quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

"Pai Nosso" de Clara Ferreira Alves

Este livro é dos melhores que li nos últimos tempos. Arrisco-me a dizer que, talvez, um dos melhores da última década. Embora, não sabendo se algumas partes deste livro são autobiográficas, parecem ser. E como diz Lobo Antunes “ no fundo, tudo o que escrevemos é autobiográfico”. Quando as expectativas são muitas, a desilusão é frequente. O que não acontece com este livro. Não está nele (simples) pesquisas. Ou muito trabalho. Ou horas de labuta e inspiração.  Nele está tempo. Muito tempo. A passagem do tempo. Sem atalhos. Maturação. Vivências. Vida. Viagens. Conhecimento. Realidade. Não o que se lê (apenas) nos livros. Este livro não seria o mesmo se Clara Ferreira Alves (CFA) não conhecesse tão bem as cidades sobre as quais escreveu. Ela viveu-as. Como a própria assumiu, pagou do próprio bolso muitas das estadias. Muitas cidades. Muitos países. Israel, Iraque, Afeganistão, Turquia, Síria, Marrocos, Nova Iorque, Londres, Paris, Lisboa.  O Médio Oriente no seu esplendor. E neste livro estão muito marcadas e perceptíveis (para quem conhece) as influências de Graham Green e Eça. Pelo menos estes dois eu consegui identificar.  E o amor da personagem principal pela América, por NY, coisa que CFA também parece partilhar.O fascínio pelo Médio Oriente
Uma narrativa feita na primeira pessoa. Cheia de analepses e prolepses. Rewind. Passado. Memória. Play. Presente.
A narrativa começa no presente. Sempre na primeira pessoa.  Uma professora universitária, especialista em Estudos do Médio Oriente. “...um rato de biblioteca”. Foi aprender a diferença entre a teoria e a prática, como (quase) todos os académicos. Beatriz  quer contar a história d’ “O  Fantasma”. Resolve sair da comodidade da academia em Hull aventurar-se a escrever sobre uma fotógrafa famosa. "ela nunca abriu a boca...pode ser que fale antes de morrer...é uma lenda".
Presente. Marie. Maria. "Uma mulher de certa idade que fuma cigarros até meio...A claridade dos olhos corta vidro. A Leica em cima da mesa ... Ela bebe um gin, sempre da mesma garrafa... Gin alemão... É muito alta para portuguesa e deve ter sido muito bonita... Veste-se de preto... Tem voz rouca, daquelas vozes de noites mal dormidas, do sarro dos cigarros e dos copos...”. Fala pouco. Passa muito tempo com palestinianos. Computador. Tapete persa. Dólares. Baton. Óculos escuros. Keffieh. Um frasco de prata vindo de Jerusalém. A sua água benta. "A vista diz tudo sobre o lugar onde estamos". Oiro negro. Ficamos saber que o plástico dos chinelos fica quase sempre intacto, ao contrário da carne. É uma nómada:"...levei a vida a fugir do lugar onde nasci". Os quartos de hotel são a casa dela. Viaja leve: “quando se envelhece aprecia-se a liberdade de nada possuir ou carregar".
Passado. Ganhou dinheiro e fama com a fotografia de uma criança morta.  A Pietá. Um grito animal da mãe que reclama o filho morto. Cuspia saliva e ranho e babava lágrimas. Grunhia como um animal degolado. Aquele dia ficou nela como uma queimadura. “Da primeira morte não se recupera como do primeiro amor”. A mãe dela matou-se depois de uma primeira tentativa de colocar-se na frente de um comboio. Amou Matt como nunca amou ninguém e nunca mais voltou a amar. Comportava-se como uma tonta quando se apaixonou por Matt. Conheceu Matt no bar da cave. "Matt transformou a minha vida em matéria inflamável e esqueceu-se de avisar para não aproximar da chama". Passava os dias a ver Matt: "passo os dias a medir o tempo que escorre entre ver Matt e voltar a ver Matt"..."Um homem que entra pela calada da noite e sai de madrugada"."Amei uma pessoa no labirinto de Jerusalém... Jerusalém é o lugar mais anormal do mundo...em Jerusalém os namorados passeiam sem se tocarem. Cidade Velha pela Porta de Damasco... É uma cidade da guerra, é a cidade de Deus. Os repórteres de guerra nunca dizem guerra, ali. Dizem conflito... Eu gosto dos lugares de guerra quando estão em paz... Foi preciso envelheçer para ver a Cidade Velha de Jerusalém tal como ela é, uma praça de fancaria... É a cidade das pedras e não são pedras iguais às outras, são pedras pisadas pelos pés gretados do filho de Deus... Amei em Jerusalém e amei Jerusalém... Em Jerusalém fui a estrangeira e hoje sou um fantasma.. É o problema dos palestinianos, dos árabes, das seitas do Islão. Fome de sexo.lambem com os olhos as pernas, os decotes, as nádegas das estrangeiras... A Via Dolorosa são seiscentos metros de sofrimento entre a Fortaleza Antónia e o Santo Sepulcro... Há muita mulher sozinha em Jerusalém, muita peregrina, muita do-gooders, muita jornalista com dólares frescos. Muita fome de sexo... Para tormento dos judeus, os árabes multiplicam-se mais. Um suicida tem pelo menos dois filhos se explodir enquanto jovem. Se explodir mais tarde, terá sem ou sete. Uma família tem muitas crianças para sacrificar... Judeus e muçulmanos, israelitas e palestinianos”.  De que lado está?
Esta personagem tem a mesma opinião que eu: "sem um bom ditador, todo o Médio Oriente é um matadouro... Sem uma ditadura nada fica de pé. O selvagem do Saddam mantinha o Iraque unido atando os iraquianos com arame farpado". o que sobra do Iraque? No que se transformou o Egipto? Durante anos mantido debaixo do pé de Mubarak. O déspota do Bashar al-Assad manteve ditatorialmente a Síria próspera. O país que era laico, as mulheres não usavam véu e havia liberdade religiosa. Como está a Síria depois da Primavera Árabe? E a Arábia Saudita, o país mais radicalizado muçulmano, onde reina a sharia, onde as mulheres não podem conduzir, nem votar e têm de andar totalmente tapadas, para dizer o melhor dos males. O ocidente e os países desenvolvidos não condenam isto?
Maria falou da sua infância suburbana. Gostavam de morar nas Avenidas Novas mas moravam em Campolide. O pai era militar e a mãe queria ter estudado mas a família não deixou. Gostava dos escritores russos e franceses. Quando a mãe morreu ficou com uma tia solteira, amarga, azeda que não sabia dar amor. Lia folhetins e chorava no cinema com filmes de terceira categoria. A família dela resumia-se a Beatriz. A única amiga. A família dela. Conheceu Beatriz (a amiga, não a professora universitária) no liceu. "Venho de lugar nenhum e sou parte do provoque foi a todos os lugares. O povo que aprendeu a perder". Sempre se achou demasiado alta num país de meia estatura. Faz descrições perfeitas de quem já viu cadáveres mutilados pela guerra. "O cheiro a carne humana assada é uma recordação". Tem o cabelo bem cortado. Recebeu o primeiro treino de guerra na Jugoslávia. É sempre a que parte nunca a que fica. "Confiava na delicadeza de estranhos" como a Blanche Dubois que sempre dependeu da bondade de estranhos. Nunca olha para trás.
"O Afeganistão foi a minha melhor guerra...a paisagem tinha uma luz libertadora...o Iraque, a Síria, a Líbia, os Balcãs foram más guerras". A rotina é uma salvação.. O amor é ópio. É uma droga. Fica-se agarrado. O amor distorce a realidade mais do que a guerra"...."Enerva-me a mania de cobrir o cabelo  de tornar a mulher numa criatura sem género".... "De todos os países onde trabalhei, o Iraque é o mais viciado, o mais violado, um serial killer serially killed. Dizem que aqui nasceu a nossa civilização. A Mesepotâmia. Bagdade foi a capital do Califado, uma cidades de sábios e de bibliotecas.... O amigo Saddam tinha sido nosso aliado contra o Khomeini e tornou-se o nosso inimigo.... O meu primeiro amigo iraquiano foi um taxista do nosso hotel... Tinha um retrato da equipa do Benfica na parede de casa, uma foto a preto e branco com a águia benfiquista de asa aberta... Aqui morre-se cedo e morre-se mal". O que são os países islâmicos? Cafés cheios de homens sentados a beber café turco. "Bagdade era uma cidade de leitores. No tempo dos otomanos esta rua já era o que é. Um supermercado de livros, uma livraria ao ar livro, uma universidade... Quando na Europa andávamos a quatro patas aqui liam livros... A Biblioteca Nacional é um dos raros edifícios decentes de Bagdade. Os iraquianos têm orgulho em ter uma biblioteca. Não são o bando de primitivos que o nosso mundo branco supõe... Eu tenho horror à vida normal...o chefe do frango assado torna-se um amigo". (Quase) tudo neste livro é cru, como a realidade. "Poucos sabiam fazer bombas em 91. Sabiam na Palestina... foi por lá que comecei a carreira, pela busca do Engenheiro”.

