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terça-feira, 21 de março de 2017

When breath becomes air by Paul Kalanithi

Nos últimos tempos, várias pessoas têm-me questionado sobre o meu (suposto) conhecimento literário. Essas pessoas, muito mais das letras, ficam sempre muito surpreendidas com a minha cultura literária e com a quantidade de coisas que já li e leio. Cada vez (mais) acho que os estudos e os graus das pessoas dizem cada vez (menos) sobre elas. As pessoas mais interessantes que conheci e conheço não se distinguem pelos graus académicos. E muito menos lhes dão a importância que os outros (acham que) têm. O que me desperta nelas é o interesse por qualquer coisa específica e, às vezes na generalidade, a vida. Afinal o que é ser interessante? O que é ser inteligente? E a importância que isso tem para a vida de cada um de nós? Mas essas são questões que não vou falar neste texto. 

Hoje vou escrever sobre duas pessoas da minha área de conhecimento. Pessoas  que dedicaram a sua vida à medicina e ciência. E com os quais eu aprendi tanto. Um deles é Siddhartha Mukerjee cientista, médico oncologista, professor, escritor sem ordem alfabética e/ou importância. Ganhou um prémio Pulitzer com o livro que é uma biografia magnífica sobre cancro The emperor of all maladies. E o último livro é, o não menos interessante, Gene. É casado com a grande artista plástica Sarah Sze e considerados o casal (mais) brilhante de NY pela Vogue. Para além disso, é giro e inteligente. Como quase todas as grandes figuras, é tímido. Quando eu estava em NY fui a todos os eventos, conferências, conversas só para o ouvir falar. E vi-o (algumas vezes) à espera do metro na 168 e a sair do metro na W4. Só olhar, discretamente para ele, sem que ele se apercebesse era uma maravilha. Um dia num cocktail, com a coragem dada pelo álcool pedi-lhe entre um copo de vinho, que me assinasse a versão inglesa do livro. Um meses mais tarde, numa conferência sobre cancro, na qual só chegou em cima da hora e saiu mal acabou a sua apresentação, corri para que me assinasse a versão portuguesa. Estas coisas são como os novelos, pega-se na ponta e vamos desenrolando até conhecer (mais, muito mais) mundo. Através dele conheci Primo Levi, do qual comprei e li toda a sua obra. E por causa dele conheci a Emily Dickinson, essa grande poeta que nasceu numa vila recôndita de Nova Inglaterra, da qual nunca saiu, não tinha mundo e daquele cérebro saíram aqueles poemas dos quais os olhos tinham visto tão pouco. Se é verdade que muitos dizem que escrever é autobiográfico, a obra de Dickinson mostra exactamente o contrário. Mukerjee deu-me a conhecer outro grande médico, escritor: Abraham Verghese, autor do livro My own country. Nascido na Etiópia, filho de pais indianos, formou-se em Medicina na India e fez a especialidade numa das cidades da America profunda no estado do Tennessee. Trabalhou dois anos em Boston onde o vírus HIV começava a ser conhecido e a vitimar muita gente, no início dos anos 80. E depois, quando foi regressou a Johnson City viu uma outra realidade de pessoas pouco instruídas e rurais infectadas com HIV. É desta experiência que ele fala no livro que lhe deu popularidade.

A segunda pessoa que quero falar é de Paul Kalanithi. Este, não conheci pessoalmente. Li uma das suas crónicas How long have I got left?, no The New York Times, na qual assumia a sua condição de doente terminal. Tal como Siddhartha, era médico (a terminar a sua especialidade em Neurocirurgia em Stanford). Tinha um Mestrado em  Literatura Inglesa, era culto, competente, genial, tinha um profundo amor à escrita e era um ávido leitor, tinha um futuro promissor, e falou sobre tudo isso e muito mais, na sua autobiografia de fim de vida que não chegou a terminar. O prefácio foi escrito por Abraham Verghese.

O primeiro capítulo começa com versos de T.S. Eliot e com a descrição da sua confrontação com a imagem da tomografia que mostrava “inúmeros tumores, a coluna vertebral deformada, o fígado completamente obliterado. Cancro amplamente disseminado”. Neste livro descreve a sensação de se ter  tornado doente e a sua vulnerabilidade. Das diferenças abissais entre ser um médico cheio de confiança e um paciente resignado.Os sinais premonitórios do cancro. O cansaço que o derrotava . As dores intoleráveis. O futuro brilhante com que sempre sonhou, que teria como neurocirurgião, evaporou-se num sopro. O marido e o pai presente em que prometeu tornar-se, e cumpriu, mesmo que por tão pouco tempo e em condições tão adversas. Do sonho que sempre teve de ser escritor. Da infância no Arizona. Das ausências do pai médico. De ter lido 1984 de George Orwell. O seu amor pela linguagem. Antes de entrar na universidade já tinha lido Edgar Allan Poe, Gogol, Dickens, Twain, Austen, Sartre, Shakespeare, entre outros. Para um americano criado no interior da América e médico, convenhamos que é invulgar. Durante a adolescência considerou os livros como confidentes, que lhe deram a mais vasta visão do mundo e que lhe abriram horizontes. Anos mais tarde tirou Literatura Inglesa e  Biologia Humana. Queria encontrar a resposta para a pergunta:  O que dá significado à vida? Por esta altura refere T.S. Eliot, Nobokov e Conrad como grandes referências. Quando fez o Mestrado em Literatura Inglesa em Standford, referiu a sorte que teve em estudar com Richard Rorty, o mais importante filósofo à época. A tese de Mestrado foi sobre Walt Whitman. Passou uma temporada em Cambridge, UK estudar História da Medicina, antes de entrar em Medicina em Yale. Foi aluno de Shep Nuland, um reconhecido e reputadíssimo cirurgião-filósofo, autor do livro sobre mortalidade How we die.  

