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sexta-feira, 21 de março de 2014

Ode Marítima

Acompanho há muito a carreira (palavra que não gosta) de Diogo Infante. Ele é várias coisas num só. Para mim, apenas a voz basta. Mas na interpretação supera-se. Comemora este ano 25 anos de actor. Vi-o há muitos anos na peça “Sexo, drogas & rock and roll” num mítico conjunto de oito monólogos. Assisti ao seu brilhantismo como encenador no “Ano do Pensamento Mágico de Joan Didion, um monólogo magnificamente interpretado pela nossa grande Eunice Muñoz. E a melhor encenação de sempre de “Um eléctrico chamado desejo” de Tennessee Williams, quando trouxe de volta aos palcos Alexandra Lencastre, a melhor Blanche Dubuois de sempre. Há pouco tempo vi-o na leitura do “Sermão de Santo António aos peixes”.

Na semana passada, no penúltimo dia, fui ver “Ode Marítima” ao Teatro São Luiz. Não tinha muitas expectativas. Não tinha lido nada. Assumi que fosse uma leitura teatral do grande poema do heterónimo de Pessoa, engenheiro naval, Álvaro de Campos. A voz do Diogo, a sua presença física, Pessoa e a encenação de Natália Luiza, bastavam-me.  Meu Deus, que surpresa! Diogo não lê, interpreta. Um pouco mais de uma hora que nos enche a alma. João Gil, discreto acompanha as palavras e a narrativa de Diogo. Só acrescenta, não atrapalha.
O homem que olha para o horizonte, vê um paquete entrar na barra e faz uma viagem interior. não está aqui a interpretar uma personagem. Este homem não é Pessoa nem Álvaro de Campos. “É a suma de todos os homens. Em primeiro lugar, sou eu, porque não se trata de uma personagem mas de uma energia. É como se o meu corpo, a minha voz e as minhas emoções fossem um veículo para expressar esta transcendência emocional que abarca a dimensão humana. Ele somos todos nós: nas nossas contradições, medos, ânsias, desejo de sentir, de viver. Na catarse do monólogo, Diogo transforma-se, como se ele não fosse ele, como se fosse possuído por algo maior, ele urra, berra, sofre, vira-se ao contrário, expõe-se, põe as suas entranhas em cima da mesa, com tudo o que isso tem de horrível e termina exausto, completamente molhado, como se tivesse saído da água. As pessoas ao meu lado diziam baixinho: “Credo!”. Atira-se para o chão, a voz muda, acalma, compassa.


Depois dos aplausos regressaram ao palco para meia hora de perguntas feitas pelo público presente. A não perder. Estará em breve no Teatro Nacional S. João, no Porto. Fará digressão nacional e seguirá para o Brasil.

Depois de achar que mais ninguém conseguisse ler, interpretar e representar Pessoa melhor do que Maria Bethânia, eis que Diogo Infante superou tudo neste espectáculo "Ode Marítima".












Todas as fotos, com a excepção da última, pertencem a José Frade


sábado, 29 de junho de 2013

Sermão de Santo António aos peixes por Diogo Infante

Ontem, depois de um dia repleto de ciência e de ideias novas, rumei ao Porto para a Biblioteca Pública, ao Jardim de São Lázaro. Jantei num daqueles restaurantes turísticos com esplanada. Nem precisei de ementa, vi no quadro riscado a giz que tinham sardinhas e foi exactamente o que pedi. Entretida com as azeitonas, que são a minha perdição, enquanto esperava pela comida, lia "A descoberta do Mundo", um livro com todas as crónicas publicadas de Clarice Lispector. Quando as sardinhas chegaram, só pelo aspecto percebi que estava perante uma avaliação semelhante ao "Ramsay's Kitchen Nightmares". Sardinhas não têm segredo, basta serem assadas em carvão e serem frescas! Aquelas não. Tudo estava errado. Vamos lá. Vinham 3 sardinhas assadas no forno (!!!), mergulhadas em azeite fervilhante, com batatas a murro mergulhadas no mesmo, pimentos e cebola crua em rodelas que pareciam imitar as dimensões de rodas de camião. Abro a primeira, a medo, e percebo o que temia. As sardinhas estavam cruas no interior e (espantem-se) congeladas!!! Como tinha 15 minutos para jantar, decidi não fazer uma cena. Porque feliz como estava, não havia sardinhas que pudessem estragar isso. Mas para continuar a avaliação, prossegui a avaliação... As batatas eram apenas cozidas com casca e o pimento era daquele de conserva!!!! Nem fixei o nome do restaurante, mas sardinhas desta qualidade envergonham uma cidade com mar!!! Adiante. Segui para a biblioteca a pensar que já estaria atrasada e percebo a longa fila, à distância. Sabem quanto tempo esperamos para entrar: 30 minutos!!! 