Pierre. É uma amizade de circunstância, feita em Israel e na espera da entrada no Iraque. Um parisiense efeminado que é o correspondente em Jerusalém do maior diário de França. É mais um para quem os dias de glória são prefeito mais que perfeito. Fala muito de Cuba e de Fidel Castro, aquela foi a sua guerra e toda a gente tem uma. Não é má companhia e tem sentido de humor. “A minha ocupação predilecta é observar as pessoas, desporto inofensivo”.

Mattew Barak. Matt. "Dentes americanos de porcelana”. Tem passaporte britânico. É palestiniano.Filho de um dos patriarcas da terra. Um homem muito rico. Um milionário, financiador de guerras e negócios de guerras.os filhos estudaram em Inglaterra. Vive no quartinho mais modesto do Colony. Foi educado em Inglaterra. Não é muçulmano. É palestiniano. Tem passaporte britânico. Estudou em Inglaterra. É um ethonian. Um palestiniano nascido Jerusalém... “Antes de Arafat ninguém sabia que existiam palestinianos. Eram árabes iguais a outros árabes. Ele inventou uma categoria, um povo sem Terra. Os heróis têm a obrigação de morrer cedo , antes de se tornarem bandidos. Não se pode ficar muito tempo em Jerusalém porque faz mal à saúde”. Tudo nele defende uma origem... Habituado a ordenar a vida dos outros ordenando o mundo à sua volta...Descende de gente sem país, sem casa, sem Pátria. Matt não gosta de Tariq. Diz que é uma vergonha para os palestinianos. Um inútil, um parasita, um delinquente, talvez um informador. Matt é cheio de segredos e mistérios. "Entrar no coração palestiniano é entrar no desgosto...é como beber fel.. A raiva, a estupefacção, a vingança...".

"Tariq, o palestiniano que teima em não querer parecer palestiniano”... Tariq aparece e desaparece como os gatos. Tariq está sentado nas portas de Damasco... É ele o autor da frase “Welcome in Falestine”. Muçulmano: “Não sou muito de orações. A Mesquita é para homens casados, os velhos e as mulheres... As mulheres são anjos... Não parece árabe... Um rapaz bonito.... E uma melga....com os sapatos dois números acima...” O maior sonho dele é ir para a América, para NY. Conhecia todos os cantos bíblicos de Jerusalém. Tariq era o mais novo dos irmãos e queria escapar dali. Nova Iorque! Era para onde queria emigrar. A América era a terra prometida... Notava-se que tinha sido educado por mulheres...se Israel não tivesse vindo para A nossa terra eu não andava para aqui às voltas, tinha uma casa e uma profissão....foi Tariq que me falou no Engenheiro pela primeira vez... Tariq é uma aparição a saltitar como um gafanhoto. Parece tudo menos palestiniano. Tariq aprendeu a viver na clandestinidade o sexo mal pago, um prostituto barato que oferece os serviços às do-gooders por uns dólares. " gostava de matar todos os judeus mas não posso. Eles são mais fortes do que nós.e se não posso não vale a pena morrer"..."quero estudar na América e vou conseguir". Quer provar os cachorros-quentes da América. É um muçulmano que come carne de porco. Tariq sumiu-se. Não há sinal dele.

Amjad. "Esta é a minha casa. A minha terra... Um dia Israel deixará de ser Israel. Esse dia há-de chegar. Nunca vamos desistir. Ninguém gosta dos palestinianos. Nem os árabes...o Hamas dará a liberdade a Gaza... A luta vai entrar numa nova fase"
"Só um judeu pode saber o que significa não ter um país". A Palestina é um lugar ocupado nas palavras de Matt.

Marci é uma missionária. Como Adam. Passou a vida a cuidar dos refugiados. Os que dependem dos outros para tudo. Ninguém os quer. "São párias, vivem no limbo". Apaixonou-se por um palestiniano mas deixou-o porque ele lhe pediu. Converteu-se ao islão. Visitou Lisboa. Quis saber onde ficava a mesquita. Orienta o tapete para Meca. Não gostava de Jerusalém. Dizia ser a terra do pecado e do ódio. É uma beta americana.

 Uriel. Escritor. Poeta. Vive em Telavive numa casa que tem mais livros do que casa. Tem mar quente. Judeu. Tem a arrogância dos israelitas.
Adam. Maria teve um romance com ele que começou no Dubai. Não se consegue chegar perto dele. Era um soldado. Foi o único amor feliz de Maria. Recebeu dele o treino militar. 

Beatriz. A grande amiga de infância de Maria que sobreviveu ao passar dos anos. Vivia na Lapa. Filha de um grande banqueiro. Casada com um político, Eduardo. Pessoa muito bondosa. O bem em forma de pessoa. Muito católica e bem feitora. Uma do-gooder natural. Preocupava-se com os outros. Adorava fazer os outros felizes.

Márcia. Márci. Conheceu Maria num hotel em Amã. Nasceu em NY. Filha de um senador do Estado de NY e de uma arquitecta. Uma do-gooder com dinheiro. Foi educada na igreja unitária. Estudou Sociologia em Columbia University. Gosta de trabalho social, ajudar os outros: "é embaraçoso ser-se feliz quando os outros sofrem". Simpatiza com os palestinianos. Começa a sentir-se atraída pelo Islão. Tem um amor proibido. “Os palestinianos são iguais aos israelitas só que mais mal vestidos. Uns convertem-se ao Islão outros não”.

David Peretz. Perito em diplomacia e comunicação. Nasceu em Israel. Viveu nos EUA. Tem a tenacidade e a força do figo-da-índia (o cacto que dá fruto na aridez).

Um livro cheio de cidades, lugares, monumentos, museus. Hull. Jerusalém. Mar Morto. Galileia. Londres. Dubai. Beirute. Meca. Gaza. Istambul. Egipto. Cidadela. Cairo. Gizé "a esfinge bocejava na solidão". Bagdade. Hotel Al-Rashid.Jordânia. Amã. Ein karem (a aldeia onde nasceu São João Baptista, um lugar bíblico). Islamabad. Cabul. NY. Ramallah. Georgetown. Jafa “um bilhete-postal... é uma praia que nunca sai da maré baixa”. Jericó “Terra do leite e do mel. É a cidade das palmeiras. Um oásis no Mar Morto. É a cidade dos perfumes. Tem as melhores tâmaras do mundo”.

As descrições das cidades, principalmente de Jerusalém são de quem as viveu."Jerusalém é tudo o que queremos que seja ao crepúsculo... À noite pertence aos homens sem Deus... Allahu Akbar. Pela Cidade Velha o eco repete-se porque é a hora da chamada dos fiéis por Deus...Os olhos dos árabes são bagas de zimbro amargo. Cheira-se o aroma pestilento da vingança. Quando as represálias israelitas acabaram com os esfaqueamentos diários, os palestinianos descobriram uma nova arma mais barata e destrutiva. O próprio corpo. A granada humana”.

A escrita de CFA, para quem a conhece há muito, é facilmente perceptível. Usa, ainda, palavras como criado, oiro, doirado. Quem é que em Portugal ainda usa estas palavras?

Um livro obrigatório que não poderia ter sido lançado em melhor tempo. Nunca um livro fez tanto sentido. Fala-nos do medo inevitável da guerra dentro de casa. Não a podemos evitar nem nos podemos proteger. Não há fórmula nem protocolo. Estão em todo o lado. Ubiquidade. "O inimigo não tem cara, nem nome, nem posto".

