tinha bebido duas garrafas de água com gelo, compradas no bar. Cheguei, também, a pensar que esse seria o objectivo. O lucro extra com a venda de bebidas. O concerto começou 30 minutos depois da hora marcada. Este que foi o concerto extra. Sendo a primeiro dos dois. Quase esgotado.

As cortinas abriram e Caetano surge sozinho: "Este espectáculo se resume a uma cantora, um violonista é um compositor. Mas diz tudo sobre a extensão e a profundidade do samba. E por isso eu quero chamar ao palco Carlinhos 7 cordas e Teresa Cristina". Teresa Cristina é uma cantora praticamente desconhecida aqui e eu só a conheço por cantar uma música da Adriana Calcanhotto Beijo sem Aquele samba que fala de uma saída à noite para afogar as mágoas da "dor de corno": "vou á Lapa, decotada, viro todas, beijo bem...". Desta vez, Teresa Cristina vem cantar Cartola. Não posso dizer que adorei. Mas a simpatia, sinceridade, emoção e generosidade dela foram marcantes. Falou do sonho que tinha desde a infância de cantar em Portugal e que por isso era "um sonho com laço rosa". Disse também que o Coliseu foi o sítio mais lindo onde cantou. E os elogios não ficaram por aqui. "Tudo aqui é lindo, a rua, a padaria, a farmácia". E a emoção que é cantar falar numa língua que os outros entendem. Um discurso emocionante e emocionado que incluiu lágrimas. E ela própria sofreu com o calor quando aceitou a oferta e de um leque de uma senhora da primeira fila. 

Copyright: Catarina Henriques
Copyright: Catarina Henriques
Caetano entra e o figurino resume-se a um banco e um violão. Ele, que vem formal, de "paletó" castanho alaranjado, camisa, umas calças chinos e sapatos pretos de atacadores. O concerto dele começou com Um índio, uma canção arrebatadora para lá de linda:

"Um índio preservado em pleno corpo físico
Em todo sólido, todo gás, todo líquido
Em átomos, palavras, alma, cor
Em gesto, em cheiro, em sombra, em luz, em som magnífico
(...)
É aquilo que nesse momento se revelará aos povos
Surpreenderá a todos não por ser exótico 
Mas pelo facto de ter estado sempre oculto
Quando terá sido o óbvio

Seguiram-se Os passistas, Menino do Rio, Minha voz minha vida, Meu Bem, Meu Mal, Esse Cara, por desordem alfabética e de alinhamento, ao sabor minha memória. Caetano, um baiano do Recôncavo, mostra que continua a ser um menino do Rio e que no alto dos seus 74 anos, como o vinho do Porto, melhora com o passar dos anos, como a canção: “Eu vi muitos cabelos brancos na fronte do artista/ O tempo não para e no entanto ele nunca envelhece”. Como o Coliseu está mais do que quente, "mais quente do que no Rio", Caetano não resistirá  a tirar o paletó "bonito” (not!). Nesta noite não haverá gritos de "Fora Temer" mas muitas vaias. Introduzirá um samba com: "Recentemente o presidente que era interino até poucos dias atrás no Brasil fez um discurso utilizando mesóclise e a imprensa sacaneou muito porque achou que era uma coisa, sei lá, formal. A mesóclise é uma forma considerada estranha para o coloquial brasileiro mas é bonita. E nesse samba eu faço duas mesóclises: Se desbotássemos, outros revelar-nos-íamos no Carnaval// (...) Amor,/ onde quer que estejamos juntos/ multiplicar-se-ão assuntos de mãos e pés/ e desvãos do ser.”

Copyright: Pedro Gomes
Copyright: Catarina Henriques

Mostrou também que é um poliglota genial e que domina (exemplarmente) no mínimo 3 línguas: Cucurucucu Paloma (do aclamado filme de Almodovar Hable com ella),  London London (uma irmã de Englishman in New York, a mostrar o quão difícil é ser estrangeiro numa grande metrópole: “I know no one here to say hello/ I know they keep the way clear/ Iam lonely in London without fear/ I’m wandering round and round here nowhere to go), Love for sale  (cantada  a capella) e por fim Libertação. Esta última, um fado cantado por Amália sobre um poema de David Mourão-Ferreira e que Caetano disse nunca se sentir preparado para cantá-la em palco. Não foi o que pareceu. O sotaque português beirou a perfeição.