Descreveu em pormenor o primeiro nascimento que foi também primeira morte a que presenciou. Ensinou-me o que é uma cirurgia Whipple (duodenopancreatectomia) uma operação complexa que consiste na remoção da cabeça do pâncreas, uma vez que o pâncreas se encontra na parte anterior e “coberto” por varias estruturas, envolvendo rearranjo da maioria dos orgãos presentes na cavidade abdominal.

Aprendemos tanto com este livro. Sobretudo sobre vulnerabilidade e humanidade, como andam de mãos juntas. Os médicos vêem as pessoas na sua forma mais vulnerável, assustados e o que há de mais privado neles. Depois, o seu talento para a escrita e as suas referências literárias fazem lembrar-me da grande obra de Tolstoi, Ivan Ilitch, com as devidas diferenças. Tal como em Portugal, nos Estados Unidos, os médicos tendem a escolher as especialidades menos exigentes (Ex. radiologia e dermatologia). No fim do curso de Medicina tendem a focar-se em especialidades que proporcionem uma melhor qualidade de vida, aquelas com menos horas de dedicação, melhores salários e menor pressão. Como 99% das pessoas escolhem o seu trabalho: quanto ganham, ambiente de trabalho e horas de trabalho. Neurocirurgia, como há uns anos o Prof. João Lobo Antunes discutiu em alguns dos seus ensaios sobre a mão, a perfeição do toque, a leveza da mão cirúrgica. Aqui Paul compara-a quase à perfeição. A exigência desta especialidade da Medicina que exige tanta técnica. A necessidade imperativa do treino da mente, das mãos e dos olhos. Da necessidade não só de serem os melhores cirurgiões mas os melhores médicos do hospital. As capacidades cirúrgicas são avaliadas pela técnica e pela velocidade: “Aprende a ser rápido agora. Mais tarde aprenderás a ser bom”. No bloco operatório todos os olhos estão sempre no relógio. Se o tédio é, como argumentou Heidegger, a consciência do tempo a passar, então a cirurgia é o oposto. Do conselho de comerem com a mão esquerda e de terem que aprender a ser ambidestros. Aprendemos pequenas coisas como as funções básicas que o hipotálamo regula: dormir, fome, sede, sexo. A loucura de trabalhar 100 horas por semana durante a especialidade. Viu muito sofrimento. O almoço típico dele, como vi muitas vezes do Presbyterian em NY ou no Methodist em Houston: Diet coke e um gelado. Escreveu sobre o receio que teve de se tornar o estereótipo médico de Tolstoi: apenas preocupado com a forma de tratamento da doença e desleixando a importância da parte humana. A excelência técnica não é tudo. Como neurocirurgião, o seu ideal não era apenas salvar vidas – porque todos acabamos por morrer – mas guiar os doentes e famílias a perceberem a doença e a morte. Todas as grandes doenças transformam os doentes. Deve tentar-se ser preciso, directo e certeiro mas deixar alguma margem para a esperança. Cita Heidegger “a consciência do tempo a passar”. Ensina-nos que a arte de falhar em neurocirurgia define-se por um ou dois milímetros: a ténue diferença entre triunfo e tragédia. A existência de áreas no cérebro que são quase sagradas ou invioláveis. Cita Montaigne: Se eu fosse um escritor iria compilar descrições de várias mortes de homens: deveria ensinar como morrer ao mesmo tempo que ensinaria a viver”. Descreveu ao pormenor as conversas com a médica oncologista, de como não voltaria ao hospital como médico. De como planeou tanto e esteve tão perto de conseguir. De como a oncologista se recusou a discutir com ele as curvas de sobrevivência de Kaplan-Meier. [A curva de Kaplan-Meier é um método estatístico standard que mede a sobrevivência dos pacientes em função do tempo. É a métrica que permite saber o progresso e que podemos perceber a gravidade da doença. Por exemplo,  no caso do glioblastoma a curva desce vertiginosamente até que apenas aproximadamente 5% dos pacientes estão vivos em dois anos].  De como no início da confirmação de diagnóstico quis saber onde se encontravam os melhores oncologistas de cancro do pulmão, das possibilidades do MD Anderson Cancer Center – Houston e o Memorial Sloan Katering Cancer Center – NYC. Seis dias antes do diagnóstico tinha passado 36 horas no bloco. Como tudo muda num instante. Tornou-se um inválido. Os passos seguintes foram prepará-lo, e tudo à sua volta, para a mudança abrupta de condição: de médico para doente. Com o passar dos dias, com a repetição de exames, com a teraputica, até mesmo os médicos, tão profundamente cientes da gravidade da sua condição, permitem-se ter (alguma) esperança. Discute que a palavra hope  combina ao mesmo tempo confiança e desejo. Somente 0.0012 % de pessoas com 36 anos têm cancro de pulmão. Paul tinha planeado uma vida de 40 anos entre ser médico e escritor. Os primeiros 20 como neurocirurgião e os últimos 20 como escritor. Como tudo se precipitou por causa do cancro terminal ele queria saber quanto tempo mais lhe restava para tomar decisões relativamente à sua carreira: “Se tivesse 2 anos de vida, escreveria. Se tivesse 10, voltaria à cirurgia”. Mas vida e morte não são uma ciência exacta. Cita Darwin e Nietzsche. Houve uma melhora após 6 semanas de tratamento com Tarceva. O cancro estabilizou. Voltou a ler literatura: Tolstoi, Kafka, Montaigne, memórias de doentes com cancro, tudo o que tivesse relacionado com mortalidade: “Foi a literatura que me trouxe de volta à vida durante esse tempo”. Cita Hemingway, Beckett. Ainda voltou ao trabalho. Faria uma cirurgia por dia, não acompanharia os doentes fora do bloco e não estaria on call. Ouvia bossa nova Getz/ Gilberto. O primeiro caso foi uma lobectomia temporal, uma das suas cirurgias predilectas. Passou a noite anterior a rever livros de texto de cirurgia e anatomia e todos os passos dessa cirurgia. Descreve com uma beleza única como decorreu o procedimento. Como Lobo Antunes referia repete a “forma mais elegante” de proceder. Para se aguentar tomava antieméticos, Tylenol e anti-inflamatórios não esteróides. “A morte pode ser um evento mas viver com uma doença terminal é um processo... Se soubesse que me restavam 3 meses passava-os com a família. Se fosse 1 ano escreveria um livro. Se me dessem 10 anos, voltaria e trataria doenças. Mas a verdade é que viver um dia de cada vez não ajuda”. Tinham passado 9 meses e operava até tarde ou até de amanhã. Chegava a casa tão cansado que nem conseguia comer. Decidiram ter um filho. Engravidaram por fertilização in vitro.