Um livro cheio de sinais e de pronúncios. Com um final catártico de tragédia grega. Um final que não redime, só revolta. A dor da humanidade. “Os filhos, como a guerra, não têm fim".



sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

A celebração da vida

Acordo às 5 da manhã sem motivo aparente. Pego no iPAD e vejo a inesperada notícia. Congelei. Não percebi. Reli várias vezes. “Escrevo com esperança... E chegou a hora em que teria que me despedir...... Estás por uns segundos... Entre mim e ti todos os fios se desprendem... Tão grande a vida que fizeste, atravessaste o século 20, até agora... 91 é um número supremo... Sei que não ouvirei a tua voz mais... Só dentro de mim... E com o tempo, até essa ficará esbatida e eu infeliz tentarei compor para meu consolo outra. Olharei as tuas fotos de vedeta de cinema americano... Que eras, de parar o trânsito... Esquecendo os outros que para além da casca eras de fibra da melhor proveniência... Grande, imensa, forte, suave, apaziguadora, de humor irresistível... Lutaste, construíste, nunca viraste a cara a adversidade, Foste a minha heroína.. Tinhas pinta, classe... Poucas ou nenhumas sabiam estar como tudo em todo o lado... Se quisesses serias a dona do mundo, mas não, escolheste o trabalho e a família e com isto deste-me tudo o que alguma vez alguém teve...”. Não dormi mais. E essa parte já falei aqui.


O funeral foi em Cepães. Terra Natal.Uma capelinha pequenina. Nossa Senhora da Guadalupe. Chovia torrencialmente. Chegámos uma hora mais cedo da hora marcada para o início da missa de corpo presente. Lá estava o R. Sempre com aquele sorriso lindo. A cara da mãe. E o grande amor da tia. Foi o último a vê-la com vida. Ainda o reconheceu. Que despedida boa foi, imagino eu. Partir com 91 anos com total independência. E não morreu sozinha. Teve até ao fim qualidade de vida. O que mais se pode pedir e desejar para os que amamos. O caixão estava fechado e em cima uma fotografia linda de quem foi a L. Tão bem. O instante captado no seu melhor, pela máquina fotográfica. Ao lado, uma jarra de rosas pérola. Adorava flores. A capela, com o aproximar da hora foi-se enchendo. Chegou a C. e o P. com os filhos (M., C., J. e A.). Vi a tia L. com tantas tantas flores. Um ramo por cada sobrinho e família. Depois vi também o M. e a J. com os filhos (M., A., A. e L.). Ao meu lado ficaram as pequeninas A . e T. Portavam-se exemplarmente. Perguntavam porque não podiam ver a L. No decorrer da missa vi muitas lágrimas a correr nas caras dos meninos. Mas também dos grandes. Mas as lágrimas eram acompanhadas de muitos abraços e de muitos sorrisos. A M. e o P. Fizeram as leituras. Nunca vi um funeral com tantas crianças. O que se podia esperar triste, transformou-se numa celebração. As crianças que a L. tanto gostava e que ajudou a criar. Duas gerações de pais e filhos gratos a esta grande mulher. A família emprestada em peso. A L. deveria ficar orgulhosa. Tinha um dom intrínseco para a alegria e felicidade. Quando vi todas estas pessoas juntas, reunidas na celebração da vida da L. comovi-me até às lágrimas. Mas o momento alto foi quando a C. foi ler um texto. Aí não me aguentei. Um texto tão lindo, tão bem escrito e tudo o que a L. era. Todos choraram dos grandes aos pequenos. A C. lia alto e bem, avoz trémula e com as lágrimas a escorrerem mas ao mesmo tempo, a cara, como a L. queria era alegre. No final da missa a M. tocou viola e todos (quem sabia) cantaram juntos. Mais lágrimas e mais sorrisos e mais soluços. A capela foi-se esvaziando e a C. despediu-se da L. com tantas festas e beijos. O bilhete do elogio fúnebre foi colocado junto à cara.  Como é bom terminar a vida rodeada de amor. Saudade, falta e memórias. É isto que fica. É assim que me lembro da L., bem disposta,  doce, carinhosa, amiga, alegre, sorridente, optimista, festeira. Com uma vida e uma alegria de viver que fazia inveja aos novos. A L. teve, tudo balançado, uma vida boa e uma boa vida. Viveu os últimos 40 anos com a família que não era de sangue mas que foi a família do coração. Todos os meninos e meninas dela, com um raminho na mão acompanharam-na debaixo de um dilúvio. As lágrimas confundiam-se com a chuva. As flores da minha madrinha P., ZL, C. e A. também não foram esquecidas. Estes pais e estes filhos que eram a perdição da L. Também eles estiveram lá em pensamento. A nossa L. vai fazer muita falta e deixa uma saudade tão boa. Mas o exemplo dela, aquela jovialidade, as palavras e a força vão ser para sempre admiradas. E enquanto cada um de nós que conheceu a L. viver, ela não morrerá nunca.


sábado, 13 de fevereiro de 2016

A surpresa do inesperado

Os sinos das igrejas do centro dão as 6 horas. Chovem cães e gatos. Eu sem um guarda- chuva. Sou só água. Entro na Favorita e lancho rápidamente ao balcão. Subo a rua de S. Marcos. Tenho consulta marcada no oftalmologista. Há muito que adio. Como vejo pior a cada dia, hoje teve que ser. Subo as escadas. Pouso a mochila e tiro o casaco encharcado. À hora marcada entro. A última vez que lá tinha estado foi há 12 anos. As perguntas habituais: "estás cá, agora?", "então, o que tens?". Respondo que não vejo bem, cada vez pior, ao perto e ao longe". E o médico: "estás a ficar velhota". Começamos os exames. Pergunta-me há quanto tempo reparei que comecei a ver mal. Respondo que foi em NY que não conseguia ler os ecrãs de informação do metro. Letras. A aumentarem de tamanho. Não as reconheço. Aumentam. Continuam a aumentar. Tapo um olho. Tapo outro. O tamanho das letras a aumentar. Percebo isso. Mas não as distingo. Cada vez maiores. Percebo a cara de espanto do meu pai. Penso que deva estar intrigado por não conseguir dizer que letras são. Ufa. Distingo-as. Continuo sem distinguir o O, D, C. Também não distingo o F e o P. Passamos para outro aparelho. Tenho de focar uma casa. Pergunto se é normal só ver cores porque não mais consigo ver a casa. Não me responde. Vamos repetir os exames iniciais. "Agora com calma". Diz o médico. Muda-me as lentes, coloca-me uns binóculos. Continuo a fazer muito sacrifício para adivinhar. E continuo com muitas reticências sobre as letras que vejo. Ao fim de muito tempo, pede-me para me sentar em frente da secretária. A cara está séria e preocupada. Percebo a preocupação. E sai-lhe "Não te quero assustar mas o quadro está negro. Não vês nem ao perto nem ao longe. Estás com uma perda de visão brutal". Diz-me que nem deveria conduzir assim. Que devo (ainda) não ter tido um acidente porque sou muito cuidadosa. Que vejo muito muito pouco. Eu, que ainda estava a limpar os olhos das gotas, devo ter paralisado. O médico estava a dizer-me aquilo tudo e de repente comecei a achar que ele estava a falar de outra pessoa. Fala-me da urgência de fazer análises. Que se tem de perceber de onde vem isto. Garante-me que não é dos olhos mas a incerteza não me faz bem. Pergunta-me há quanto tempo fiz análises gerais. Há quanto tempo me doía a cabeça.. Porque não fui lá quando comecei a ver muito mal?...Continuo a não achar que a pessoa de quem ele está a falar não sou eu. Até que me diz: "Sabes Ana, há coisas mais importantes que o trabalho". E, nesse momento, que ainda não tinha começado a digerir a informação, a ficha começou a cair. Começo a ver a minha vida a andar para trás. Deixo de o ouvir. Em vez de me preocupar com a informação que ele debita, só me preocupo com as duas deadlines dos 2 projectos que estão aí. O médico a sugerir e a insinuar possibilidades bastante graves quanto à origem da falta de visão e eu preocupada com a falta de óculos. Afinal, foi para isso que eu lá fui. Diz-me que enquanto não percebermos a origem não há óculos para mim. Com o regresso à realidade de me lembrar (estupidamente) dos projectos, e não da primeira preocupação que deveria ter: comigo! Quando tento digerir o que me acaba de dizer, olho para o meu pai, ao meu lado. Estou mais preocupada com o meu pai por estar a saber da verdade, como eu, e tento perceber-lhe a expressão. Não consigo perceber se está muito preocupado ou se está em choque, como eu. Já não assimilo muito. Já só oiço pedaços de frases."Hoje é sexta mas segunda sem falta...", "se não conseguires liga-me", "falo com (não sei quem) na Clínica de Santa Tecla". Marca-me outra consulta para fazer outros exames. Estou muda. Não reajo. Não questiono. Concordo com tudo. Devo ter mudado de cor. Tenho o estômago embrulhado. Acompanha-nos à porta. A assistente marca a próxima consulta. Percebo (agora) que fica marcada para uma hora em que deveria trabalhar. Lembro-me de o meu pai me perguntar se não é muito cedo, se não pode ser mais tarde... Eu quero encontrar a minha agenda na mochila mas não sei o que procuro. Mudo, para a procura de uma esferográfica num dos bolsos do casaco. A assistente, que deve ter percebido que eu não sabia o que procurava, disse-me que escrevia num cartão. Não me lembro onde pus o cartão. Desci as escadas, com velocidade, sem olhar para trás e sem esperar pelo meu pai. Chego à rua e agradeço estar a chover torrencialmente. Desço a rua apressada com a chuva a cair-me como um chuveiro. O meu pai tenta acompanhar-me. Tenta abrigar-me. Tenta abraçar-me. E eu não quero nada. Sou uma lágrima só. Paro, finalmente, em frente à Igreja de Santa Cruz. Não sei porque choro. O meu pai diz-me para ter calma. Eu que (quase) nunca vacilo. Eu que sou uma muralha. Trocam-se os papéis. Sinto o frio da dúvida. Sinto a impotência perante o inesperado. Não sinto revolta. Mas sinto culpa. Eu que achava que (ainda) era muito nova. O meu cérebro é um turbilhão. Pergunto ao meu pai, repetidamente, se não percebeu a gravidade da situação. E ele só me pergunta porque choro. "Não tenhas medo"e "não vai ser nada" são as frases que me lembro. E hoje percebo porque chorei. Não tenho medo.  Seja o que for. Seja qual for o resultado e o prognóstico. Mas chorei pela surpresa do inesperado. O instante que não controlamos (nunca).

