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quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Prémio Bottari Lattes


No sábado, 20 de Outubro, no Castelo Grinzane Cavour, numa cerimónia que começou às 4:30 da tarde foi entregue o prémio Bottari Lattes a António Lobo Antunes numa cerimónia pública. Vindos dos liceus de toda a Itália, a plateia estava repleta de jovens leitores.

No discurso de agradecimento do Prémio Bottari Lattes no valor de dez mil euros disse: “Quero agradecer este prémio que me deu muito prazer de o vir receber aqui e encontrar pessoas que foram, para mim, de uma delicadeza e de uma elegância que não vou esquecer. Se há coisa que eu admiro nas pessoas é a elegância da alma. E isso encontro aqui, até na beleza da vossa língua, que me faz imensa inveja, porque se eu escrevesse em italiano poderia, certamente, chegar mais longe. Quero, sobretudo, agradecer a forma como receberam, atrevo-me a dizer que com ternura e amizade. Como estava sempre a dizer um grande amigo, que tinha idade para ser me avô: “Olha miúdo, só há duas coisas no mundo que valem a pena: o amor e a amizade. O resto é uma merda”.

Ainda houve tempo para uma pergunta i: “A sua prosa tem uma força poética excepcional. Qual é a sua relação com a poesia? ”.“A mim parece-me que a distinção entre poesia e prosa está em vias de acabar. Não faz muito sentido. Lembre-se que às Almas mortas de Gogol se chamou de poema e Nabokov chamou ao seu poema romance. Toda a arte tende para a poesia. A poesia pode muito mais do que a prosa. Eu muitas vezes não sei o que estou a escrever nem a ler. Se pensar em Bashô, poeta japonês, tem um poema que é assim: “ Os quimonos secam ao sol/ Ai as mangas pequenas/ Da criança morta”.  Uma vida inteira está aqui em meia dúzia de palavras.

Quando Antonio Lobo Antunes recebe das mãos da mulher de Mario Lattes agradece-lhe, muito educadamente, e como um cavalheiro como poucos, faz-lhe uma pequena vénia com a cabeça e beija-lhe a mão.









copyright: Fondazione Bottari Lattes






copyright: Fondazione Bottari Lattes





terça-feira, 23 de outubro de 2018

Lectio Magistralis

Entro no Teatro Sociale  Giorgio Busca a poucos minutos da hora marcada. Sala bonita, parecida com o Teatro Nacional S. João. A plateia está cheia e como só restam lugares longe do palco opto por um dos camarotes. Muitos intelectuais, muitos jovens, muitos adolescentes. A mulher está sentada na segunda fila.

No palco está apenas uma cadeira e uma pequena mesa. António Lobo Antunes (ALA) entrará daí a poucos minutos para iniciar a Lectio Magistralis do prémio Bottari Lattes do qual foi o vencedor de 2018. A cerimónia de entrega será no dia seguinte no Castelo Grinzane Cavour, Património Mundial da Unesco.

Quem apresenta António Lobo Antunes descreve-o como "muito conhecido em Itália, na Europa e no mundo". O teatro repleto numa cidade pequena como Alba é o exemplo disso. Continua com a introdução da biografia de ALA, destacando a sua formação como médico psiquiatra, principalmente a sua experiência como médico na guerra em Angola "o Vietname português". Seguiu-se a bibliografia, com o apresentador a mostrar-se um conhecedor da obra, sem necessitar de ler para destacar cada um dos livros traduzidos. Elogia a ligação de ALA à literatura e ao cinema italiano e a narrativa inovadora. Destaca a imaginação de ALA, e os cenários dos seus livros, Lisboa e África ficcionadas, realidades que não existem. Há também uma pequena leitura do livro "Não é meia-noite quem quer", o último livro traduzido em Itália. 

António Lobo Antunes entra no palco debaixo de estrondosas palmas. Andar arrastado. Os anos têm visivelmente passado por ele e deixado marcas, fisicamente. Começa a falar com uma voz inaudível em português. Tem tradução simultânea. 

Começa por dizer que não fará nenhuma Lectio Magistralis. E o monólogo inicia-se pela sua relação com os livros aos 3/4 anos. Aprendeu a ler muito cedo. Divaga entre a morte, tratada como desconhecida, e os livros que começou a ler, desde Oscar Wilde a livros franceses. Fala dos irmãos, de como eram todos bons alunos, o contrário dele. Não estudava. Só lhe interessava escrever e ler e o hóquei. Passa para a relação com o pai que quando leu as primeiras coisas que escreveu foi muito encorajador: "Isto não presta para nada". Mas ele próprio tinha a certeza que ia escrever coisas extraordinárias. Aos 14/ 15 anos era hiperdotado e começou a enviar os textos, sob pseudónimo, para o jornal. Escrevia de tudo poesia, conto, novela. Estava convencido que era um génio. E como queria ser escritor, quando o pai perguntou qual o curso para o qual queria entrar, pensou em Letras. E o pai, como era muito democrata, disse: "Estás matriculado em Medicina". Então, mais precoce que a maioria, aos 16 anos entrou em Medicina. Nunca tinha visto um cadáver. Mas tudo nos primeiros anos envolvia cadáveres. Tinha medo. Essas aulas imensas de 4 horas provocavam-lhe terror. Mas continuou sempre a escrever e enviava coisas para a Casa dos Estudantes do Império (que defendia a libertação das colónias). E foi chamado à Polícia política. Como era um Lobo Antunes disseram-lhe: "O menino vá para casa e veja se não reincide de andar com comunistas". 

Fala da divisão social que existia na ditadura entre ricos e pobres. Das quatro ou cinco empregadas que tinham em casa. Das diferenças sociais que existiam. A missa das empregadas às 7 da manhã separada da missa dos patrões ao meio-dia, com direito a homilias mais longas é um dos exemplos dados. A igreja católica não é poupada, destacando os grandes almoços que havia em casa com padres e bispos que comiam e comiam: "essas santas criaturas".A ditadura também não é poupada. A existência da polícia política agressiva e temível, muito mais para os amigos do que para ele, que era um privilegiado.

Fala da sua viagem a Pádua de carro, ainda criança, e o pai a querer parar em todos os museus dos países por onde passavam. O pai queria ver todos os Tintoretto e ele achava uma chatice e que "gostava dos escarradores". Conta o episódio do escritor que perante As meninas de Velasquez no Prado ficou a olhá-lo muito tempo, calado e quando lhe perguntaram o que achava respondeu: "Onde está o quadro?", a mais bela crítica de arte q ouviu.

Fez o curso com várias reprovações mas no fim apaixonou-se pela Medicina. Escolheu Psiquiatria porque achava que dava menos trabalho. Foi para Londres fazer um estágio e quando volta é chamado para a guerra. Pensou em fugir. "A esquerda ia fazer a revolução para os cafés de Paris e voltava a votar na direita". Mas como podia fugir se escrevia em português? Tinha que estar em Portugal. E achava que a ditadura, que tinha começado em 1926, nunca iria acabar.

Exalta os militares, os seus soldados. Alguns deles nunca tinham visto o mar: "Que rio é este tão largo e com tanta espuma?". A maior parte dos soldados era muito pobre. Contou outro episódio que se passou há uns anos, no Porto, num sítio muito chique e os "seus" soldados apareceram para a apresentação do livro e o professor responsável pela apresentação disse: "O António gosta muito de pessoas humildes". Ao que ele respondeu, indignado: "Os meus soldados não são gente humilde. São príncipes. Está a ouvir? São príncipes!". E a partir daí começaram a aparecer com cartazes "Os príncipes de António Lobo Antunes. Quanto à guerra. propriamente, só falará de um dos intervenientes da revolução, Ernesto Melo Antunes, que no meio de um tiroteio à noite andava desprotegido e com uma lanterna: "Sabes, é que às vezes apetece-me morrer". Recordará a única vez que chorou na vida quando recebeu um telegrama a dizer que tinha uma filha. Foi chorar imenso tempo e outro oficial colocou-lhe a mão no ombro, sem dizer nada. E essa mão silenciosa e a sua importância, nunca mais esqueceu.