Copyright: Catarina Henriques

Depois não podiam faltar as aclamadas Reconvexo, Leãozinho, Força estranha, Sozinho, talvez as mais aplaudidas e acompanhadas da noite e terminou Luz de Tieta.
Voltou para um primeiro encore, acompanhado: a fabulosa Tigresa (inspirada na Zezé Motta que frequentava a lendária boite Dancing Days que era uma amálgama social: “Me falou que o mal é bom e o bem cruel... Ela me conta, sem certeza, tudo o que viveu/ Que gostava de política em 1966/ E hoje dança no Frenetic Dancing Days /.../ Com alguns homens foi feliz, com outros foi mulher/ Que tem muito ódio no coração, que tem dado muito amor/ E espalhado muito prazer e muita dor...) Miragem de Carnaval, Como 2 e 2 (que é tão linda e que diz: "Meu amor, Tudo em volta está deserto tudo certo, Tudo certo como dois e dois são cinco"), Desde que o samba é samba. E voltou para terminar, de vez, com Odara. já com toda a gente fora dos seus lugares, junto ao palco e de telemóveis em punho. Momentos inesquecíveis, memoráveis, fantásticos. Bom demais!
Copyright: Nuno Ferreira Santos
Copyright: Nuno Ferreira Santos
Copyright: Catarina Henriques
Copyright: Catarina Henriques


segunda-feira, 28 de abril de 2014

Caetano é foda!

Caetano subiu ao palco com apenas 15 minutos de atraso. Cabelo curtíssimo. Camisa branca. Na estreia da tournée europeia, Coliseu cheio para o ouvir. Público ecléctico: muita gente muito nova, adolescentes, gente da minha idade, gente mais velha, gente de todas as idades. Cantou quase todas as canções do Abraçaço. Do alinhamento constaram as mais antigas Coração vagabundo e Eclipse oculto. Parco em palavras mas com gestos de muito carinho e interacção com o público. Perguntou se alguém festejava o aniversário e dedicou  Parabéns (“Tudo mega bom/ giga bom/ tera bom”), “a todos os que não falaram verdade mas principalmente aqueles que falaram verdade”. Desceu duas vezes do palco e o público correu para mais perto. As palavras são desnecessárias quando os gestos, as acções e teatralidade são tudo. Deitou-se no chão e ainda em Homem ousou dizer, o que todos pensam mas têm medo de falar: “Não tenho inveja da adiposidade/nem da menstruação/ só tenho inveja da longevidade/ e dos orgasmos múltiplos”. Caetano mostrou, também, que tem swing e que dança bem. De noite na cama foi quando Caetano desapertou a camisa e ameaçou tirá-la. Um dos momentos mais bonitos da noite, que deixou muita gente com o queixo na mão foi Estou triste: “Eu me sinto vazio e ainda assim farto/Estou triste, tão triste/ E o lugar mais frio do Rio é o meu quarto (...) Por que será que existe o que quer que seja/ O meu lábio não diz/ O meu gesto não faz”. Esta música tão difícil em termos vocais, mostra que a idade para Caetano é apenas um bálsamo. E para os que falam mal da Coca-Cola e dos seus malefícios aqui têm um bom exemplo: Caetano é viciado nesta bebida! De salientar que a idade só o beneficia, está cada vez mais grisalho e charmoso.  Terminou com Reconvexo, a minha preferida. Escrita propositadamente para Maria Bethânia e que cita Andy Warhol e Dona Canô, muito aplaudida nesta parte. No primeiro encore as músicas foram: Nine out of ten, o tão esperado Leãozinho, e Luz de Tieta. As luzes acenderam e muitos sairam mas os mais insistentes e resistentes ficaram e Caetano voltou. De braços abertos repetiu a dose. Já com quase todo o público, o mais próximo possível do palco, Caetano terminou com Força estranha em uníssono. Caetano, aos 71, mostra que antiguidade é posto e que teve Lisboa aos pés.

