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Lilau

Tudo em mim, hoje, é arrependimento. Tenho falhado muito na vida mas não em coisas maiores. Desta vez, talvez a primeira, falhei naquilo que procurei nunca falhar. Soube há pouco tempo o quão doente estava. Um segredo bem guardado. Nada nela transparecia o quão perto estava do fim. Ela não imaginava. Queria muito ver-me. Tinha saudades minhas, disseram-me. E eu, tão consciente que o fim estava próximo, fiz (quase) tudo para ir vê-la. O meu irmão e sobrinhos ainda foram a tempo. Foi um dia lindo, disseram-me. Eu nesse dia não fui porque queria que tivesse alegrias repartidas. Sabia que o fim estava próximo. Nunca imaginei que tanto. Há duas semanas tentei mas tinha ido à terra tratar das coisas dela e estar com as amigas. Deste fim de semana não passaria. Se não estivesse cá iria onde estivesse. Disse isso à minha mãe. Apareceríamos domingo de surpresa na casa dela. Eu sabia da urgência. Sabia que o tempo não parava e que a doença estava a evoluir. Ela estava bem mas eu, no fundo, sabia que a minha visita era inadiável. De domingo não passaria. Seria abraçada e beijada com aquele entusiasmo tão dela. Ficaria contentíssima por me ver. Eu elogiaria o quão bem estava no alto dos seus 91 anos. Entrelaçaríamos as quatro mãos. Ficaríamos assim muito tempo. Não aparentaria o quão doente estava nem tão pouco a idade que tinha. Veria-a magrinha como fora a vida toda. Sairia de lá muito feliz. Cheguei tarde demais. Ou antes, não cheguei. Afinal, não é verdade que chegamos sempre ao lugar que nos esperam.



quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

A volta a Portugal Simplex

A sessão está marcada para as 9:30 no GNRation. Um edifício lindíssimo visto de dia. Eu, que apenas o tinha visto de noite, não me recordava o quão labiríntico era. Algumas escadas e corredores depois, eis que chegamos à box. Uma sala preta que parece realmente uma caixa. Apesar de ser um edifício novo, está um frio "de congelar passarinhos nas árvores". Passam 10 minutos da hora marcada, eu atrasada, como (quase) sempre, mal entro na sala, cruzo-me com a Chefe de Gabinete do Presidente da Câmara de Braga (CMB) que conheço de outros mundos. Ao longe, vejo a Secretária de Estado (ainda de pé) com o Presidente da CMB. A sala praticamente vazia. Aqui nem dá para empregar as simpáticas frases "meio cheia/ meio vazia". Sento-me nas filas de trás, a imitar os meus tempos de estudante. A sessão começa com o Presidente da CMB e passa rapidamente à Secretária de Estado que está ali mais para ouvir do que falar, nas suas próprias palavras. Na plateia estão maioritariamente homens com idades para serem meus pais. Devem ser, pelo aspecto, empresários, representantes de empresas e associações. Mulheres, poucas. Na plateia vejo também o autarca omnipresente da cidade berço. Aquela pessoa, que em qualquer evento no distrito de Braga e arredores, está sempre lá. Fiquei a saber que trabalhava para o privado e que tirou licença sem vencimento para se dedicar à causa pública. Eu não imaginava que um tipo da minha idade, com uma licenciatura em Filosofia na Faculdade onde entravam todos aqueles que não conseguiam entrar na UM (por não terem notas) se licenciavam, podia ter 10 anos de privado. Estão também autarcas de Barcelos e Póvoa do Lanhoso. 

Eu que não entendo nada de leis, empresas, números, e afins, parecia estar a ouvir chinês. Mas gostei de uma intervenção de alguém do Grupo Casais a apontar alguns problemas. Vou resumindo por pontos as coisas que gostaria de ver melhoradas mas inibo-me de falar porque aquela não é a minha plateia. Iriam achar chinês o que eu tinha para dizer. E provavelmente não achariam piada ao meu humor judeu. E como no início foi-nos dado um questionário, optei por escrever. Dizem que escrevo melhor do que falo. Assim fiz. A Secretária de Estado bem disse que só tinha que estar em Lisboa às 8 da noite e que tinha todo o tempo do mundo. Não resultou. 

Vou resumir o que me ocorre dizer. A iniciativa "Volta a Portugal Simplex" é louvável. Não sei de quem foi a ideia mas conhecendo o historial político da Secretária de Estado na Câmara de Lisboa, apostaria que a ideia foi dela, ou no mínimo, apoiada por ela. Graça Fonseca, como Vereadora da Câmara de Lisboa, não conheço ninguém que a critique. O que já ouvi foram críticas ao facto de ter saído da CML e às mudanças que já são perceptíveis. Jovens criadores e empreendedores já começaram a queixar-se. Mas eu defendo que se se tiver de sacrificar uma autarquia em favor do país, esse é o caminho.  E esta parece ser a grande arma do governo: algumas pessoas muito competentes. É verdade que o número de mulheres que integra o governo é diminuto. Mas nunca fui favorável às cotas. A competência desta Secretária de Estado, eu posso atestar. E depois não sei qual a receita: sempre com uma energia inesgotável, curiosa, interessada. Não está ali apenas para marcar presença. Questiona. Comenta. É acessível. Regista. Aponta. Tem humor.

Totalmente livre. Aberto a toda a gente. Sem necessidade de inscrição. First come, first served basis. Podia de facto estar mais gente e mais jovens mas acredito que o resultado desta volta será visível. Muitos cidadãos, em cidades diferentes, "criticam" as mesmas coisas.

Os maiores problemas da máquina do Estado, na ninha opinião: burocracia, papéis e presença física. O que proponho: um portal que englobe o máximo número de acções, funções, ministérios. Tutoriais explicativos de como se abre uma empresa ou como se preenche um IRS, por ex.

Para um concurso público é necessário requerer (sempre) um registo criminal. Como é que isto se faz? Pessoalmente no tribunal que funciona das 9 às 3 com intervalo de almoço. Não seria mais fácil haver a possibilidade de ser emitido online?
Emissão de passaporte: se há a possibilidade de um passaporte ser emitido num dia qual a razão de ser, habitualmente, emitido numa semana? 
Votação de quem está no estrangeiro. Qual a necessidade do registo ter de ser feito 6 meses antes? E qual a razão do voto ter de ser feito presencialmente na Embaixada? Não pode haver uma solução online? Por este motivo, nos últimos 10 anos votei metade das vezes que devia!

Conheço (mais ou menos bem) o trabalho da Secretária de  Estado como Vereadora na CML. Sei que muitas das coisas bem feitas em termos de industrias criativas, orçamento participativo, ensino de programação nas escolas, alimentação saudável, startup Lisboa, Village Underground, só para dar alguns exemplos, têm o seu cunho pessoal. Além de todos os talentos, como conciliar opiniões, exaltar o bom e dar pouco valor ao negativo, ter um optimismo invencível, uma energia contagiante, escreve bem e fala (ainda) melhor.