Recordou a dificuldade de voltar à vida real depois da guerra. E também a dificuldade de publicar o primeiro livro. Deu o manuscrito a ler a dois amigos: "um disse-me que devia tirar a primeira parte e o outro disse-me que devia tirar a segunda...". O livro foi recusado por todas as editoras em Portugal. Depois foi publicado por uma pequena editora e na sessão de lançamento "estava eu, o editor e a empregada da editora". E foi um acontecimento. Vendeu muito. O irmão Miguel até lhe disse: "Tens que tirar a fotografia da conta-capa porque ouvi dizer "deve ser uma porcaria mas ele é tão bonito". 

Falou do imenso orgulho que foi conseguir um agente em NY e ter sido publicado pela Random House e de ter boas críticas no The New York Times e todos os mais importantes jornais americanos. De como largou a Medicina para se dedicar em exclusivo à escrita. Continua a fazer o mesmo horário. Escreve das 8:30 até à uma e depois das 2:30 às 8 e depois mais um bocado à noite. Porque escrever, segundo ALA, é sobretudo trabalho.

Tem andado a reler Dickens. Cita de memória sobre um filho que vai ver a mãe que está muito doente:
"- Tens dores, mãezinha?
-  Tenho a impressão que há uma dor aqui no quarto mas não sei se sou eu que a tenho".
Deu este exemplo para explicar o quanto é preciso de trabalho e sofrimento para chegar a uma frase destas. 

Não se esqueceu de destacar o quanto estava orgulhoso por ver publicada toda a sua obra na colecção Pléiade, o único português, a par com Fernando Pessoa, a integrar esta lista. E junta-se aos 3 escritores vivos a integrá-la. 

Um monólogo, com argumento conhecido, sem qualquer novidade para os que acompanham de perto os poucos eventos públicos que aceita, usado como guião da sua Lectio Magistralis. Despediu-se com: "Só entre os homens e por  eles vale a pena viver".

O público não teve direito a perguntas mas os seus admiradores tiveram a oportunidade de ver os livros autografados. Teve direito a uma pausa para fazer desaparecer dois cigarros. Filas desorganizadas de mais novos e mais velhos, com a predominância dos mais novos. Auxiliado pela tradutora nos recados que os seus admiradores faziam questão que entendesse, parava de escrever, olhava-os nos olhos, com o sorriso lindo, apesar de contido e tímido. Quase não se lhe vêem os dentes,e aquele segundo de atenção com um sorriso inocente de quem não está a entender o que se lhe está a dizer, mais por causa da surdez do que outra coisa. E responde, delicadamente, com a mão estendida: "Grazie".









quarta-feira, 5 de abril de 2017

Para aquela que está sentada no escuro à minha espera

Este romance é sobre uma mulher de 78 anos que perde a memória e as suas faculdades progressivamente: "sou uma mulher sozinha a perder a memória e o tino". É uma actriz aposentada que tinha pouco talento e andou por teatros manhosos a declamar patetices que ninguém ia ver". Nasceu em Faro e mudou-se para Lisboa. Teve dois maridos. Não fala. Quando fala, diz frases sem nexo. E vive de recordações do passado. Não se lembra, sobretudo, de acontecimentos recentes. Só a memória antiga permanece, e mais importante, a relação que ela tem com o pai. É isto que é dissecado ao pormenor.

O romance divide-se em três partes: primeiro, segundo e terceiro andamentos. A polifonia, tão característica, mistura-se, neste caso com uma sinfonia não muito desafinada composta de memórias antigas, que se confrontam com a realidade e com a imaginação, e algum desvarios.   “A noite é esquisita (...) as sombras tornam-se coisas verdadeiras e as vossas verdadeiras sombra (...) é noite o astro saudoso rompe a custo o plúmbeo céu (...) há noites em que adormecemos de mão dada e acordamos sempre sozinhos, por muito que não fujamos morreremos sozinhos".

Os personagens principais são a mulher sem memória, a senhora de idade (que cuidava dela e que tem um filho que morre), o sobrinho do marido (que é interesseiro, recebe a pensão e herdará o que é dela., a mãe (mais uma vez autobiográfica, e que tal como a sua, não tem grande instinto maternal e, neste caso, tem ciúmes da cumplicidade e da relação do marido com a filha), o médico e o pai (que é a sua grande ligação afectiva. Uma reunião de mundos que envolve o passado e o presente e pessoas vivas e que já morreram numa convivência paralela. Os personagens, maioritariamente, não têm nome, uma característica livros de ALA. Esta senhora sem memória foi uma actriz com pouco talento que se casou com... e era filha única. Tinha uma relação tocante e muito próxima com o pai. Com a mãe era o oposto. Personagens sempre tristes e deprimidos: "o meu avô no género calado, sem sorrisos, desatento de nós, ao reformar-se ficava de pijama o dia inteiro examinando a barriga" – uma frase tão”António Lobo Antunes (ALA).

Por oposição ao romance anterior, volta ao naperon e à classe média baixa, à falta de dinheiro. Mas os temas como solidão, falta de amor e traição, permanece. Os assuntos sempre abordados por ALA repetem-se: a falta de amor entre casais, a falta de interesse da mulher em relação ao marido, a atracção do médico pela assistente, o director do teatro que usa o seu pequeno poder para se aproveitar de uma actriz sem talento, a mãe que rejeita a filha, a falta de ambição, o marido maltratado pela mulher. O passado,o quotidiano e as suas personagens tão características misturam-se. Neste livro, mais marcante, a abordagem da velhice, da solidão e da angústia que isso causa. Mas sobretudo, a perda de memória: "As palavras não me vinham”. A perda da dignidade es questões existencias: “perder as capacidades em casa ou num lar, o que será melhor?”. Pobreza. Doença. Vergonha. Pudor. A indignidade da velhice: o nosso mal é durarmos demais (...) É assim que se acaba (...) Há alturas em que o desespero sobressalta a meio da noite (...) Afinal estar vivo é isto? Não sei se cosia com as mãos ou com os óculos...”. O tempo e a cruel passagem dele : “Ajudem-me a voltar a ser eu (...)  o tempo anula tudo (...) afasta-se do amor, abandona-o, esquece-o (...) A idade é uma gaita (...) tudo se gasta, é a vida (...) Não tinhas o direito de te tornar horrível (...) Que forma de acabar (...) Nada dura para sempre (...). Sexo, um dos grandes assuntos da humanidade, neste caso abordado do ponto de vista de obrigação e da infelicidade num casal "isto não é fole de ferreiro não te chegou uma dose? (...) diz amor diz (...) o crucifixo a bater contra a cabeceira da cama, primeiro muito ao de leve, depois menos leve, depois com força, depois cada vez com mais força e depois, finalmente, em estrondos tão intensos (...).

E as frases tão bem escritas por ALA: “São iguais às baleias os homens, ainda que morem longe morrem na mesma praia (...) Um dos pés nu e essa solidão do pé comoveu-o (...) A velhice não é roubarem-nos o futuro, é terem-nos roubado o passado (...) os homens gostam de acabar nos nossos braços murmurando-nos o nome normalmente errado, um nome de mulher, não importa qual, torna a eternidade habitável, encara-se em paz o túnel e a lâmpada ao fundo (...) com o peso da solidão do domingo inteiro em cima (...) segurando os músculos da cara para que não lhe víssemos a dor e via-se a dor nas sobrancelhas, via-se a dor nos caninos à mostra (...)o motor do gato já não roçava por mim porque os bichos dão conta, vão-se afastando da gente, acham que deixámos de ser nós, evitam-nos (...) a tragédia, como dizia o outro, não é ser velho, é envelhecer (...).

Um livro perturbador sobre a perda e a falta de memória. E como o nosso fim será igual: só.


sexta-feira, 24 de março de 2017

Mísia e as palavras – Poetas e cantautores

Mísia elegantemente vestida com um vestido preto. Sobe ao palco e senta-se numa mesa. Cabelo impecavelmente penteado. Os anos parecem não passar por ela. Começa por agradecer à directora do Museu do Fado pelo convite para esta residência artística. Apelida-a de conversas com o público, com pessoas que não a conheciam ou para pessoas que acompanham o trabalho mas que querem conhecê-la melhor. Enaltece a plateia, o público, como lhe chama. Esse público, e essa interacção é que fazem que cada concerto seja diferente. Realça que nesta conversa não falará sobre a história nem sobre a evolução do fado. Considera que há gente muito mais preparada, muitos musicólogos e muitas fadistas, como por exemplo, a Aldina Duarte que dominam o assunto. Neste fim de tarde foi convidada  “para falar de mim” o que é “estranho e constrangedor” nas palavras da própria.