domingo, 10 de novembro de 2013

Os Caras por Caetano Veloso

Só entrei em contato com a música do Velvet Underground em Londres. Talvez já em 1970. Embora seja possível que Artur e Maria Helena Guimarães já me tivessem mostrado o disco com Nico, de 1967, que depois Ezequiel Neves vivia pondo pra tocar em nossas vitrolas. Eu gostei imediatamente do tom sombrio e violentamente urbano das canções e dos sons, a voz e a figura de Nico, que eu já conhecia de “La dolce vita”, somando-lhes mistério e encanto. A cara dessa loura de Fellini em meio aos filmes underground de Andy Warhol compunha um ambiente estético fascinante, o que tingia a música da banda de uma qualidade diferente de tudo o que a gente já gostava no mundo do rock de língua inglesa. Lou Reed apareceu para mim ali, no centro dessa aventura criativa tão estranha ao mundo meio rural, meio onírico do rock pós-Beatles.

Lou Reed morreu. Quando penso em quão longe eu estava de poder captar a beleza de sua arte em 1970 (capacidade que se desenvolveu lentamente e exigiu que eu entrasse em contato físico com a cidade de Nova York, o que só veio a acontecer nos anos 1980), fico assombrado com o fato de eu ter vindo a conhecê-lo pessoalmente e de ter havido uma troca de percepções artísticas entre nós. É perdoável que ele viesse a conhecer tão tardiamente um cantor latino-americano, mas é muito menos perdoável que esse mesmo cantor tenha tomado contato com a arte dele com atraso, ainda que muitíssimo menor. Que os dois tenham se encontrado tem algo de maravilhoso. Laurie Anderson veio ao Brasil com um filme, “Home of the brave”, e fui apresentado a ela. Laurie foi assistir ao primeiro show que fiz em Nova York depois disso. Era o “Totalmente demais”, eu só com o violão e falando muito entre as músicas, tão stand-up comedy quanto os antigos shows de Juca Chaves ou Ary Toledo. Muitas pessoas adoravam as canções suaves às cordas de náilon — e, tanto lá quanto aqui, não falta quem diga preferir aquilo a qualquer formação cello-e-percussão ou qualquer banda indie. Laurie me disse que gostou das falas, não deu muita bola para a aparente bossa nova. Quando fui com Jaques Morelenbaum mais Márcio Vítor e cia., ela levou seu marido para assistir. Ao final, Lou e ela chegaram ao apê em que jantaríamos e ele veio me falar do show. Lou é uma figura tão importante na história das pessoas do mundo contemporâneo, tem tal estatura histórica que não ouso contar o que ele me disse. Felizmente Laurie estava ali para rir um pouco e para dizer com gestos que a maluquice era dele, que ela era minha camarada mas que nada além de ter achado graça em minhas falas do show visto anos antes. Mas quando voltamos com formação semelhante, eles estavam lá. E quando fui com a banda Cê, idem. Sendo que neste último caso, já que fazíamos, em “Não me arrependo”, uma menção à linha de baixo de “Walk on the wild side”, a reação feliz dele saiu até no “New York Times”. Uma tarde, o interfone do meu apê em Nova York tocou. Eram Laurie e Lou, que estavam passeando o cachorrinho e passaram para bater papo. Lou contou uma piada, da qual eu não ri muito porque entendo mal inglês falado (minhas falas no “Totalmente demais” davam a impressão de que entendo tudo o que se diga em inglês, mas não): Laurie riu dele e disse que ele estava sempre contando piadas sem graça. Um casal sereno, muito americano, com um cãozinho. Em todas essas ocasiões, conheci o sorriso de Lou, algo que muita gente pensa que nem existe. E num show dele em Valência — em que ele tinha uma cellista e declamava Poe — fui cumprimentá-lo no backstage, e ele estava com um riso escancarado, feliz com a recepção do público. O sorriso de Lou Reed é um tesouro que guardo comigo. Quando Laurie veio com uma grande exposição no CCBB, mandou me chamar e conversamos. Lou não estava muito bem de saúde, ela me disse. Ou foi Arto Lindsay, amigo de ambos, quem interpretou, completando alguma frase vaga dita por ela em tom levemente triste.