As cores saudáveis da Secretária de Estado no inverno de Braga pareciam mais de quem se dedica ao ski nas montanhas suíças ao invés de fazer a "Volta a Portugal Simplex" fechada em auditórios a ouvir pessoas. Estas devem ser as cores de quem gosta (muito) do que faz. Queremos a receita.

Num dos discursos de atribuição do OP nas Escolas, no qual participaram crianças, destacou a importância de escolher e participar, que a decisão depende da vontade da maioria. Que é essa, afinal, a razão maior do voto. Isto, assim, dito às crianças. A importância do voto. Alguns conceitos como este, que no futuro será a arma de cada um, pode ser explicado gradualmente. É assim que se criam futuros cidadãos interessados. Ensinar às crianças coisas tão importantes como o voto, que no futuro, decidirá o caminho de todos nós. Daí que eu termine este texto com um reparo. Andamos na escola até ao 12º ano, se não estou em erro, a escolaridade obrigatória, e nenhuma das disciplinas nos ensina a ser cidadãos. Nenhuma disciplina nos ensina a preencher o IRS. Depois vamos para a Universidade e quem não for para as Economias ou Direito continuará sem saber fazê-lo. E depois aos 30, defendemos o doutoramento, conhecendo todos os continentes, tendo passado e sobrevivido a várias provações da natureza, sabendo mais a cada dia... Mas não sabemos preencher o IRS. Eu, ignorante, confesso-me!

Depois da sessão ainda houve tempo para visitar a StartUp Braga e o Balcão Único. Não conhecia nenhum dos dois. Retenho, no edifício do Balcão Único, os candeeiros no tecto de bom gosto que me fizeram lembrar os que existem na Vida Portuguesa no Intendente.

E agora mesmo para terminar, uma história. O Oliver Sacks, um dos nomes maiores da neurologia, que era um fanático por botânica, por fotografia, por livros e por muitas outras coisas que não incluíam medicina, passou a vida a ouvir e a investigar as histórias dos pacientes. Na adolescência teve um professor perspicaz que disse: "O Sacks vai longe, se não for longe demais". Apesar de não ser vidente, (quase) nunca me engano (mas tenho muitas dúvidas, ao contrário do outro), acho que a Graça Fonseca vai chegar longe. E pessoas competentes e bem formadas assim é que nos fazem acreditar que nem todos na política são iguais. Go, Doc!

Copyright:Sérgio Freitas




terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Carta de uma desconhecida de Stefan Zweig

A peça começa com a protagonista (Sandra Barata Belo) sentada na primeira fila da plateia, vestida de preto. Simultâneamente, no palco, ainda de cortina fechada houve-se barulhos de bolas de papel atirados ao chão e a coreografia do sofrimento de um homem. Um pianista, vestido de azul, acompanha a peça. A protagonista, começa pelo fim, e diz que o filho morreu. A partir daí há uma analepse e é contada a história de um amor platónico entre uma menina de 13 anos e um homem mais velho e como isso se vai tornando numa obsessão. O que chama a atenção nesta peça, não é o texto, mas a interpretação dos actores, principalmente as duas cenas de sexo. Duas coreografias perfeitas. Violentas. Sincronizadas. Dança pura. Pas de deux. Interpretação. Tudo dito sem palavras. Perfeito. As diferenças significativas entre a primeira noite e quando ele não a reconhece e é (só) puro sexo mecanizado. E no fim de tudo, a morte.











quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

"Em Movimento" de Oliver Sacks

Há muitos anos vi Despertares (Awakenings) o filme baseado no livro homónimo de Oliver Sacks que descreve o acordar de vários doentes psiquiátricos que devido a uma encefalite ficaram como estátuas e depois de muitos anos, através da administração de uma determinada medicação “acordaram”. Mas fiquei a saber quem era Oliver Sacks apenas em 2011 quando fui para NY e a C. me falou da sua longa obra. Desde aí foi um descobrir de cada livro. Cada um melhor que outro. Sem ordem cronológica. A única coisa que lamento é nunca ter estado pessoalmente com ele, como estive com tantos outros escritores e/ou cientistas que admirei.

Oliver Sacks nasceu em Londres em 1933 e morreu em NY em Agosto deste ano. Quando tinha 12 anos um professor perspicaz escreveu: “O Sacks irá longe, se não for longe de mais”. Esteve num colégio interno. Adorava motas. Os pais e os dois irmãos mais velhos eram médicos. Estudou em Oxford. Adorava ler, escrever e nadar.  Teve uma educação judia. Aos 18 anos disse aos pais que preferia rapazes. A mãe, supresa disse-lhe: “És uma abominação. Preferia que nunca tivesses nascido”. A mãe que era aberta e encorajadora, mostrou-se neste assunto retrógrada, dura e inflexível. Ele refere que nos anos 50 o comportamento homossexual não era apenas uma perversão mas um crime. Viveu a maior parte da vida com sentimentos de culpa. A primeira vez que assumiu publicamente a sua homossexualidade foi nesta autobiografia aos 82 anos.

Era um entusiasta de química e biologia marinha. Nunca teve uma grande autoconfiança intelectual mas era considerado uma cabeça brilhante. Era obcecado por ciências e por literatura. Lia todos os originais e fontes, incluíndo Darwin. Dentro dos livros interessava-se especialmente por biografias.

Viajou bastante. Paris, onde descreve a primeira tentativa de uma relação sexual com uma prostituta que não se consumou. Viajou à boleia  com um amigo onde percorreu França e Alemanha. Conheceu a Viena d’O terceiro Homem de Graham Greene. Após o curso foi para um kibbutz “ango-saxónico” perto de Haifa. Viajou por Israel: Jerusalém, Haifa, Telavive, Mar Vermelho. Voltou pela terceira vez a Amesterdão, desta vez, sozinho para se perder na cidade (mais concretamente para perder a virgindade). Enfrascou-se até não haver amanhã, e com a coragem de bêbado levantou-se e viu que mal se segurava de pé. Acordou numa cama desconhecida, depois de possivelmente, ter desmaiado. A primeira experiência sexual não ficou gravada devido ao estado de inconsciência.

O irmão mais novo era esquizofrénico. Estava sempre a ler, tinha uma memória prodigiosa. Aos 15 anos tornou-se psicótico. Recebeu tratamentos com terapia de choque de insulina, nos quais se baixava os níveis de glicose no sangue até à perda de consciência e depois restaurá-la com glicose. Esta era o tratamento em voga para a esquizofrenia em 1944 e seguida, se necessário fosse de electrochoques ou lobotomia. Os tranquilizantes só apareceriam 8 anos mais tarde: Largactil (inglaterra) e Thorazine (EUA). Preveniam as alucinações e delírios mas como efeitos secundários davam um andar curvado e o arrastar dos pés. Em O tio Tungsténio escreveu sobre as primeiras manifestações de psicose do irmão.

Fez o internato médico no Middlesex Hospital. Deixou Inglaterra  aos 27 anos para se afastar do irmão mais novo, que não conseguia ajudar. Mas por outro lado, talvez procurasse estudar pacientes com esquizofrenia e outras perturbações mentais e cerebrais.F oi, primeiro, para o Canada, Monreal. Teve aí um professor que o aconselhou a visitar as universidades no EUA: “A América é o lugar certo para si. Se for bom, será reconhecido. Se for um impostor, depressa o desmascaram”. Chegou a São Francisco e decidiu nesse dia que era ali que queria viver: “a cidade com que sonhara durante anos”. Esteve no Mount Zion. Aos fins de semana fazia grandes viagens de mota  pela California. Aqui, ficou adepto de levantamento de pesos, treinando de forma intensiva e até obsessiva. Em 1962 foi para a UCLA. No início dos anos 60 começaram a surgir mais conhecimento sobre as drogas psicoactivas. Descreve uma pedrada de Artane (fármaco anti-Parkinson) com 20 comprimidos para uso recreativo. Verificou que não lhe aconteceu nada mas passado algum tempo começou a alucinar e “viu” e “ouviu”pessoas irreais. Descreve também as suas experiências com canabis, sementes de glória-da-manhã e drogas sintéticas como o LSD, anfetaminas e a sua dependência durante 4 anos. A partir daqui só piorou: marijuana aditivada com speed, metanfetamina injectável ou em comprimidos. As festas de pó de anjo(fenilciclidina-PCP) em East Village. Falou desta última em O homem que confundia a mulher com um chapéu.