Nestes 25 anos de carreira profissional considera que o corpo principal do seu trabalho foi a colaboração e interacção directa com os escritores, poetas e compositores. Considera um privilégio ter poemas que foram e são escritos especialmente para a sua voz. Contou a experiência de, antes de cantar profissionalmente, ter tido 4 anos de aprendizagem numa casa de fado onde cantava a Beatriz da Conceição – “a melhor professora que podia ter, cantava com uma verticalidade, aquelas costas eram um fio de azeite... foi um grande exemplo para mim, como ela tratava as letras, uma pessoa que não teve grande instrução académica, tinha uma dicção inteligente, não fazia voltinhas, não se tratava de fazer circo, nem performance, tratava-se de pôr cá fora o que estava a sentir”.

Quando começou em 1991 o fado não estava na moda, não tinha grande prestígio cultural nem comercial e não vendia. A excepção, segundo Mísia, era a grande Amália – “a maior fadista de todos os tempos, para mim”. Concordo absolutamente que Amália foi e é a maior de todas. Não só fadista mas também intérprete e poetisa. Mas não nos podemos esquecer como Amália após a revolução de Abril foi (quase) esquecida e ostracizada. Honra seja feita a Mário Soares que a homenageou nos finais dos anos 80 nos apoteóticos concertos do Coliseu. Isso devia ter sido um grande bálsamo para ela que como dizia “nasceu para ser triste” e que no fado Grito de despedida escreveu: “...que ao fim do além da vida/ do que já fui tenho sede/ sou sombra triste/ encostada a uma parede...”.  O fado, em geral, estava ainda com a marca do estigma do Estado Novo. No início dos anos 90, quando Mísia dizia que queria cantar fado com aquela imagem cosmopolita – de mini-saia, argolas enorme e cabelo à Beatriz Costa – as pessoas diziam-lhe para cantar outra coisa. Mas ela foi perseverante e teimosa e achou que o segredo era ter grandes nomes da literatura portuguesa a escreverem para o fado. Sem falsas modésticas (porque a modéstia fica para quem dela precisa) referiu que foi a primeira pessoa que convidou Jorge Palma, Sérgio Godinho, Vitorino , entre outros, a escreverem para fado. Aos grandes poetas, escritores e compositores deve o repertório que tem. Tem como privilégio e uma das maiores satisfações pessoais ter um poema, o único poema que se conhece, de Agustina Bessa Luís – “essa grande escritora do norte” [e que tão mal tem sido tratada pela sua editora que resolveu tirar os seus livros de catálogo e rescindir o contrato por falta de vendas. É no que dá quando a arte deixa de ser um gosto e um prazer e passa a ser números. O capitalismo no seu melhor. Agustina, pelo que foi, pelo que é, não merecia um tratamento assim. Mas este país tem uma memória tão curta]. Mísia, antes de cantar o poema de Agustina, desculpa-se pela “bruta laringite”. Disse que não seria perfeito mas que seria muito sentido. Que beleza tamanha. Mísia a cantar é de uma verticalidade impressionante, como a “mestre” Beatriz da Conceição. Recta, hirta, com a cabeça a apontar para o alto, olhos fechados, parece (até) mais alta. Tem uma voz segura, imponente mesmo estando doente. Se não dissesse que estava com uma laringite eu não adivinharia.

Voltou, uma vez mais, a enaltecer a importância e a generosidade dos “seus” poetas, escritores e compositores em usar as palavras deles. Falou de um episódio, numa tournée nos EUA, quando estava a dar uma série de entrevistas e era difícil explicar-lhes a importância dos grandes escreverem para o fado: “Era como se o Hemingway escrevesse para country music”. Nomeou, individualmente, cada autor que para ela escreveu: Agustina, Lídia Jorge, Hélia Correia, José Luís Peixoto, Vasco Graça Moura, Paulo José Miranda, Mário Cláudio e Saramago (acho que se esqueceu do Tiago Torres da Silva). Explicou que cantou António Lobo Antunes mas que este não escreveu especificamente para ela, mas para Vitorino. Os poemas que não entraram no trabalho de Vitorino foram cantados por Mísia. É esta a verdade da história. “Saramago é uma pessoa à parte. Gostava muito dele como pessoa e como escritor. Ia começar a trabalhar com ele num projecto muito muito importante, que quero ainda algum dia fazer. Na altura em que nos deixou e o projecto ficou orfão”. Todas essas pessoas não tiveram medo de emprestar as suas palavras para uma fadista, como a própria de autointitula, outsider, alternativa, na margem. Vasco Graça Moura fez 90% das letras de um disco que era inspirado nas músicas de Carlos Paredes. Nos anos em que esteve a viver em Barcelona, ouvia Amália e Carlos Paredes. “Não deixava qualquer dúvida que eu era mesmo daqui. Mesmo sendo filha de mãe espanhola. Tinha mesmo que voltar”. Vasco Graça Moura tinha uma grande intuição, erudição, ele sabia música, sabia muito bem onde deviam estar as tónicas das palavras.

Outra das poetisas a quem recorreu foi Amália Rodrigues, um caso raro de muitos talentos reunidos na mesma pessoa. Uma inteligência a cantar. Não apenas a voz miraculada. “A voz é uma coisa que se nasce com ela. O que se faz com ela é que é importante. Imaginem a Celine Dion” – disse entre risos.  Referiu também a Amélia Muge, tendo sido a primeira pessoa a pedir-lhe uma música. E a partir daí tornou-se uma figura incontornável do fado. Não se esqueceu do episódio de o Vitorino aceitar escrever “para uma louca” após ter saído da EMI-Valentim de Carvalho. O facto de ter tido sempre grandes autores associados à sua música fez muitas vezes pessoas quererem aprender português e conhecer os poetas que ela canta. “Metade Almodovar e metade Manuel de Oliveira”. A participação de todos estes autores no repertório de Mísia elevou o nível do seu trabalho.

Cantou Ciúmes de um coração operário um poema que Vitorino escreveu em 1992 que era o verdadeiro “novo fado”. E depois o poema de Fernando Pessoa Autopsicografia com o fado Meia-noite. Apresentou os músicos “que tornam possível que este momento esteja a acontecer”: André Dias na guitarra portuguesa (um músico da nova geração que “tem as pestanas mais bonitas que já vi”), Didi na viola e Luís Cunha no violino. Na primeira fila estava Mário Pacheco e Sandra Correia. Alguns amigos que vêm de fora ainda os leva ao Clube do Fado. 

Perguntou à plateia as horas e às 7:45, au point, senta-se sempre. Arrancou mais gargalhadas. “Estava preocupada por não ter aqui um relógio e ia passar a hora de eu me sentar”. No início quando actuava, cantava e ia embora e perguntava aos amigos “Notou-se muito que sou filha de mãe espanhola?”. Somente pelo pânico de acharem que não era uma verdadeira fadista. Hoje, não se preocupa mais, porque quem não a acha uma verdadeira fadista não importa o que ela faça.

O melhor deixa-se para o fim. Apresentou a convidada como sendo do seu coração. Convidada especial, também, do Artur (um dos gatos de Mísia). Já colaboraram muito. Já escreveu um poema para um dos discos da Mísia. Será a convidada no espectáculo de Mísia no CCB no dia 19 de Maio. “É com imenso carinho, ternura e admiração que eu peço à Adriana Calcanhotto para se juntar a nós”. Adriana que assistia na primeira fila, subiu ao palco casual chic de óculos, com um casacão de lã cinzento, calças de ganga, sapatos oxford camel e camisa aos quadrados de flanela cor de vinho e branco. Sentou-se. A viola não parecia ser a dela. Ou pelo menos, não é a que tem usado nos últimos concertos ou em Coimbra. Usou a piada do costume “passamos metade do tempo a afinar o instrumento e a outra metade a tocar com ele desafinado”. Usou o iphone para o afinar. Enquanto afinava foi explicando que não tem tocado e que adorou o convite para tocar. Disse que aprendeu “horrores com esta mulher” sobre fado e sobre a possibilidade de pegar num fado tradicional e colocar outro poema. Falou de ter ficado escandalizada quando há uns tempos atrás lhe disseram que quando Amália cantou Camões foi um escândalo. Mas considera que isso faz sentido, quando ainda há quem fique escandalizado pelo Bob Dylan ter ganho o Nobel da Literatura. “Apesar de a poesia existir antes da escrita”, citando o exemplo da Ilíada de Homero que seria para ser transmitida oralmente. Depois, falou do poeta com o qual "tem mais intimidade, não o que gosta mais" - Mário de Sá-Carneiro. E cantou a lindíssima Senhora dos olhos lindos (que para mim é um fado). 