Repetiu a tomografia 7 meses depois de voltar a operar. Seria a última antes de terminar a especialidade. Antes de ser pai e de o futuro se tornar real. Apareceu um novo tumor, grande. Foi o seu último de no hospital como médico. Começou a quimioterapia. E com ela vieram os efeitos secundários: fadiga, fastio, vómitos, diarreia. Ler era impossível. Obrigava-se a comer. Foi internado para ser hidratado por via intravenosa. As metástases ósseas causavam-lhe muitas dores. Quase morreu quando a filha tinha 38 semanas. Esteve nos cuidados intensivos uma semana. Perdera 20 kgs desde que fora diagnosticado, 7 deles nessa semana horribilis. Cita Graham Green. A filha nasceu. Tinha o desejo de viver tempo suficiente para que a filha se lembrasse dele. O seu desejo não foi cumprido.

Morreu 22 meses depois de ter sido diagnosticado com um cancro de pulmão metastizado no estadio IV, aos 37 anos. Não terminou o livro. Não teve tempo nem vida para o terminar. Chorei como uma Maria Madalena. Então no epílogo escrito pela mulher Lucy, desfiz-me. Morreu no hospital 8 meses depois do nascimento da filha rodeado da família.


sexta-feira, 8 de agosto de 2014

The Man Who Loves Women

Copyright: Kansaki Mata
Benjamin Moser was staying in an anonymous apartment, with white walls bare of adornment save for picture windows that didn’t open. The room contained a couch, a coffee table, and the chair on which Moser was perched, his long legs folded beneath him. On the coffee table in the center of the white room lay Why This World, Moser’s 2009 biography of one of the 20th century’s most compelling, if mysterious, women: Clarice Lispector, the Jewish Brazilian author who died in 1977. Lispector’s face gazed out at us from the dust jacket, a wounding presence that claimed the room and everything in it as her own.
Before Moser, Lispector was little-known outside of Brazilian or academic circles. Now, in the wake of Moser’s biography, and Moser’s new translations of her work, to English from Lispector’s bizarre, immigrant-inflected Portuguese, she is an author with a significant, growing following. Which is as Moser wants it. He is more than a biographer: He is a devotee, bringing the gospel of his subject wherever he goes. “I think it will become clear, as the dust settles, that she’s the great figure of Jewish literature in the 20th century,” he said, when I visited him in May.
In the meantime, Moser has started work on another great figure of Jewish literature in the 20th century. In possibly the only second act that could match his first, Moser has begun work on a biography of Susan Sontag, after being approached to do so by Sontag’s son, the writer David Rieff, and the literary agent Andrew Wylie. He is three years into the work.
Writing a biography of Sontag poses new challenges. When Moser set out to write about Lispector, he was met with suspicion. “Everybody thought I was crazy,” he said. “Because they said, nobody’s ever heard of her. I said that’s the whole point, that you haven’t heard of her. That’s the fun of it. With Sontag it’s different. With Sontag, you think you’ve heard of her, but you haven’t. You’ve heard of her, you’ve seen her picture, she has the white streak in her hair. But when you go beyond that, there’s a completely different person.”
What Blake Bailey—biographer of Richard Yates, John Cheever, and Charles Jackson—has become for postwar American male fiction writers, Benjamin Moser is becoming for eccentric, international-minded, postwar Jewish woman writers. Moser adores his subjects. He loves their inscrutability, sees it as a challenge. And it’s his delight in the challenge, coupled with a sense of mission, that makes him such a worthy partner, despite death and the passage of time, for his august subjects.
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Moser is tall and slim, with big blue eyes and a thick lock of dark hair that falls across his forehead. When we met in his apartment, which he was granted as part of a fellowship at NYU, he was dressed in a black shirt and dark corduroy pants, both of which looked soft, and black socks. His conversation is soft and meandering, his voice deep; he gives the impression of being both youthful and wise beyond his 37 years.
When he is not traveling to interview his subjects’ acquaintances, Moser lives with his partner, the novelist Arthur Japin, in a historic house in Utrecht, Netherlands. Moser is originally from Houston. His father’s family, one of the older families of Houston Jews, has lived there since the 19th century. “My grandmother knew every single Jewish person in Houston,” Moser told me. “If she didn’t know them, they were very suspicious.” His mother, who is from Dallas and owned a children’s bookstore when Moser was young, converted to Judaism “to annoy her racist relatives in the ’70s.”
“Since I’m half WASPy and half Jewish, I always feel really Jewish around non-Jews, and I feel really not Jewish around real Jews,” Moser said. “Maybe that’s what I liked about her”—“her” being of course, Lispector. “She was always on the margins, even though she looked like she wasn’t because she was pretty and blonde and had Chanel suits. But she was very much a marginal person.” Some of the best moments in her work, Moser says, are when “[s]omeone walks into a room and doesn’t know anybody and is just like, ‘Who do I talk to at this party?’ That is an incredibly Jewish historical feeling, but it’s also just a human feeling.”
“Clarice was just the love of my life,” Moser said. He first encountered her work when he was 19, in a college class he took because it fit his schedule. He remembers opening the assigned book, The Hour of the Star, which Lispector had dedicated to Robert and Clara Schumann: “So I dedicate this thing here to old Schumann and his sweet Clara who today alas are bones.” “And, well, I was sold,” Moser wrote in an email. “I don’t know why. I could hardly read the language!” In the apartment, he explained further: “Some things you think are a great idea, like, lovers can look like a great idea in the dark, smoky bar, but then you get to know them and it’s not a great idea. But some loves are real, some last, and hers and me—I never got over it. I’m amazed by it.”
After college, Moser worked briefly in publishing, but, still obsessed with Lispector’s writing, he quit his job at 25 and spent the next five years paying his own way and pursuing the story of Clarice’s life through family, friends, and archives. “I thought, people go into debt to go to law school, or whatever,” he said. “I have an American Express card. I can go to Brazil. So I did, and I kind of bet my life on it.”