Aos 20 anos  conheceu Richard Selig, dois anos mais velho, que foi o seu primeiro amor (não correspondido). Achava-o um génio e admirava o seu conhecimento do mundo. Confessou o seu sentimento por ele mas Richard disse não ser como ele e que gostava dele à sua maneira. Não se sentiu rejeitado ou destroçado.

Em 65 muda-se para NY para integrar o programa de Neuroquímica e Neuropatologia Albert Einstein. Ainda tinha a esperança de wse tornar um verdadeiro cientista, um cientista de laboratório. Vivia em Greenwich Village e ia de mota para o Bronx. Começou a ver doentes no Beth Abraham, um hospital para doentes crónicos. Cerca de 80 pacientes eram sobreviventes da pandemia de encefalite letárgica (doença do sono), cujos sintomas “congelados” em profundos estados catatónicos, aparência de estátuas, posturas forçada e olhares fixos. Muitos estavam assim há mais de 30 anos.  Sacks passou um ano e meio a tirar notas e observá-los e prescreveu-lhes L-dopa. Os resultados foram claros e espectaculares. Despertaram para a vida. Este episódio deu origem ao livro Despertares (Awakenings) que mais tarde foi adaptado a filme com os actores Robin Williams e Robert De Niro nos principais papéis. Auden, sobre este livro disse ser uma “obra-prima”.

Era tímido, acanhado e inseguro. Virou-se para as drogas quando se sentiu “desesperadamente só e rejeitado”. Tinha dificuldade em reconhecer caras. Pouco sabia de actualidades. Tinha a tendência, para em contextos sociais, ficar a um canto, fazer-se invisível, na esperança que o ignorassem.
Descreve no livro muitas doenças e sintomas dos seus pacientes de uma forma perceptível para os leigos. Menciona todos os cientistas e mentores com os quais conviveu. Os encontros sexuais, as paixões e rejeições. As descrições de experiências sexuais sob o efeito de anfetaminas. E como perdeu amigos/amantes para o vício das drogas. E da sua experiência com a psicanálise, que fez  duas vezes por semana desde que chegou a NY, sempre com o mesmo médico, até à sua morte.

Sobre NY, cidade que escolheu viver depois de São Francisco e LA, escreveu: “É de facto uma cidade maravilhosa, rica, entusiasmante, ilimitada em amplitude e profundidade – como Londres;embora as duas sejam muito diferentes. NY é cheia de luzinhas, cintilante, como qualquer cidade vista de um avião à noite: é um mosaico de qualidades e pessoas e épocas e estilos, uma espécie de enorme puzzle urbano”.

Os seus maiores interesses incluíam grandes caminhadas ao ar livre, ler, escrever, nadar, tocar piano, fotografar, viajar, diários e descrições das manifestações clínicas dos seus doentes. Adorava os passeios a pé pelo Jardim Botânico de NY. Foi amigo de Francis Crick, Auden, entre outros.

Em 2005 descobriu um melanoma no olho direito.  O cancro foi tratado com radiação e lasers. Em 2008, aos 75 anos, após mais de 30 anos de abstinência sexual, conheceu Billy Hayes por quem se apaixonou e foi o seu companheiro até à sua morte. Há poucos meses teve uma recidiva com metástases no cérebro. Mau prognóstico. Restaram-lhe poucos meses de vida.


Grande autobiografia, não fosse escrita por um médico que dominava a escrita tão bem. A tradução está aquém da qualidade do livro.


terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Portátil by Porta dos Fundos

Há mais de um mês que tinha comprado os bilhetes. Na altura já ouvira falar que escolhiam uma pessoa da plateia para interagir com os actores. Com o pânico de poder ser a escolhida (já que achava que seriam os actores a escolher), os lugares que comprei não tinham acesso directo nem ao palco nem à plateia. Como seria de esperar, pelo sucesso da Porta dos Fundos, os bilhetes esgotaram rapidamente.

No dia antes do espectáculo vi uma entrevista com o Gregorio Duvivier na Sic Notícias e percebi, que ao contrário do que pensava, a pessoa do público não seria escolhida pelos actores mas seria voluntária.

Como (quase) sempre, não sabia para o que ia. Nem sabia o que me esperava. Pois bem, Portátil é um espectáculo de improvisação com os actores Gregório Duvivier, João Vicente de Castro, Luís Lobianco e Gustavo Miranda e que conta com a ajuda de um pianista. O cenário é simplesmente um tapete branco, uma tela gigante e quatro cadeiras e os actores estão magnificamente vestidos de Gilda Midani. Nos primeiros minutos os actores dizem o que estão a fazer e apresentam-se, arrancando do público muitas gargalhadas:
- Quando era pequeno eu queria ser grande (Gregorio Duvivier)
- Quando eu era criança eu não queria estar na plateia, queria estar no palco (Luís Lobianco).

A partir daí, começam a fazer perguntas à plateia: “quem é português?”, “quem nasceu em Braga?”, “quem tem filhos?, “quem não tem filhos mas gostaria de ter?”... Depois pedem voluntários.

No Theatro Circo, foi escolhida uma senhora de meia idade a quem foi feita uma breve entrevista na qual falou sobre como os seus pais se conheceram, onde vivia, família, trabalho e o seu maior sonho. Este é o ponto de partida para a peça de improvisação que os actores farão ao longo de 60 minutos. Basicamente, a peça será a história daquela pessoa, resumindo a sua vida. A pessoa escolhida em Braga era chamava-se Luísa brasileira, os pais conheceram-se na Ponta do Caju no Rio de Janeiro, o pai era motorista de ministério e a mãe tecelã, o pai era “brabo” feito “siri na lata”, adorava brincar no milharal, em criança tinha um amigo imaginário, era apaixonada pelos personagens de Monteiro Lobato, era aposentada mas trabalhou como funcionária pública, o maior defeito era dormir muito e acordar tarde e a maior virtude era o senso de localização (como um pombo), era turista em Braga e estava acompanhada pelo genro, o seu maior sonho era voar.

Eu estou a escrever este texto e estou a rir à gargalhada. Eu não me lembro da última vez que me ri tanto como nesta peça. A minha opinião: quem tiver oportunidade, assista. O dinheiro mais bem dado dos últimos tempos.


Sobre o Theatro Circo, Gregorio Duvivier disse ser o “teatro mais bonito do planeta”. 




terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Regressos quase perfeitos: memórias da guerra em Angola

Regressos quase perfeitos vem da adaptação de uma frase do Whitman “uma mentira é um regresso perfeito”. Tal como o pai, cujos títulos de livros são sempre uma citação, este primeiro livro da filha, Maria José Lobo Antunes, que resulta da sua tese de doutoramento, também o é. Três coisas fizeram-me comprar este livro: ter sido escrito por uma Lobo Antunes, ter a chancela de tão grande editora Tinta da China (não há nada que não goste) e a temática da guerra colonial. Quando vi quem era a Maria José Lobo Antunes vi a cara do pai.

Agora falando do livro. Gostei muito, como disse o Joaquim Furtado. Apesar das Guerras do Ultramar serem “nossas” e de a distância temporal não chegar ao meio século, os livros sobre esta temática não são abundantes: “A guerra colonial portuguesa é, hoje, um país estrangeiro”. Habituei-me a ela nas referências biográficas e ficção de António Lobo Antunes e pouco mais li. O meu pai não foi mobilizado para a guerra porque teve a sorte de ter ido à inspecção em 1974. Como a maioria, naquele ano, passou à reserva territorial. As histórias e os relatos da guerra são, por isso, para mim distantes e resumem-se aos livros e séries de televisão. Tendo eu nascido em 1979, o Portugal descrito neste livro é um país muito distante e desconhecido. Este livro procura relatar a memória de alguns militares que a viveram. Chegaremos ao fim a perceber que a memória e o passado destes militares é tão diferente quanto as pessoas que o relatam. Alguns conceitos que são para nós, comuns mortais, desconhecidos, como camaradagem, são neste livro destacados. A camaradagem só pode ser compreendida por quem passou pela guerra (neste caso 26 meses): “Uma pessoa tem irmãos de sangue, nós somos irmãos de alma”. Depois a descrição dos almoços do CART 3313 são tocantes e a gratidão que sentem pelo seu camada alferes médico meliciano, António Lobo Antunes, “somos quem fomos”. Maria José Lobo Antunes tem uma ligação com estes homens de que não se lembra devido à tenra idade em que esteve em Angola. Mas todos eles se lembram muito bem dela. O pai, António Lobo Antunes, tornou-se escritor e a guerra é assunto muito presente na sua obra. Cus de Judas é o livro que mais retrata os mais de dois anos que passou em Angola, assim como, o livro que contém as cartas diárias que escreveu à mulher durante a guerra.