Quando Adriana se juntou a Mísia na mesa foi recebida com um “Agora é um momento muito importante”: um prato de bolinhos de bacalhau. E Adriana às gargalhadas juntamente com o público. A Adriana em todos os concertos que sabe que a Mísia está ou quando lhe perguntam como conheceu a Mísia ela conta esta história. “Conta você. Eu gosto quando ela conta me imitando”. A Mísia tinha um namorado que era “um erro de casting” e por causa dele conheceu a Adriana. Quando chegou a Portugal fez o que todos os brasileiros fazem quando chegam ao hotel: ligar a tv ("fazia", corrigiu imediatamente Adriana, pretérito imperfeito, não mais). E viu um grande close up da Mísia a dizer "coisas insensatas". Ficou impressionadíssima com aquilo. E aí perguntou ao “erro de casting” quem era aquela cantora. E uma das características do erro de casting é que ele nunca assumia nada e disse apenas “Ah, eu conheço” (não disse que era namorado da Mísia). E aí combinaram ir ao Clube de Fado e a Mísia cantou para a Adriana. Como não se lembra nunca de almoçar ou jantar e como não tinha jantado pediu dois bolinhos de bacalhau porque era uma coisa fácil de comer. Aí comeu um bolinho de bacalhau e foi cantar. Quando regressou à mesa comeu o outro e a Adriana disse: “O segundo ela mereceu”. Esta conversa mostrou o humor e a cumplicidade destas duas amigas que são também grandes artistas mas que aqui estavam como em casa. “Quando ela canta me faz chorar e quando não está cantando faz-me chorar de rir”.

Mísia, ao contrário do que aparenta não é distante nem altiva. Tem um humor fenomenal. Tem em comum com  Adriana o humor, a paixão pelos animais e o gosto pela polenta frita de Porto Alegre. Adriana referiu que grandes poetas partilham deste gosto pelos animais, por ex, Alexandre O’Neill, “poeta fetiche de Amalia”- como lhe chamou, que escreveu sobre a pobreza da condição humana a partir dos animais. MÍísia pediu a Adriana para cantar outro tema, do mesmo Mário de Sá-Carneiro. Falou do restaurante Petit Riche que frequentava em Paris, do qual era assíduo. Adriana aproveitou para falar que Mário de Sá-Carneiro estudou Direito em Coimbra, obrigado pelo pai. Nesses 3 meses ele viveu num quarto (que deveria ser uma pensão e não um hotel). Adriana conta que quando foi convidada para passar o semestre em Coimbra pediu: E se eu ficasse no quarto do Mário de Sá-Carneiro?”. E que toda a gente a desaconselhou vivamente e a demoveram daquela ideia. “Podemos levá-la lá para ver o quarto mas ficar lá não pode”. E ela continuava “Mas porque não pode?”. “Porque aquele hotel paga-se por hora!”. Terminou com chave de ouro com O outro.

Soube a tão pouco. Não se percebeu a passagem do tempo. A plateia estava cheia. E atrás de mim estava o temido Nuno Pacheco, crítico de música do Público. Para quem for de Lisboa estas conversas são imperdíveis. Vale por tudo. Vale pela inteligência, pelo humor, pela conversa, pelas histórias por contar da persona Mísia. A diva, essa, voltaremos em breve a protagonizar Geosefine no TAGV e a interpretar os seus poetas no palco do CCB.

Copyright: Mariola Landowska

Copyright: Mariola Landowska

 P.S. Eu sei que as fotos não são o melhor mas foram as únicas que encontrei. Não tirei fotografias. Acho que a memória deve guardar tudo para sempre. A Adriana costuma dizer que "as pessoas fotografam mais quando gostam mais da música". Eu não, lamento, não consigo fazer (bem) duas coisas ao mesmo tempo. Perderia o momento único da interpretação e a fotografia ficaria, com certeza, péssima. 

quinta-feira, 23 de março de 2017

O discurso sublime de António Lobo Antunes

Há umas semanas deu uma grande entrevista ao Expresso muito diferente daquilo que o apelidam. Sincero, demorado, descritivo.

Não vi a gala da SPA na RTP. Cheguei ao vídeo do discurso pela Fernanda Mira Barros. No agradecimento do prémio da SPA Vida e Obra não parece o grande escritor. Parece pequenino. e (ainda) mais velho. O tempo não o tem poupado. Apesar disso, parece um menino grande. Tímido. Tom de voz muito baixo. Agradeceu emocionado ao Presidente da República que lhe lhe enviou um bilhete sobre um livro que tinha saído. Congratulou-se por termos um Ministro da Cultura que é um grande poeta. Disse que escrever foi o que sempre lhe deu sentido à vida. E falou do Senhor Barata que tem um cancro e ao qual prometeu dizer “adeus”. “Livre-se de não vencer essa puta!”.

Este é a pessoa que tive a honra de conhecer. O maior escritor vivo. A maior parte das vezes quando conhecemos os génios ou os nossos ídolos temos  a tendência para nos sentirmos defraudados. O António é o contrário: perde tempo com os seus leitores, é um grande ouvinte (apesar de ser “surdo como uma porta”, como ele diz), terno, meigo, tem uma voz linda, pausada, sorri muito, agradece na mesma proporção e adora NY.


Gosta de Jorge Amado, mais do homem do que do escritor, e pergunta quem é que o lê hoje. Eu! Eu adoro Jorge Amado. Parece sempre um menino grande que teve falta de amor e afecto. O menino prodígio que tem uma memória de elefante, que aprendeu a ler com 4 anos mas que se recusou durante três anos a decorar 5400 g de Anatomia, embora tendo uma memória prodigiosa. Nunca deixou de ser um menino tímido “que se virava para a parede” para não enfrentar as pessoas. Costuma dizer que era muito bonito e que agora é um monstro. Detesta levantar-se cedo. Tem uma vida monástica. Preparou-se a vida inteira para o talento que sempre teve: escrever. Ainda hoje escreve com um livro grande aberto (dos tempos em que fingia que estava a estudar enquanto escrevia).

Copyright: Sociedade Portuguesa de Autores (SPA)

sábado, 10 de dezembro de 2016

Deus-dará de Alexandra Lucas Coelho

Este livro é uma exaltação sobre uma cidade. São Sebastião do Rio de Janeiro. A “melhor cidade da Via Láctea”. Sete dias nesta cidade, na semana do carnaval. Este livro faz-nos ter muita vontade de a conhecer. Essa cidade tão tudo: exagerada, diferente, insegura, tão cheia de contrastes, cheiros e cores. Uma cidade que exalta a força da natureza e a forma inatingível dessa beleza que não foi feita pelo Homem. Como os livros de Jorge Amado que nos mostraram a Baía, este mostra-nos o Rio real. Nu e cru. Como diz a personagem portuguesa, Inês: “Incrível, é como chegar a Nova Iorque (...) Nunca aqui estive, mas estive. Porque a gente cresce com isto, estas imagens”.

O livro tem exactamente 551 páginas e é viciante. Não sei como o classificar. Já que as pessoas gostam tanto de dar um nome às coisas: é ficção, mas também é memória e ensaio e deve ter muito de autobiográfico. O que sei (bem) é o trabalho de pesquisa contido nele. É um cruzamento de histórias dos sete personagens principais no presente (não necessariamente por ordem cronológica  nem no mesmo espaço temporal) com o passado da descoberta do Novo Mundo, com a independência e respectiva abolição da escravatura, com o Brasil presente, com a escravatura mascarada.