It took him five years until he had a completed manuscript of his biography. The book was rejected by 10 houses before it was accepted by Oxford University Press, which offered Moser $8,500 for five years of work. But the book was acclaimed in the New York Times and The Los Angeles Times, and it was a National Book Critics Circle Award finalist. It was translated into seven languages and was a best-seller in Brazil. Moser believes he broke even, eventually. “I think if I would have worked at Starbucks, I would have made more money,” he said. “But it gave me a job, being her spokesman, her ambassador. You know, people need ambassadors.”
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Moser reveres Lispector, both for her writing and for her struggles through a troubled life. Her family fled pogroms in Ukraine when she was 9 months old and moved to Brazil. In Moser’s rendering, Lispector never climbed out of the shadow cast by that early struggle, despite her brilliance and her relative success. One strength of Why This World is Moser’s commitment to portraying both Lispector’s glorious work and her shattered life; there is in the book a refusal to allow any one side to prevail. While Moser was interviewing someone for his Sontag biography, the person pointed to the Lispector biography on the coffee table—with Lispector’s image on the cover—and said, “You have to put that book out of the way, because I keep looking at it, and the pain in her face is too much for me.”
But for Moser, the photograph is about so much more than just pain. “I mean, I do see it when he says it, but I also see somebody posing for a picture,” he says. “I see somebody in a studio with make-up and hair.” It’s that combination that kept him coming back for more. “I just felt something, in an erotic sense I would say; I mean erotic in the sense of a longing, a desire to come closer.”
In Why This World, Moser paints Lispector as fascinating, beautiful, and tragedy-ridden. Lispector’s family originated in Chechelnik, in the western Ukrainian province of Podolia. There Clarice’s mother was raped during a pogrom and contracted syphilis. Due to the mistaken belief that pregnancy could cure genital chancres, Clarice was conceived to cure her mother, and the family emigrated to Brazil in 1921, when Clarice, then Chaya, was a baby. But Clarice was to fail in her impossible mission—her mother died before her 10th birthday, and Clarice lived in the shadow of this failure for the rest of her life.
“Her mother was brutally raped and died of a wound inflicted at the very locus of her sexuality,” Moser said. “I think that it’s clear that sexuality was never an easy thing for her”—“her” being Lispector. But for Moser, there is something sublime in this unrealized sexuality, for Lispector redirects her eroticism into her writing. “That’s the current you feel, and that’s what allows her to attach her readers to her so unforgettably,” Moser says.
In Why This World, Moser is especially moving on the subject of Clarice’s father, a brilliant but unrealized mathematician who became a failed peddler in Brazil. “I think that’s the reality of most people’s lives,” said Moser. “So much of American literature is about failure. ‘Here I am in the golden land, and I fucked it up. I’m not Rockefeller, I’m just struggling to get by, like most people.’ That’s the American Dream and the reality of American literature—it’s Melville, it’s Joan Didion, you know? Joan Didion’s books are all about people who come to California or Hollywood with a dream and they completely fail, they get murdered. That’s most American literature.
“And it’s about the shame that causes. It’s not that bad if you fucked it up in Belarus, you know? But like, in California, in Texas, in Chicago, the narrative is, ‘We come from our shtetl and we make it better.’ But that’s very few people, and I think in America the presence of those people oppresses, you know, the awareness of what you should have been, versus what you actually are. There’s a huge gulf, and in cultures that idolize success like that, that’s more oppressive. You’re supposed to own the factory. Not everyone owns the factory. Not even all smart Jewish kids own the factory.”
Lispector’s work features heavily in Moser’s critical biography. Her heroines are trapped—they all possess an intense yearning for safety, usually represented by a man of great stability and middling intelligence, and yet they remain incapable of enjoying the coveted security. They are too keenly, even physically, aware of an existential abyss, which exists too close for comfort to their daily routine, which threatens to invade at every moment. As Adam Kirsch put it in a review of Lispector’s works, Lispector turns heroine after heroine “into a force of nature, a Nietzschean figure whose vitality puts her beyond ordinary judgments of good and evil.”
“You can be a really nice person and obey all the 613 commandments and whatever, and you’re still going to get raped and killed,” Moser said. “You’re a roach. You’re a roach. You’re an animal. You’re going to be crushed and destroyed inevitably. People in shtetls in the Ukraine kept kosher and they did everything and they obeyed all those rules, and look what happened to them. They were absolutely destroyed.”
For Moser, there’s all the proof you need of the world’s amorality. “It’s actually insulting to the memory of these people to think that the world is such that God is something you can appease,” he said.
Shtetls, pogroms, and mysticism are the proof for Moser of Lispector’s abiding Jewishness. She stems from a particularly Jewish suffering that, in Moser’s reading, she continued to engage her entire life.
“She is the writer,” he said, “who answers the question that Adorno poses that he later took back, that there can be no poetry after Auschwitz. She’s the one that answers that question, and she answers it in a positive way.”
Take, for instance, Lispector’s most well-known work, The Passion According to G.H. The book tells the story of a well-to-do Rio housewife who, after firing a maid, finds herself face to face with a cockroach in a cupboard the maid’s room. The woman—G.H.—slams the cupboard door on the roach and proceeds to have a mystical encounter, finding the pureness of being, stripped of its pretensions and personalities, in the white goo which oozes from the roach’s body. G.H. realizes that she, too, is a random eruption, like an animal, or a rock, and in recognition of this realization, brings the goo to her lips and tastes of it.