Portugal, naquele tempo era uma sombra do que fora, mas que o salazarismo insistia em que o destino de Portugal se cumprisse “enquanto império colonial , heranças de gerações gloriosas que tinham dado novos mundos ao mundo”, “Portugal do Minho a Timor”. Este era o Portugal que Salazar ambicionava, provavelmente (apenas) no seu imaginário, já que nunca saira de Portugal continental.

A tropa, para a maioria destes homens, que seriam soldados ou praças, homens que fizeram a 4ª classe ou nem isso. Homens cujo mundo era apenas frio, fome, miséria, trabalho e porrada. Eram filhos de “um país pobre e rural, onde a agricultura ocupava mais de um terço da população total”. Um país autoritário, em que a informação era considerada desnecessária e que vivia debaixo de vigilância e censura. O regime defendia o respeito pela autoridade, a valorização da tradição , o nacionalismo e a fé católica”. Os três pilares: Deus, pátria e família. Há muito a menção à palavra respeito. Respeito ou medo pelo professor que era maioritariamente um desumano que batia muito e sem coerência. Um ensino que era marcado unicamente pela coação e repetição e não pela razão. Aprendia-se que “Portugal era muito grande e muito rico”. Durante a ditadura, “a educação era um luxo”. Um país de acentuadas diferenças sociais entre patrões e criados. Um mundo de pais incógnitos e de mães solteiras. Pés descalços. Trabalho quase escravo a troco de (má) comida. Um trabalho duro demais para a tenra idade. Ninguém parece guardar saudades desse tempo em que se valorizava a humildade, a simplicidade, a pobreza, a ignorância e os perigos da ambição. Este foi o segredo do regime: “um lugar para cada um e cada um no seu lugar”.

O liceu estava reservado às elites. A aposta do regime era nas escolas comerciais e industriais. O magistério era o 5º ano mais dois. Aos 18 anos já se era professor primário.  Terminado o 7º ano fazia-se a admissão à universidade: “Os filhos dos ricos iam para a universidade para ser doutores e nós íamos para as escolas comerciais”. Só com inscrição ou frequência na universidade se ia para oficial miliciano.

Entre os ex-militares as opiniões dividem-se entre aqueles que achavam justa a guerra “acreditavam que era necessário defender aquilo que era nosso”,  aqueles que se voltassem atrás nunca iriam à tropa e aqueles que mesmo antes de irem já eram contra: “Nunca quis ir para a guerra. Abominava aquilo tudo”.  A maioria dos que foram para o Ultramar não tinham qualquer noção da rigidez do regime nem da opressão. Viviam num mundo demasiado fechado e escondido, longe das grandes cidades sem qualquer noção da realidade. A maioria considerou que a ida para a tropa foi um “abrir de olhos”, que lhes deu mundo e “alargamento de horizontes (...)  tudo era surpresa e novidade”.Oportunidades. Descoberta  da dimensão e variedade da paisagem. Os mais abastados perceberam que o mundo em que viviam era um privilégio. O grau de instrução era o elemento diferenciador: menos que o 5º ano eram praças, com o 5º ano eram furriéis milicianos e 7º ano completo eram oficiais.

A maioria desconhecia a realidade da guerra no Ultramar. Só começou a saber-se através de vizinhos, familiares e amigos recrutados para o serviço militar. O regime não esmoreceu e manteve a determinação de “manter a unidade de um país disperso pelo mundo”. Entre 1961 e 1973 foram mobilizados para a guerra cerca de 105 mil homens. Do que se passou na guerra ficou no segredo dos deuses e o pacto de silêncio entre os camaradas. A excepção era feita a acontecimentos cómicos e banais.

Os negros ou pretos eram vistos como uma raça menor, com “mentalidade de primitivos”.  O trabalho forçado dos negros só foi abolido quando se iniciou o conflito em Angola. Não existia uma harmonia igualitária entre brancos e negros: “a injustiça de um regime onde a cor de pele definia o lugar de uma pessoa”. Ocupavam lugares distintos. Os negros eram subalternos, obedientes e silenciosos. Os brancos referiam como desculpa a irresponsabilidade, preguiça e superstição dos negros. Enfatizavam a aversão dos negros ao trabalho. Não existia, também, igualdade entre homem branco e mulher negra. Usavam-nas, apenas. Referem, entre risos, a possibilidade dos filhos que deixaram para trás.

Todos falam, sem excepção do medo e do inimigo sem cara. O isolamento. A demora do passar do tempo. As saudades da família. Sensação de eternidade. O rebentamento de minas. Os ataques. A utilização de napalm (negada pelas Forças Armadas). O secretismo. Falam dos valores militares como a camaradagem, a coragem e o heroísmo. E das fraquezas que incluem a cobardia. Fizeram muita coisa, socialmente boa: vacinação conta a cólera e ensinar as crianças a ler e a escrever. Alfabetizaram muita gente. Os jogos de cartas. Os jogos de futebol. A caça. A torturante agonia da espera. O absurdo da morte. Os suicídios. Muito bem resumido por Lobo Antunes nas cartas enviadas à sua mulher, publicadas em livro: “Eu vou-me afundando numa apatia total. Nada faço, nada me apetece (...) chego a pensar que sairei daqui para um hospital psiquiátrico – como doente (...) o resto são mosquitos, chuvas, trovões, os mesmos horizontes que não mudam, que não mudam... Como acabará isto?”.

Estes ex-militares não relatam na primeira pessoa episódios grotescos. Mas percebe-se o pacto de silêncio, como a frase: “o que aconteceu lá, fica lá”.  Sobram suspeitas de violência e do horror da guerra. O pronunciável são as histórias aceitáveis, tudo o resto reduz-se a silêncio. São abordados os traumas da guerra, o stress pós-traumático, os mutilados.

Passados 26 meses, regressaram. Para trás ficaram os camaradas que não voltaram a ver durante muitos anos, retomando apenas os encontros anuais muito depois. Voltaram diferentes. Tinham vontade de normalidade. A guerra ficou-lhes para sempre.


Um excelente livro para quem, como eu, não nasceu nem viveu no salazarismo nem na ditadura. Aprende-se muito. Principalmente a não ter saudades e a não se querer voltar atrás. E depois, dá um certo orgulho, que passado meio século, as transformações são gritantes. E agora, puxando a brasa à minha sardinha, para dizer que as teses de doutoramento servem para alguma coisa, afinal. Como disse Clara Ferreira Alves na apresentação do seu Pai Nosso: “não podemos esquecer os anos de guerra colonial como se não tivesse existido”.




terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Da natureza dos deuses

Os títulos dos livros de António Lobo Antunes (ALA) são, na sua maioria, citações. O último “Da natureza dos deuses” é o título de um livro de Cícero. A principal temática deste livro é o poder e a riqueza. Monopólio e domínio. Submissão, servidão e subserviência. Infidelidade. Desumanidade. Velhice: “que maldade incompreensível o tempo”. A grandeza: “uma casa maior do que todas as casas do mundo, salas, corredores, varandas e o jardim e o pinhal e o campo de ténis..".

Este, é um dos livros maiores de ALA, ultrapassa as 500 páginas, exactamente 574, talvez também a fazer a analogia à imensidão dos deuses do título. Os nomes dos personagens, como é tão característico de ALA, são poucos. Os personagens deste livro são: a Senhora, o senhor doutor, o senhor presidente, o avô da Senhora, o sem abrigo, a dona da livraria, a funcionária da livraria, o empregado de casaco branco (Marçal), o sujeito da editora, secretária loira, o senhor engenheiro (adjunto do senhor doutor) casado com a secretária loira do senhor doutor (amante do Sr. Doutor), o senhor presidente,  a esposa do deputado, a dona da loja de roupa, o homem mais novo que o senhor doutor. O livro divide-se em 4 partes. As primeiras 3 partes com 10 capítulos cada e a quarta parte com 7 capítulos. Este livro passa-se entre Cascais, Estoril, Guincho e Lisboa.