Gabriel Rocha “pirata crioulo”, tem uma pala no olho esquerdo. “O olho se foi num estilhaço, briga de facções carioca”s. É o mais cortejado sociólogo do IFCS, bastião da Universidade pública. Tem um filho adolescente de 14 anos, viciado em laptop, celular e playstation.

Judite Souza Farah, 1,80 m, um arraso, irmã de Karim e Zaca, faz parte da elite carioca Não conduz. Está prestes a ser sócia do maior escritório de advogados do Rio de Janeiro. Ficou com Gabriel que a deixou em poucos dias. Casar-se-á com o rico Rosso de quem ficará viúva. Largará a advocacia.

Zaca, irmão de Judite. Fez a biografia do maior sambista brasileiro e ficou famoso aos trinta. Descobre-se homossexual.

Lucas 90 kg, 1.97 m. Nasceu em 91,índio arraçado de negro e de branco. Entrou em História na UERJ. Orfão e mudo. Ficou assim depois do trauma de encontrar a mãe pendurada numa árvore e depois de quase ter sido sufocado pelo assassino dela. Trabalha num elevador enjaulado por horas como o da estação 168 em NY  (Columbia Medical Center). Volta a falar graças ao amor de Noé e depois da experiência psicadélica com ayahuasca.

Noé “carapinha black power”, universitária bolsista da favela, finalista de Ciência Política na PUC. Engravida de Lucas.

Tristão nascido em 83. Português, antropólogo e católico. O seu nome vem do navegador Tristão da Cunha. Está nos antípodas do carioca: sem músculo e a perder cabelo antes dos 30.

Inês, portuguesa, sozinha na vida, franja curta, sobrancelhas separadas, boca bem vermelha, pele bem branca. Fuma. Veio de Beirute onde foi deixada pela namorada Yasmine. Tem a cabeça no Líbano. Yasmine saiu de Beirute e foi para a Tasmânia onde abriu uma pousada.

Li o livro em pouquíssimo tempo, apenas 5 dias (antes de dormir). Este texto demorou-me bem mais. Só sei que sou mais rápida a ler do que a escrever. A palavra que me ocorre é epopeia. Talvez um romance épico recheado pela “crueza” da verdade. A verdade é uma coisa difícil de se falar e difícil de se ouvir. Há factos, que talvez soubéssemos, mas que nos foram escondidos ou diminuídos, e quando sabemos deles neste livro temos um grito de revolta. Talvez a interiorização da verdade contida neste livro me choque tanto. Ocorre lembrar-me dos livros de António Lobo Antunes e da guerra colonial tão pouco explorada na nossa literatura. Os africanos que combatemos em África, das barbaridades que lá cometemos e que a culpa, por mais que até a queiramos assumir, não consigo dizer quem tem. Não sei a quem apontar o dedo. É de quem está ao longe a mandar? Quem dava a ordem? Quem tão jovem e ingénuo, tirado do país sem querer, e lá longe num país distante, sob o efeito daquela adrenalina do momento desata a matar, pela catarse de sentir-se muito grande no meio da multidão? Aquilo que António Lobo Antunes exalta sempre da coragem dos homens com quem esteve em África, que são os que menos culpa têm e que tão marcados ficaram.

O narrador, que é um brasileiro, é a voz de Alexandra Lucas Coelho. É um narrador que olha de fora, exterior a cada personagem. Não sei o que os brasileiros acharão mas eu acho que o narrador é bem brasileiro. Alexandra, parece conhecer o Rio como os cariocas que são “bonitos, bacanas, sacanas, dourados, espertos e que não gostam de sinal fechado, nem de dias nublados”. E só alguém com muito mundo, com muita experiência do Brasil, uma quase carioca (que não nasceu no Rio) podia ter escrito um livro destes sem “apanhar dos dois lados”. O lado do colonizador e o lado do colonizado, se é que existe um lado, se é que as coisas se dividem (tão simplesmente) em preto e branco. O lado da culpa ou a total ausência dela. E o melhor de tudo: o que aprendemos com este livro. Uma verdadeira lição histórica. E as referências bibliográficas. Obriga-nos, pelo menos, a pensar. E depois, uma lição literária e musical: Nelson Rodrigues (esse grande cronista que eu já li há algum tempo porque comprei alguns dos seus livros e biografia em São Paulo), Machado de Assis esse mulato órfão de mãe desde criança, que era disléxico, epiléptico, doente dos olhos, casado com uma portuguesa, fundador da ABL e não tinha filhos), Carlos Drummond de Andrade, Caetano...

Este romance mistura muito bem o presente com o passado. Para além de ficção inclui factos históricos. Aprende-se muito com este livro. Os portugueses, que poderiam nem pensar nisso, ou sentirem-se redimidos com o passado histórico, da descrição d’Os Lusíadas’ de Camões que exalta a epopeia portuguesa pelos mares. Um nobre povo, quase à semelhança do povo judeu, o escolhido, põe a descoberto o lado negro do “achamento” do Brasil. Coloca o dedo na ferida e coloca sal em vez de bálsamo. Esta visão fria e crua do nosso passado colonial, de um país colonizador à força, é muito pouco comum quando é uma portuguesa a fazê-lo. Alexandra, é por isso, uma das poucas.  Faz-nos (re)lembrar os índios que nós matámos e os milhões de africanos que tirámos de África e que escravizámos e que estão apagados da maioria dos manuais escolares.  Nós que exaltamos os nossos descobridores e navegadores mundo desconhecido adentro, aprendemos (apenas) que a História de Portugal é só triunfo, ousadia e audácia. E este livro traz, relatos verdadeiros. Eu que sou cientista, que leio muitos ensaios, romances e biografias mas que não leio muito sobre história, fiquei chocada com o que li do Vasco da Gama que está ao lado de Camões nos Jerónimos. Nós que aprendemos desde sempre que a nossa colonização tinha sido a melhor, que nos misturamos, que criamos a miscigenação, que criamos uma nova raça, os mulatos, não foi isso. Pouco nos questionamos que essa mistura foi com toda a certeza feita à força assim como os militares da Guerra Colonial no Ultramar abusavam e violavam nativas (obviamente) sem o seu consentimento. Isso são os factos que ninguém quer falar. Aquilo que ficou morto e enterrado e que ninguém quer trazer à luz do presente com a desculpa que ninguém tem culpa dos erros dos nossos antepassados.

Este romance mostra que há sempre novas possibilidades de se olhar o mundo. As múltiplas possibilidades. O que me surpreende é a base teórica, bibliográfica e factual deste livro. Não se trata de um romance que se limita à voz da imaginação mas aos factos históricos negros e crus. Faz-nos pensar (tanto). Quem sabe redimir dos nossos pecados, tão judaico-cristãos?

Para quem como eu, não conhece o Rio e apenas o imagina, fica ainda com mais vontade. Parece uma cidade imprevisível, caótica, inesperada onde a alegria está (sempre) à espera de acontecer.

E este romance que insinua um apocalipse, e uma das personagens diz “que nunca acontecerá aqui”, mesmo quando tudo parece perdido, quando se elege um Prefeito evangélico que acredita no criacionismo, achamos que tudo está (mesmo) perdido e que não terá solução. Mas é o contrário, esta cidade (Rio) e este país (Brasil), são sobreviventes, reaprendem e renascem sempre reinventando-se. E agora, que escrevo numa altura em que a eleição Trump parece ser o apocalipse temos a esperança que ao contrário da música que diz “anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar”, o mundo não acabe (de vez).


terça-feira, 27 de setembro de 2016

Caetano Veloso e António Cicero à conversa com Inês Pedrosa no FIC

Cascais, nove de Setembro de dois mil e dezasseis

À horinha, ao contrário de muitos acontecimentos em Portugal, os convidados estão todos na sala que está cheia. As três primeiras filas estão reservadas a convidados: políticos, escritores, editores, produtores, amigos, intelectuais: Ministro da Cultura, Presidente da Câmara de Cascais, Paula Lavigne, Lucinha Araújo (mãe de Cazuza), Teresa Cristina, Inês Mota, Jorge Reis Sá, Marcelo Pies, Pedro Corrêa do Lago, Pilar Homem de Mel, David Ferreira (filho de David Mourão-Ferreira), Leonor Xavier, Maria João Lopo de Carvalho (e até Lili Caneças que não se senta nos lugares da frente). Estes e o resto do público são tudo gente que lê livros. Há quem fique em pé.