For Moser, this is what’s left when the world is lawless and God is unappeasable by ritual or prayer. “What’s left is this vocation for the divine and the state of grace and this desire to discover inside oneself the breath of life,” he said. “And that’s the roach. She approaches God with disgust and with fear and trembling, not philosophically but really in her guts.”
And for Moser, this is a post-Auschwitz theology. “She is staring Auschwitz in the face her whole life,” Moser said. “She remembers that mother, paralyzed and dying in that chair, staring out the window, exiled to the New World, but that was the reality of Jewish history until—last week. Really. My grandfather was a German refugee, so I know that story, I know what that does to people.”
Moser was very close to his grandmother—Bitsy, she was called—until she died his freshman year of college. “She had a lot of hangers on, sort of like Susan Sontag did, she liked younger gay men who thought she was hilarious and would take her to brunch and stuff.” She was that kind of woman, he explained. “She was attractive, she was funny, she was smart, and she was kind of bitchy, you know what I mean?”
Bitsy’s story actually coincided—somewhat mystically, one might think—with Lispector’s, Moser discovered. In 1928, Bitsy married her doctoral adviser, a man named Jacob Nachbin. Shortly thereafter, while doing research in the Mexican National Archives, Nachbin was caught attempting to purloin documents, and the couple was extradited back to the United States. As fate would have it, the episode was covered by the Yiddish papers in Buenos Aires, which was what Brazilian Jews read at the time. The story of Nachbin’s extradition was read by one Brazilian in particular, a woman who turned out to be Nachbin’s wife, whom he had abandoned with a son, Leopoldo, in Recife, Brazil, before moving to Chicago and reinventing himself. It turned out that Nachbin was a complete fraud, a brilliant, chameleonic self-creation, an orphan from a shtetl who had made himself into a professor, first in Brazil and then in Chicago.
Moser found all this out when he was in high school, when he and his mother had car trouble on the way back from a summer vacation in Colorado. They got stuck in Las Vegas, New Mexico, waiting for a car part. “I ended up spending three days with my mom in this horrible roachy motel in Las Vegas, New Mexico,” Moser recalled. When he got back, he said to his grandmother, “You’re not going to believe where we ended up spending three days. This horrible place. Have you ever heard of Las Vegas, New Mexico?” To which Bitsy replied,  “Of course I’ve heard of it, I used to live there! My husband was teaching at a university there! My husband Nachbin!” “And I had never heard of him,” Moser said. Turns out, Bitsy had three husbands more than Moser knew about. “So I said, ‘Oh! Do tell!’ And she said, ‘Oh he was a Latin American or a Pole or something.’ Which is exactly what he was!”
Nachbin’s story ends on a tragic note. After being expelled from the United States and going back to Europe, Nachbin was eventually killed in the Holocaust. But Bitsy’s ill-advised marriage to Nachbin ended up creating a family link between Moser and his muse. Nachbin’s son, Leopoldo, was Clarice Lispector’s best childhood friend in Recife.
Bitsy left her grandson with another legacy, too, a more political one. She was a staunch Democrat her entire life. “If there’s anything that the pogroms of Podolia can teach us,” Moser said, “it’s that Jews of all people should not be in the business of racial oppression, and discriminating against people because of their nationality. If Jews didn’t learn that, there’s no point to Jewish history. There’s no point to Jewish suffering. That’s why my grandmother hated Jewish Republicans.”
***
Moser is scathing on the subject of the indignities visited upon female writers. He recalled with disgust a literary critic, “a very respectable, illustrious, Harold Bloom type, in São Paulo,” who told him, “You know, people say she was really pretty, but they never point out that she actually had a really fat butt.” Moser shook his head. “Boy, when you write biographies of women, you realize,” he said, that “women are always second-class citizens. Always. So if you have the, like, big shlong, dude, that guy is always going to get—“ he cut himself off. “Who do people in America think are great Jewish writers? Philip Roth, Saul Bellow, or Bernard Malamud. You can keep adding to the list.” He shook his head. “I don’t think they hold a candle to her, for the range of what she did. It’s a huge range of work, a huge range. I think once people get that, they’re going to get a sense of the panorama of this mind. The mystical power of it. Has anybody in America written a book like The Passion According to G.H.? I can’t think of anything.”
Moser’s hope that Lispector will get the recognition she deserves is fortified by his new subject, Sontag. “Sontag really believed,” he said, “that the great works, the great artists would eventually be recognized and be celebrated and understood, even if they weren’t in their own times, and I think that will prove right with [Lispector]. That’s one of the great things about Sontag, she was absolutely dedicated to digging those people up, and using her fame and her prestige to shed light.”
Sontag’s legacy, Moser says, is both broader and narrower than Lispector’s: “This incredible belief in the importance of art and culture, and the belief in standards, the belief in seriousness, the belief that books matter and that paintings matter and the human spirit that makes those things matters.”
But above all, Lispector relates to Sontag as a great admirer. “She made it sort of sexy to be an intellectual, too,” Moser said. “She was good-looking, she was glamorous, she knew how to pose for the camera, so she used those post-modern trashy tools. Yeah, she was self-promoting, I mean, who isn’t? But she used that image of herself to bring all sorts of stuff to the attention of the world, and she managed to do it for 50 years, and it’s inspiring. It makes me want to do so much more in that. So, like what I’ve done with Clarice? She did with 50 people. It’s incredible.”
Batya Ungar-Sargon to Tablet Magazine 