Mas nada, até mesmo a espera, ia fazer-me acabar mal o dia! Sentei-me, numa das poucas cadeiras livres, e a leitura começou já passava das 10 da noite, quando estava prevista para as 10:30. Diogo, surge no andar superior de fato cinzento escuro e camisa preta, com aquela voz espantosa. Sou sensível a vozes. Acho que o Diogo tem a melhor voz masculina de Portugal. Linda, linda, linda. Pelo contrário, acho a voz da Fernanda Câncio insuportável. Coitada, ela não tem culpa, mas aqueles agudos são intoleráveis. Não consigo ouvir a senhora. Pouco depois, Diogo desceu, com o seu ipad, despiu o casaco, e continuou a leitora. Que sorriso lindo o dele! Está ligeiramente mais gordo, grisalho, mas acho que ainda melhor! A idade só lhe faz bem!

Este "Sermão de Santo António aos Peixes", de 1654, escrito pelo Padre António Vieira não podia ser mais actual. Critica a prepotência dos grandes que, como peixes, vivem do sacrifício de muitos pequenos, os quais "engolem" e "devoram". É um texto que foi dito em São Luís do Maranhão, repleto de ironia, e agudo senso de observação sobre os vícios e vaidades do Homem, comparando-o através de alegorias, aos peixes. Vos estis sal terrae (Vós sois o sal da terra). Diogo a exaltar-se em latim fica ainda melhor. O efeito do sal é impedir a corrupção: «...Ou é porque o sal não salga, ou porque a terra se não deixa salgar. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores não pregam a verdadeira doutrina; ou porque a terra se não deixa salgar e os ouvintes, sendo verdadeira a doutrina que lhes dão, a não querem receber. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores dizem uma cousa e fazem outra; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem, que fazer o que dizem. Ou é porque o sal não salga, e os pregadores se pregam a si e não a Cristo; ou porque a terra se não deixa salgar, e os ouvintes, em vez de servir a Cristo, servem a seus apetites(...) Enfim, que havemos de pregar hoje aos peixes? Nunca pior auditório. Ao menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam(...) Olhai, peixes, lá do mar para a terra. Não, não: não é isso o que vos digo. Vós virais os olhos para os matos e para o sertão? Para cá, para cá; para a cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só os Tapuias se comem uns aos outros? Muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os Brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas; vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão-de comer e como se hão-de comer. Morreu algum deles, vereis logo tantos sobre o miserável a despedaçá-lo e comê-lo. Comem-no os herdeiros, comem-no os testamenteiros, comem-no os legatários, comem-no os acredores; comem-no os oficiais dos órfãos e os dos defuntos e ausentes; come-o o médico, que o curou ou ajudou a morrer; come-o o sangrador que lhe tirou o sangue; come-a a mesma mulher, que de má vontade lhe dá para a mortalha o lençol mais velho da casa; come-o o que lhe abre a cova, o que lhe tange os sinos, e os que, cantando, o levam a enterrar; enfim, ainda o pobre defunto o não comeu a terra, e já o tem comido toda a terra. Já se os homens se comeram somente depois de mortos, parece que era menos horror e menos matéria de sentimento. Mas para que conheçais a que chega a vossa crueldade, considerai, peixes, que também os homens se comem vivos assim como vós(...) Vede um homem desses que andam perseguidos de pleitos ou acusados de crimes, e olhai quantos o estão comendo. Come-o o meirinho, come-o o carcereiro, come-o o escrivão, come-o o solicitador, come-o o advogado, come-o o inquiridor, come-o a testemunha, come-o o julgador, e ainda não está sentenciado, já está comido. São piores os homens que os corvos. O triste que foi à forca, não o comem os corvos senão depois de executado e morto; e o que anda em juízo, ainda não está executado nem sentenciado, e já está comido(...) Antes, porém, que vos vades, assim como ouvistes os vossos louvores, ouvi também agora as vossas repreensões. Servir-vos-ão de confusão, já que não seja de emenda. A primeira cousa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande..».


Um texto de 1654 que não perdeu a actualidade. O Brasil, país onde foi pregada pela primeira vez, luta nas ruas contra a corrupção. Nós, por aqui, lutamos por uma sociedade mais justa e esperamos, pelo menos, que a lei do enriquecimento ilícito, contra a vontade dos que nos representam, seja aprovada!



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