Inês Pedrosa conhece bem estes dois pensadores do Brasil. Para além de excelente moderadora, é uma contadora de boas histórias e percebe-se a intimidade que tem com eles. Nota-se o quão bem se preparou para esta conversa e confessa ter lido novamente “Verdade Tropical” para esta ocasião. António Cícero é um filósofo de profissão, poeta e escritor de letras de música (para os conservadores que consideram letra de música menor do que poema). Caetano Veloso procurou ser filósofo, estudou Filosofia mas abandonou a carreira cedo. Quis ser pintor e cineasta.  Fez um filme, dizem que muito interessante, chamado “Cinema falado. É cantor, compositor, escritor (“Verdade Tropical” e muitas cronicas escritas ao longo dos anos), pai e avô. Caetano e Cícero têm uma amizade longuíssima, já descrita na sua autobiografia e uma relação pessoal e intelectual muito forte.  Estiveram juntos em 2009, na Casa fernando Pessoa, para falarem na influência da “Mensagem”. Inês Pedrosa contou que Fernando Pessoa se candidatou a um lugar de bibliotecário na Câmara de Cascais, na Biblioteca Castro Guimarães e foi rejeitado. Ficou em segundo lugar porque em primeiro ficou um senhor de Cascais. Esta história arrancou gargalhadas do público presente.

Inês Pedrosa falou também no acaso ou coincidência de há precisamente 10 anos atrás, neste dia, o Prémio Camões ter sido entregue na Fundação Biblioteca Nacional pelo então Ministro da Cultura brasileiro, Gilberto Gil à escritora portuguesa Agustina Bessa Luís.

Inês Pedrosa faz uma provocação: “Para que é que Caetano fala tanto se ele o que sabe é cantar?. Fala de “Verdade Tropical” essa autobiografia de Caetano Veloso que é muito mais do que uma biografia mas uma reflexão sobre o Brasil, relação da música com as outras artes, e o estado da política brasileira na época. É também uma reflexão profunda sobre o que é o Brasil, os caminhos que o Brasil seguiu. Um livro fascinante com o qual se aprende muito. Nas últimas férias li-o pela quarta vez. É um livro a que sempre volto. É um livro obrigatório para quem quer conhecer a história da música brasileira. Para além disso, faz observações muito pertinestes e elogiosas sobre António Cícero, que Caetano considera um dos maiores filósofos brasileiros. Falou-se também sobre Mário de Andrade e Oswald de Andrade.

Quem também não foi esquecido foi Agostinho da Silva. Caetano contou que o Professor foi para a Universidade da Bahia para criar o instituto de estudos afro-orientais. E que o Reitor criou a cadeira de Filosofia do teatro para que o Professor para leccionar na Escola de Teatro. Caetano referiu, também, que o Professor tinha uma amor profundo por Portugal e pelos portugueses (“o povo que criou o globo terrestre”). E que o Brasil é uma espécie de aberração. Um país de dimensões continentais, na América, no hemisfério sul. E que Portugal é um país pequenino territorialmente e que aprendeu a tornar-se pequenino politicamente ao longo dos séculos. E Caetano afirmou que o Professor Agostinho ambicionado ambicionava resolver essa charada. Descreveu também o encontro com o Professor Agostinho em Lisboa. Caetano estava exilado em Londres e veio fazer uma apresentação a Lisboa: “Roberto Pinho que era meu amigo e tinha sido discípulo directo do Professor Agostinho falava-me muito dele”. Marcaram no hall do hotel e conversaram, não por muito tempo. “Eu fiquei um pouco intimidado. Não tinha muito o que dizer. Ouvi algumas coisas, falei muito poucas coisas e me senti meio vago. Ele se despediu, alegre, e se foi. E depois escreveu para Roberto Pinho, e digo isso sem falsa modéstia porque aconteceu assim, mais para que se saiba sobre o Professor Agostinho do que sobre mim. E escreveu simplesmente: Gostei do seu amigo. Pensa bem, fala bem. Age bem. Eu não tinha feito nada. Esta é toda a minha história sobre o Sebastianismo”.

Falou-se também de Eduardo Lourenço (“Do Brasil: fascínio e miragem) e Leonor Xavier (“Portugueses do Brasil e brasileiros de Portugal). Outra das histórias contadas `foi sobre quando os escritores portugueses são convidados para palestras em universidades americanas e estão 200 alunos americanos na plateia: “Quando estamos com o ego a começar a subir perguntamos qual a razão de quererem aprender língua e literatura” e respondem-nos: “Queremos ir ao Brasil porque gostamos de música brasileira.

José Bonifácio foi o nome que Caetano quis falar desde o início. Português, estudou na Universidade Coimbra Direito e Filosofia. Viveu em Portugal e teve uma vida intelectual de alto nível na Europa do séc. XIX. Ficou conhecido como mineralogista e descobriu o elemento químico lítio. É conhecido como “Patriarca da Independência” pois foi um importante ministro com muitos poderes de D. Pedro I, Imperador do Brasil (D. Pedro IV, em Portugal). Fez um plano para o Brasil que concebeu à luz dos seus conhecimentos mineralogistas, “amálgama”. A proposta dele era a seguinte: (i) abolir a escravatura (acabar com o horror da escravidão) e (ii) passar a considerar aqueles que haviam sido brutalizados pela escravidão, os negros, como irmãos e co-cidadãos e o mesmo com os índios. Seria o maior etnocídio se o plano de José Bonifácio tivesse sido colocado em prática. Era seu objectivo criar uma nação nova: amálgama racial e cultural. E criação de uma nova raça: mestiços. Um verdadeiro visionário no séc XIX com a ideia de multiculturalismo.

Inês Pedrosa falou de uma das suas noites mais comoventes da sua vida, no Porto, onde foi assistir a um espectáculo do Caetano. Nessa noite um dos filhos de Caetano foi encontrar-se com ele e Caetano, no fim do espectáculo, quis mostrar a cidade do Porto ao filho. Contou que andaram de carro pelas ruas e pontes do Porto e que Caetano começou a explicar o liberalismo, os ingleses, o vinho e que parecia saber mais e melhor tudo do que ela. Estava a explicar como se a cidade fosse dele e que lhe pertencesse. E quando Caetano foi convidado a comentar disse simplesmente: “Era o Zeca, o meu segundo filho, primeiro filho dela (apontando para Paula Lavigne na plateia). Quis mostrar-lhe o Porto. O que eu sabia eu queria dizer a  ele. Ele é o Zeca...”.

No final, ainda deu tempo para falar da situação política do Brasil. António Cícero falou do poder judiciário do Brasil. Da impossibilidade que existia há uns anos de alguém poderoso ser preso e que as coisas estão a mudar. Que isso é um enorme progresso. Pessoas importantes que são julgadas e presas. Caetano, desta vez, não pronunciou nenhum “FORA TEMER”. Mas referiu que se lhe tivessem dito há uns anos atrás que o Fernando Henrique Cardoso ia ser o primeiro Presidente democrático do Brasil e que a seguir ia ser Lula: “Eu iria dizer que era um sonho”. E foi possível”.
Ainda houve tempo para a piada sobre o que é que a água de Santo Amaro tinha por ser onde Caetano e Bethânia nasceram. Caetano, respondeu, rindo que “Santo Amaro tem uma das água mais poluídas por chumbo do mundo”.