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Mara Gabrilli – Depois daquele dia

Milly Lacombe é uma contadora de boas histórias. Sobretudo conhecida pelas suas crónicas mensais na Revista TPM, pelas críticas literárias na Folha de S. Paulo e pelas reportagens/ opiniões como free lancer para os mais diversos jornais brasileiros.  Milly, descreve-se assim, brevemente: “Eu vivo de escrever porque não sei fazer mais nada na vida. Se soubesse, pararia de escrever e ia ganhar algum dinheiro”. Precisa de mais palavras? Viveu 7 anos em LA, voltou para o Brasil, onde se solidificou como escritora e voltou a sair, desta vez, rumo a NY, onde vive. A sua escrita está recheada de detalhes e pormenores, de emoções, de quotidiano, de ironia, de muitas figuras de estilo e muito humor.

Não me lembro exactamente como conheci a escrita da Milly Lacombe mas acho que me fizeram chegar uma das suas (muito bem escritas) crónicas da revista Trip. Quem me conhece bem sabe que eu sou apaixonada por biografias e crónicas!

A biografia de “Mara Gabrilli – Depois daquele dia” foi escrita entre encontros e jantares com a escritora e biografada: “Durante quase cinco anos, que foi o tempo que demorei para escrever o livro, eu fui para casa agradecendo ao universo pela chance de poder contar a história dela, e pedindo força e inspiração para fazer isso da melhor forma possível. É uma história sublime, edificante, espetacular e linda. Eu não podia errar (...) Foi uma tremenda responsabilidade (...) eu quero que a história dela seja conhecida por multidões. É uma história que precisa ser contada, uma história que pode mudar vidas, que pode inspirar e fazer a gente entender o mundo, e aprender a aceitar o ritmo das coisas. A Mara, e a chance de contar sua vida num livro, foi um presente que me deram e pelo qual eu agradeço todos os dias”.

Mas o que tem esta biografia de tão especial: “a história é a de um resgate espetacular, a verdadeira jornada do herói (...) acho que pode interessar a portugueses, irlandeses, americanos, chineses: trata-se de experiência humana universal (...) Uma menina rica e mimada que quebra o pescoço voltando da praia aos 26 anos e imediatamente aceita a nova condição. Depois de anos de reabilitação ela decide se candidatar para tentar ajudar outros que tenham a mesma deficiência mas não o mesmo saldo bancário. Se fosse ficção seria inverossímil, mas o bom é que a realidade não precisa fazer sentido”.

A Milly, que para além de uma excelente escritora, é uma excelente pessoa, enviou-me este livro para ler. Aqui fica a minha opinião, muito aquém do verdadeiro entusiasmo de o ter lido. E esperemos que daqui a pouco alguma editora portuguesa se interesse pela publicação deste livro em Portugal.

O livro começa com a descrição do acidente e tudo se desenrola com a vida de Mara, antes e depois, porque era muito mais do que o acidente. Começa de forma  dramática e  a partir dali o livro vai recuando e adiantando, conjugando passado, presente e futuro, como só a Milly sabe fazer. Quem conhece a escrita de Milly Lacombe reconhece o seu estilo neste livro e principalmente as pitadas de humor.

Com essa história que tinha tudo para ser triste e trágica,  Milly Lacombe mostra-nos o intenso processo de superação e adaptação de Mara. O livro conta o acidente no qual Mara fica tetraplégica. Usa uma forma muito dinâmica repleto de analepses e prolepses. Mistura passado, presente e futuro. Muita verdade, muita coragem, muito exposto e muito despido de preconceitos é como pode ser descrito, de uma forma simplista. Com o decorrer da leitura, Mara parece ser uma super-mulher, que supera obstáculos como se não fosse tetraplégica, com uma vontade de lutar que não parece humana, com um optimismo que não parece real. Mas depois disto, aparecem os defeitos, as discussões, as manias, que chega até a dar raiva. Mas o livro é muito mais do que isto. Mostra que Mara continuou com a sua vida profissional agitada, que manteve os seus relacionamentos, vida sexual e passou a ajudar os outros que não têm as mesmas condições financeiras que ela.

