segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

A tese de doutoramento do RP

[escrito no dia 06/02/2015]
O RP é meu amigo há muitos anos. Fomos colegas de curso e no fim veio pedir-me para lhe arranjar o estágio. Desde o início que é um grande investigador. E desde sempre que é uma grande pessoa. Para o bem e para o mal é muito parecido com o meu irmão. É assim que o sinto, quase um irmão. Uma grande pessoa, um grande amigo, culto, amigo dos seus amigos, interessante. Tem dois grandes defeitos: adia sempre decisões importantes e nunca quer enfrentar os problemas. Como se fosse uma solução, resolve os problemas sem os enfrentar. Aí, desaparece e não responde. É um eterno Peter Pan. Começou o doutoramento oficialmente um ano depois de mim.  Tal como eu, teve a felicidade de crescer e de aprender muito fora de Portugal. Mas ao contrário de mim, trocou Portugal por Itália há 8 anos. Deveria ter acabado o doutoramento em 2010 , um ano depois de mim. Mas arrastou-se. Neste tempo tornou-se ainda melhor investigador. Percebe de cartilagem como eu percebo de livros. Fala disso com uma alegria imensa. Mas tem um problema: detesta escrever. A vida dele é o lab. A vida dele é ter grandes questões e hipóteses e encontrar-lhes soluções. Entretanto, para além de ter plantado árvores, teve dois filhos gémeos lindos. São a razão da vida dele. Eu nunca imaginei o RP pai de filhos, quanto mais de dois, antes de acabar o doutoramento. Esta semana, o RP tinha de entregar a tese. A coisa, talvez, mais difícil da vida dele. Veio para Braga uma semana e trabalhou para esse objectivo. Ficou em minha casa e todos os dias o vi desesperado com saudades dos filhos. O cansaço de não saber o que era dormir mais de 5 horas seguidas há quase um ano não melhorou. Realmente, poderia ter dormido sem interrupções mas os dias e noites longas de trabalho não permitiram. Nunca achei que não seria possível terminar tudo em 5 dias. Afinal, como diz o ditado, a esperança é sempre a última a morrer. Nestes 5 dias trabalhamos como se não houvesse amanhã. Jantamos quase todos os dias em cada do A e da L. Sem a ajuda deles não teria sido possível. O R nunca se queixou do cansaço mas fez todos os dias a pergunta que acompanha os desesperados: "Para que me meti nisto?". O outro queixume era as saudades dos filhos. Em 5 dias, a obra do R, para além de ter tido filhos e ter plantado árvores, saiu. Mas sem antes pregar alguns sustos. Nada pode terminar bem sem a sua dose de suspense. A sua " maçã" não aguentou a pressão e resolveu entrar em coma no último dia. Como se não bastasse, descobrimos que a tese estava escrito num estilode letra que não era o correcto. A L deu conta da bomba. O A. com a imensa paciência dos monges budistas não se questionou e apenas agiu. Formatou a tese toda, conferiu páginas, números, figuras e tabelas. Modificou letras. Conseguiu-o em tempo record. E como última emoção, como o melhor acontece sempre no fim, o RP descobriu hoje, já depois de ter entregue a tese, dois erros no título.... Tudo acaba bem. Se não acabasse bem é porque ainda não tinha acabado. Depois de uma semana de cansaço acumulado em que tivemos de conciliar trabalho e tese, é um enorme alívio chegar a sexta à tarde com tudo pronto. Agora falta a defesa. Uma grande parte do pior está feita. Não falta muito para termos um novo Doutor. 


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