Inês Pedrosa queria que Caetano lesse qualquer coisa mas ele disse “Eu não sei ler”. E Cícero terminou com o seu “Guardar”.









quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

"Pai Nosso" de Clara Ferreira Alves

Este livro é dos melhores que li nos últimos tempos. Arrisco-me a dizer que, talvez, um dos melhores da última década. Embora, não sabendo se algumas partes deste livro são autobiográficas, parecem ser. E como diz Lobo Antunes “ no fundo, tudo o que escrevemos é autobiográfico”. Quando as expectativas são muitas, a desilusão é frequente. O que não acontece com este livro. Não está nele (simples) pesquisas. Ou muito trabalho. Ou horas de labuta e inspiração.  Nele está tempo. Muito tempo. A passagem do tempo. Sem atalhos. Maturação. Vivências. Vida. Viagens. Conhecimento. Realidade. Não o que se lê (apenas) nos livros. Este livro não seria o mesmo se Clara Ferreira Alves (CFA) não conhecesse tão bem as cidades sobre as quais escreveu. Ela viveu-as. Como a própria assumiu, pagou do próprio bolso muitas das estadias. Muitas cidades. Muitos países. Israel, Iraque, Afeganistão, Turquia, Síria, Marrocos, Nova Iorque, Londres, Paris, Lisboa.  O Médio Oriente no seu esplendor. E neste livro estão muito marcadas e perceptíveis (para quem conhece) as influências de Graham Green e Eça. Pelo menos estes dois eu consegui identificar.  E o amor da personagem principal pela América, por NY, coisa que CFA também parece partilhar.O fascínio pelo Médio Oriente
Uma narrativa feita na primeira pessoa. Cheia de analepses e prolepses. Rewind. Passado. Memória. Play. Presente.
A narrativa começa no presente. Sempre na primeira pessoa.  Uma professora universitária, especialista em Estudos do Médio Oriente. “...um rato de biblioteca”. Foi aprender a diferença entre a teoria e a prática, como (quase) todos os académicos. Beatriz  quer contar a história d’ “O  Fantasma”. Resolve sair da comodidade da academia em Hull aventurar-se a escrever sobre uma fotógrafa famosa. "ela nunca abriu a boca...pode ser que fale antes de morrer...é uma lenda".
Presente. Marie. Maria. "Uma mulher de certa idade que fuma cigarros até meio...A claridade dos olhos corta vidro. A Leica em cima da mesa ... Ela bebe um gin, sempre da mesma garrafa... Gin alemão... É muito alta para portuguesa e deve ter sido muito bonita... Veste-se de preto... Tem voz rouca, daquelas vozes de noites mal dormidas, do sarro dos cigarros e dos copos...”. Fala pouco. Passa muito tempo com palestinianos. Computador. Tapete persa. Dólares. Baton. Óculos escuros. Keffieh. Um frasco de prata vindo de Jerusalém. A sua água benta. "A vista diz tudo sobre o lugar onde estamos". Oiro negro. Ficamos saber que o plástico dos chinelos fica quase sempre intacto, ao contrário da carne. É uma nómada:"...levei a vida a fugir do lugar onde nasci". Os quartos de hotel são a casa dela. Viaja leve: “quando se envelhece aprecia-se a liberdade de nada possuir ou carregar".
Passado. Ganhou dinheiro e fama com a fotografia de uma criança morta.  A Pietá. Um grito animal da mãe que reclama o filho morto. Cuspia saliva e ranho e babava lágrimas. Grunhia como um animal degolado. Aquele dia ficou nela como uma queimadura. “Da primeira morte não se recupera como do primeiro amor”. A mãe dela matou-se depois de uma primeira tentativa de colocar-se na frente de um comboio. Amou Matt como nunca amou ninguém e nunca mais voltou a amar. Comportava-se como uma tonta quando se apaixonou por Matt. Conheceu Matt no bar da cave. "Matt transformou a minha vida em matéria inflamável e esqueceu-se de avisar para não aproximar da chama". Passava os dias a ver Matt: "passo os dias a medir o tempo que escorre entre ver Matt e voltar a ver Matt"..."Um homem que entra pela calada da noite e sai de madrugada"."Amei uma pessoa no labirinto de Jerusalém... Jerusalém é o lugar mais anormal do mundo...em Jerusalém os namorados passeiam sem se tocarem. Cidade Velha pela Porta de Damasco... É uma cidade da guerra, é a cidade de Deus. Os repórteres de guerra nunca dizem guerra, ali. Dizem conflito... Eu gosto dos lugares de guerra quando estão em paz... Foi preciso envelheçer para ver a Cidade Velha de Jerusalém tal como ela é, uma praça de fancaria... É a cidade das pedras e não são pedras iguais às outras, são pedras pisadas pelos pés gretados do filho de Deus... Amei em Jerusalém e amei Jerusalém... Em Jerusalém fui a estrangeira e hoje sou um fantasma.. É o problema dos palestinianos, dos árabes, das seitas do Islão. Fome de sexo.lambem com os olhos as pernas, os decotes, as nádegas das estrangeiras... A Via Dolorosa são seiscentos metros de sofrimento entre a Fortaleza Antónia e o Santo Sepulcro... Há muita mulher sozinha em Jerusalém, muita peregrina, muita do-gooders, muita jornalista com dólares frescos. Muita fome de sexo... Para tormento dos judeus, os árabes multiplicam-se mais. Um suicida tem pelo menos dois filhos se explodir enquanto jovem. Se explodir mais tarde, terá sem ou sete. Uma família tem muitas crianças para sacrificar... Judeus e muçulmanos, israelitas e palestinianos”.  De que lado está?
Esta personagem tem a mesma opinião que eu: "sem um bom ditador, todo o Médio Oriente é um matadouro... Sem uma ditadura nada fica de pé. O selvagem do Saddam mantinha o Iraque unido atando os iraquianos com arame farpado". o que sobra do Iraque? No que se transformou o Egipto? Durante anos mantido debaixo do pé de Mubarak. O déspota do Bashar al-Assad manteve ditatorialmente a Síria próspera. O país que era laico, as mulheres não usavam véu e havia liberdade religiosa. Como está a Síria depois da Primavera Árabe? E a Arábia Saudita, o país mais radicalizado muçulmano, onde reina a sharia, onde as mulheres não podem conduzir, nem votar e têm de andar totalmente tapadas, para dizer o melhor dos males. O ocidente e os países desenvolvidos não condenam isto?
Maria falou da sua infância suburbana. Gostavam de morar nas Avenidas Novas mas moravam em Campolide. O pai era militar e a mãe queria ter estudado mas a família não deixou. Gostava dos escritores russos e franceses. Quando a mãe morreu ficou com uma tia solteira, amarga, azeda que não sabia dar amor. Lia folhetins e chorava no cinema com filmes de terceira categoria. A família dela resumia-se a Beatriz. A única amiga. A família dela. Conheceu Beatriz (a amiga, não a professora universitária) no liceu. "Venho de lugar nenhum e sou parte do provoque foi a todos os lugares. O povo que aprendeu a perder". Sempre se achou demasiado alta num país de meia estatura. Faz descrições perfeitas de quem já viu cadáveres mutilados pela guerra. "O cheiro a carne humana assada é uma recordação". Tem o cabelo bem cortado. Recebeu o primeiro treino de guerra na Jugoslávia. É sempre a que parte nunca a que fica. "Confiava na delicadeza de estranhos" como a Blanche Dubois que sempre dependeu da bondade de estranhos. Nunca olha para trás.
"O Afeganistão foi a minha melhor guerra...a paisagem tinha uma luz libertadora...o Iraque, a Síria, a Líbia, os Balcãs foram más guerras". A rotina é uma salvação.. O amor é ópio. É uma droga. Fica-se agarrado. O amor distorce a realidade mais do que a guerra"...."Enerva-me a mania de cobrir o cabelo  de tornar a mulher numa criatura sem género".... "De todos os países onde trabalhei, o Iraque é o mais viciado, o mais violado, um serial killer serially killed. Dizem que aqui nasceu a nossa civilização. A Mesepotâmia. Bagdade foi a capital do Califado, uma cidades de sábios e de bibliotecas.... O amigo Saddam tinha sido nosso aliado contra o Khomeini e tornou-se o nosso inimigo.... O meu primeiro amigo iraquiano foi um taxista do nosso hotel... Tinha um retrato da equipa do Benfica na parede de casa, uma foto a preto e branco com a águia benfiquista de asa aberta... Aqui morre-se cedo e morre-se mal". O que são os países islâmicos? Cafés cheios de homens sentados a beber café turco. "Bagdade era uma cidade de leitores. No tempo dos otomanos esta rua já era o que é. Um supermercado de livros, uma livraria ao ar livro, uma universidade... Quando na Europa andávamos a quatro patas aqui liam livros... A Biblioteca Nacional é um dos raros edifícios decentes de Bagdade. Os iraquianos têm orgulho em ter uma biblioteca. Não são o bando de primitivos que o nosso mundo branco supõe... Eu tenho horror à vida normal...o chefe do frango assado torna-se um amigo". (Quase) tudo neste livro é cru, como a realidade. "Poucos sabiam fazer bombas em 91. Sabiam na Palestina... foi por lá que comecei a carreira, pela busca do Engenheiro”.