No tempo em que eu nada sabia de Lou, Roberto Carlos tinha virado minha cabeça. Antes dos Beatles, aconselhado por Bethânia, dei atenção ao cara. Dali para a frente tudo foi diferente. Mesmo que ele nunca mais queira me ver, continuarei amando quem fez “Fera ferida” e “Esse cara sou eu”. Minhas trombadas nascem de querer quebrar algum esquema cristalizado que me impacienta. Não tenho o direito, acho. Não sou terapeuta dele nem palmatória do mundo. Zuenir estava certo quanto às diferenças de temperamento. Paulinha não gostou do que escrevi sobre o Rei. Mas acho que não tomo jeito, não vou mudar, esse caso não tem solução. Eu tinha feito muito esforço para defender a parte que acho defensável de uma causa que me estranha. Peço perdão.



Caetano Veloso in "O globo"

quinta-feira, 2 de maio de 2013

valter hugo mãe


valter hugo mãe é o escritor que não usa maiúsculas. Conheci-o há muitos anos através da poesia, quando eu própria descobria esse novo encanto. O valter tinha alguns livros de poesia publicados e era nessa altura sócio e editor da saudosa Quasi. Era daquelas editoras que só publicava o que era bom, sobretudo poesia, mesmo que não se vendessem muitos exemplares. Nessa altura eu procurei por todo lado um livro dele que se chama E o resto da minha alegria, uma frase de uma música da Adriana Calcanhotto, Mentiras. Não encontrei o livro em lado nenhum e resolvi perder a vergonha e escrever ao valter a perguntar onde o poderia comprar. Não sei onde me meter quando estou com as pessoas à minha frente, mas por escrito, tenho toda a coragem do mundo. Passados uns dias, mais rápido do que o que poderia esperar, recebo um bilhete lindo do valter e o livro, que nas palavras dele tinha o prazer de me oferecer. Aquele livro tão tocante e as palavras do valter só para mim atingiram-me para sempre. Escrevemo-nos mais algumas vezes, estivemos juntos algumas vezes e ele continuou, sem motivo nenhum, a ser muito amável e simpático comigo. Mais tarde, foi ele que me deu convites (não só para mim como para os meus amigos) para os lançamentos dos livros Letra só do Caetano Veloso e Algumas Letras da Adriana Calcanhotto. E ainda foi tão gentil ao conseguir-me os livros autografados nas noites respectivas. Essas noites mágicas e irrepetíveis no Teatro do Campo Alegre, no Porto, ficaram para mim, inesquecíveis.

É de uma doçura incrível e acho que tem uma timidez quase tão profunda quanto a minha. Não fiquei surpreendida, quando anos depois, ele teve aquela recepção tão calorosa na Festa Literária de Paraty. Quando vi na internet o video da comoção geral, daquele texto belíssimo que leu, percebi a reacção daquelas pessoas. Quando há alguns dias a Adriana assinava a capa do livro dele, que é a colecção dos relógios dela, ficou surpreendida com aquele livro que é quase uma relíquia e dizia-me: “Ele agora é uma vedeta no Brasil. Adorado!”. Eu sabia. Eu sei.

Foi também através dele que descobri Antony Hegarty, a voz e a alma dos Antony and the Johnsons. Depois  de muitos anos, e de muitos livros, de muitas edições esgotadas e muitos prémios, depois de ser um famoso, consagrado e lido escritor e eu ser uma fiel leitora, para mim será sempre aquele rapaz doce com um sorriso lindo!








sexta-feira, 5 de abril de 2013

Clarice Lispector - A hora da Estrela

Hoje abre a exposição "A hora da Estrela" na Fundação Calouste Gulbenkian sobre a obra e vida de Clarice Lispector, no ano que passam 35 anos desde a sua morte. Deixo aqui um vídeo de «uma canção que Caetano Veloso escreveu baseado num livro de Clarice Lispector "A hora da Estrela. Essa canção fala da chegada da Macabé que é a personagem central do livro. O impacto que ela sofre chegando npo Rio de Janeiro e olhando os contrastes e enfim...Quando eu cheguei no Rio de Janeiro tive mais ou menos a mesma sensação da Macabé, achei isso interessante, engraçado porque a Macabé é alguém que chega no Rio de Janeiro vinda do norte. E eu cheguei do sul e era muito parecida à chegada. A canção se chama "Nome da cidade"...».

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