No filme Mar Adentro (baseado em factos reais, realizado pelo espanhol Alejandro Amenábar, em 2004), o personagem de Ramón Sampedro, vivido por Javier Bardem, luta pelo direito à eutanásia depois de uma fractura semelhante à de Mara a ao mergulhar no mar. Mexer apenas a cabeça não é para ele viver. Dois casos semelhantes com atitudes perante a vida tão diferentes.  Mara, não só não desistiu de viver como acha que a vida vale a pena (mesmo só mexendo a cabeça). Desde o acidente não pára mais de se mexer: criou a ONG que ajuda pessoas com dificuldade de mobilidade, candidatou-se a vereadora, foi nomeada secretária municipal e depois deputada federal.


A nossa vida pode mudar de repente, sem aviso prévio, e  radicalmente para pior. Nem todos estamos preparados e nem todos sabemos lidar com isso. Sobretudo, quando esta mudança limita o desempenho físico e actividades quotidianas. Tudo o que aprendemos desde que nascemos deixa de existir. De uma forma minimalista, é disto que se trata esta biografia: reaprender a viver, aceitar e não se revoltar. Ler este livro, não fará mal a ninguém, muito pelo contrário. É um murro no estômago. Depois de lermos este livro não ficamos indiferentes. Fazendo minhas as palavras da Milly, muitos dos relatos deste livro parecem inverosímeis, mas a verdade  “é que a realidade não precisa fazer sentido”.


quinta-feira, 18 de julho de 2013

Egas Moniz

À luz dos olhos de hoje, Egas Moniz, o primeiro Nobel português, é controverso  Existem várias correntes que apoiam a retirada do Prémio Nobel. Quando lhe perguntaram se foi o que pretendia ser na vida, respondeu: «Certamente». Quanto às qualidades que mais apreciava nos médicos: »Honestidade acima de tudo. Saber. Delicadeza com os doente. Grande dose de bom humor».

Quem foi afinal Egas Moniz?
Nasceu em Avanca, Estarreja em 1874. Com pouco mais de 5 anos foi para Pardilhó para casa de um tio padre. Aos 10 anos, depois do exame da escola primária vai para o Colégio de S. Fiel, dos Jesuítas, em Castelo Branco. Passou depois para Viseu, onde esteve numa casa particular. Aos 16 anos fica sem pai. Os exames do liceu foram, mais uma vez, excelentes. Matriculou-se nos estudos preparatórios em Coimbra, que serviam ao mesmo tempo, para a carreira militar e Medicina.  Em 1894 ingressou no curso de Medicina. Nos primeiros anos do curso fica órfão de mãe. Em 1900 foi aprovado com Muito Bom, 16 valores. É aí convidado para seguir a carreira académica. Casou-se em 1901 com Elvira de Macedo Dias. O casal nunca teve filhos, o que terá sido um grande desgosto para ambos. Também neste mesmo ano, para a obtenção do grau de Doutor («a última e a maior honra a que nas Universidades pretendiam chegar os que nela estudam») escolheu como tema «A Vida Sexual I – Fisiologia.  Há apenas um século pode ver-se como  a ciência médica ainda estava atrasada: «o óvulo humano é uma célula completa, e pode sozinha gerar um feto». A Isilda Pegado, presidente da Federação Portuguesa da Defesa da Vida, que parece estar atrasada em relação ao seu tempo devia ficar impressionada com esta frase! Para ser admitido a professor escolheu como tese «A vida sexual II – Patologia» que incluem algumas questionáveis ideias de Egas Moniz: «O homem é essencialmente sexual, a mulher é essencialmente mãe. Tudo o que se afasta disto é anormal»; «Sou contra o casamento virgem da parte do homem, acho-o mesmo inexequível»; «A inversão sexual é uma doença tão digna de ser tratada como qualquer outra». O seu interesse a partir daqui foi essencialmente a neurologia, uma vez que estudara em Bordéus com um neurologista e com um psiquiatra. Refere mais tarde que: «O que sou em ciência devo-o à França e aos seus mestres».

A relação com a Universidade de Coimbra nunca foi pacífica. Egas nunca tomou posse dos cargos de lente substituto e catedrático em Coimbra. Egas arranja então consultório em Lisboa na Rua Nova do Carmo e vem a ocupar a cadeira de Clínica Neurológica da Faculdade de Medicina de Lisboa. Da sua vida política não vou aqui falar, pois o que me interessa destacar, é a sua carreira de cientista e médico. Egas considerava Coimbra demasiado pequena para a sua ambição. Além do consultório da Rua Nova do Carmo passa a dar consultas de «doenças nervosas» na Praça Luís de Camões. Alguns anos depois muda-se para a Rua do Alecrim.

Entre os seus doentes conta-se Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. Pessoa desistira do Curso Superior de Letras e começara a ser autodidacta na psicopatologia. Como a avó tinha enlouquecido, Pessoa temia que lhe acontecesse o mesmo. Egas passa-o para «fins ginásticos», ao que Pessoa, quando seguiu as suas recomendações afirmou: «para cadáver só me faltava morrer». Egas pronunciou-se a respeito dos autores do Orpheu: «meninos sem talento que querem chamar para si as atenções vomitando asneiras...levem-nos para os manicómios, e metam-nos em pavilhões para dementes...». Mais tarde, Pessoa tece violentas afirmações contra Egas: «O que me indigna não é que esse parvo da ciência tenha essas opiniões...mas tenham prestígio suficiente para que a essas opiniões se dê importância». Egas fazia-se pagar muito bem. Em 1921 é eleito director do Hospital Escolar de Santa Marta.