Pierre. É uma amizade de circunstância, feita em Israel e na espera da entrada no Iraque. Um parisiense efeminado que é o correspondente em Jerusalém do maior diário de França. É mais um para quem os dias de glória são prefeito mais que perfeito. Fala muito de Cuba e de Fidel Castro, aquela foi a sua guerra e toda a gente tem uma. Não é má companhia e tem sentido de humor. “A minha ocupação predilecta é observar as pessoas, desporto inofensivo”.

Mattew Barak. Matt. "Dentes americanos de porcelana”. Tem passaporte britânico. É palestiniano.Filho de um dos patriarcas da terra. Um homem muito rico. Um milionário, financiador de guerras e negócios de guerras.os filhos estudaram em Inglaterra. Vive no quartinho mais modesto do Colony. Foi educado em Inglaterra. Não é muçulmano. É palestiniano. Tem passaporte britânico. Estudou em Inglaterra. É um ethonian. Um palestiniano nascido Jerusalém... “Antes de Arafat ninguém sabia que existiam palestinianos. Eram árabes iguais a outros árabes. Ele inventou uma categoria, um povo sem Terra. Os heróis têm a obrigação de morrer cedo , antes de se tornarem bandidos. Não se pode ficar muito tempo em Jerusalém porque faz mal à saúde”. Tudo nele defende uma origem... Habituado a ordenar a vida dos outros ordenando o mundo à sua volta...Descende de gente sem país, sem casa, sem Pátria. Matt não gosta de Tariq. Diz que é uma vergonha para os palestinianos. Um inútil, um parasita, um delinquente, talvez um informador. Matt é cheio de segredos e mistérios. "Entrar no coração palestiniano é entrar no desgosto...é como beber fel.. A raiva, a estupefacção, a vingança...".

"Tariq, o palestiniano que teima em não querer parecer palestiniano”... Tariq aparece e desaparece como os gatos. Tariq está sentado nas portas de Damasco... É ele o autor da frase “Welcome in Falestine”. Muçulmano: “Não sou muito de orações. A Mesquita é para homens casados, os velhos e as mulheres... As mulheres são anjos... Não parece árabe... Um rapaz bonito.... E uma melga....com os sapatos dois números acima...” O maior sonho dele é ir para a América, para NY. Conhecia todos os cantos bíblicos de Jerusalém. Tariq era o mais novo dos irmãos e queria escapar dali. Nova Iorque! Era para onde queria emigrar. A América era a terra prometida... Notava-se que tinha sido educado por mulheres...se Israel não tivesse vindo para A nossa terra eu não andava para aqui às voltas, tinha uma casa e uma profissão....foi Tariq que me falou no Engenheiro pela primeira vez... Tariq é uma aparição a saltitar como um gafanhoto. Parece tudo menos palestiniano. Tariq aprendeu a viver na clandestinidade o sexo mal pago, um prostituto barato que oferece os serviços às do-gooders por uns dólares. " gostava de matar todos os judeus mas não posso. Eles são mais fortes do que nós.e se não posso não vale a pena morrer"..."quero estudar na América e vou conseguir". Quer provar os cachorros-quentes da América. É um muçulmano que come carne de porco. Tariq sumiu-se. Não há sinal dele.

Amjad. "Esta é a minha casa. A minha terra... Um dia Israel deixará de ser Israel. Esse dia há-de chegar. Nunca vamos desistir. Ninguém gosta dos palestinianos. Nem os árabes...o Hamas dará a liberdade a Gaza... A luta vai entrar numa nova fase"
"Só um judeu pode saber o que significa não ter um país". A Palestina é um lugar ocupado nas palavras de Matt.

Marci é uma missionária. Como Adam. Passou a vida a cuidar dos refugiados. Os que dependem dos outros para tudo. Ninguém os quer. "São párias, vivem no limbo". Apaixonou-se por um palestiniano mas deixou-o porque ele lhe pediu. Converteu-se ao islão. Visitou Lisboa. Quis saber onde ficava a mesquita. Orienta o tapete para Meca. Não gostava de Jerusalém. Dizia ser a terra do pecado e do ódio. É uma beta americana.

 Uriel. Escritor. Poeta. Vive em Telavive numa casa que tem mais livros do que casa. Tem mar quente. Judeu. Tem a arrogância dos israelitas.
Adam. Maria teve um romance com ele que começou no Dubai. Não se consegue chegar perto dele. Era um soldado. Foi o único amor feliz de Maria. Recebeu dele o treino militar. 

Beatriz. A grande amiga de infância de Maria que sobreviveu ao passar dos anos. Vivia na Lapa. Filha de um grande banqueiro. Casada com um político, Eduardo. Pessoa muito bondosa. O bem em forma de pessoa. Muito católica e bem feitora. Uma do-gooder natural. Preocupava-se com os outros. Adorava fazer os outros felizes.

Márcia. Márci. Conheceu Maria num hotel em Amã. Nasceu em NY. Filha de um senador do Estado de NY e de uma arquitecta. Uma do-gooder com dinheiro. Foi educada na igreja unitária. Estudou Sociologia em Columbia University. Gosta de trabalho social, ajudar os outros: "é embaraçoso ser-se feliz quando os outros sofrem". Simpatiza com os palestinianos. Começa a sentir-se atraída pelo Islão. Tem um amor proibido. “Os palestinianos são iguais aos israelitas só que mais mal vestidos. Uns convertem-se ao Islão outros não”.

David Peretz. Perito em diplomacia e comunicação. Nasceu em Israel. Viveu nos EUA. Tem a tenacidade e a força do figo-da-índia (o cacto que dá fruto na aridez).

Um livro cheio de cidades, lugares, monumentos, museus. Hull. Jerusalém. Mar Morto. Galileia. Londres. Dubai. Beirute. Meca. Gaza. Istambul. Egipto. Cidadela. Cairo. Gizé "a esfinge bocejava na solidão". Bagdade. Hotel Al-Rashid.Jordânia. Amã. Ein karem (a aldeia onde nasceu São João Baptista, um lugar bíblico). Islamabad. Cabul. NY. Ramallah. Georgetown. Jafa “um bilhete-postal... é uma praia que nunca sai da maré baixa”. Jericó “Terra do leite e do mel. É a cidade das palmeiras. Um oásis no Mar Morto. É a cidade dos perfumes. Tem as melhores tâmaras do mundo”.

As descrições das cidades, principalmente de Jerusalém são de quem as viveu."Jerusalém é tudo o que queremos que seja ao crepúsculo... À noite pertence aos homens sem Deus... Allahu Akbar. Pela Cidade Velha o eco repete-se porque é a hora da chamada dos fiéis por Deus...Os olhos dos árabes são bagas de zimbro amargo. Cheira-se o aroma pestilento da vingança. Quando as represálias israelitas acabaram com os esfaqueamentos diários, os palestinianos descobriram uma nova arma mais barata e destrutiva. O próprio corpo. A granada humana”.

A escrita de CFA, para quem a conhece há muito, é facilmente perceptível. Usa, ainda, palavras como criado, oiro, doirado. Quem é que em Portugal ainda usa estas palavras?

Um livro obrigatório que não poderia ter sido lançado em melhor tempo. Nunca um livro fez tanto sentido. Fala-nos do medo inevitável da guerra dentro de casa. Não a podemos evitar nem nos podemos proteger. Não há fórmula nem protocolo. Estão em todo o lado. Ubiquidade. "O inimigo não tem cara, nem nome, nem posto".

Um livro cheio de sinais e de pronúncios. Com um final catártico de tragédia grega. Um final que não redime, só revolta. A dor da humanidade. “Os filhos, como a guerra, não têm fim".



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