O livro começa pelo tempo presente. O primeiro capítulo começa com a funcionária da livraria, que é uma retornada de África, vive com um filho pequeno numa casa barata de Cascais  e já passou os quarenta: “sou fácil de enganar, perdoo a todo o mundo, olho e não vejo, vejo e não ligo”. Não entende a razão de a Senhora conversar tanto com ela: “qual o motivo de falar comigo sou pobre”. Vai muitas vezes a casa da Senhora, que está sempre sentada com um cãozito nos braços, entregar livros: “a mulher idosa percorria o cãozito no colo com o anel”... “numa poltrona grande demais para ela... quase em contraluz, transparente, a voz apenas...”. Vive o presente numa profunda solidão  mas refere-se a um passado totalmente diferente: “os jantares que havia aqui o rei da Itália, o rei da Roménia, o duque inglês... A sala com os seus móveis, os seus quadros, os seus tesouros tão caros”.  A Senhora “não recebe visitas nem sequer dos filhos... qualquer desconhecida que a escute sem comentários nem perguntas... a garganta magríssima, as linhas claras dos ossos e os dentes tão nítidos sob a pele... não uma mulher idosa ou gasta, uma mulher quase defunta, não o palhaço que durante anos e anos aceitara ser... os olhos vazios".

O pai da Senhora (senhor doutor) “de olhos tão pobres apesar de ser dono de bancos, companhias, ministros”. É uma figura detestável, autoritário, um “dono disto tudo”, “um pulha”a quem toda a gente presta vassalagem: “A quantidade de gente que ele foi degolando ao comprido da vida (...) a afastar-se no sentido de subalternos que o esperavam, atenciosos, curvados (...). É uma questão de princípio não dar confiança a subordinados”.  Joga ténis com personagens  que vão sempre mudando à medida que vai deixando de precisar deles e à medida que os destrói: “Obrigado por consentir ganhar-lhe.” São continuamente substituídos. Tem sempre raparigas loiras novas a quem cobre com puldeiras e colares, tacões, perfumes que, são também substituídas com o passar dos anos e da idade. “...é sempre desagradável apertar a mão a um pobre, fica-nos o cheiro na pele”.

O avô materno da Senhora era judeu e com “estabelecimentozito de câmbios. O pai da Senhora salvou o avô da Senhora da falência: “Perdoo-lhe a dívida se me der a sua filha”. A mãe da Senhora tinha quinze ou dezasseis anos: “Não lhe faço mal descanse... Livra-se de ser preso e ainda ganha um genro que o protege”. O casamento da Senhora foi arranjado pelo pai: “Casas-te em Outubro” e a “Senhora a informar o pai de que preferia o sapo de uma cómoda transformado em príncipe”. O marido da Senhora, “herdeiro de outro banco que o pai da Senhora administrava, mais fábricas, mais empresas,...um monte no Alentejo, dois barcos na marina...”.

O avô paterno da senhora (pai do senhor doutor): “O meu pai teve que afastar o meu avô dos negócios... o meu avô morreu sem lhe ter perdoado... sem conhecimentos nem estudos... vendia jornais e lotarias no início, emprestava dinheiro no bairro... não se conhecia o pai, a mãe apenas, que trabalhava nas limpezas... ao regressar da tropa o pai da Senhora, há quem se lembre dele do bairro, aumentou os juros e transformou o negócio contra a vontade do meu avô... o pai da Senhora chamou advogados que proibiram o avô da Senhora de entrar”. O pai da Senhora para o avô da Senhora: “ A partir de hoje começa a sua santa vida que sorte... A partir de hoje tem tempo para o dominó com os amigos ler o jornalzinho e gozar a reforma... você está gasto não presta”. “O pai da Senhora comprou-lhe uma casita com uma horta na província e pagou a uma camponesa para tomar conta dele”.

O senhor engenheiro (adjunto do senhor doutor) é casado com uma das secretárias loiras do senhor doutor (e sua amante). Começou na contabilidade e passou, depois, a adjunto. Tem gabinete próprio, automóvel, secretária loira e facilidades no crédito desde que não abuse. O senhor doutor cumprimenta-o: “ele que não cumprimenta ninguém e eu honrado... convida-me para o ténis aos sábados, onde a minha esposa se senta ao lado dele, tão loira (...) sem me apertar a mão, claro, mas uma honra da parte de quem não cumprimenta as pessoas de modo que eu, agradecido”. Insinua que o filho mais novo é filho do senhor doutor: “o único que não se parece comigo, a coincidência de uma pálpebra pendente como o senhor doutor”. Sem um poder comparável ao senhor doutor, o senhor engenheiro, apesar de subalterno, de acordo com determinada hierarquia, tem poder. Como tal, também tem uma secretária loira, que é sua amante. Com o desenrolar das páginas, perceber-se-á que essa afirmação sobre a questão da paternidade do filho mais novo não faz sentido.

O Senhor presidente: “o que manda em Portugal... o senhor doutor visitava-o aos domingos... de pés numa escalfeta e manta nos joelhos... uma voz fraquinha (...) a voz fininha... de fatito cinzento e cabelo branco (...) sempre sozinho, escrevendo bilhetes minúsculos, numa caligrafia minúscula, para os ministros que não o viam, eram nomeados e despedidos através de cartõezinhos daqueles (...) o senhor presidente, que o mundo inteiro temia. Parece o personagem que vivia no sotão no livro “Caminho como uma casa em chamas”.

A mulher do senhor doutor (mãe da senhora) está aprisionada num quarto no alto da casa de onde, através da janela, está sempre à espreita e a ver os jogos de ténis. “O meu marido mandou pôr uma cadeira no meu quarto, mesmo no alto da casa, onde até os falcões da serra vejo e o mar por trás dela, outro mar além do Guincho... para me visitar de vez em quando, sinto-lhe os passos no corredor, mais lentos do que os dos criados, o empregado de casaco branco destranca a fechadura, volta a trancá-la quando ele se senta, sem olhar para mim, e fica ali calado...”. Há uma ténue alusão à infidelidade da mãe da Senhora: “anos depois a mãe da Senhora no comboio para Madrid com um homem...de óculos escuros e lenço na cabeça”.

O Marçal é o empregado do casaco branco, o“faz tudo” e o “cachorro” do senhor doutor. É o único que não foi substituído (...) Quando morreu foi o único momento em que vi o senhor doutor chorar... no escritório, não limpava as lágrimas, desciam-lhe as bochechas encalhando nas rugas”.
O sem abrigo atravessa todas as partes e todos os capítulos. O seu papel no livro, é para mim, um enigma.

A cronologia deste livro divide-se em várias gerações. Talvez do começo do Estado Novo até aos dias de hoje.

Há sempre algumas frase autobiográficas claras de ALA: “lembro-me que não chorava, não era que não me desse vontade, as lágrimas não saiam (...) Não me recordo de ser muito de beijos... aconteceu-me chorar...fui secando com a vida (...) sempre tive um problema com lágrimas, o meu pai não chorava, a minha mãe às vezes... mas escondia-as logo (...) a quem as lágrimas tornam um fraco”.
Há as habituais referências a África e à tropa, mesmo que de forma muito ténue. E as histórias paralelas que abordam o aborto, maus tratos e relações ocasionais. Depois de todas as evidências e aparências dos personagens há o submundo, a parte frágil e humana de cada um deles. Os livros de ALA, ao contrário do que o próprio não assume, são difíceis de perceber. Os leitores habituais terão bastante menos dificuldades para perceber as frase polifónicas, analepses e prolepses mas há uma analogia cinematográfica que se poderá fazer com os filmes de David Lynch. Muitas vezes os mistérios não são desfeitos e muitas vezes existem partes que poderão ter sido escritas para serem mesmo incompreencíveis. Quem sabe?

Famílias destruturadas. Traições. Mentiras. Humilhação. Desprezo. Insensibilidade. Mentiras. Ilusões. Indiferença. Destruição. Mostra-nos que o poder pode, quase tudo, mas não tudo. O senhor doutor, a mãe da senhora (mulher do senhor doutor), a senhora e o Marçal (empregado de casaco branco) são as chaves deste livro. Os dados estão lançados. Parte das personagens e do enredo está exposto. Mais não digo. Falta agora o leitor envolver-se e interpretar à sua maneira. Espero que aproveitem e desfrutem este livro que, apesar de denso, é cativante e nada monótono. Não sei se sou eu que me torno a cada livro mais devota do estilo de ALA e dos seus livros, ou se com o passar dos anos, comecei a percebe-lo melhor. Continua com a sua habitual escrita tão real, quotidiana, cuidada e cinematográfica.


Este livro já estava escrito há dois anos. Por esse motivo, não há qualquer relação entre os factos actuais do poder e queda dos banqueiros e bancos e a sua queda com este livro. Parece tratar-se de um pronúncio mas (provavelmente) não passa (de uma mera) coincidência. O livro não está organizado de acordo com este texto. Este texto é (apenas ) a interpretação que faço do livro que poderá não ser a verdadeira.

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