Egas Moniz foi um cientista improvável e tardio, corroborando a afirmação: «You are never too old to be a scientist». Já tinha 51 anos quando começou a interessar-se por visualizar os vasos cerebrais. Havia a necessidade de uma técnica que permitisse a localização correcta dos tumores cerebrais. A primeira ideia foi administrar por via oral brometo de lítio (40 g deste composto que tinha 92% de bromo!!!) a doentes epilépticos e depois radiografava-se o crânio. Depois começou a testar a opacidade de diferentes sais de bromo(lítio, estrôncio, sódio e potássio) dissolvidos em água e presos numa placa de cartão que encostava ao crânio. Nesta altura começa a colaboração com  Pedro de Almeida Lima, tio dos irmãos Lobo Antunes, foi o fundador da neurocirurgia em Portugal. Esta dupla professor/aluno, com quase 30 anos a separá-los, começa a estudar a toxicidade de várias substâncias opacas aos raios X no coelho e cão, quando injectados por via subcutânea e endovenosa. Chegaram à conclusão que o brometo de estrôncio até 30% era o menos tóxico. Em 1927, com este meio de contraste, conseguiram vizualizar a circulação intracraniana de um rapaz com um tumor da glândula hipofisária. Ao que Egas reage assim: «Ontem ao alcançar o fim desejado, chorei como uma criança. Este trabalho era a minha vida». Em 1933, Egas publica na Lancet um artigo que demonstra a utilidade da angiografia com tototraste, obtida em mais de 300 doentes, os quais, podiam regressar a casa após o exame sem qualquer problema. Egas preferia os colaboradores cultos e dedicados ao estudo. A invenção da angiografia teria sido mais do que suficiente para garantir a Egas Moniz um lugar eterno na história da medicina.
Há um caso clínico, descrito com muito pormenor no livro Erro de Decartes n de António Damásio: Phineas Gage trabalhava nos caminhos-de-ferro em Vermont be sofreu um acidente com uma explosão acidental no qual uma barra de ferro de 109 cm de comprimento e 3 cm de diâmetro atravessou a sua face e saiu pelo osso frontal. Depois de ter desmaiado, Gage recuperou e foi levado para o hospital. Gage, apesar de ter sobrevivido, sofreu severas mudanças comportamentais e emocionais, embora a memória permanecesse perfeita. Gage pareceu recuperado, com a mesma inteligência, capacidade de aprendizagem mas tornou-se numa pessoa socialmente inconveniente após o acidente. Com a leucotomia pré-frontal (corte da substância branca do cérebro) com um leucótomo (cânula metálica de 11 cm de comprimento e 2 mm de diâmetro) os doentes pareciam melhorar. Ao contrário da angiografia cerebral, psicocirurgia rapidamente se expandiu, devido à ausência de terapêuticas eficazes nas doenças mentais. Calcula-se que entre 1942 e 1954 foram operados no Reino Unido cerca de 11 mil doentes e nos EUA 18600.

Em 1949, depois de 4 candidaturas, Egas Moniz é galardoado com o Prémio Nobel de Fisiologia e Medicina pela descoberta e valor terapêutico da leucotomia pré-frontal. Morreu em 1955.

A psicocirurgia continuou a ser praticada pelos nomes mais ilustres da neurocirurgia mundial até à introdução dos psicofármacos como a clorpromazina, em 1954. Claro está, que a psicocirurgia foi mal aplicada, dizia-se para controlar o comportamento de presos e delinquentes ou para mudar orientações sexuais. As críticas continuam até hoje como a história trágica de Rosemary Kennedy ou da irmã de Tennessee Williams à peça  “Voando sobre um ninho de cucos” filmado por Milos Forman. Depois de votada à clandestinidade durante anos, a psicocirurgia está praticamente confinada à doença obsessiva-compulsiva e a estados de ansiedade refractários a qualquer outra terapêutica.

Fonte: Egas Moniz - Uma biografia de João Lobo Antunes


segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Clarice Lispector

«Just to give you an idea of one of the problems that keeps coming up in translating [Lispector], there are words in Portuguese that are [difficult to] translate. A good example is nada … Lispector says something like, “I am going to think of, literally, the nothing.” Now, as an English speaker, I have to think, “Do I say, literally, ‘the nothing’? Do I say ‘nothingness’? Do I say just ‘nothing’?” But I can’t say just “nothing,” because if I say, “I’m thinking of nothing,” that’s not what she’s saying. She’s thinking of something, but she’s thinking of the nothing. But I have to say that when I think of “the nothing,” I think of The Neverending Story. Do you remember this film? There’s a sinister force in the universe and it’s “The Nothing” and it destroys the realm of the imagination so that people don’t have fantasies or dreams anymore. But that’s a weird peculiar thing to me because maybe I was really moved by that movie as a child and so when I say “the nothing,” I’m thinking, “Oh, The Neverending Story, I wonder if my reader’s going to think The Neverending Story. Maybe I should go with ‘nothingness’.” But then “nothingness” is a little bit too abstract, “the nothing” sounds a little bit more forceful».


Sarah Gerard, the translator of Lispector’s last novel, "A Breath of Life"


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